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14.2.05
!!!O BLOG MUNDO SÍMIO MORREU!!! Sim, senhores. É sempre triste dar notícias fúnebres, principalmente quando se trata de alguém querido. Mas a verdade é essa: por diversas razões de ordem cósmica, resolvemos matar o blog Mundo Símio. Que o Pai do INRI tenha piedade de nós. No entanto, a morte é renovação, e oportunidade de nascimento de algo melhor. É isso, pelo menos, o que dizem os sábios. Assim, se antes provamos com a ressurreição de Dom Gustavo o poder que possuímos, agora demonstramos que também somos capazes do milagre de fazer um blog reencarnar. Eis que nasce hoje, com certidão de batismo lavrada pelo próprio INRI, o site mundosimio.com!!! Cliquem no link abaixo e adicionem aos seus favoritos o endereço da reencarnação do Mundo Símio: www.mundosimio.com Visitem, leiam e indiquem aos amigos. Agora o bicho vai pegar. Confiram algumas das novas atrações: - O próprio INRI será colunista fixo, em textos semanais; - Vídeo com novíssima saudação do INRI, diretamente aos leitores do Mundo Símio; - Vídeo com a famosa saudação do Zé do Caixão do Mundo Sìmio; - Produtos como camisetas e adesivos, para o povo se vestir melhor e mostrar aos outros sua erudição; - Novos textos diariamente; - Entrevistas antigas agrupadas e, em breve, outras ainda mais chocantes; - Os textos, vídeos e mp3 antigos, classificados e agrupados para fácil consulta. E tudo com o velho estilo Mundo Símio de sempre, agora ainda mais turbinado. VISITEM O MUNDOSIMIO.COM!!! P.S.: este blog continuará no ar, mas sem atualização, de modo que quem quiser ver os textos antigos na sua feição original, bastará visitar esta página. | 11.2.05
O PORTEIRO DO INFERNO
Espero não ter o azar de um dia morrer. Mas se algum dia essa desgraça vier a me acontecer, é certo que, por conta de pecados indizíveis, não irei para o Céu e, portanto, não vou conhecer São Pedro - que, ao que me consta, é o porteiro daquele estabelecimento. Tudo, porém, tem a sua compensação, tanto na vida quanto na morte: se não vou ter a honra de dar um abraço no velho Simão Pedro, pelo menos tive o prazer de conhecer pessoalmente o seu oposto, o porteiro do Inferno. E isso aqui mesmo na Terra, ainda em vida. O porteiro do Inferno se chama Seu Alípio. E sei lá eu acatando a qual ordem de Lúcifer, por enquanto - isto é, nos últimos 20 anos - ele está dando um breve expediente num prédio público de uma cidade da Grande São Paulo. É funcionário concursado. Seu Alípio é funcionário concursado, mas nem por isso deixa que a impessoabilidade que norteia os padrões do serviço público lhe retire a individualidade. Na entrada do estacionamento do prédio onde fica a repartição, todos os porteiros vestem o mesmo uniforme sem graça: calças pretas, camisas azuis-escuras e gravatas bem fininhas, da mesma tonalidade da camisa. Todos, menos o Seu Alípio: embora seguindo rigorosamente os trajes oficiais, ele faz questão de ornar um belíssimo chapéu de cangaceiro, de couro e enfeitado com umas fitinhas coloridas, digno de fazer inveja ao próprio Lampião. Vejam bem: o ornamento não é apenas usado em ocasiões festivas; o porteiro assim se protege do sol, da chuva, do vento e sabe Deus mais do quê em todas as 6 horas em que dá expediente, do primeiro ao último minuto. É o sujeito de maior bom gosto que conheci em toda a minha vida. É impossível não se recordar do velho Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Na verdade, eles até que são parecidos. A diferença, no essencial, é o peso: por ser o porteiro um cabra miúdo, não dá para confundir um com o outro (até porque o outro já passou dessa pra uma melhor - ou pior, conforme for o porteiro que o recebeu). Mas, em face da semelhança entre ambos, não estaria errado quem dissesse que o Seu Alípio era uma versão esquálida do Luiz Gonzaga, depois da hecatombe nuclear. Infelizmente, essas e outras reflexões geradas por tamanha elegância ficam de lado ao se falar com o Seu Alípio. É daí que se vê o motivo pelo qual Belzebu o escolheu como ajudante. O prédio de que falei é nada mais, nada menos do que um galpão, com 3 divisões internas, cada qual abrigando sua respectiva seção: protocolo, expediente e processos. Afora a porta para se adentrar ao galpão, cada seção, que fica separada das demais por divisórias tão frágeis quanto as casas dos porquinhos preguiçosos que foram derrubadas pelo Lobo Mau na base do sopro, tem a sua porta de entrada respectiva. De modo que, sob a atenta guarda do Seu Alípio, ficam 4 chaves usadas para trancar as portas que protegem todas as coisas valiosíssimas que se costuma guardar num lugar desses - como grampeadores, carimbos, clipes, canetas, máquinas de escrever, pilhas de papel com o timbre do Estado, pilhas de papel sem o timbre do Estado (mais valiosas, portanto) e até um computador fabricado em 1996, mas que, por louvável esforço pessoal de parte dos funcionários da seção de processos, já tem acesso à internet. Para ter acesso a esse tesouro, é preciso pedir a benção do Seu Alípio. Principalmente às 9 horas da manhã da Quarta-Feira de Cinzas, quando, em companhia de pessoa que, como ele, dá expediente ali, precisei contrariar o regulamento e, em tal companhia, abrir a repartição antes do meio-dia, embora sequer prestasse meus serviços por aquelas bandas e lá estivesse na reles condição de acompanhante. Explicamos a razão de nossa presença em horário tão inapropriado e, para a minha supresa, o Seu Alípio deu de ombros, como quem diz: "E daí?". Tive a impressão de que, para ele, qualquer explicação estava boa. - Vamos precisar entrar - finalizei, já começando a suar, eis que, por ter deixado o carro na calçada, precisei abordar o homem debaixo do sol, já que ele não tinha o hábito de ficar dentro da guarita. E para a minha surpresa a resposta foi: - Sim, sinhô. Uma explicação é sempre uma explicação, refleti em silêncio, todo orgulhoso. O Capeta, porém, é ardiloso. Mesmo tendo nos autorizado a entrada, o homem permaneceu imóvel, em silêncio absoluto. Sua reação, depois de quase um minuto de total contemplação do vazio, foi coçar o olho e dizer: "Tá esfriando, né?". Para quem está acostumado ao Inferno, 28 graus é frio. - A gente precisa da chave. - Tá bom - ele respondeu tão logo acabei a frase. - Dá pro senhor pegar a chave? - Chave? - ainda em transe, ele ergueu a cabeça e, agora, parecia contemplar o céu. - É, Seu Alípio, a chave - disse a minha companhia, mais impaciente do que eu. - Que chave? - A chave pra entrar no prédio. - Sei... - e ele levou a mão ao queixo, parecendo, pela primeira vez, se dar conta do ofício. - A chave está com senhor? - insisti, no último esforço para parecer simpático. Ele sorriu: - Tá não. - Seu Alípio, o senhor tem certeza? - Tá não - explicou, repetindo a resposta e o sorriso de quem tem a consciência limpa. - Seu Alípio, então onde é que está chave? - No armário... Respirei fundo: - E dá pro senhor pegar? - A chave? - ele quis saber enquanto coçava a nuca descoberta. - Sim - respondi, imaginando que quanto mais simples o pedido, mais fácil dele ser entendido. - Qual chave? Percebi então que sou muito pouco versado nas artes pedagógicas. - A que serve para entrar. Sei que minha explicação foi um tanto redundante, mas, naquela hora, não consegui arranjar uma melhor. - Tá bom - e com toda a paz de espírito do mundo, ele, a passos de procissão, atravessou o pátio do estacionamento e sumiu por detrás do prédio. Depois de quase 10 minutos, ele voltou: - Pronto - e me deu a chave, sem exibir uma gota de suor no rosto, o desgraçado. Fui para o prédio, botei a chave na maçaneta. Ou melhor: tentei botar a chave na maçaneta. Não entrava de jeito de nenhum. Precisamos voltar para perto da guarita. - Seu Alípio, acho que essa chave é a errada. - É? - ele me olhou com ar de dúvida. - É. - Hum... - O senhor não tem outra chave aí? - Tem não. - Não tem outra chave? - Tem não. - No armário, Seu Alípio. No armário não tem outra chave? - Qual chave? - ele perguntou, desconfiado. Impotente na argumentação, resolvi apelar para a demonstração visual: - Seu Alípio, dá pro senhor ir comigo lá na frente um minutinho? - Agora? O homem era um praticante da lógica pura. De fato, pedi a ele que me acompanhasse até à entrada do prédio, mas não expliquei quando. No fundo ele tinha razão. - Agora, Seu Alípio. - Tá - e ele me seguiu no mesmo passinho de procissão, arrastando os pés como se estivesse carregando sozinho uma imagem de Nossa Senhora esculpida no bronze maciço e de tamanho natural. - Tá vendo essa porta, Seu Alípio? - Tô. - A chave não entra na maçaneta. - Entra não - ele concordou comigo, fazendo cara de sério. - No armário tem outra chave que serve pra abrir essa porta? - Tem - ele confirmou, com a mesma careta séria. Encarei seu rosto magro com o desespero de quem pede um pedaço pão para matar a fome - ou um gole d'água para matar a sede, o que, dado o calor diabólico do sol, ficaria melhor para a ocasião. - Então por que é que o senhor não me trouxe? - Porque o sinhô num pediu essa. - Seu Alípio, eu pedi a chave para poder entrar. - Entrar onde? - ele perguntou, mais desconfiado do que nunca. Um purista. O camarada era um purista. - Seu Alípio, pelo amor de Deus, traz a chave que serve pra abrir essa porta. Nesse momento, chegaram outros três, uniformizados como o porteiro do Inferno - mas sem, é claro, o chapéu de cangaceiro. Minha companhia viu uma luz de esperança: - Dá pra um de vocês pegar a chave que abre essa porta? Um mulato alto e magro, de bigode bem ralinho, deu um passo adiante. - Não dá, não. O chefe é ele - e, com semblante respeitoso, apontou um dedo delator para o Seu Alípio, que, todo imponente, abriu um sorriso satisfeito ao se lembrar de sua condição de chefe. Foi inocência ter pensado qualquer coisa diferente. - E aí, Seu Alípio? - E aí? - ele repetiu. - DÁ PRA PEGAR A CHAVE CERTA??? - me esgoelei, na esperança de que o homem fosse apenas surdo. - DÁ! - ele devolveu no mesmo timbre, não por maldade, mas apenas por imitação instintiva. Mais dez minutos debaixo do sol, esperando a romaria de ida e volta ao armário onde Asmodeu manda depositar as chaves do fim do mundo. - Tá aqui - ele me estendeu a dita cuja. Por milagre, a chave entrou na maçaneta. Por milagre ainda maior, ela girou e abriu a porta. Entrei num corredor grande, vi a porta com a plaqueta "processos". Fui em direção a ela, empurreia-a e... vi que ela estava trancada. Também foi inocência supor coisa diferente. Torno a chamar o Seu Alípio, que já estava a meio caminho da guarita. Ele volta, agora um pouco mais rapidinho. O vento balança as fitas do seu chapéu. - SEU ALÍPIO!!! Espero ansiosamente sua chegada. - Sim? - Dá pro senhor trazer todas as chaves? - Dá não. - E por quê? - Porque daí a gente confunde na hora de abrir. Resolvi então tomar uma atiude de bom senso: desembestei a sair correndo para o carro, na expectativa de fugir pra casa o quanto antes. Minha companhia ia entender meu ataque de desespero. E, afinal de contas, quem mandou não vir correndo atrás de mim? Mas pouco antes de chegar próximo ao carro, ouvi um chamado distante do porteiro: - Dotô... Virei-me e pude ver o desgraçado, sorridente como o Capeta, chacolhando a chave do meu carro, de braço erguido, misturando-se com as fitinhas esvoaçantes do chapéu de cangaceiro. O Inferno é lento.
