30.1.04

E pra completar.... pau no cu dos passarinhos.

(para baixar a versão na íntegra, crica nimim).


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Carteira de Trabalho de um paulistano.




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29.1.04

Pau no cu de São Paulo

Uma idéia qualquer, se repetida à exaustão por muita gente, acaba virando verdade, por mais absurda que seja. Um exemplo claro foi dado há pouco, no fim de semana passado, por ocasião dos 450 anos da cidade de São Paulo. Milhões de pessoas saíram às ruas pra comemorar o fato de morarem numa cidade escrota, cheia demais, com gente demais, suja, inóspita, agressiva, insalubre. Outros porrilhões, espalhados pelo Brasil todo, foram submetidos a 25 horas de programação oba-oba da rede Globo, como um convite para que o resto da nação venha também pra cá, pra gente se espremer mais um pouquinho.

Eu fui ao vivo dar uma olhada na avenida 23 de Maio. Que situação! Uma manada, uma turba ensandecida a pé pelas duas mãos da megavenida de 10 pistas, dois milhões de filhos das putas andando sem parar, pois não havia nada para fazer. Não havia barraquinhas de rango, nem corte japonês de cabelo, pois isso houve apenas para as câmeras da mesma Globo. Era simplesmente a 23 tomada por dois milhões de pessoas andando, pois tudo nesta cidade demente é sinônimo de multidão. Haja saco.

No final do ano passado, estive na Chapada Diamantina. Fiz uma trilha de dois dias e no meio da viagem, numa parada para o almoço, meu grupo acabou encontrando um monte de outros, quando formou-se uma roda de brasileiros de vários lugares do país. Tinha dois baianos, um potiguar, dois pernambucanos, um carioca, três gaúchos e eu de paulista. Em dada hora, em meio à roda enfumaçada pelo famoso fumo solto da Bahia, a moçada começou a comparar regionalidades, puxando sardinha pra brasa do seu bairro, quando a moçada pegou a falar mal de Sampa, dizendo que nunca moraria por aqui por causa da loucura da cidade e por aí vai. Mas ficaram meio ressabiados pela minha presença, como se eu fosse ficar puto por estarem criticando a cidade onde nasci e moro há 33 anos.

Bem, eu disse bem assim: "eu não tenho qualquer apego com São Paulo, eu quero que São Paulo se foda". E moçada riu de se arrebentar (o solto da Bahia ajudava), como se fosse hilário brincar com o maior dos sacrilégios de maldizer o torrão natal. Mas acontece que eu acho que a coisa boa de São Paulo é que aqui é tão ruim que você acaba não perdendo tempo com bairrismos adolescentes. Você percebe logo que o buraco é mais embaixo.


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Padre Quevedo X Dona Amira
(texto da lavra de Dom Victor Alfonso da Silva Gomes, português, sociólogo e colaborador deste blog).


Lembrei-me de um outro embate memorável sobre crenças símias, ocorrido em um desses programas femininos vespertinos (digamos que tenha sido no programa da Márcia Goldismiti, com platéia). Os contendores eram Padre Quevedo e uma tal de Amira Lépore, auto-denominada "Vidente Oficial do PC Farias", que, segundo a própria, vive em Miami, onde divulga as artes místicas tupiniquins e atende caciques da política símia norte-americana. O debate corria em altíssimo nível intelectual e o jogo estava empatado em 1 X 1 aos 44 do segundo tempo. A platéia claramente pendia para o lado da conselheira espiritual do honesto empresário das Alagoas, que também era discretamente beneficiada pelo juiz, digo, pela Márcia Goldismiti. O que desempatou a partida foi um golaço: quando Padre Quevedo desafiou a matrona a adivinhar o que estava escrito em um papel que estava em seu bolso, D. Amira respondeu de forma incisiva "Padre Quevedo, o senhor é espanhol e vive fora do seu país tentando achincalhar gente séria como eu. Eu sou brasileira e vivo nos Estados Unidos divulgando as ciências místicas brasileiras, melhorando a imagem do Brasil no Exterior. O senhor não tem moral para me contestar!!" O público urrou, impedindo que o religioso pudesse dizer qualquer outra coisa. Márcia pediu os comerciais e na volta passou-se a discutir os benefícios da drenagem linfática para a eliminação de toxinas e impurezas do organismo e reduzir a celulite.