Esse homem inspirou o Seu Alípio | 10.2.05
A INFÂNCIA É BELA
Podem conferir: os grandes escritores, no fundo, são memorialistas da infância. Toda a sua obra é um exercício quase monótono de relembrar, de sorver pela segunda vez as delícias da meninice. Proust lembra por sete tomos inteiros o dia em que molhou o biscoito. Paulo Mendes Campos, em todos os seus livros, escreveu um livro só, que não passa do relato de sua tenra idade. Nelson Rodrigues, nas suas Confissões, não se cansa de relembrar o menino pobre que foi, o menino que está sempre enterrado no homem como sapo de macumba, como sempre enfatizava. Os exemplos de enaltecimento da infância são inúmeros, e seria tedioso mencioná-los todos. Mas o que importa é o seguinte: eu também concordo que a infância é a melhor das idades. Em menino, aliás, fui o homem que até hoje estou tentando ser. Meu ideal de vida, como sabem os mais próximos, é ser mindingo. É ser um homem totalmente desapegado dos compromissos deste mundo, que até se esqueceria que é homem. Um mindingo está desapegado da família, da moral, dos bons costumes, da higiene, do dinheiro, da saúde e, sobretudo, desapegado do trabalho. Ah, como odeio o trabalho. Nesse aspecto, aliás, já posso me considerar totalmente mindingo. E em criança, dizia eu, por breves anos fui o homem que sonho um dia ser. Fui mindingo. Como toda criança, aliás. Daí o meu saudosismo por essa Idade de Ouro que morreu quando cresci. *** O moleque analfabeto e desdentado corre com um fio de ranho caindo do nariz, que escorre até quase a boca. Dá-se conta da meleca estranha e, num rompante, mete a lingüinha curiosa no suco verde para testar-lhe o sabor. Os pais, no sofá, riem alegremente dessa cena que, quando o moleque crescer, fará a sua desgraça na sociedade. É bonito ser feio, quando se é criança, essa é que é a verdade. Tanto que todo bebê, por mais horrível que seja - e todo bebê é horrível como a perna do Garrincha - inspira nas tias que o visitam na maternidade uma admiração irrestrita. "Como é bonitinho! Olha a mãozinha dele que coisa fofa! E nasceu carequinha, né, o danadinho... cuti cuti..." Deixa só o desgraçado ficar careca aos vinte anos. Duvido que alguma mulher da idade daquela jovem tia, aquela mesma que lhe fez "cuti cuti" quando bebê, irá agora achar bonito o seu aeroporto de mosquito. É por isso que digo e repito: o que na criança era beleza, no adulto é feiúra. É bonito, além de lamber o próprio ranho e de ser carequinha, o pequerrucho ser ignorante. "Tlês", diz o menino ao se deparar com o algarismo "3". Se a criança pronunciar "treizi", "treis", ou qualquer outra coisa, todo o povo achará igualmente bonito e digno de aplauso e risadas comemorativas. Mas deixa o adulto chegar na entrevista para emprego e dizer "treizi", em resposta à pergunta "quantos anos de experiência?". Um belo "x" vermelho será posto em sua ficha pelo entrevistador, determinando o seu infausto futuro naquela firma. "Tivemos que excluir o sujeito. O cara era muito ignorante", dirá o entrevistador ao chefe do RH. Outra coisa que faz a glória da criança e a desgraça do adulto é a maldade. O pequenino pode pegar o martelo e danificar a propriedade alheia, seja do próprio pai, seja do vizinho, ou mesmo de desconhecidos. Pode também roubar, impunemente, coisas do próximo. Pode surrar o amigo, cortar-lhe a pele com tesoura e jogar-lhe os brinquedos na face. O adulto, se cometer metade das atrocidades de que uma criança é capaz, será trancafiado numa cadeia da pior espécie, na companhia de outras "criancinhas" atrevidas. Fazerem-lhe a rosca será o que de mais leve lhe acontecerá. Em suma, a criança tem passe livre para desgraçar o próximo, direito legítimo que, infelizmente, não é assegurado por nossa Constituição Federal aos adultos. E a criança pode não só fazer a maldade, como admirar a maldade dos outros, de forma igualmente impune. Um amigo meu não se cansa de lembrar, quase com uma lágrima saudosa no olho, do dia mais feliz de toda a sua infância. Nesse dia, enquanto ele se sujava todo de lama num campo de pelada, viu um sujeito correndo atrás do outro. O da frente, que nitidamente era a vítima, tinha além do medo uma machadinha cravada nas costas. Longe de se assustarem, os moleques todos correram atrás dos dois, para não perder o desfecho do martírio infligido ao pobre coitado. Se um adulto confessar que gosta de ver o oco do próximo, será tachado de insensível, má pessoa, estranho, ou será fichado preventivamente como um candidato potencial a criminoso. Assim, quando confesso às candidatas a minha esposa que aprecio ver o povo se estapeando no Ratinho, ou tomando um corno no João Krébi, sou classificado nas piores gavetas mentais dessas minhas juízas, provavelmente naquelas em que está escrito, em vermelho, "mau caráter". O foda é que, como dizia o Nerso Rodrigues, o menino está enterrado no adulto como sapo de macumba, e aquele prazer infantil na desgraça alheia que eu confesso, os demais negam - mas não deixam de se deliciar. Basta ver o ibope dos dois programas a que me referi. O adulto é cunhado para ser um hipócrita e negar o menino mau, ignorante e fedorento que o habita - e, na verdade, sempre o habitou. É por isso que o mindingo é uma criança, é um Buda e um iluminado. É a cobra que morde o rabo, é o adulto que, no fim da jornada, volta ao estado natural de criança, confessando a todos essa sua libertação, livre que está de qualquer hipocrisia. Se me virem no sinal de paletó roto e pires na mão, não se enganem. Voltei a ser criança. E não se incomodem se eu fizer a traquinagem de riscar o seu carro, manifestando a minha revolta infantil por não ter recebido um trocado. Afinal, assim como a criança, o mindingo gosta muito de dinheiro. E de mamar num bom e farto peitão.
Já nasci barbudo e com cara de mindingo | 4.2.05
CHEGA DESSE ASSUNTO
Quando penso que estou falando a verdade, vejo que, de um modo ou de outro, estou a mentir; mas se me proponho a mentir deliberadamente, percebo que estou sendo mais verdadeiro do que nunca. No esforço de amoldar a realidade ao meu preconceito, torno-me falso; pelo tipo de mentira que conto, revelo-me muito mais do eu gostaria. Hoje, portanto, irei mentir. Pensei que falar sobre o Carnaval já me era assunto gasto. Constatei o fracasso do meu texto anterior que sem habilidade nem graça abordou o tema e, em sendo assim, achei melhor deixar esse enredo de lado, na torcida de que, algum dia, decida sobre ele escrever alguém que realmente entenda do babado (como, por exemplo, o Luiz Caldas, o Clóvis Bornay, a Luma de Oliveira, a Globeleza (cujo nome verdadeiro me é desconhecido), o Hilton Castro, o Castor de Andrade e o Xitãozinho e o Xororó, que, neste ano, decidiram que também são carnavalescos). Pensei errado, pra variar. E como o melhor jeito de contar a verdade é mentindo, relatarei história completamente fictícia, que acabei de inventar. Nos tempos que correm, tomei especial e inédita afeição (pra não falar apego) a pessoa que, por circunstâncias alheias à minha vontade, reside no aprazível bairro da Parada Inglesa, zona norte de São Paulo, nas proximidades da não menos aprazível Avenida Luís Dumont Villares. Por conta disso, venho já há algum tempo frequentando tais redondezas - o que, para o bem ou para mal, deverei deixar de fazer em um futuro nada distante, dada a minha especial habilidade em aporrinhar pessoas tais e quais essa moça, revelando-me, mais do que eu e ela gostaríamos, através das mentiras que vivo a pregar em mim mesmo. Trata-se de uma bela avenida. Pista dupla, lanchonetes, bares, restaurantes, boate, bancos, cafeteria que funciona vinte e quatro horas, banca de jornal, locadora de vídeo, estação de metrô, termina de ônibus e até, acreditem, sede de uma escola de samba. Praticamente, uma minicidade. A avenida tem seus defeitos, como todos nós os temos, mas funciona. É viável morar por ali, e muita gente o faz, principalmente nas ruas que lhe são marginais, onde pipocam prédios de apartamentos, que, a cada dia que passa, vão mais e mais tomando o lugar das casas, em especial as mais humildes (que são a maioria). O trânsito feroz e denso do início da manhã e do cair da tarde dá prova confiável de que, realmente, o lugar é habitado. A conclusão de que pessoas vivem ali me parece óbvia, mas, pelo jeito, o óbvio hoje em dia é uma coisa muito relativa - o que contraria o próprio conceito da obviedade. Explico-me. Criou-se, em São Paulo, já há mais de uma década, uma festa intitulada "Pholia na Faria", que, como o próprio nome sugere, se tratava de um desfile de blocos de Carnaval por um trecho, à época, mais ermo da Avenida Faria Lima (trecho que, de tão ermo que era para os padrões paulistanos, foi apelidado de "Nova Faria Lima"). O evento, segundo a tradição que alguém inventou, acontecia num final de semana antes do nosso glorioso Carnaval. Não sei se a festa foi feita exatamente para as nossas gentes mais sofridas: entre os blocos que costumavam desfilar o seu gingado por entre as arquibancadas erguidas nas beiradas e no canteiro central da avenida, estava o do Clube Pinheiros, cujas mensalidades estão longe do que se convencionou chamar de preços populares. O tempo passou e a Nova Faria Lima ficou tão ou mais velha do que a sua matriz: vieram os prédios escritório, as atividades comerciais e as pessoas que habitam na órbita desses lugares. E aconteceu o óbvio: esses novos habitantes, incomodados por passarem um final de semana com a nítida sensação de estarem dentro de um daqueles conhecidos blocos que fazem a alegria dos turistas que vão a Salvador, tanto fizeram que acabaram conseguido remover a festa dali. A melhor coisa do mundo é participar de uma festa por vontade própria; a pior é ser forçado a participar de uma - e sem direito a sair enquanto a folia dos outros não acabar. E é aí que entra a tal Avenida Luís Dumont Villares: tal como se faz com a sujeira que vai para baixo do tapete, para agradar a gregos e baianos, varreram a festa para os confins da zona norte, onde o PIB é menor e a capacidade de mobilização, mais frouxa. É claro que ficou sem sentido manter o nome original da festa, mas nem por isso o bloco do Clube Pinheiros deixou de atravessar a cidade para ir farrear onde Judas perdeu as botas, tamanho foi o fogo que tomou junto com Momo. Agora a festa se chama "Pholia Qualquer Merda" - o "Qualquer Merda" fica por minha conta, mas duvido que o nome verdadeiro seja algo que faça mais sentido. E, finalmente, chego no que eu queria dizer: os tempos mudaram, todo mundo sabe disso; não temos dificuldades em encarar o telefone celular, o sorvete dietético, o Viagra, a internet, o e-mail, a Luciana Gimenez e os novos costumes sexuais (desde que, é claro, eles se limitem à mulher do próximo). Mas ainda está difícil aceitar que, numa cidade em evidente processo de sufocamento, perdeu a graça interditar avenidas para fazer passar bandinhas de foliões. Nem digo isso pela enxurrada de milhares de abadás que entopem as ruas, fazendo do trânsito de final de semana um martírio pior ao de uma sexta-feira às 7 da noite. Nem pela aporrinhação do axé que, através de tecnologia digna de fazer inveja à própria Enterprise, adentra impunemente por salas, cozinhas, quartos e banheiros os mais distantes, desde o início da tarde até pela madrugada adentro. Não discuto o direito de ir e vir, nem o direito ao silêncio. Tal é o estado de coisas que esses direitos, há muito, já não são respeitados - e o Estado, que tem coisas mais importantes para se preocupar (como fazer túneis em ano de eleição ou aumentar o PIS e a COFINS), deixa claro que essa conversa de respeito pelo outro é questão menor que não lhe diz respeito. Que cada um pegue sua faquinha particular - já que as armas de fogo estão proibidas - e se entenda como gente grande, tal como nos saudosos tempos do cangaço. Minha preocupação, que pode ser exagerada, é com o direito à vida. Sei que a vida de nada vale, que a nossa existência é vã, que, nessa encarnação, estamos apegados a um ego que só faz sofrer, que esse é um mundo frágil, cheio de catástrofes, guerras, mutilações, pesadelos, privações etc. etc. Mas acho que deveria ser justo dar a quem aqui está a chance de escolher viver ou não. No último domingo, dia de folia, a pessoa que habitava em tais redondezas, em função de compromisso que não me dizia respeito, precisou se ausentar de sua residência - o que me forçou a também me ausentar dali, eis que não tenho o hábito de ficar assistindo à televisão alheia de cuecas. Como acontece nessas ocasiões, acompanhei-a até a garagem, me despedi e a vi indo embora no carro dela antes de eu entrar no meu, que fica parado na rua, bem pertinho da avenida foliona. O carro dela saiu devagar, fez uma curva e entrou na avenida. Cinco segundos depois, e ainda de pé, antes de entrar no meu carro, ouvi uma cantada brusca de pneu, que me fez virar o rosto para avenida, a tempo de ver um Mercedes preto que, a pelo menos uns 150 por hora, perdia o controle numa curva aberta, facílima de ser feita em condições normais. O Mercedes se chocou contra a guia e seu motorista girou a direção, levando o carro para o canto oposto, num ponto em que, de onde eu estava, não podia ver mais. Só ouvir. E ouvi umas três batidas estrondosas, daquelas de arrepiar. Saí correndo feito doido, certo de que o pior tinha acontecido. Para a minha sorte, ela era uma moça esperta (e eis a razão pela qual, daqui a alguns dias, é provável que eu deixe de vê-la, não por minha vontade): à primeira derrapada do Mercedes ela parou seu carro pequenino, encostou na calçada e, mesmo sem saber direito o que estava acontecendo, deixou o outro passar - e bater com a porta do carona num poste, não sem antes se chocar por mais duas vezes com as guias da calçada num ziguezague macabro, mas que diminuiu a velocidade o suficiente para amenizar a batida que, finalmente, lhe parou. Ela nem me viu; viu o sujeito que dirigia o carro folião sair de dentro dele, incólume, e, constatando que ninguém se machucara, resolveu se mandar dali; o coração disparado, e o carrinho andando pachorrentamente a 10 por hora - ao mesmo tempo em que nosso amigo folião, irritado, saía do carro para inspecionar-lhe a traseira e as laterais, de modo a averiguar o seu prejuízo material, tropicando com aquela ginga típica de quem bebeu água que passarinho não bebe. E foi só aí que eu parei de correr. Parei e não andei mais. Dada a violência com que me dispus a correr, tive estiramento dos tendões de uma perna. Senti um nó na panturrilha, que me repuxava as entranhas, impedindo-me de caminhar. Fiquei parado por pura impossibilidade de andar. E vi dois grupos de crianças, cada qual em lados diferentes da rua. Outros saíram de suas casas e foram ver o acontecido. Foi sorte o carro não ter entrado na sala de alguém, apanhando algum cidadão que estivesse a assistir à TV de cuecas. Foi milagre o mesmo carro não ter apanhado as crianças que, quiçá incentivadas pelas mães, foram aproveitar o domingo de sol longe do enclausuramento da televisão. Aborrecido com os danos materiais experimentados, o motorista do veículo acidentado, um sujeito gordinho e de cavanhaque que vestia um abadá com patrocínio da Brahma, bufava de raiva, dando voltas em torno de seu belíssimo carro. E, à falta de quem acusar, começou a desferir socos e pontapés contra o próprio automóvel - como se o carro fosse um ente sobrenatural que lhe tivesse desobedecido os comandos por pura maldade. A capacidade de não admitir os próprios erros é infinita: para não se culpar a si próprio, o ser humano é capaz de botar a culpa em objetos inanimados. Um popular integrante da grupo que se aglomerava em volta da cena, sugeriu, de maneira humilde, que o rapaz se acalmasse e fosse chamar socorro para tirar o veículo da rua. - Vocês querem é ver eu sair pra roubarem o carro - rosnou o gordinho. Foi a deixa para eu ir embora. Tinha visto o suficiente. Ainda bem que não ando armado com nenhuma faquinha - porque, depois dessa, minha vontade foi de me fantasiar de barbeiro e, sem creme de barbear, arrancar ali mesmo o cavanhaque do gordinho cantando "O Barbeiro de Sevilha". Sei que não é politicamente correto, mas penso que seria medida de justiça ver o sangue jorrar-lhe pelo queixo aberto a estiletadas, dando-me inspiração para gritar "Fíííííígaro", sob os aplausos dos, literalmente, descamisados que correram risco de morte pela corrida de carro do gordinho - e pela excelente decisão da Municipalidade em lhes empurrar o encosto que os moradores da região da Faria Lima, com toda a razão, se recusam a ter. De qualquer modo, eu, que nada tenho com Carnaval ou comemorações que lhe são conexas ou correlatas, passei a semana mancando feito um coxo, a ponto de despertar olhares piedosos das pessoas na rua. Com a desvantagem de não ter recebido nenhuma esmola. No frigir dos ovos, acabei sendo a única vítima dessa porcaria toda - afora, é claro, o Mercedes que apanhou bastante e nem reagiu, provavelmente porque estava envergonhado de sua atuação e ciente de sua responsabilidade. Espero que o Clóvis Bornay, um dos pais desse negócio de Carnaval, abandone o seu pijama cor-de-rosa e se disponha a escrever algum tratado sobre esses mistérios. Gostaria de saber a sua opinião. Sempre respeitei os tais que ditam a moda, nem que seja por 5 dias ao ano; e mais ainda admiro quem inaugura um costume para depois deixar-se ficar esquecido, apenas por enfado - que é exatamente o que sinto neste momento, antes mesmo dessa história de Carnaval começar.
Gostaria de me encontrar com o Clóvis Bornay para me instruir em sua doutrina | 3.2.05
5 LEITORES
Não tivesse eu visto com meus próprios olhos e não acreditaria: pelo que dizem nossas (precárias) estatísticas, mantivemos nossos 5 leitores nesse mês de janeiro. Houve até mesmo dias em que recebemos a visita de 6. Logo, na média, creio que temos algo como 5 leitores e meio - ou seja, 5 leitores normais e um anão. É muito mais do que merecemos. Se em janeiro foi assim, depois do Carnaval, quando o ano começar - e, sobretudo, com as novidades que esperamos apresentar -, sou capaz até de acreditar que atingiremos a marca dos 6 leitores, quem sabe 6 leitores e meio, se mantida a presença do nosso amigo anãozinho. E depois ainda dizem que o INRI não faz milagres. *** A vantagem em se ter (por ora) 5 leitores é que, com uma certa facilidade, volta e meia podemos tomar-lhes a opinião em encontros ocasionais. A desvantagem é justamente essa. Ontem, por exemplo, por absoluta coincidência, pude falar com um deles, que teceu rasgados elogios à minha pessoa ao comentar um texto que Dom Gustavo escreveu. Mesmo tentado a colher os frutos daquilo que não plantei, acabei confessando: - Não fui eu quem escreveu isso aí. Foi Dom Gustavo. - Tem certeza? É incrível como as pessoas não se dão por vencidas. Mesmo constrangido, fui obrigado a contrariar o tal: - Infelizmente tenho. Ele fez uma carinha séria de contrariado, franzindo as sobrancelhas: - Será? - Apesar da memória fraca, ainda consigo me lembrar do que escrevo. - No duro? - No duro e, principalmente, no mole. - Então não foi você quem escreveu a história do dentista que fez o dente de vampiro? - Juro por Deus que não. - Que coisa estranha. - Pois é. - Qual foi a última coisa que você escreveu? - Falei do Lulassímio e da urucubaca. Leu? - Acho que sim. - Gostou? - Não. Gostei da história do dente do vampiro. Achei que era você quem tinha escrito. - Me desculpe. Não fui eu. Dando ar de pouco caso, ele encerrou a celeuma: - Tanto faz. É tudo a mesma merda. *** E pra não nos acusarem de alienados: gostei muito do discurso do Serrassímio ontem, reclamando da corrupção que vigora entre os fiscais das subprefeituras de São Paulo. A reclamação do Serrassímio me lembrou de uma história que me foi contada por pessoa de meu relacionamento, que, na qualidade de fiscal do Município, embargou uma reforma feita numa dessas dancetarias da moda, em face de aberrantes irregularidades no projeto, que colocavam em risco a vida dos incautos que pegam a fila, pagam caro, são tratados como cachorro de rua e ainda por cima correm o risco de morrerem queimados. Pra não alterar o projeto, o dono do estabelecimento prometeu dinheiro. Recusado o dinheiro, ele prometeu um carro. Recusado o carro, ele prometeu um apartamento. Recusado o apartamento, ele ameaçou o fiscal de morte. Recusada a morte, ele foi se entender com o chefe do fiscal. Foi difícil segurar o homem, que queria fazer uma reclamação por escrito junto à Ouvidoria, denunciando a imoralidade do fiscal, que insistia em ignorar as regras do jogo. Baita absurdo. Porém, a bem do serviço público, evitou-se a denúncia e a coisa se resolveu com a transferência do fiscal. Não sei o que o chefe recebeu em troca, mas o fato é que, pelo menos até hoje, ele ainda não morreu. Morrer não é assim tão fácil - e isso fui eu mesmo que disse em algum outro lugar, tenho certeza. Mas se alguém quiser atribuir a frase a Dom Gustavo, está tudo bem, o mundo não vai mudar nem um pouco. No fundo, é tudo a mesma merda mesmo.
O subprefeito Dom Simione III é muito respeitado pelos comerciantes de sua jurisdição | 2.2.05
O MUNDO ESTÁ MELHORANDO
Sempre me intrigou e, confesso, causou uma certa revolta, a conduta daqueles que vão à missa e depois param no boteco para encher a cara e falar de mulheres, longe das esposas a quem solenemente juraram fidelidade eterna, perante o mesmo santo vigário. Não que eu não goste de birita ou de putaria. Na verdade deposito nessas duas coisas toda a minha fé, cegamente, e delas faço minha religião. O lance é que, pelo menos, tive a dignidade de nunca prometer fidelidade a ninguém, nem à minha mulher e tampouco ao Papa. Promessa é coisa dura de cumprir, e por isso não prometo nada a ninguém. As poucas coisas que inadvertidamente prometi, cumpri à risca, custasse o que custasse. Sabedor da dureza que é sustentar a palavra empenhada, só prometi até hoje uma meia garrafa de cachaça a um colega necessitado, e isso porque estava bêbado e generoso. Acordando de ressaca no dia seguinte, e lamentoso pela maldita promessa de doação, fui obrigado a entregar ao amigo bebum o presente, ainda que contrariado. Palavra é coisa séria. É por isso que vejo que o mundo está melhorando. Antes, como eu disse, o sujeito era batizado e fazia catequese. Na crisma, confirmava solenemente o seu compromisso com o homem de saia lá de Roma, e com seu patrão o senhor Jesus. No casamento, fazia com a futura esposa "curso de noivado", seja lá qual fosse a utilidade disso. No dia marcado, e em frente das testemunhas - que eram obrigadas a atestá-lo por escrito - juravam perante o padre fidelidade recíproca e eterna, ou, no mínimo, até a morte. Aliás, nem na hora da morte o católico negava a sua fidelidade à Santa Igreja, e na hora derradeira chamava um padre novamente, agora para a extrema unção. Seu beijo último era num crucifixo que piamente lhe colocam nos beiços. Digo e volto a dizer: nunca conheci nenhum ateu praticante. Todos sempre temeram a Deus, como mamãe mandou - o que, por sinal, é coisa muito bonita de se fazer. Juram respeito à Igreja e, conseqüentemente, à sua visão, apesar de essa visão ser, digamos, um tanto particular e difícil de se assimilar. Sabem todos, portanto, que não se deve roubar, fornicar, trair, vilipendiar - enfim, deve-se ser sério e honesto, como foi Jesus, este nosso exemplo maior. No entanto, assim como não conheço nenhum homem casto, não conheço nenhum que se abstenha de prevaricar, exercendo ativa ou passivamente a arte de sacanear o próximo ou, na falta de alguém próximo, a si mesmo. Numa palavra, o homem médio tem duas caras, uma para a igreja, outra para a vida civil. Venhamos e convenhamos: o noivo, já na saída do altar, revela ao padrinho que, é claro, aquela promessa de fidelidade eterna é meramente "pro forma". A teatralidade do gesto, e toda a mise-en-scene ao redor, comprovam esse caráter fictício de toda a coisa, é o que diz o noivo consciente. Ele é homem racional e razoável, e não desconhece a fraqueza da carne. Já na despedida de solteiro, aliás, confirmara na prática, e perante toda a comunidade dos amigos, a veracidade dessa sua tese. No trabalho, aquele que, de mão trêmula e olho marejado comungou com o senhor Jesus na missa dominical, é o primeiro a propor o suborno do fiscal, a burla da licitação, ou a quebra do concorrente. A vida é uma batalha e os seus têm de mamar o leitinho de cada dia. Na prática, é forçoso concordar que a solidariedade propugnada pelo senhor Jesus é uma coisa bonita, mas com a qual se deve anuir com a seriedade da palavra de um noivo. O mundo é assim, o capitalismo é símile à natureza, e em ambos deve haver a evolução, que pressupõe o perecimento do menos apto. "That's life", e ninguém poderá discordar. Talvez o senhor Jesus, apenas. Mas ele não está vendo, certo? Errado. Como disse aquela incontestável tia-avó nas aulas de catecismo, o senhor Jesus, e o seu Pai, ou ambos, vêem tudo e tudo sabem. Então a falta é falta mesmo, e o pecado, a infração, a pisada na bola, existem e demandam expiação. Mas pra tudo na vida há jeito, e o senhor Jesus é bom demais, por isso se gosta dele. Ele inventou um lance chamado perdão. E onde se compra essa parada? É fácil: basta ir a uma cabininha - apertada, é verdade - onde um sujeito de saia ouve pacientemente as suas maldades e lhe prescreve, como purga dos seus males, a declamação de um punhado de palavras bacanas, agrupadas sob o nome de "Ave Maria" ou, mais belo ainda, "Pai Nosso". O homem comum só não confessará que, no fundo, é nesse hipócrita sistema peca-purga que conduz a sua vida, sem peso algum na consciência. Mas o homem comum é um rematado canalha, como se sabe, de modo que a ausência dessa honesta confissão só robora a sua falseada canalhice. Mas não se desesperem. O mundo está melhorando, e disso tenho certeza, pelo que tenho lido nos jornais nos últimos tempos. Todas as notícias convergem para essa nova era iluminada. No mínimo, o mundo está ficando mais sério. *** Sempre admirei os muçulmanos. As letras de seus livros são mais bonitas, suas vestimentas mais bacanas, e seu semblante muito mais provocativo. O costume de se pisotearem uns aos outros enquanto dão o sagrado rolê em torno de um quadrado de pedra, e mais o notável hábito de explodir a si próprio com uma bomba, tais costumes sempre me inspiraram simpatia. Assim como a plácida aceitação, da parte de suas mulheres, em se vestir como um embrulho de presente. Podem dizer o que for de um maometano barbudo, ou de suas esposas vestidas de burka. Mas nunca poderão afirmar que não se trata de gente séria. Nem uma gota de bom senso lhe conspurca a fé, ao contrário dos católicos, que, se fazem promessas irrealizáveis na missa, na vida civil exercem um paganismo total e irrestrito. Um membro do Islã não. Ele é sério dentro e fora da Mesquita, e seus votos, uma vez proferidos, serão mantidos contra tudo e contra todos. Religião e vida se fundem e confundem. E bota seriedade nisso. O cabra, ao ouvir um clarim, ajoelha-se onde estiver e faz as suas ininteligíveis orações. E isso uma dúzia de vezes ao dia, todo santo dia. Se falarem mal do profeta, o cacete come ali mesmo, até a última gota de sangue. Se a mulher puser um galho no esposo, é "lapidada", ou seja, apedrejam a desgraçada até a morte. Para se divertirem, de tempos em tempos celebram uma festa. Mas nada parecido com a putaria e cachaçada de um São João ou de um Natal. Os caras saem às ruas com uns facões graúdos, ou com umas tranças recheadas de gilete. Com tais instrumentos festivos, sentam o cacete na própria cabeça, ou nas costas, até o sangue escorrer, num bonito espetáculo de alegria popular. O muçulmano, em suma, não prevarica como os nossos católicos. Não tem duas caras, duas vidas contraditórias, uma dentro e outra fora da igreja. Ele é muçulmano full time. Mas os cristãos estão mudando, e o mundo, agora vejo, está caminhando para um estágio melhor, de seriedade geral e irrestrita. Nossos cristãos doravante também serão cristãos em tempo integral, sempre coerentes com a doutrina que livremente abraçaram desde o berço, para glória de deus e felicidade geral da nação e do mundo. *** Vejamos. A Igreja Católica Apostólica Romana finalmente mostra coerência e, com vigor, bane a camisinha. Pra que preservativo? Pra evitar a AIDS? Mas se o sujeito é católico, que case virgem, e só transe com a própria esposa, ainda assim para fins estritamente reprodutivos. É essa a lei de deus e a ela aderiu espontaneamente o sedizente cristão, desde o berço, não havendo por que tolerar a infração. Se a castidade é a regra, logo a camisinha não tem sentido. Afinal, é preciso reconhecer, a camisinha só se justifica pela prática da safadeza, do sexo com quem não é esposa, ou, o que é pior, o sexo com a esposa sem fins reprodutivos, o que é uma heresia da grossa. Se o uso da camisinha pressupõe a safadeza, e a safadeza é pecado, Index pra camisinha! Nada mais justo e sério. O sujeito só não concorda se for um mal católico, um papa-hóstias calhorda e desavergonhado. Além da elogiável coerência da cúpula da Igreja de Roma, que, sendo menos transigente com os dogmas sagrados, mostra-se mais séria, é preciso reconhecer que aqui no Brasil a coisa também ruma para a seriedade. Nosso Procurador Geral da República, por exemplo, demonstra que uma seriedade muçulmana, daquelas que unem igreja, Estado e vida privada, também está vicejando nestas bandas do mundo. O seu currículo o atesta: trata-se de um ex-seminarista, daqueles que, apesar da fraqueza para o sacerdócio, fazem questão de exibir a todos a sua fé. Notem a cruzinha que ele faz questão de ostentar no peito, em cima da gravata com que oficia. Para ele o gabinete de trabalho, o templo de reza, o seio familiar, todas essas esferas estão ligadas pelo amor a deus. E tal é a sua fidelidade aos juramentos feitos no púlpito que ele, corajosamente, se mostrou inflexível diante dos celerados que pleiteavam no Supremo salvo-conduto para assassinar, via aborto, os fetos anencefálicos. É verdade que matar alguém sem miolo, vale dizer, que nunca existiu, é um tanto difícil. Mas isso pouco importa. O importante é mostrar para o povo que a Igreja, juntamente com o Estado que ele representa, continuam juntos compondo uma só nação progressista, que não admite tal sorte de ofensa aos dez mandamentos. Matar é matar e ponto final. A folgada da gestante que agüente firme uns meros nove meses com um cadáver no bucho. O senhor Jesus agüentou parada muito pior, e sem reclamar. Penso, inclusive, que seria o caso de colocar uma coroa de espinhos nas gestantes, de modo a lhes tornar o sofrimento mais assemelhado ao do nosso messias. As igrejas, que sempre enalteceram o valor de um bom martírio, hão de reconhecer o valor do piedoso ato. No campo social da administração pública, a fidelidade aos preceitos religiosos finalmente também está mostrando a cara, contribuindo para a bem-aventurada união entre governo e fé, que tantos bons resultados deram na época medieval. O nobre administrador Frei Beto, que continua usando o título de "frei" apesar de há muito ter se desligado da Igreja (a carne é fraca, como ele e o sábio Leonardo Boff bem sabem), foi com toda justiça destinado ao gabinete de cura da fome, o nosso querido e amado "Fome Zero". Assim como Jesus multiplicou os pães e o vinho quando faltou birita e rango num casamento para o qual fora convidado, nosso querido Frei, que não se esqueceu do exemplo do mestre, multiplica a grana para entregar ao povo famélico, que o mal do Brasil é a fome do Nordeste. Pena é que o povo insiste em mentir para a balança dos recenseadores do IBGE, fingindo estar gordo quando na verdade está magro, como bem atestou nosso querido e piedoso Lula. O nosso presidente, aliás, fez questão de tomar as rédeas do mundo, já que os governantes dos países ricos não têm habilidade para tanto. O Lula já disse que vai resolver as tretas seculares do Haiti, da África, da Palestina e, se deus quiser, dentro do Conselho de Segurança da ONU vai resolver a fome e a injustiça de todo o cosmos. Já começou bem, distribuindo para essas nobres finalidades parte do dinheiro que esta rica nação, o Brasil, tem de sobra. Chega de miséria, chega de troco dos Estados Unidos. Vamos é pagar a conta e mostrar que somos os caras legais. Mas até mesmo os hereges lá de cima estão se emendando. Mesmo os novaiorquinos, esse mal exemplo de licenciosidade e safadeza, estão tomando tento na vida. Depois de terem sido sacaneados por uns barbudos, resolveram aderir à seriedade planetária da Nova Era, e não só apoiaram as guerras santas do senhor Bush, como tornaram a botá-lo lá na Casa Branca de Novo. Ele é um cara sério e temente a deus, ao contrário dos seus concorrentes. Nada mais justo que o "good lord" lhe recompensar a fidelidade com mais um mandato. O senhor Bush merece um capítulo à parte neste inventário da crescente