Por isso é que eu sempre digo: se o povo quer comer merda, dê-lhe uma colher."



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28.1.04

JORNAL DO MACACO

Extra. O impagável Jornal do Macaco, provando que o mundo é nosso, publica abaixo um email real que nos fala da consciência de sagüi, dali e daqui, que dominou geral. O email foi mandado por um fulano chamado Chororó, mas conhecido como Korus. Lá vai:

Prezados

As vezes a vida nos brinda com espetáculos gratuitos que nos fazem simplesmente achar que esse tal de mundo não é sério mesmo....

Ontem tive o privilégio de assistir um debate de altíssimo nível, mediado pela brilhante Luciana Gimenez em seu programa Superpop, com os seguintes participantes:

1) Inri Cristo
2) Padre Quevedo
3) Mãe Dináh (para tudo !)
4) Pastor João Gouvêia, representado os evangélicos.

Momentos Mastercard:

1) Inri Cristo quebrando o evangélico, perguntando por que é que um cara que ganha duzentos cruzeiros por mês e tem todas as contas do mundo para pagar pode se dar ao luxo de contribuir com um dízimo de 10% de seus vencimentos para sustentar palácios e farsantes engravatados como o tal pastor

2) Padre Quevedo solicitando ao Inri que respondesse uma pergunta em hebraico, língua original de Jesus Cristo. Sabe que respondeu viu ?

3) Padre Quevedo dizendo a Luciana Gimenez que a Igreja Católica é contra os métodos anti-concepcionais, pois, se liberar, o número de mães solteiras iria explodir (lembrar episódio Mick Jagger).

4) Assistente de produção da Luciana Gimenez afirmando, em cadeia nacional, que Inri Cristo curou seu olho, para total desespero da apresentadora.

5) Padre Quevedo, aos berros, ordenando o Inri Cristo que fizesse um milagre ao vivo. O pedido era simples - Dobre meu Dedo. Dobre meu dedo agora, contra minha vontade ! Resposta do Inri: Seu dedo está muito sujo, sei lá onde você andou enfiando esse dedo...

6) Luciana Gimenez, afirmando que, devido ao alto nível do debate (ao vivo), infelizmente não seria possível apresentar suas aventuras com os cangurus da Austrália...

7) Todos os participantes dando, no final, o número de telefone para consultas, consultorias e contatos comerciais. Infelizmente não anotei o da Mãe Dinah...

Em virtude da existência dessas pessoas, reflita sobre a sua própria vida nesse planeta. Não faça horas extras, deixe metade do que tem que ser feito para amanhã e saia para beber com os amigos, pois poucas pessoas estão levando a sério essa vida....

Me coloco a disposição como capitalista e sócio para qualquer um de vocês que queira montar uma distribuidora para revender a fita.... Melhor comédia do ano disparado.

Quem viu, viu. Quem não viu vai comprar a fita.

Abraços

Korus



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26.1.04

Este aí se lembra do Marinho Rã


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Marinho Rã

E já que em bela poesia se falou em cagada, creio ser de bom alvitre falar do último feito da seleção sub-símia. Porque pior do que apanhar da tradicional seleção paraguaia, foram as entrevistas dos agora mais do que nunca famosos jogadores brasileiros.

Como todo símio que se preza, os esforçados jogadores, preocupadíssimos com a imagem que lhes rende dinheiro, mulher e carro, botaram a culpa em tudo e em todos, menos neles próprios - com destaque especial, nesse rol de culpados, para Deus, que sempre costuma ser lembrado nessas ocasiões.

Para o libelo de acusação contra as injustiças do Senhor, citou-se, com unanimidade, o jogo contra a Argentina. A seleção sub-símia merecia ter ganhado, perdeu muitos gols, baita azar, mas fazer o quê?, Deus é assim mesmo, que reclamem com Ele, Deus mereceria ser castigado, Ele é que toma conta desse troço de sorte e azar, etc, etc, etc.