seriedade contemporânea. Homem temente a deus, é coerente em todas as suas ações. Indeferiu as pesquisas com células-tronco de embriões, provavelmente inspirado pelas lições do nosso sábio Procurador Geral da República. Reafirmou que, contra a AIDS, gente séria age mesmo é com o celibato, e os negões lá da África que deixem de ser pagãos e aceitem os preceitos de nosso senhor Jesus. Ciente de que o Saddam tinha um regime laico, tratou de prender o infiel, contribuindo assim para que novamente voltem os religiosos ao poder. Até hoje ouvem-se em Bagdá os rojões de júbilo do povo. Sempre simpático a quem teme a deus, aderiu sem ressalvas ao governo teocrático de Israel, deixando com razão de endossar as moções da ONU contra esse piedoso governo. Por fim, como é o homem que manda na natureza, e não o contrário, como está escrito na Bíblia, fez bem em não ratificar o Protocolo de Kyoto. E o Tribunal Penal de Haia que se dane, porque satisfações só se deve a deus, e não aos homens. *** Voltando ao Brasil, alegro-me em ver que cada vez mais contribuem para a nossa segurança a gente de deus, que sabe das coisas. Aqui no Brasil, aliás, somos privilegiados, porque este é o único lugar do mundo em que comunista é católico. Felizmente para a nossa segurança pública, o PT e as comunidades eclesiais de base movimentam-se em contra a ímpia redução da maioridade penal. O padre Júlio Lancelotti e o ex-seminarista Chalita cuidam das Febens de São Paulo e já não há mais fugas, nem revoltas, e os meninos que saem de lá finalmente vão direto para a carreira de coroinhas de igreja. Agora estaremos seguros, até porque os pais de família, esses vagabundos, finalmente não dispõem mais de armas de matar, e assim também os bandidos. Noto ainda, com igual alegria, que não só os católicos estão recrudescendo a sua seriedade, em favor do lema "practice what you preach". Os evangélicos - uma gente boa e sábia - cuidaram não só de eleger no Rio de Janeiro o senhor Garotinho - homem piedoso, como é notório - mas também a sua esposa, que ostenta no currículo a bastante condição de ser esposa de um homem de deus. Podemos dizer que o Rio é do senhor Jesus, e até os traficantes e funkeiros o aceitaram em seus corações. Não é por acaso que naquela cidade maravilhosa existe uma estátua gigante do homem, comprovando que aquela gente é pacífica e de bem. Em Brasília, a honesta bancada evangélica cresce continuamente, fazendo valer o preâmbulo de nossa Constituição, que fora promulgada "sob a proteção de Deus". Quem duvidar que confira o texto e veja o beneplácito divino que, como consta, guiou os pensamentos de nossos iluminados constituintes. Em suma: o mundo está melhorando, só não vê quem não quer. Em breve ninguém fornicará, mentirá ou matará. Também ninguém passará fome, apesar dos esforços contrários do IBGE, instituto que, já não era sem tempo, ganhou rédeas no atual governo. Lula será aclamado o salvador do planeta, o que já vem acontecendo, sendo exemplo disso o fraternal abraço que o reconhecido sábio Bono Vox deu no nosso querido presidente. Os políticos, todos católicos ou evangélicos, sempre inspirados no exemplo de Cristo, deixarão de corromper e de ser corrompidos. O ladrão deixará de roubar, e o pobre largará mão de pedir esmola, preferindo o trabalho árduo na enxada, porque o trabalho enobrece o homem. No Rio, os executivos jogarão a gravata fora e sairão às ruas para se congraçar com os favelados suados, e todos passarão a viver em paz. Os traficantes darão salvas com suas metralhadoras, no ritmo de um funk especialmente composto para a ocasião, com temas bíblicos e uma participação especial do Caetano Veloso. O mundo está melhorando. Só não vê quem não quer.
Esses sábios comprovam que a coisa está indo de vento em popa | 1.2.05
EU AMO O LULASSÍMIO
Para mim, o Brasil teve dois, e apenas dois, grandes presidentes da República: Itamar Franco e João Figueiredo. Todos os outros, sem exceção, não servem sequer para lhes engraxar os sapatos, tanto sob o aspecto moral quanto sob o prisma da aptidão intelectual para exercer o cargo com a seriedade que, neste País, dele se exige. É certo que, por ser janista, à primeira vista soa estranho eu não ter elencado o velho Jânio entre os maiores expoentes da nossa pátria. Justifico-me: Jânio Quadros, mais do que um político, era acima de tudo um artista. Limitar a sua obra a uma reles indicação como o maior dos chefes do Executivo da nação é definição mesquinha e hipócrita, que não faz justiça ao esplendor e à exuberância de sua arte. Jânio Quadros não foi apenas nosso maior presidente: ele foi nosso maior humanista. Praticou, ao longo de toda sua vida, poesia viva, concreta nos seus gestos e manifestações, grandiosas demais para que possamos lhes compreender o alcance. Ele só poderá ser melhor estudado, no mínimo, daqui a duzentos anos. E isso se a humanidade melhorar - o que, pelo que ouço dos maiores intelectuais que conheci, é mudança pra lá de difícil. Na franca esperança de melhorar com o passar dos dias, sinto-me contente ao saber que, por mais difícil que isso seja, posso ser capaz de mudar de opinião. Porque, aos poucos, os fatos me convencem a acreditar que o nosso estimado Lulassímio, que tem pouco mais de dois anos de mandato presidencial, também já está a merecer um lugar de ouro entre os maiores condutores da nação. O reiterado orgulho de ser símio, a compra do Aerolula (mais do que justa, pois, afinal de contas, o homem, que disputou 4 eleições, deu duro para chegar aonde está), a ira pessoalmente arrasadora com que nosso estimado presidente esmigalha os que têm a audácia de lhe criticar (pondo em dúvida, de forma desrespeitosa, a sua qualidade de "Poder" encarnado, como ele mesmo já nos ensinou), as prudentes tentativas de calar a boca da imprensa reacionária que lhe boicota os planos (o que, se Deus quiser, para alegria e felicidade geral da nação, logo mais serão postas em prática), o moderado aumento de impostos divulgados na última sexta-feira do ano (vista como malandragem pelos vagabundos que insistem em trabalhar fora dos cargos comissionados do governo de seu incorruptível partido) e a afirmação de que, no Brasil, é mentirosa a constatação de que não existem milhões de famintos, o que existe é a vergonha deles de como tal se declararem perante o pesquisador do IBGE (não obstante os mindingos da rua, ao me verem, não tenham nenhuma vergonha de me pedir um trocado), tudo isso, e muitas outras dádivas presidenciais que poderiam ser citadas, não me comove. O que me comove são as revelações místicas feitas pelo nosso Lulassímio. Sim senhores, revelações místicas. Não contente em nos governar na economia e nas prioridades sociais, o presidente, com espasmos de clarividência que só encontram par no princípio da infalibilidade papal, agora nos deu a benção de explicar sobre as coisas ocultas do mundo em que vivemos. E mais: como zeloso Pai dos Mindingos que é, nosso querido Lulassímio, de quebra, nos dá o antídoto contra os males que atormentam o espírito. Humilde como todo santo que se sabe como tal, Lulassímio reconhece que não é possível acabar com as mazelas não só do Brasil como do mundo inteiro - como ele revelou ser sua intenção ao início de seu governo - com a velocidade desejada. A explicação para o (parcial) infortúnio, porém, deve ser buscada não nas instâncias deste mundo, mas sim nos mistérios do além. E o nome desse demônio que insiste em atrapalhar o êxito presidencial é conhecido de todos: urucubaca. O problema do Brasil é a urucubaca. É a urucubaca que fode o Brasil. Revelou o Lulassímio, em sua participação no Fórum Social, realizado na semana passada em Porto Alegre: "Eu perdi três eleições para ganhar uma. Ganhei uma eleição, mas o que tem de urucubaca torcendo pra gente não dar certo, eu tenho que levantar de figa todo dia para dizer pelo amor de Deus." (Folha de São Paulo, 28.01.05, página A-5). O presidente está certo: a urucubaca é coisa desgraçada. Eu mesmo já sofri muito por causa dela. Lembro-me, por exemplo, dos tempos de colegial, em que eu tinha 16 ou 17 anos, quando minha escola organizou um passeio durante todo um final de semana num sítio com alojamentos, piscinas, cavalos e outras coisas do gênero. A intenção minha e de meus supostos amigos, é claro, era passar o maior tempo possível na companhia das garotas que, nos dias normais de escola, de um jeito ou de outro, nos sugeriam a possibilidade da prática sexual. A vida no campo inspira esses hábitos mais saudáveis. Disse que a intenção era nossa, minha e dos colegas, mas, na verdade, ela era mais deles do que minha. Os desalmados, alguns mais, outros menos, já tinham em vista as garotas sobre as quais iriam investir. Havia até alguns que, antes da tal da viagem, já tinham dado início aos primeiros contatos de natureza física para levar a bom termo o desfecho de suas (justíssimas) pretensões. Era apenas uma questão de tempo e oportunidade. Não era o meu caso. Sem nenhum alvo para mirar, cheguei na miserável condição de faminto que sequer tem a expectativa de comer. Cheguei como franco-atirador: aceitaria de bom grado qualquer coisa que o Pai me desse. Até mesmo uma gordinha, desde que não fosse muito horrível de rosto. E mesmo assim, fui com o espírito preparado para uma derrota total - isto é, voltar casto daquela viagem, o que, naqueles tempos, era pior do que abocanhar uma gorda com a cara parecida com a do Noel Rosa. Como todo bom evento do gênero que se preze, a cartada final estava marcada para o baile de sábado à noite. Contudo, em face do estado famélico em que nos encontrávamos, desde o início do passeio tratamos de logo nos aproximar das meninas que, como dito, interessavam aos colegas - o que, se não lhes rendeu sexo à luz do dia, pelo menos lhes confirmou a esperança de recebê-lo na escuridão da noite. O estranho foi que, junto daquelas moças, havia uma fulana que, nos dias normais de aula, não se misturava a ninguém, não ia às festas, não matava aulas e que, por isso, eu quase nunca via. Até mesmo em razão de, digamos, sua estética superior à das demais, o que ficava realçado pelo seu ar de mulher mais velha, sua presença ali não deixava de chamar a atenção. E um dos colegas, ao perguntar o porquê de tal presença a uma das garotas, recebeu em resposta um "Ela não está muito bem com o namorado". Namorado mais velho, que já fazia faculdade, eis o porquê de seu anterior estado de reclusão nos dias de rotina colegial. E mais estranho ainda foi que, no decorrer do sábado, tal moça, com quem antes nunca tinha eu conversado, chegava-se ao meu lado, perguntava-me coisas, abraçava-me sem razão e... sorria. Sim, ela sorria para mim. Era um milagre do Pai. Um milagre tão milagroso que custei a acreditar. De último colocado daquele campeonato mindingal, eu passaria a campeão invicto. Até o meu passado seria apagado, dada a grandeza da honraria que estava na iminência de me ser prestada. Enquanto, no alojamento masculino, nos arrumávamos para o baile, um amigo meu comentou: - Você é quem vai se dar melhor. Senti uma ponta de irritação na observação. - Como assim? - perguntei, embora soubesse a resposta. - Você sabe. Houve um silêncio no quarto. Olhei em volta e notei que todos os outros amigos me encaravam com a mesma frieza no olhar. - Ela tem namorado - tentei me justificar. - Bobagem. Quem quer ser fiel ao namorado não vem pra uma viagem dessas. Este último comentário tinha sido feito pelo, hoje, Doutor Sérgio, profundo conhecedor das razões do coração - e que, alguns anos depois, acabou se tornando médico, o que lhe deu a vantagem de conhecer não só as entranhas da alma humana, como também as do sistema digestivo, cirurgião gastrenterologista que é. Seu argumento foi irrespondível. - Filho da puta - rosnou outro colega, confirmando o diagnóstico do Doutor Sérgio. Senti um peso estranho sobre os meus ombros, minha visão escureceu, minhas mãos começaram levemente a tremer. Não havia dúvida: era a urucubaca. Intuí então que o negócio era me defender. Tirei da mala uma garrafa de uísque comprado a preço de Velho Barreiro - mas, infelizmente, de inferior qualidade - e, junto com os colegas, cada um com a sua garrafa pessoal, iniciamos nossos preparativos mentais. Confesso que me senti municiado para encarar a urucubaca. E veio então o baile, improvisado naquilo que, de dia, funcionava como um inocente refeitório. Num canto, na companhia de outras garotas, mais do que nunca mais novas do que ela, senti o seu olhar direto em mim. Eram olhos que sorriam. Minha glória estava garantida. Simulando desinteresse, tomei mais um gole de minha bebida particular e, gingando o corpo para dar uma de malandro, atravessei o salão para ir buscar o que me era de direito. Era de direito, mas não foi de fato. Tropiquei feito um bugio que cai do galho bem no meio do refeitório, na frente de todos os viventes do lugar. Não me lembro dos detalhes da queda, mas é certo que ela foi espalhafatosa, já que, quando dei por mim, estava com as costas voltadas para o chão, uma das pernas para a cima, a garrafa quebrada espalhando o cheiro da bebida, mas o cigarro ainda aceso no canto da boca. A cena foi tão medonha que ninguém riu, tamanho foi o constrangimento. Ao tentar me levantar, escorreguei na poça de uísque e caí de quatro, com a bunda voltada para a minha musa. Foi nocaute. Ainda fiz uma desesperada tentativa, erguendo-me mais rápido ainda, mas um peso estranho - não sei se da vergonha, não sei se da bebida - me puxou para o lado e, pela terceira vez, fui ao solo, desta vez de lado, batendo o ombro no chão molhado, e com a bunda, mais uma vez, caprichosamente erguida na direção da minha amada. Só então os supostos amigos, entre risos de vitória, vieram me acudir. Foi a primeira vez que senti o poder da urucubaca. Revoltado com injustiça tão injusta, achei que era o caso de ir beber num canto escondido. Foi o que fiz, e ela não veio. Não sei o que aconteceu, não a vi mais naquela noite - e depois daquilo a vi pouquíssimas vezes - em todas essas, ela com aquela cara séria de sempre. Fiz um excelente serviço ao namorado da tal fulana. Esse desgraçado, se não fosse um ingrato, deveria, até os dias de hoje, me mandar um cheque de quinhentas pratas todos os meses. Filho da puta. É por isso que folgo em saber que o nosso presidente, homem sábio que é, faz do alerta à urucubaca o maior gesto de grandeza que um estadista de verdade poderia ter. Contra a urucubaca todo cuidado é pouco. E o Lulassímio vai além: para acabar com a maldita, só mesmo levantando uma figa para o céu e rogar: "Pelo amor de Deus". Eis oferenda que Deus espera para nos livrar da urucubaca: uma figa, provavelmente daquelas artesanais, de madeira. Posso estar enganado, mas, pelo ardor do seu pronunciamento, o Lulassímio, todas as manhãs, pega a sua figa da sorte, ajoelha-se, ergue o rosto choroso para cima e diz: "Pelo amor de Deus". Pronto, daí ele fica em ordem para começar o seu dia. Para dar fim à urucubaca, nada como uma boa simpatia, avalizada pelo próprio amor de Deus. É pena que eu não soubesse antes desse antídoto. Mas é justamente em razão do alerta presidencial que, agora, creio num futuro melhor para as novas gerações, as quais, daqui em diante, estarão mais preparadas para os verdadeiros problemas da vida, entre eles o da urucubaca. E quem sabe, com a evolução que se avizinha, um dia consigamos compreender a grandeza do espírito do Jânio Quadros.
Inspirado por idéias místicas, o Lulassímio nos revelou a solução para o grande problema do Brasil. | 31.1.05
COPROMANCIA E OUTRAS MERDAS
Dom Paulo nunca me surpreende. Sei há tempos que ele é homem muitíssimo sábio e experiente, além de versado na difícil arte do relato. Assim, não me surpreendi quando ele resumiu tudo o que penso - e quiçá tudo o que já pensei e pensarei - em seu último texto, que cuidou da pouco valorizada arte do Tarô. Mas há outras artes a serem enaltecidas, visto que possuem a mesma qualidade artística e, dizem os seus adeptos, o mesmo valor científico da tal arte de ler o futuro nas cartas de baralho. Falo, por exemplo, da famosa astrologia. Os jornais, que, como se sabe, são o último reduto da nossa elite intelectual, mantêm todos eles uma coluna fixa e assinada. Nela, um sujeito versado na leitura do cosmos prevê a desgraça ou a benesse que acontecerá no dia, em relação ao signo de cada vivente. A validade dessa ciência me parece clara, posto que dificilmente toda a massa de leitores de jornal - que, como dito, é a nossa elite - poderia ser constituída de imbecis. As antecipações do astrólogo são claras como o céu do meio-dia. Vejamos, por exemplo, o que nos informa a coluna "horóscopo" do prestigioso Estadão, no dia de hoje: "Sintonizar o lado estético e harmonioso do convívio A Lua transita pelo signo de Libra formando conjunção com Júpiter, mas também quadratura com Saturno. O primeiro aspecto é mais forte por ser conjunção, mas a quadratura é reforçada pelo fato da Lua reger o signo onde está Saturno, e este reger por exaltação o signo no qual está a Lua. Assim, o que era um mau aspecto passa a ser menos negativo. O caráter benéfico da conjunção com Júpiter tende, assim, a prevalecer. Será mais fácil sintonizar o lado agradável, esteticamente harmonioso e refinado do convívio humano e das atividades em conjunto com as pessoas. Mesmo assim, uma sombra pode assediar tais atividades." É realmente impressionante a clareza do enunciado. Folgo em saber que "a quadratura é reforçada pelo fato da Lua reger o signo onde está Saturno". E Saturno, graças ao bom deus, é quem, segundo o astrólogo, "rege por exaltação" o signo no qual está a Lua. Assim, garante o leitor de astros, "o que era um mau aspecto passa a ser menos negativo". Benza deus. Mas que o leitor do horóscopo não se engane, porque os malditos astros são traiçoeiros, e não dão descanso aos viventes deste pequenino mundo azul. Afinal, assevera o astromante, apesar de estar fácil "sintonizar o lado agradável, esteticamente harmonioso e refinado do convívio humano" nesta conjunção astral, "mesmo assim, uma sombra pode assediar tais atividades". Astros traíras do caralho. Diante da evidente seriedade dessa arte - ou melhor, dessa ciência que tão claramente antecipa os fatos - agiu bem o erudito senador Arthur da Távola, homem que já demonstra sabedoria e bom gosto na escolha do próprio pseudônimo, ao propor uma lei para regulamentar essa ocupação tão útil e que tanto honra o nosso Brasil. O senado, que outras atividades não tem nesta pátria já construída, certamente há de gastar melhor o seu tempo debatendo e comprovando a necessidade dessa regulamentação. Registro aqui, portanto, o meu apoio irrestrito aos astrólogos, e lanço na infâmia o nome de Rabelais, este vil escritor que, há uns cinco séculos, editou o seu opúsculo "Almanaques e Prognósticos" parodiando as sérias previsões dos astrólogos. *** Mas há uma arte ainda mais injustiçada que a astrologia. Se por um lado a leitura de astros já se vulgarizou nas páginas dos jornais, esta outra ainda está limitada, infelizmente, a umas poucas e corajosas almas, que se aplicam no estudo desta difícil disciplina científica. Refiro-me à copromancia. Deixarei que os próprios copromantes definam a sua arte e tracem a origem dessa atividade (excerto extraído do site oficial da Associação Copromântica Brasileira: http://www.geocities.com/copromancia): "Página dedicada à regulamentação da profissão de Copromante. Apesar de pouco conhecida, a Copromancia é uma Ciência e uma Arte com raízes bastante antigas - sendo praticada por diversos povos provavelmente desde a pré-história, e é possível que preceda mesmo a humanidade. Tem, portanto, uma história ainda mais longa do que uma outra Ciência mais conhecida e venerada por suas tradições: a Astrologia. Em função desse desconhecimento ela é alvo de muitos preconceitos, como sói acontecer com a maioria das coisas que não nos é familiar ("A ignorância é a mãe do medo")." Copromancia, como se nota, é o nome da refinada arte de ler merda. E, de fato, os profissionais que atuam nessa área da vidência devem ser respeitados. Afinal, como assegurado pela Associação Copromântica Brasileira, a copromancia é tão antiga que "é possível que preceda mesmo a humanidade". Ou seja: a arte de ler a merda humana existia antes mesmo do aparecimento dos homens defecantes. Vá ser antiga assim lá na casa do cacete. Mas é preciso reconhecer que, como afirmado pela aludida associação, a copromancia "é alvo de muitos preconceitos, como sói acontecer com a maioria das coisas que não nos é familiar". Dizem eles, com razão, que "a ignorância é a mãe do medo". E, pelo jeito, o povo tem medo de se informar na leitura da própria merda. Êta povo ignorante, que nem na própria obra se instrui. O pleito em favor da regulamentação da copromancia tem base numa séria preocupação. É novamente a Associação quem o diz: "Levando em conta a tradição desta Ciência e sua importância na orientação de tomadas de decisões (pessoais, empresariais, governamentais, etc...), ela deve ser imediatamente regulamentada de modo a proteger não apenas a integridade e dignidade da ocupação da Copromancia, mas também como garantia para as pessoas que se consultam segundo esta Ciência - do mesmo modo como não é admissível largar os pacientes nas mãos de açougueiros em lugar de médicos profissionais devidamente treinados e capacitados, não podemos admitir esta digna profissão ficar à mercê de aproveitadores inescrupulosos ou mesmo de pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas." Se as decisões empresariais e governamentais se guiam pela copromancia, como nos afiança o texto acima, realmente é preciso zelar pela regulamentação dessa nobre atividade, visto que "não podemos admitir esta digna profissão ficar à mercê de aproveitadores inescrupulosos ou mesmo de pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas". É inadmissível, de fato, que a seriedade da copromancia seja conspurcada por "aproveitadores inescrupulosos", ou por "pessoas voluntariosas, mas totalmente despreparadas". Esta última ponderação me pareceu a mais pertinente. Já pensou ficarmos à mercê, para a condução de nossas decisões, de pessoas bem intencionadas mas pouco habilitadas à copromancia? Chega o amigo e diz, de boa vontade: "caga aí e deixa eu ver. Sou copromante amador". O pobre diabo, acreditando na boa fé do colega, lhe delega a dura missão de verificar a pastosidade, o formato e o odor de suas fezes. "Hum, sei não... acho que tu tá fodido. Segundo o livro de copromancia que comprei na banca, merda em formato de charuto, e ainda por cima fedida, é sinal de que o sujeito é podre. Podre num sentido moral, saca? Acho que tu é um safado, e não falo mais contigo. Está desfeita a nossa sociedade no carrinho de cachorro quente." Esse diálogo fictício mostra o quão prejudicial aos negócios e às relações interpessoais pode ser a copromancia, se manuseada por pessoas despreparadas, ainda que voluntariosas. É por essas e outras que é bem-vinda a regulamentação da profissão de copromante, de modo a se evitar abusos. Diz o projeto de lei aventado pela Associação Copromântica Brasileira: "Art 2º Considera-se copromante, para efeito desta lei, aquele que estabelece juízos a partir do estudo das configurações de massa fecal de qualquer espécie, calculando e elaborando cartas fecais. Art 3º As atribuições constantes do artigo anterior poderão, também, ser exercidas por pessoa jurídica." Vejam só que primor de obra legislativa. A definição é precisa e não deixa margem a dúvidas. Copromante, segundo o projeto de lei, é o profissional que "estabelece juízos a partir do estudo das configurações de massa fecal de qualquer espécie", e o resultado de seu ofício é uma "carta fecal". Eu, que sou ignorante em tão sofisticada arte, fico imaginando o que consta de uma "carta fecal". Provavelmente coisas como formato (charutinho ou tolete?), consistência (pastosa ou tijolo?) e cheiro (cheiro de merda ou de rosas?). Se o cabra estiver com caganeira, o juízo será fatal: nada de negócios naquele dia. "Diarréia nunca é um bom negócio", dirá o copromante. O escopo dos trabalhos copromânticos também é belissimamente delimitado na alvitrada lei: "Art 4º O exercício da profissão de copromante compreende; I - Cálculo e elaboração de cartas fecais de pessoas, entidades jurídicas e nações utilizando tabelas e gráficos de características fecais para satisfazer indagações do público, orientando os interessados. II - A atuação em meios de comunicação que divulguem o conhecimento correlato à Copromancia, também chamada alternativamente de Escatomancia. III - A elaboração de pareceres copromânticos. IV - A indicação de tendências situadas em qualquer espaço temporal para pessoas, entidades jurídicas e nações. V - A análise da inter-relação entre cartas fecais na avaliação de relacionamentos entre pessoas, entidades jurídicas e nações. VI - A eleição de cartas fecais para precisar momentos e locais que possam atender melhor a objetivos específicos, sejam pessoais ou para entidades jurídicas." Da baixeza de minha ignorância, fico me perguntando como é que se elabora uma "carta fecal" de "entidades jurídicas" ou de "nações". É certo que muito governo e diversas empresas fazem merda, mas daí a se fazer uma "carta fecal" já vai grande distância. Talvez para fazer a "carta fecal" da nação brasileira seja preciso uma amostra da obra feita por cada cidadão. Ou, melhor, um exemplar de cagalhão vindo apenas do ânus presidencial. O cabra chega na presidência, olha a privada e diagnostica: "vixe, excelência! Pelo jeitão desse seu cabo de machado, o futuro do Brasil não será nada bom..." Também pudera. Certo é que, como aponta a exposição de motivos desse projeto de lei, "o estudo de copromancia deveria figurar em nível de terceiro grau, ou como pós-graduação, doutorado, etc. , em face de sua alta especificidade e de interpretações que demandam amplo conhecimento". De fato, "alta especificidade" e "amplo conhecimento" definem bem a antiga e nobre arte da copromancia - ou melhor, "ciência da copromancia", como querem seus eruditos praticantes. Acabo de obrar e constato que, pelo jeito, o meu futuro aqui no Brasil será um tanto marrom.