Eu, do meu lado, que sempre tive vocação biológica para ser padre, vou fazer a defesa de Deus, por mais graves que sejam as acusações.

No início dos 80, Dunga (como titular) e Bebeto (como reserva) foram campeões mundiais sub alguma coisa, num time dirigido pelo Jair Pereira - e que, dentre outras figuras menos gloriosas, tinha como lateral direito um tal de Heitor (que era tido como o sucessor do velho Nelinho, mas que deu em absolutmente porcaria nenhuma), como meia esquerda um cabra chamado Geovani (que, depois, de jogador do Vasco passou a Presidente da Assembléia Legislativa do nobre Estado do Espírito Santo), como ponta direita um camarada chamada Mauricinho (bom jogador até, e que nada tem a ver com a alcunha pela qual, anos depois, ficaram conhecidos os burguesinhos filhos de burguesões) e como ponta esquerda um sujeito que portava o criativo apelido de Paulinho (jogador do Fluminense, cujo ápice da carreira foi ter sido convocado uma vez para a seleção principal dirigida pelo Telê Santana, pouco antes da Copa de 86). Mas o grande barato daquela seleção era o Marinho Rã: um negrão da Portuguesa que era o centroavante, danado de ruim.

Em tudo quanto era jogo acontencia sempre o mesmo: o Geovani, o Paulinho e até o Mauricinho caprichavam no toque, bolinavam na intermediária, faziam a zaga cair de zonza e, na área, jogavam a bola com açúcar na cara do negão que, livre, invariavelmente metia uma bicuda de olho fechado, cujo previsível resultado era sempre o mesmo comentário: "Puta que pariu, como esse negão é ruim!".

A bola fazia o mesmo percurso muitas vezes: mansa, partia do meio de campo, ia pra lateral, voltava pro meio, trocava rápido de pé e ia sobrar sozinha pro Marinho Rã meter a botina e mandá-la lá pra perto das várzeas do Canidé.

Não foi à toa que, depois do campeoanato, o Marinho Rã foi mandado embora da Portuguesa e provavelmente mudou de profissão - coisa que costuma acontecer para quem não dá certo nem mesmo no time dos patrícios.

Numa estimativa otimista, de dez chutes o Marinho acertava um na direção do gol, e, quando o fazia, era porque tinha acertado mais a grama do que a bola. Mesmo assim o Brasil foi campeão. E olha que nem era um time tão bom assim - até porque, ao que me consta, o tal do Geovani acabou cassado da presidência da Assembléia, vítima infausta do implacável moralismo público que vigora nas bandas do austero Estado do Espírito Santo.

Marinho Rã dos novos tempos, o tal de Marçal, do Coritiba, perdeu pelos menos dois gols feitos contra a Argentina. Um centroavante de seleção faria os dois; o Marinho Rã ia chutar grama no primeiro lance e tropicar sozinho no segundo.

Entre Deus e o Marinho Rã, sou mais o Marinho Rã, esse artista incompreendido. Mas nem mesmo pela obra de Um ou de outro o Brasil deixou de ganhar aquele pequeno campeonato.



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À falta de coisa melhor, publico o seguinte soneto, escrito por ocasião de minhas andanças pelo Curdistão, onde me comovi e solidarizei com aquele povo pobre e sofrido.

Soneto da Cagada
(ou o drama do analfabeto)


Todos sabem que boa é a cagada
Quando a pessoa, no trono sentada,
Tem à mão uma pacata leitura
Que azeite a bosta, da mole ou da dura.

Mas há aqui uma gentalha azarada:
No bucho não traz merda, não traz nada.
É um povo fodido, vil figura,
Da merda irmã, na triste dor e agrura.

E não bastasse o estado em que estão,
O diabo - ele próprio - também caga,
Sempre no maior monte, o inclemente.

Assim cagado vive o pobretão:
Se obra por graça da janta a ele paga,
Como não lê, já não caga contente.