Esse aí é o "scarabaeus sacer", besouro egípcio símbolo da Associação Compromântica Brasileira, bichinho que, lá na minha terra, chama-se apenas "vira-bosta" | 27.1.05
O TARÔ DO AMOR
É difícil acreditar, mas houve um tempo, muito distante, em que recebi a graça de poder praticar sexo. Às vezes, até com certa regularidade. Naqueles tempos, pude inclusive ter a experiência de praticar sexo com uma mesma pessoa, de maneira habitual e, portanto, até um certo ponto, esperada - o que, ao que me consta, denomina-se namoro ou coisa parecida. Sim, senhores: eu também já precisei enfiar a mão no bolso para comprar algum presente no aleatório dia 12 de junho. Como tudo na vida, tais experimentos me trouxeram vantagens e desvantagens - sendo essas últimas em número maior ao das primeiras, o que, se não é a regra na vida em geral, ao menos o é na minha. Uma coisa, porém, é certa: não há intimidade física nem conversa telefônica de todo dia, por mais tempo que uma coisa e outra perdurem, que sejam capazes de fazer um ser humano se revelar a outro. Sempre é possível se surpreender com quem quer que seja, principalmente se a surpresa é negativa. E veio daí a primeira lição que recebi daquele velho caso de amor: não convém subestimar a capacidade do ser humano de justificar as maiores atrocidades que perpetra, com a mais cândida paz de consciência. Sei bem do que estou falando, fui vítima de uma arbitrariedade dessas. - Você sabe que eu sempre fui mística. Saber oficialmente, eu não sabia. Sempre desconfiei, porém, que, para conseguir namorar comigo, não apenas aquela moça, mas qualquer ser humano do sexo feminino deveria ser muito, mas muito místico mesmo. Conviver com pessoa de tão baixa estirpe como a minha, só com muito misticismo, religiosidade e crença absoluta nas forças do outro mundo - que nos prometem recompensas no além pelos infortúnios da vida terrena. Não é sem razão que há muitos anos não consigo praticar sexo com ninguém: sou uma triste vítima do materialismo egoísta que nos assola; sofro na carne a ausência de piedade que tem caracterizado os tempos atuais. - Sei - respondi, para não causar polêmica (e também porque, como disse, jamais tive a pretensão de namorar com qualquer moça que não estivesse na firme intenção de expiar os pecados). - Pois é, sou uma pessoa muito mística. - Entendo. - Sempre que eu posso, consulto o tarô. - É claro - respondi simulando familiariedade com o tal do tarô, que, para mim, sempre foi um jogo de baralho com umas figuras engraçadas, similar ao jogo do mico. - Ontem resolvi jogar as cartas. - E você ganhou? Confesso que dar esse chute foi estupidez de minha parte: imaginava que o tarô era uma mistura de mico com jogo de paciência, em que o sujeito jogava contra ele mesmo, formando pares entre as figuras, até, sei lá, ele ficar com a carta daquele esqueleto de capuz e foice na mão, simbolizando a morte - o equivalente do mico, dando notícia da derrota ou de quem dá as cartas, ou do "morto", isto é, da mesa. Sei que isso não faz sentido, mas, por mais que me esforce, também não consigo ver muito sentido em se prever o futuro através de uns pedaços recortados de cartolina. - Como assim? - ela se assustou, embora eu nem tivesse explicado a idéia que eu fazia do tarô. - Me expressei mal. Foi bom pra você? - Tirar o tarô? - Sim, parece é que sobre isso que estamos conversando. - Mais ou menos. Eu era jovem, mas já sabia que "mais ou menos" era apenas um modo educado de dizer: "bom pra mim, ruim pra você". - Que bom - disse, na esperança de estar errado. - Por que você achou bom? - Poderia ser pior. - Não sei - ela falou em voz baixa, com cara de mistério que nada ficou a dever às mais renomadas cartomantes medivais. - Filha, acredite em mim: as coisas sempre podem piorar. - Você acredita no tarô? - Depende do que ele disser - finalmente havia conseguido dar uma resposta inteligente. - Eu acredito. - Eu também, eu também - confirmei rápido, só para ver se com isso conseguia matar de vez aquela história. - Você também? - Sim, nunca duvidei do tarô, até porque não tenho provas de que ele costuma mentir. Que bom, não é verdade? Parece que estamos de acordo quanto a isso. Escuta, o que é que você quer fazer hoje à noite? - É sobre isso que a gente precisa falar. - Excelente. Olha, eu pensei em... - Fica quieto um pouco. Eu perguntei ao tarô sobre o nosso futuro. Incrível: de uma hora para a outra, meu destino passou a ser regido por umas cartinhas de papel, enfeitadas com umas figurinhas gozadas. Nosso destino, de fato, não é conduzido por nós. Frágil e vã é passagem do ser humano pela Terra. - Entendo. Você perguntou ao tarô sobre o nosso futuro. - Isso mesmo. - E ele se preocupou em responder? - Ele sempre responde. - Filho da puta. - O quê? - Nada, nada. - Primeiro, eu perguntei sobre o meu destino. - Fez muito bem. - Sabe qual foi a carta que saiu? - Menina, diga logo, não fique brincando com coisas sérias. Satisfeita, ele tomou fôlego antes de revelar: - A roda. - A roda? - A roda - ela confirmou, sombria. - Muito bom - foi minha observação, à falta do que observar. - Você sabe o que isso quer dizer? - Que você poderá sofrer um acidente de carro. É bom dar uma passada no posto pra mandar calibrar os pneus. - Pára de ser chato - ela reclamou. - Você quer ou não quer saber? E quem sou eu pra tirar o doce da boca da criança? - Desculpe. É claro que eu quero saber. Até porque eu posso estar no seu carro. Ela fingiu que não ouviu e seguiu em frente: - A roda representa o eterno estado de mutabilidade do mundo. Mesmo que, às vezes, a gente fique parado, nem por isso a roda deixa de girar, as coisas deixam de acontecer, as pessoas deixam de aparecer nas nossas vidas. - Interessante essa coisa de pessoas que aparecem - não sou tarólogo, mas tive certeza que era essa parte das "pessoas" que aparecem era a que me dizia respeito. - A vida é desse jeito - ela explicou, toda contentinha. - É ruim a gente ficar parado num mesmo lugar, ficar estagnado numa situação. - Falou e disse. - A fila tem de andar. Era óbvio que o lugar da fila a que ela se referia era o meu. - Fascinante. - Essa carta eu tirei para mim. - Disso eu não tenho dúvida. - Quer saber a carta que eu tirei pensando você? - Claro. E fico muito agradecido de você ter tirado uma carta pra mim. - Vê se não vai se assustar, tá bom? Era difícil ficar mais assustado. - Deixe me ver... Você tirou a carta do unicórnio? - Larga de ser bobo - ela reclamava outra vez, com voz de braba. - Não tem essa carta no tarô. - A carta do boi? - Idiota. - Do búfalo? - É claro que não. - De algum animal com chifre? - Eu não traí você, se é isso que você saber. - Que bom. Sabia que o tarô não ia me deixar de mão. Nem conheço o jogo, mas já estou gostando dele. Foi uma benção. - Tirei a carta da morte. - AFE MARIA!!! - Calma, a morte não é necessariamente uma coisa ruim. - É claro que não. É por isso que a maioria das pessoas se suicidam. - Você está sendo bobo outra vez. - Sempre gostei daquele bonequinho fantasiado de caveira. Me diga uma coisa: ele é mau? - Vou fingir de novo que eu não escutei. - Faz muito bem: os mortos não falam. - A carta não quer dizer que você vai morrer. - É mesmo? Então o nosso amigo tarô deve ter sérias dificuldades para se expressar. Sempre achei que a morte significava o ato de morrer. Talvez ele devesse trocar o bonequinho; colocar, sei lá, um bonequinho fantasiado de Chico Xavier. - A morte, no tarô, quer dizer mudança. Uma mudança interna. Você deve matar aquilo você é para se tornar alguma outra coisa; uma coisa nova e melhor só nasce quando aquilo que é velho morre. Apesar de seus costumes estranhos, aquela moça era esperta: numa tacada só me revelou, com uma justificativa mística, que precisava trocar o quanto antes de namorado e que a culpa era minha, que era um símio que precisava deixar de ser símio. Não deixo de lhe dar uma certa razão. Resolvi prosseguir: - Compreendo perfeitamente. - Jura? - Juro. Hoje à noite você tem um outro programa para fazer. E cada dia que passar vai ter um programa novo, porque a fila tem que andar. Você está certa. - Olha, eu gosto muito de você, mas não posso deixar de seguir o tarô. Ele nunca falha. - Faz muito bem. Sem ressentimentos. - Puxa, que bom. - Eu também acredito no tarô. Era mentira, não acreditava em nada daquilo, e hoje, a cada dia que passa, deixo de acreditar ainda mais - se é que é possível se desacreditar ainda mais em algo em que antes já não se acreditava. Ganhei a carta da morte e, ano vai, ano vem, continuo o mesmo símio de sempre. Não gosto desse treco de morte, não pego bem com aquele bonequinho fantasiado de caveira. Não vou conseguir morrer assim tão fácil.
Inadvertidamente, sempre achei que cartas eram apenas uma coisa para passar o tempo e fazer uma apostinha |
DE BALADAS E SÍMIOS
Sempre me pareceu que há um consenso tácito e geral sobre a verdade de que só se aprende com a desgraça. Uma explicação para essa pouco estimulante conclusão estaria no fato de que, à falta de um destino melhor, o desgraçado tenta consolar-se dizendo que pelo menos aquela experiência dolorosa "serviu-lhe de lição". Não sei o que pensam os leitores, mas, para mim, prefiro é morrer ignorante a aprender me fodendo. Se nasci careca, descamisado e iletrado, prefiro morrer do mesmo jeito a escafeder-me deste mundo erudito e desgraçado. Em suma, como alguém também já disse, a ignorância é uma bênção. Tanto mais quando lhe poupa das didáticas experiência ruins. *** Digo isso e já me contradigo. Afinal, o que eu queria dizer é que realmente aprendi com duas baladas desagradáveis que fiz neste feriado do aniversário de São Paulo. E vejam só que contradição ainda maior: o que aprendi é que sou símio, um ignorante irremissível. Porque só mesmo um rematado símio para errar e continuar a incidir no mesmo erro, repetidas vezes. Me fodo uma vez, e torno a foder-me outra, na seqüência, por pura burrice. Nesse procedimento eu poderia resumir toda a minha vida até agora. *** Eis o fato: fui a uma boate (ou danceteria, ou night-club ou sei lá que catzo isso chama) da moda, daquelas que tocam som eletrônico e onde se endeusa um cabra chamado Didjei, cujo ofício consiste em botar uns discos na vitrola. Se eu soubesse que isso dava ibope, cobrava dos meus vizinhos uma grana a cada vez que eu fosse ouvir um som em casa, no meu velho toca-discos, até porque meu gosto musical é bem melhor que o do tal Didjei. Na verdade eu já fui diversas vezes a esse lugar, sempre esperançoso e bem intencionado, como é de meu feitio. E como das outras vezes, saí novamente pobre e desmoralizado, como também é de meu costume. O estilo do lugar, realmente, já deveria indicar a um não-símio que daquele mato não sai cachorro, tampouco cachorra: boate muderna, loja de roupas e discos integrada, destinada especialmente à nobre classe viadal, música eletrônica de rachar os tímpanos, serviço nota zero, birita cara e mal servida. Um lugar de merda, em suma. O sábio povo, no entanto, adora essas coisas, e diante de um prato de merda pede logo a colher. Tanto que esse miserável lugar foi eleito, por aclamação, "a melhor balada de SP". Fico imaginando a pior balada como seria. Mas eu que sou símio, como confessado anteriormente, mesmo não acreditando na honestidade desses "guias de balada", vou em frente, com fé na infinita capacidade do povo de acreditar naquilo que lhe dizem. Afinal, verdade é sempre a opinião alheia, que poupa o vivente do trabalho de formular a própria. *** Cheio de fé, vou novamente para essa peleja, com o estímulo adicional de se tratar da semana em que se realiza a famosa "São Paulo Fashion Week", uma festa em que um monte de bichas ricas chamadas estilistas põem umas mulheres lindas para trabalhar duro, provavelmente por recalque e espírito de emulação. "Mas as modelos são mudernas, certo?", tramei com um amigo. "Então elas vão querer sair à noite depois dos desfiles, certo?", continuei o raciocímio. "E pra onde elas irão? Pro lugar da moda, certo?", a coisa ia evoluindo. "E qual o lugar da moda, porra?? A tal boate viadal!", concluí no telefone, logrando com tal sofisma convencer o inocente colega a me acompanhar na malsinada aventura. Só um símio como eu acreditaria na veracidade do sofisma que ele próprio criou. Mas fato é que a idéia pareceu-me factível na ocasião, e um monte de modelos lindas e dadivosas estariam no lugar à minha espera. Por generosidade e gratidão, eu premiaria meu Sancho Pança com uma - ou talvez duas - das beldades que me dariam bola. Saí de casa animado. *** Chego no local e, após confessar que não tinha nome na lista, flyer nem nenhuma outra carta de recomendação que me autorizasse ingressar naquele nobre estabelecimento, deferiram a minha entrada após um momento de hesitação. Mas essa bondosa autorização para entrar naquela prestigiosa casa, fui advertido, me custaria tantos dinheiros por eu não ser vip, seja lá o que isso queira dizer. Como sou pobre mas orgulhoso, disse que pagaria aquela mísera quantia em dobro, se fosse necessário. Assim, após uma humilhante revista em que fui bolinado pelo segurança, logrei entrar na boate, não sem antes prestar solene juramento de que meu velho celular não era uma arma mortal. A primeira visão não me estimulou muito: no lugar, apenas o meu fiel amigo, além de um(a) garçon(ete) ou algo que o valha, de espécie desconhecida. À falta de ter o que fazer, ficamos elegendo o melhor apelido para "a coisa". Senhor Minhoca foi o cognome vencedor, por conta do evidente hermafroditismo da figura. Apesar do sofrível ambiente, perseveramos, na férrea certeza de que, dentro em breve, as modelos acorreriam em massa para o local. Já imaginávamos até expedientes para nos livrar dos inconvenientes paparazzi. "A porra da fashion week deve estar acabando agora" - assim tentávamos manter o moral da tropa elevado, à 1:43 da madrugada no lugar vazio. E, de fato, havia alguma verdade nisso: ao cabo de alguns minutos, modelos acorreram ao lugar. Modelos homens. E todos de, pelo menos, uns três metros de altura. "A batalha nem começou e já perdemos feio..." - comentou entristecido e prostrado o meu amigo. "Que nada, rapá! Tu vai ver. Não dou dez minutos para isso aqui ficar forrado de mulher gostosa! E esses caras aí são todos viados também, bicho, vai por mim...". Enquanto o maná não vinha, ocupava-me em gastar o dinheiro que não tinha tomando vodka com energético. *** Umas várias vodkas depois, pensei que estava bêbado e via tudo dobrado. Que nada: o lugar enchera mesmo, e muito rapidamente. "As modelos, as modelos!" - foi esse o refrão que comecei a ouvir repetidamente, no meu sistema neuronial. "O Pai do INRI não se esqueceu de mim, não se esqueceu não!". Num rompante, saí andando por entre o povo. "As modelos, cadê as modelos, porra!". Súbito, uma loiraça de 1,80m se destacou na minha frente. Enquanto eu me dirigia a ela para colher o que me era de direito, um dos modelos gigantes que antes haviam chegado cortou-me o caminho e, sem maiores delongas, tascou-lhe um beijo na boca. Meio surpresa, meio orgulhosa de tamanha deferência por parte daquele belo mancebo, a moça consentiu com o cumprimento, e fiquei eu e meu copo olhando perplexos a cena. "Filha da puta", concluí com meus botões, em desfavor da honestidade da bela candidata a minha esposa. Para não estender ainda mais a conversa, que já está longa, entrego-lhes o saldo dessa "balada" muderna: conta bancária, zero; loirão gigante, todas as mulheres. É isso mesmo. Enquanto eu zerava minha saúde, minha moral e minha conta bancária no vício da bebida, o modelo fura-olhos que veio da fashion week rapou todas as beldades da noite, sem que nenhuma manifestasse qualquer ressalva contra a, digamos, pouca fidelidade do rapaz. Esse era o macho alpha da parada, indiscutivelmente. Eu, meu amigo e toda a horda de símios ômega ficamos ali olhando e bebendo, bebendo e olhando, amarfanhados num canto do recinto. Um mero oi a uma moça, digamos, pouco privilegiada em termos estéticos, na certeza do exitum letalis do xaveco barangal, e um sonoro desprezo era a resposta. Foi aí que concluí: as poucas mulheres feias e estranhas, que são as únicas que se dignaram deslocar-se àquela merda de lugar, acham-se modelos, e, o que é pior, nessa condição sentem-se no direito de desdenhar dos pretendentes que não sejam exatamente um sósia de Apolo. Vida de símio é foda. "As poucas mulheres boas, aquele corno do loirão tá pegando; as barangas se acham modelos... tamo fodido, porra!" - já embriagado, comecei a filosofar junto com o meu paciente amigo e colega de infortúnio. "Dá mais uma vodka aí pra mim, Dotô Minhoca... e um red bull também, catzo!" *** Hora de pagar e mais uma alegria: fila. Fila desorganizada, demorada e com gente furando a toda hora. Reclamei e quase levei um cacete do bom segurança que ali estava para coibir saidinhos que, como eu, ousavam questionar quem exercia o seu direito de furar a fila. Chega a minha vez e constato: realmente, excedi-me mais uma vez na bebida. Nada que uns cem paus não paguem. Sem sequer a deferência de uma nota fiscal, saí dali macambúzio e alquebrado moralmente. Essa foi uma das duas baladas que fiz neste feriado. A outra, em lugar igualmente muderno e inspirada pelas mesmas falsas esperanças, acabou de forma idêntica. A única vantagem do erro - dizem as pessoas sensatas - é aprender a não repeti-lo, de modo que desses repetidos malogros extraio as seguintes conclusões: 1 - quanto mais cheia de merda a colher, mais o paulistano quer pagar para degustá-la; 2 - sou símio pra caralho, e quanto mais erro, menos aprendo.
Esse aí sabe como se arrumar para uma balada muderna | 26.1.05
FANTASIA DE CARNAVAL
Dentre a montoeira de coisas esdrúxulas que tenho visto em minha já longa vida, a que me parece a mais bizarra é sem dúvida o Carnaval. É por isso que eu amo essa festa. Andou bem Dom Gustavo - que tem o conhecimento e a prudência de quem já morreu e voltou para nos contar o que viu - em suscitar tema que, de tão belo que é, jamais deixará de empolgar os nossos corações, dadas as suas múltiplas controvérsias, típicas das grandes questões que atormentam a humanidade: afinal de contas, o Carnaval é apenas uma mistura de putaria com cachaça, ou há alguma outra coisa que justifique os folguedos de Momo? Antes de dar minha resposta, vou logo dizendo que, em se tratando de tão complexo tema, não gastarei o tempo de ninguém dizendo o que todo mundo já sabe. É claro que, além da putaria e da cachaça, há quem ganhe a vida profissionalmente com os 5 dias de folia, fazendo-o de forma tão séria e dedicada a ponto de dispensar a labuta pelos outros trezentos e sessenta dias do ano. Passistas, compositores de samba-enredo, mestres-salas, porta-bandeiras, mulatas de profissão, bandinhas amadoras de bailes de salão, fabricantes de serpentina e confete, traficantes de lança-perfume, o Clóvis Bornay e a Luma de Oliveira, todos esses, além de outros mais, dão duro no Carnaval para garantir, senão a féria do ano inteiro, ao menos o pé-de-meia que lhes garantirá o pão de cada dia por alguns meses. São personagens pelos quais sempre tive respeito e, sobretudo, profunda admiração, decorrentes, uma coisa e outra, de algo que, para mim, soa tão misterioso quanto o terceiro segredo de Fátima: em que buraco essa gente se enfurna no resto do ano? Sinceramente, eis aí um mistério que há muito me atormenta. E que, por ora, abstenho-me de sobre ele especular. Há exceções, é claro, como é o caso da Luma de Oliveira, que, de quando em vez, manda um segurança dar um cacête em algum repórter desavisado para ajudar na divulgação do seu próximo trabalho não-carnavalesco (consistente, via de regra, em belas fotos em que ela aparece com menos roupa do que nos dias dos desfiles, ao menos por enquanto). E há também o Clóvis Bornay, que, de tempos em tempos, me aparece em um pesadelo que é recorrente, correndo atrás de mim com uma faca na mão para me matar, com batom na boca, purpurina no rosto e vestido com uma fantasia chamada "Libélula Esvoaçante das Primaveras da Tribo dos Xavantes do Amor e da Alegria". Sei que posso parecer louco, mas, em razão desses pesadelos, acredito que o Clóvis Bornay, na verdade, é uma maligna entidade alienígena, cuja existência se justifica apenas para atormentar as mentes menos privilegiadas, como é o meu caso. Há outra gama de pessoas que, embora trabalhem normalmente no resto do ano, aproveitam a história de Arlequim, Pierrot e Colombina para incrementar os lucros. É o caso das, digamos, profissionais do amor, outra nobre classe que, em tão prestigiada época, ganha dinheiro a dar com o pau - principalmente aquele saído dos bolsos dos gringos, encantados que ficam com a beleza fácil e barata das nossas matas, não muito virgens, é verdade. E também é esse o caso das bandas (e, sobretudo, das cantoras) profissionais do estilo musical que se convencionou chamar de axé (inventado, gostemos ou não, pelo cidadão de nome Luiz Caldas, verdadeiro patrono dessa arte, a qual ele, sozinho, inaugurou com a imortal canção "Nêga do Cabelo Duro"), e que, feito a saúva, proliferam pelo Brasil inteiro, através das, a cada dia mais numerosas e tradicionais, micaretas, picaretas, micaralhos e picaralhos. Luiz Caldas, vamos falar a verdade, é um gênio incompreendido e injustiçado. Se o brasileiro não fosse tão ingrato a seus heróis, o mínimo a fazer seria erguer-lhe uma estátua de ouro, de dez metros de altura, bem no meio do Pelourinho, em Salvador, com a seguinte inscrição ao seu pé: "Somos todos filhos de Luiz Caldas; aliás, já o éramos bem antes dele nascer". A frase encaixaria bem com o sentido artístico do Carnaval. Luiz Caldas pode não ter inventado a putaria, mas, indubitavelmente, ela a democratizou, levando-a para todas as classes sociais, que passaram a encará-la de forma serena e natural. Gostaria de me encontrar com o Luiz Caldas, pedir um autógrafo e render-lhe meus agradecimentos - eis que, de uma certa forma, também fui beneficiário da revolução cultural que ele implantou. Bem menos revolucionária, contudo, é a estranha mudança de espírito que a festa causa na multidão, que, junto com o Pierrot, chora pelo amor de Colombina, mesmo sem saber a história de um e de outra. É uma mudança que vem de fora para dentro - o que contraria todos os (pouquíssimos) textos que tentei ler (sem compreender, talvez), e que falam sobre o fenômeno da mudança nos hábitos, nas atitudes e nos pensamentos. Nesse caso, meu assombro não é para com um ou outro ícone carnavalesco, mas para com os figurantes da festa, desde os meus avós, que, nas madrugadas festivas, assistiam aos desfiles do Rio pela Globo - e que, com a normalidade de quem está a falar da novela, comentavam entre si coisas do tipo: "A Portela está muito bonita este ano" -, até os cabras que tiram dinheiro da caderneta de poupança para entregar ao bicheiro (ou traficante) dono de uma escola de samba, o que lhes dá a honra (remunerada) de sambarem com ginga de dinamarquês por entre os nativos, que lhes toleram pelo preço da fantasia, e que, fazendo jus à tradição da putaria, tiram uma casquinha das burguesas com a cabeça cheia de cachaça, dando-lhes democráticas encoxadas na bunda - apenas para ficarmos nas preliminares. E vem daí minha perplexidade: nos outros dias do ano, meus octogenários avós, não obstante passem as madrugadas carnavalescas comentando com ares de profissionais a, para mim, insondável beleza ou feiúra dos desfiles, dão tanta importância ao samba quanto eu dou ao campeonato da liga universitária de beisebol feminino do Estado do Texas. E mais incrível ainda me parece a monumental boa vontade dos que pagam para desfilar - ou para entrar em algum baile de salão - em decorar as dadaístas letras do samba-enredo que se obrigam a cantar - ou em entonar, em alta voz, as surreais marchinhas do tipo "Eu mato/ Eu mato/ Quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato". É uma mudança de comportamento com data marcada pela folhinha, pra começar e pra terminar. Vamos esclarecer os fatos: se música de carnaval, de avenida ou de salão, fosse coisa boa ou, como dizem alguns, "emocionante", todo mundo ia ouvir isso o ano inteiro, inclusive dentro do carro, numa terça-feira de manhã, a caminho do trabalho, num mês de julho chuvoso. Replicará alguém dizendo que a magia do Carnaval está justamente nisso: o prazer que ele propicia deve ser sorvido a doses moderadas, 5 dias por ano e não mais que isso. Bobagem. Não impomos limites para aquilo de que gostamos. Duvidam? Então me doem algum dinheiro. Estou para ver algum anormal que se recusa a receber algum tutu sob o argumento de que dinheiro é bom, mas devemos aceitá-lo com moderação. Uma coisa eu garanto: podem me dar dinheiro à vontade, jamais irei recusar, seja qual for a época do ano. Eu sei que sou chato. Chato e, quem sabe, até mal-agradecido. Por conta do reinado de Momo, tomei muita cachaça e, com sorte, admito, tive a benção de participar de algumas putarias. O diabo é que, quiçá com menos êxito, empenhei-me a sério pelo resto daqueles anos para tomar ainda mais cachaça e entrar em outras tantas mais putarias. Carnaval, dirá outrem, é apenas para se divertir, não é coisa para se pensar. Concordo. Pensar nunca foi o meu forte - de modo que, em sendo assim, estou muito bem adaptado ao espírito da festa. Só que a minha preocupação, então, recai sobre os outros meses do ano, sobre os outros meses da vida, sobre os outros bailes em que eu, feito um holandês no meio de um desfile da Salgueiro, sigo a dança apenas por seguir, e alegro-me apenas porque, de fora para dentro, convenço-me de que é tempo de alegria. Acostumado com o ritmo que me cerca, nem me darei conta quando, no Carnaval ou fora dele, embicar na comissão de frente da Beija-Flor, que, neste ano, resolveu fantasiar alguns de seus integrantes de soldados nazistas (a respeito, Folha de São Paulo de 22.01.05, matéria intitulada "Nazismo inspira coreografia da Beija-Flor", página C-5). Não sejamos preconceituosos: como ninguém é de ferro, eles também têm o direito de cair no samba. A explicação para essa, convenhamos, inusitada representação foi muito bem dada pelo coreógrafo da escola, o senhor Hilton Castro: "A escola decidiu lembrar de algumas barbaridades cometidas pelos cristãos antes das missões. Achei que seria válido mesclar os nazistas, que cometeram a maior atrocidade universal buscando a raça pura, com os soldados romanos". O homem, como se vê, é um historiador nato. Será deveras emocionante ouvir o toque da bateria da Beija-Flor este ano, fazendo o povo vibrar na avenida. Uma sensação indescritível - e de sensações é feita a vida. O senhor Hilton Castro fará por merecer tanto os meus aplausos quanto o meu dinheiro, os quais lhe entregarei sem pensar muito, porque esse negócio de pensar, além de chato, não é para mim - inclusive nos dias em que Momo não reinar. O Carnaval, portanto, é bem mais do que cachaça e putaria. Infelizmente.