Dom Gustavo, direto de Cajamar


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23.1.04


Este aí foi o primeiro leitor deste blog


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22.1.04

Ano do Símio

E para não dizerem que os astros desmentem a filosofia símia, vejam o que afirmou hoje um símio esotérico, que se diz entendido nas coisas deste e de outros mundos. Juro que é verdade:

"Quinta-feira, 22 de janeiro de 2004
2004: o ano do macaco

Hoje inicia-se um novo ano astrológico chinês! Seremos regidos a partir de então, pelo ano do macaco e, com certeza, será muito mais agitado, dinâmico, ousado, conturbado, corajoso, virtuoso e alegre do que foi o ano de 2003 regido pelo tranqüilo e dócil carneiro.

Se as pessoas resolverem ficar em casa, tranqüilos, sem planejar nada, sem esperar grandes novidades, terão grandes surpresas, pois no ano de macaco, surpresas e novidades serão uma grande promessa. Só não aproveitará quem não quiser. Os sábios chineses dizem que no ano deste animalzinho tudo será possível e impossível."

Vale repetir a bela mensagem do preclamo guru: " ...no ano deste animalzinho tudo será possível e impossível". Eu não diria melhor, nem com maior clareza.

Dom Gustavo, direto de Madagascar.


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O temido oxiúro agora só ataca os sábios.


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Aquela Tênia, Solitária.

Assusto-me por haver dado de cara, assim de repente, com o velho vocábulo "terçol", aquela bolinha dura, feito um solzinho brilhante, que, pelo puro arbítrio do Tinhoso, vinha de tempos em tempos se alojar por sobre as pálpebras dos seres mais desgraçados pela Providência. E não menos assustado fiquei ao me deparar com a revelação feita no mesmo texto que cometeu a heresia de escrever tão endemoniada palavra: os terçóis, hoje em dia, simplesmente não existem!

Diante deste fato incontestável, resta-me tirar do bolso velha tese que minha prudência manda guardar quieta, mas que, volta e meia, a evidência dos fatos naturais me obriga a exibir com resignação: o Tinhoso, de fato, não apenas existe, como seu arbítrio domina o mundo. De lá do meio do fogaréu, Asmodeu se dobra de rir a cada maldade que inventa para os símios.

Sua tirania é infinita: pior do que repentinamente expelir da existência uma série de doenças - o que Ele faz satisfeito, apenas para confundir os símios, deixando-os coçar a cabeça nervosos pela perplexidade -, o Capeta inventa outras. Um crédito, porém, há de lhe ser dado: se o Tinhoso não tem lá muito apego pela bondade, seu senso de humor, de há muito já imbatível, vem se aprimorando a cada dia que passa. Basta ver os nomes das novas maldições que o Desgramado, sem qualquer pudor, assaca contra o povo.

Meu preferido é Síndrome da Vaca Louca. Confesso que nunca entendi bem a origem da expressão - se louca fica a vaca antes de ir para o abatedouro (o que me parece pouco provável, porque ficar fulo da vida antes de ser aporretado na cabeça denota, covenhamos, grande dose de sanidade) ou se louco fica o símio depois de comer-lhe a carne. Acredito mais, é claro, nessa segunda hipótese. O cidadão traça um filé à milanesa no boteco e, antes de tomar o cafezinho, levanta-se num rompante de fúria, joga pra cima o copo cheio molhando todo mundo, pula o balcão, agarra pelos cabelos ralos o português da caixa registradora sacudindo-lhe a cabeça e, como a estupefante paralisia de todos lhe incentiva a prosseguir na vingadora empreitada, ele se pendura por cima da caixa, de onde, a berros ininteligíveis, vai rasgando a própria roupa até ir embora correndo só de cueca. Andando a esmo, passa a tarde inteira a abaixar as cuecas para todas as velhas que vê pela rua, balançando o cacete mole e mostrando a língua com um riso obsceno. Não foi à toa que até o Carnaval da Bahia já lhe prestou merecida homenagem, cantando em prosa e verso suas belezas. Esta doença é das brabas.