O Hilton Castro também ajudou na composição do samba-enredo da Beija-Flor deste ano | 21.1.05
O AMOR É LINDO
A Reuters noticiou, há poucos dias: "ALEMÃES VOLTAM À ESCOLA PARA APRENDER A FLERTAR Eles podem até ser bons em lidar com montes de dinheiro, mas os solitários bancários de Frankfurt estão voltando para a escola para aprender a conquistar uma companhia. Uma faculdade na capital financeira e dos solteiros da Alemanha afirma que o curso "Flerte, a arte da sedução" ensina as pessoas a expressar desejos, mandar sinais corporais e desenvolver seus próprios estilos de paquera. A instrutora do curso, Florentina Ionescu, disse que pretende levar um pouco da paixão do sul da Europa às vidas dos financistas do norte, que são bons com planilhas, mas ruins nos gracejos. "As pessoas do sul da Europa são mais abertas e rápidas para sorrir ou elogiar", observou. "Mas no norte, elas não têm todo esse charme. Mostro a elas como podem fazer perguntas ou mudar de assunto se a outra pessoa está ficando entediada". O curso, cujos alunos estão na faixa de 20 e 30 anos, é um dos mais procurados da faculdade. Até agora, pelo menos quatro dos alunos de Ionescu desenvolveram relacionamentos com colegas de classe." *** Esses alemães são incríveis. Inventaram a Faculdade do Xaveco. No fundo, é aquilo que sempre dizemos: o homem moderno perdeu seus instintos naturais em algum canto da evolução, mas não adquiriu uma razão superior que preenchesse as lacunas do instinto perdido. O homem é sub-símio. O resultado pode ser notado nos vários relatos deste blog, como no texto "Doutor Pepe e as Maravilhas da Medicina". Ali foi contado o verídico caso da caboca que não conseguia engravidar, porque ela e o marido simplesmente - depois descobriu-se - não usavam o buraco certo. Habituado a visitar as cabritas, o esposo desconhecia coito diverso do anal. A esposa, para ajudar na desgraça, nunca se ligou que a sua, digamos, torneirinha, tinha também outra serventia. Resultado: filho zero. Não podemos dizer que a natureza não seja sábia... Portanto não me surpreende que o alemão não saiba xavecar uma mulher, uma vez que o sujeito que já a possui nem sequer sabe usá-la corretamente. Daqui a pouco mulher vai vir com bula. *** Mas algo está particularmente errado com os alemães. Afinal, como diz a sabedoria popular, confirmada pela ciência do comportamento, mulher gosta é de dinheiro, não de homem - e as feministas que vão reclamar lá na universidade. Recente documentário demonstrou cientificamente que, enquanto o homem escolhe suas parceiras visualmente, para as mulheres o mais importante é a "estabilidade financeira" (leia-se: a grana, a bufunfa, o faz-me-rir) do macho. Se esse comportamento feminino é um mero resquício de priscas eras, e um tanto injustificável nestes tempos de libertação feminista, isso os cientistas não sabem ao certo. Mas é fato comprovado que, ainda hoje, o grosso das mulheres escolhe o macho que tem dinheiro, ao invés de um belo pobre. Ponham o Raí numa obra, de chinelo havaina e chapéu Sassá-Mutema, todo sujo de cal, ou o Airton Senna empurrando um carrinho de papelão na rua. Duvido que algum modelo lhes daria bola e veria que grandiosíssima beleza interior eles possuem. Podem fazer o teste. Causa espanto, pois, que os ricos "financistas" de Frankfurt tenham dificuldades de comer alguém. Se o cabra é feio, burro e nerd, vá lá ele não conseguir nenhuma mulher. Mas se ele é rico - mesmo que continue feio, burro e nerd - ele bate qualquer Paulo Zulu na hora do vamos ver. Quem duvida, repito, que vá se instruir na revista Caras, ou numa boate da moda, ou, sobretudo, numa praia badalada (Maresias, por exemplo). Os cabras ricos têm as mulheres de melhor qualidade, e ponto final. E, o que é mais importante: essas dadivosas moças, que bem sabem escolher nesta selva o macho mais apto a prover uma prole, elas mesmas chegam no cabra. Em síntese: o riquinho não precisa xavecar ninguém. Feio ou belo, ele é que é o xavecado. Daí, portanto, a minha perplexidade com a situação dos banqueiros frankfurtenses. O cabra é loiro e de olhos azuis (vantagem que, como visto, pesa pouco) e rico (vantagem que, como visto, pesa muito), e mesmo assim continua criando pêlos na mão. De mistérios é feita a vida. *** Mas a professora de xaveco dá um toque que, parece-me, insinua uma resposta: "As pessoas do sul da Europa são mais abertas e rápidas para sorrir ou elogiar", observou. "Mas no norte, elas não têm todo esse charme. Mostro a elas como podem fazer perguntas ou mudar de assunto se a outra pessoa está ficando entediada". Pelo jeito, os abastados alemães de Frankfurt são é muito, mas muito malas. São tão chatos que, mesmo bonitões e cheios da gaita, espantam qualquer mulher. A força da chatice desses malas é tamanha, que chega a superar a força atrativa mulher-grana. Sugiro, para essa alemãozada rica e tonta, um estágio em Maresias. Ou mesmo na boa e velha orla de Copacabana, onde todo alemão fica divertido e interessante, conforme me atestaram as gentis moreninhas que ali circulam. Nenhuma relação, aliás, é mais sincera do que a de uma moreninha favelada com um alemão velho e rico: o teutônico pançudo deseja o corpo jovem e queimado da Shirley, que é tudo o que ela tem; a Shirley, por sua vez, deseja tão-somente dinheiro, que é apenas e exatamente o que o bebum germânico possui. É a sede juntando-se à água cristalina da bica, de parte a parte. Deveras, o amor é lindo.
"Gastar em curso de bacana? Eu vou é pra Copacabana!" | 20.1.05
O QUE FODE O BRASIL É O BRASILEIRO
Nossos dois ou três leitores já devem ter notado um fato curioso: só se homenageia o caboco depois de morto. O Bezerra da Silva, meu herói e inspirador, até ontem era tachado de maloqueiro e drogado, e hoje é a última lenda do samba que se vai, um homem honrado e defensor dos pobres da favela. O Brizola, antes de ir falar ao vivo - ou melhor, ao morto - com Jesus, era tido por um político anacrônico, uma velharia que estava fazendo hora extra no mundo. Quando escafedeu-se, virou outro ídolo, um valente e combativo homem, de reputação e honra ilibadas, um sujeito que nasceu pobre e se fez etc. e tal. Concordo é com o toque do Nelson Cavaquinho: "quero as flores em vida". É isso aí. Quem quiser me elogiar por algum motivo (apesar de eu até agora não ter feito nada elogiável), que o faça enquanto ainda não fui à refeição em que se come capim pela raiz. Afinal, morreu, fodeu. *** Mas eu entendo esse costume de elogiar o defunto e atacar o vivo. É que o puto do vivo atrapalha o elogio, com seus atos e opiniões sempre questionáveis. O morto, por outro lado, além da virtude de ser mudo, não passa de pretexto para invocarmos, pela memória, os momentos marcantes da vida do grande homem. E nesses momentos memoráveis só se encontram qualidades. Naquele dia o defunto mostrou combatividade sem igual, naquela música inspiração sem par, e nas tribunas arriscou a própria vida em favor da nação. Até os despotas, depois de mortos, se notabilizam por alguma qualidade que em vida seria defeito. Vide o genocida Napoleão, cujo cadáver é o maior Estadista de todos os tempos. *** Perco-me em digressões e esqueço o que ia dizer. É o seguinte: o que fode o Brasil é o brasileiro. Digo e volto a repetir, porque essa verdade simples - como toda verdade simples - é muito verdadeira: o que fode o Brasil é o brasileiro. Explico-me. Assim como é o vivo que desonra o morto, é o brasileiro que fode o Brasil. Os viventes deste país, que são os elementos constituintes desta nação, são seus piores detratores. Fico imaginando o Rio de Janeiro sem ninguém: cidade maravilhosa. O Corcovado sem um sujeito de pedra com os braços em cruz, convidando ao martírio; a Baía de Guanabara limpa e potável; os contornos da Mata Atlântica virginais e sem concreto armado; as praias sem micoses e outras desgraças que só os humanos propagam... Até uns índios, à falta de humanos, eu poria como figurantes para completar o cenário digno de um Éden. Mas aí vêm os viventes e põem tudo a perder. Até os mortos eu consentiria que habitassem a cidade, porque além das belezas naturais, o Rio fica muito bem com um espírito de Tom Jobim, outro de Cartola e um de Bezerra pra agitar a coisa. Mas os viventes... *** Penso que esse juízo é extensível a todo o resto deste belo país. Temos todos os minérios que existem e ainda alguns cujo uso ainda nem se descobriu. Os solos são férteis e infinitos. A diversidade biológica é incomparável. O litoral é gigantesco, e além do turismo, comporta a farta produção de petróleo. Só falta uma coisa ao Brasil para dar certo: colocar um povo decente no timão desse barco. Mas de esmola ou coco da praia se vive, e assim a gente vai levando. No Japão, de fato, é preciso queimar a moleira: naquelas pirambeiras sem nada, o cabra tem que criar alguma coisa pra trocar com o exterior - tecnologia, por exemplo - senão passa fome e não tem como aquecer a própria casa. Aqui, graças o bondoso Deus, não precisamos mesmo esquentar a cabeça: a Providência dará tudo. Isso se não me der logo a quina da Loto. Para os males do corpo, o brasileiro reza pra Nossa Senhora, ao invés de procurar um médico; para os males da alma e problemas em geral, mais santos: o Expedito pra dar dinheiro aos vagabundos, o Antônio pra casar as gordas, o Francisco pra curar o cachorrinho, o Dimas ("bom ladrão") pra evitar roubos, o Cristóvão pra evitar acidentes e até o Ivo pra defender os honorários dos advogados. Na dúvida sobre o santo adequado - escolha que dá trabalho - apela-se para o coringa que é o "Padim Padi Ciço", e tá tudo certo. É só esperar que um dia a benesse vem. É tiro e queda. Um colega meu lá da Paraíba do Norte, inclusive, disse que um primo do cunhado dele ficou grávido e o Padim curou ele desse grave pobrema. *** Os exemplos de "simiedade simplex" são infinitos e este espaço não, de modo que paro aqui com a demonstração de que é o povo que botaram aqui em riba que fode com o Brasil. Fosse pelas matas e pelos macacos-pregos e já seríamos uma Suíça. O brasileiro, volto a dizer, é que fode com tudo. É por essas e outras que mudei meu conceito sobre nosso ilustre presidente Mula, digo, Lula. Antes eu achava que ele, além de sem graça, era burro. Com o advento dessa campanha "o melhor do Brasil é o brasileiro", pude finalmente concluir: o presidente é um genial humorista.
O presidente conta uma piada de português num de seus shows | 18.1.05
A DOR DA TRAIÇÃO E O PODER DO MERCADO
Estamos sendo traídos. O que antes era uma vaga sensação, agora se materializou em forma de certeza. No começo de nossa gloriosa carreira, tínhamos 05 (cinco) populosos leitores. Agora, pelo jeito, só nos restou 01 (um) solitário e fiel visitante deste blog: o Comendador Gomes. Ele foi o único que ousou nos instruir acerca da tormentosa questão que nos aflige, e que era: "o carnaval é só putaria e birita?". Eleita por aclamação a melhor resposta recebida, publicamos abaixo a reflexão do Comendador Gomes, para instrução dele mesmo, que, como dito, é o único leitor que nos restou. É sempre bom constatar a própria sabedoria. Vamos lá à resposta do vate. O poético texto, pelo que a nossa simiedade pôde extrair de seu sofisticado raciocímio, contém uma espécie de crítica a estes redatores (ou seja, nem nosso único leitor nos respeita mais): "O carnaval é só bebida e putaria?, querem saber os senhores. Eu diria que, para os símios, o carnaval tem estes dois elementos (que combinam muito bem, aliás) em profusão. Quanto mais símio, mais bebida e mais putaria. Já aqueles que tiveram a infelicidade de consumir mais proteínas na infância e, como conseqüência, conseguiram um cérebro que pensa mais (e acham que isto é alguma vantagem), perdem tempo demais em digressões sociológicas sobre a folia de momo, acabam não comendo ninguém e aí têm que encher a cara para esquecer. Logo, quanto mais símio, mais mulé o cabra vai pegar (a pinga, no caso, é só para encorajar um pouco mais) e vice-versa. O que nos leva à necessidade de um questionamento mais profundo sobre o que é ser símio e o que não é. Mas este é outro assunto. Comendador Gomes" *** Desgraça pouca é bobagem, já dizia o sábio povo brasileiro. Foi portanto com desolação que constatamos que, não bastasse a debandada de 04 (quatro) de nossos 05 (cinco) leitores, ainda tem gente que quer lucrar às nossas custas. Todo mundo quer chutar cachorro morto. Assim, se por uma lado não recebemos as respostas de nossos leitores à enquete carnavalesca, algum irônico e desalmado sujeito resolveu oferecer-nos, a nós que pouco apreciamos os folguedos de momo, a auto-intitulada "camiseta oficial carnaval 2005". A cópia da tela de nossa caixa postal não nos deixa mentir:
O curioso é que o cabra que vende essas prestigiosas vestimentas, de inegável refinamento e bom gosto, só não disse "oficial" de onde que era a camiseta. Fico imaginando: no interior de sua estamparia, uma gaiato qualquer pega uns motivos florais de inspiração baiana, compra uma mala direta na Praça da Sé, e soca na caixa postal alheia a descarada oferta de "camiseta oficial". "Camiseta oficial" pra mim é a do Presidente da República, de modo que só acreditarei na realidade da "camiseta oficial" ofertada quando o nosso ilustre e ilustrado Lula começar a despachar usando tal traje de gala. Pensando bem, cala-te boca. *** Mas não é só. Desgraça pouca é bobagem, volto a repetir. Não contentes em nos oferecer camisetas oficiais do carvanal da casa-do-caralho, os probos comerciantes da internet ("virtuais", sem dúvida) resolveram ironizar de vez a nossa séria enquete. É essa a única explicação para o outro e-mail que recebemos, ato-contínuo à formulação da singela pergunta "o carnaval é só putaria e birita?". Vejam só o danado:
Se não puderam ler o produto ofertado, esclarecemos: trata-se de "bafômetros (etilômetros) e detectores de drogas". Como título, a mensagem traz a advertência: "a sua segurança pode estar aqui". Puta que o pariu, não faremos mais enquetes. Eu, de minha parte, vou observar a advertência e, por via das dúvidas, pararei de beber. Só pra não me ver um dia no meio do carnaval baiano, vestido com a "camiseta oficial", e obrigado por algum gambé a botar a boca no seu "etilômetro" funesto. Afinal, carnaval é só birita e putaria. | 14.1.05
O MUNDO SÍMIO QUER SABER
Eis a primeira enquete feita pelo Mundo Símio com seus sábios 5 leitores. O carnaval se avizinha, e lá em Sergipe, ou na Bahia, não sabemos ao certo, dizem que a farra já começou. As micaretas, de erudita inspiração baiana, espoucam aqui e acolá. Dizem que numa promissora cidade do interior de São Paulo o pessoal mais "antenado" resolveu não deixar por menos, e, por inspiração do arrojado povo baiano, também resolveu criar o seu carvanal fora de época. Se não me engano a cidade se chama Ferreira de Carvalho, e a festa, "MICARALHO". Felizmente (para eles), também os caipiras já podem dançar horas a fio ao lado de cabras suados, todos embalados pela esperança de algum dia tirar a cueca na frente de alguma prestimosa senhora bêbada. O problema é que, em geral, toda essa alegria se transmuda misteriosamente em grossa pancadaria. "É a testosterona acumulada no ar", dizem os versados na antropologia da porrada. Toda essa celebração dionisíaca da falta de ter o que fazer, entremeada não por ditirambos gregos, mas pelas originais músicas de "axé", faz estes editores refletir. Mas como somos muito símios, não conseguimos concluir nada. Por isso resolvemos perguntar aos nossos fiéis e abnegados cinco leitores, à guisa de dever de casa para o fim de semana: - O carnaval é só putaria e birita? Respostas para o nosso e-mail, por favor. As mais sábias respostas não ganharão nada, assim como as mais simiescas. No entanto, aqueles que conseguirem guinchar algumas palavras sábias o suficiente para nos espantar, ganharão o merecido espaço neste blog para que possam também instruir os demais leitores. Em suma, publicaremos as mel |