Outra doença nova de nome esquisito é a Gripe do Frango Asiático, um tremendo preconceito contra os galináceos de olhos puxados. Nesse caso, ao que me consta, ficam gripados o frango e o símio que o come. O esquisito é que os frangos, me parece, servem de comida ao símio há alguns milhares de anos e nunca ninguém os tinha percebido gripados, fungando pelo terreiro e assoando o bico com a asa. Com o símio a coisa é diferente - parece-me que sua gripe é tão antiga quanto ele. Em razão desses fatos só me resta uma conclusão: algum chinês degenerado praticou amor com um pobre frango e passou-lhe a gripe que portava, o vagabundo. O pobre frango, para se vingar do triste destino de ser violentado e, ainda por cima, pegar gripe, estuprou algumas galinhas e pronto: tá espalhada a Gripe do Frango Asiático.

Fico só imaginando o que nos aguarda... E eu que, moleque de banco de escola, ouvia apavorado a professora de Ciências descrever com frieza sádica esquitossomoses e tênias solitárias - na verdade todas umas coitadas, de quem, assim como o velho terçol, hoje em dia nem se ouve falar. De cobras terríveis que habitavam as entranhas, as pobrezinhas ficaram quase românticas; se transformaram em bichinhos bobos que, para serem expulsos, exigiam apenas habilidade manual de quem as desfiasse pelo condoído reto do doente - o que, no máximo, causava certo constrangimento para alguns, mas certamente não para gente como o tal chinês degenerado.



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21.1.04

Terçol

O tempo passa e muda a face do planeta. Dinossauros se vão, símios pelados mandam robôs para Marte, uma festa. Mas há certas coisas que são realmente inexplicáveis nessa dança de Shiva. O kiwi, por exemplo. Pense bem. Kiwi é uma fruta que simplesmente não existia há coisa de dez anos, talvez um pouco mais. Não há ser vivo que tenha provado da fruta antes disso. Assim como não existia pizza de catupiri antes de 1979 ou coisa que o valha.

Mas o mais incrível é o terçol, aquela doencinha que, segundo definição do seu Antonio Houaiss, se trata de um "abscesso pequeno, do tamanho de um grão de cevada, que cresce na borda da pálpebra". Lembra? Com certeza que sim. Se você tem mais de 20 anos, há de se lembrar de algum amigo ou parente vitimado pela bolota purulenta nas pálpebras.

Mas aí é que está. Nunca mais ninguém teve terçol, e isso é absolutamente incrível. Nunca mais! A julgar pela minha experiência, rica em avistamento de terçóis durante a década de 1980, o terçol simplesmente desapareceu das plagas brasileiras, quiçá do mundo. Desde que Sarney era presidente do Brasil, pelo menos, nunca mais houve qualquer registro de casos de terçol. O que terá acontecido com a terrível bolota? Mistério.

ps - ô falta de assunto...


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20.1.04


Esse aí quer ser o novo Papa.


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"Razão animal versus ração humana"
(Ou "Nizão, esse Símio Esperto").

"Nizão Iguanaes é uma figura nojenta. Não bastasse ser publicitário, é um sujeito gordo, usurário, vaidoso e amoral (se bem que nestes tempos tortos a profissão e os adjetivos são redundantes). Vende político corrupto, palha de aço e tudo o mais como se fosse a mesma coisa, sem ver o que contém a embalagem. O importante é vender, vender, vender - ainda que isso rime com foder, foder, foder. O tal parece querer justificar a definição da Bahia feita por seu conterrâneo Boca do Inferno, há alguns séculos, que dizia que com dois "f" se faz a sua terra natal, "um furtar, outro foder". Ele furta e fode. O Gregório, aliás, já vaticinava a condição atual do país: "neste mundo é mais rico quem mais rapa".

São palavras infamantes, ainda que se limitem a descrever a realidade, mas as lanço apenas com o objetivo de compensar, à minha consciência, o elogio que farei a seguir à repugnante figura. Pois tenho de reconhecer: esse Nizão sabe como funciona a mecânica do desejo humano. Constatei esse fato quando, vendo uma entrevista com o sujeito na televisão, ele lançou em dado momento a frase certeira, cortante e sentenciosa: "os homens são irracionais; racionais são os bichos".

Dita ao léu, a frase soaria absurda e seria interpretada como mera troça. Não é. Nizão referia-se à arte de vender produtos, e ao papel fundamental que a irracionalidade humana desempenha nesse processo. De fato, compramos mais que o necessário, gastamos muito mais que a prudência recomendaria, comemos mais do que o corpo pede, esculpimos corpos mais fortes do que precisamos - numa palavra, não agimos racionalmente. Perdemos há muito o senso de utilidade das coisas e dos atos.

E a coisa já vem de há muito: os índios, mais próximos dos bichos do que do cartesianismo europeu, recebiam de bom grado dos branquelos utilíssimos facões e espelhos, em troca de quantidades de um inútil e fraco metal dourado que para eles mal servia. Eram racionais, os índios. Os europeus, cheios de quimeras, ganâncias, desejos e eldorados, razões pelas quais temerariamente se lançavam ao mar, muito pouco raciocinavam. Perderam havia muito o senso de utilidade.

Eis o ponto nodal. Os bichos, como observou a pertinácia de Nizão, é que são racionais. Ou alguém já viu um leão matar por razão diversa da mera e suficiente necessidade de alimentar-se ou defender-se? Ou um rato que rói a sua roupa mesmo estando com o bucho cheio, por pura sacanagem? Ou ainda um cavalo que transe com camisinha, por mero prazer e sem qualquer esforço reprodutivo? Os animais agem racionalmente, portanto, e seus atos nunca são pautados pela inutilidade ou pelo espírito de emulação, ao contrário do tolo homem. A burrice é predicado humano.

Na instintiva programação que governa com sabedoria e propriedade as ações animais, tudo é teleológico. O objetivo de todo bicho é sobreviver e transmitir os seus genes - se eles forem os mais aptos a tanto, naturalmente.

O homem é animal e, embora irracionalmente negue essa honrosa condição (o que só prova a tese nizaniana), como qualquer animal possui os mesmos digníssimos objetivos: sobreviver e reproduzir. Mas o homo sapiens de sábio não tem nada, o que o torna um bicho imperfeito - um animal irracional - que contraria a racionalidade intrínseca da vida natural. Seus desígnios espontâneos, racionalmente naturais, são freqüentemente turvados por irracionalidades de toda ordem. À sede já não basta a água suficiente, mas vinhos em qualidade e quantidade; já não se come até a saciedade, mas à exaustão; já não se quer o útil, mas o fútil.

Os exemplos correm como rios. O homem irracionalmente perde-se das veredas naturais, sempre pautadas pela utilidade e necessidade, e se extravia no caminho da desmedida. E não me digam que o homem é espírito, e por isso tem necessidades diversas da grei dos bichos. O homem é o produto da interação entre fatores biológicos e ambientais - como todo animal. Mesmo a cultura não é elemento estranho aos bichos, como hoje se sabe. Mas entre cultura e inutilidade vai grande distância.

Crer que somos portadores de uma alma alheia ao mundo natural, e que portanto seríamos superiores aos bichos, tudo isso não passa de uma grande irracionalidade, que só nos torna mais indignos dos nossos parentes animais. E em matéria de dignidade, reina o símio, senhor dos bichos e dos homens. O símio tem um instinto que nele é a própria racionalidade, como em todos os bichos; tem ainda uma rica vida cultural, repleta de diversões e traições; mas ele, o bendito símio, não tem a irracionalidade que caracteriza o ser humano e freqüentemente o destrói. O macaco tem a inteligência natural, o homem a burrice em alto grau. Só o símio é feliz. Só o homem é besta."
(texto de Dom Gustavo Alfonso da Silva Gomes, poeta português e colaborador deste blog).


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Dotô Biro-Biro.

Na firma em que finjo dar expediente, contrataram uma tiazinha dos seus cinquenta e poucos anos, que faz as vezes de faxineira - isto é, aparece por aqui duas vezes por dia para catar papel do chão e espalhar o lixo do cesto pelo corredor do nosso andar. No resto do dia, a tiazinha trabalha limpando os corredores do próprio condomínio mesmo.

Os cabelos curtos encaracolados, de um tom amarelo berrante - daqueles só conseguidos à custa da aplicação insistente de muita acetona acrescida da velha água mágica, capaz de oxigenar até os mais entupidos pulmões -, realmente lembram o ex-craque corinthiano, fazendo-se-lhe justa homenagem. E como a boa velha vive a chamar qualquer coisa que se mova de "Dotô", caiu-lhe bem o codinome: "Dotô Biro-Biro".

Sei lá eu onde mora o Dotô Biro-Biro. Mas sei que o faz em companhia de um bando de gente apinhada, filhos e netos das mais variadas idades. Sensibilizados por sua luta, o povo da firma lhe dá semanalmente um saco de bolacha velha.

Semana passada, o Dotô Biro-Biro estava radiante: dizia que ia "ganhar netinho". Pelas minhas contas, deve ser o décimo oitavo que vai dividir a mesma bolacha velha. Enternecidos com a beleza da procriação e a bondade de Jesus, o povo da firma prometeu-lhe se cotizar para doar as roupinhas da bela criança. Nem tudo, porém, são flores.

"Ontem eu cheguei em casa e vi o Sandison com a cara toda machucada" - Sandison, deduzo eu, deve ser o atual sócio mais novo a roer a bolacha dura.

"E o que aconteceu?" - quis saber alguém.

"Os rato tá mordendo ele" - explicou o Dotô Biro-Biro, com naturalidade.

"O quê?".

"Os rato tá mordendo ele" - reiterou, reforçando o mau uso da concordância verbal.

É isso aí: após alguns milhões de anos de supremacia do homem sobre o rato, os roedores, agora, resolveram dar o troco. Viraram o jogo. E já tão comendo o Sandison.

Ao que me consta, nem mesmo os saguis são comida de rato.

Assim, se o Pato Donald Rumsfeld quiser realmente fazer alguma contribuição, ele deveria voltar suas baterias contra os sábios dirigentes dos programas sociais do governo brasileiro e os não menos sábios clérigos da Santa Madre Igreja, todos eles avessos a qualquer idéia que se aproxime do controle de natalidade e da legalização do aborto. Ia ser o maior barato ver o Papa, todo fodido e barbudo, saindo de um buraco apoiado num pedaço de pau velho, com a batina rasgada a exibir para o mundo sua santíssima bunda. E tomando uns tapas na careca pra ficar esperto.



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19.1.04

Sugestão a Donald Rumsfeld

Já que o exército americano ninguém peita mesmo, gostaria aqui de propor ao secretário de Defesa dos E.E.U.U. que ele dê pelo menos uma função mais divertida à sua máquina de destruição.

Depois da captura de Saddam Hussein, a moçada deve estar meio sem ter o que fazer, mas eu proponho que, depois do iraquiano, eles centrem fogo no libanês Paulo Salim Maluf. Seria ótimo ver o velho Salim gastando seus milhões para construir bunkers e esconderijos secretos nos subterrâneos do Jardim América. Daqui do meu prédio, daria pra assistir de camarote a explosão dos mísseis de cruzeiro da marinha gringa, ali nos Jardins, tentando desentocar o bruto.

E no fim, imagina, os soldados finalmente achando o Maluf todo sujo, fodido e barbudo, mordido de rato, num dos canais que levam esgoto ao rio Pinheiros. Seria um presente e tanto a Sampa nos seus 450 anos.

Ao Pato Donald, fica cá minha sugestão.


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Vida de Símio

Ao que se sabe, portanto, a diferença entre o homem e o símio é coisa de 1%. O diabo é que, infelizmente, esse maldito 1% é responsável pela franca superioridade intelectual do símio sobre o homem - e não o contrário, como inadvertidamente até hoje se pensou.


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Chimpa

O homem veio do macaco, disso já se soube. E outro dia um cientista disse que entre nós e o chimpa tem, sei lá, 1% de diferença no DNA e mais nada.

Justamente para discutir nossa vida simiesca e outras coisas mais (na verdade, qualquer coisa), entra hoje no ar o blog Mundo Símio. Vamos ver em que bicho dá.


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