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31.3.04
Alquimia Símia Olhar o símio é duro, principalmente quando estamos diante do espelho. Mas há uma chave de ouro para entender o mundo e transformar alquimicamente a raiva inicial em pura fruição: olhar a arte contida nas manifestações simiescas. Um universitário carioca acredita que Tiradentes foi torturado durante o regime militar; uma celebridade anônima canta com beicinho de charme uma música cujo idioma desconhece; outros pensam que o general Franco governou o Brasil na ditadura, provavelmente d'além mar. Tudo isso é arte pura e espontânea. É o Picasso criança pintando obras-primas sem qualquer orientação. Comovo-me às lágrimas com a arte do povo. É por isso que, ao invés de me revoltar contra a aparente vaidade acadêmica do francês escrevinhador, mencionado no post do Senhor Quadrado aqui embaixo, ri a bandeiras despregadas: o cara é um humorista, caralho! Essa é a chave: não devemos levá-lo a sério. Nem ele se levava; tanto que matou-se. A semiótica - que a perspicácia de doutor Newton (o comentarista que assina como würlpa) já constatara ser na verdade a "simiótica", ou, como eu já disse, a "semi-ótica" - não passa de um exercício sistemático e deliberado de produzir hermetismos para conseguir emprego nos cabides universitários, e vender livros aos símios. Claro, porque o símio comum, ao contrário do sábio Senhor Quadrado, que diante da esfinge simplesmente fica quieto, gosta de propalar-se sabedor de todos os segredos - ainda que se trate evidentemente de uma mentira da grossa. É impossível traduzir o hermetismo inventado e vazio do Senhor Gilles. Voltaire, francês que sintomaticamente auto-exilou-se na Suíça, já constatara há muito que enquanto a França faz salões, a Inglaterra faz ciência. Não por acaso, aliás, a sábia "elite" brasileira desde sempre alinhou-se aos franceses, e não ao mundo anglo-saxônico. Destes, ao invés de discípula, prefere mesmo é ser colônia. Por isso, exultai, ó símios: há um imenso panorama de macaquice artística para vosso deleite!
Picassímio diz que é artista
UM DIA DE SÍMIO.
31 de março de 1.964 é uma data para não ser esquecida. Jânio Quadros nem bem acabara de denunciar a existência de forças ocultas (coisa que já era do conhecimento dos pais-de-santo, mandingueiros, videntes e ocultistas em geral) e os militares, fulos da vida com esta subversiva revelação, tomaram-lhe o poder. É pena que o maior cientista do Brasil, o Padre Quevedo, não fizesse sucesso naqueles tempos - certamente ele iria acalmar o povo que saiu às ruas para apoiar o golpe, explicando que fenômenos do gênero nada mais são do que manifestações (um pouco exóticas, é verdade) da própria mente humana. De qualquer maneira, o fato foi que, para colocar as coisas em seus devidos lugares, plantou-se a versão oficial de que Jânio, este injustiçado, estaria em verdade se referindo não às forças do outro mundo, mas sim às forças diabólicas que saem das entranhas do ser humano após a ingestão de consideráveis doses de bebida alcoólica - idéia que, até por experiência própria, foi prontamente assimilada pela população, que se acalmou diante da evidência da constatação, especialmente em tempos de Carnaval. Mesmo assim, para garantir a ordem e evitar o caos, os militares acharam prudente ficar por algum tempo na gerência dos negócios - e decretaram uma ditadura que perdurou por mais de 20 anos, com destaque para o período sangrento de comando do Generalíssimo Franco, que estendeu seus domínios para além das fronteiras, levando o movimento revolucionário para a Espanha, onde mandou matar muitos espanhóis. Infelizmente, a coisa não foi muito melhor cá no Brasil. Muitos prisioneiros políticos foram torturados, humilhados, exilados e até mortos. Exemplo triste desses tempos - que sempre devemos ter em mente para não repetir os erros do passado - é o caso de Tiradentes, ilustre mineiro defensor da democracia. Mártir dos porões dos aparelhos da repressão militar, foi espancado, assassinado e esquartejado. Jamais poderemos nos esquecer das marcantes imagens fotográficas dos pedaços de seu corpo espalhados pelas ruas, alertando a todos que era melhor não espalhar nenhuma idéia de ocultismo - porque senão o bicho ia pegar. De qualquer modo, se é verdade que a História foi madrasta com o ponderado Jânio Quadros (porque é óbvio que as forças ocultas agem impunes por aí, e as maldades que vêm delas nem a ciência do Padre Quevedo é capaz de explicar), ela acabou sendo mãe com o Tiradentes: seu discípulo e conterrâneo, Tancredo Neves, ganhou depois as eleições, liquidando, através do voto popular, a aventura golpista. Seria uma festa mais bonita ainda, se ele não tivesse sido assassinado com tiro na cabeça enquanto passeava num carro aberto - crime que até hoje não ficou muito bem esclarecido, mas que muitos dizem ter sido encomendado pela máfia do jogo do bingo. *** A paródia acima não é, nem teria a pretensão de ser, uma imitação macaca do "Samba do Crioulo Doido", do Stanislaw Ponte Preta - codinome do escritor Sérgio Porto. Ontem, dia 30 de março de 2.004, o programa "Observatório da Imprensa", transmitido em São Paulo pela TV Cultura, fez a seguinte pergunta: o que se sabe, hoje em dia, sobre a Revolução (ou Golpe) de 1.964? Para responder a pergunta, o programa foi buscar o resultado de uma pesquisa realizada junto a estudantes de uma universidade do Rio de Janeiro - cujo nome, diplomaticamente, não foi revelado. Nela, foi apontado que aproximadamente 40% dos entrevistados pensam que, em 31 de março de 1.964, o Presidente da República era Jânio Quadros; ao serem instados a citar o nome de um general importante do regime, numa lista em que constava o nome do velho Golbery, pouco mais de 30% optaram por cravar o xis no nome do General Franco; e 34%, ao se reportarem ao nome de um preso político morto pela Revolução, preferiram o Tiradentes ao Vladimir Herzog - que era a outra opção. E depois reclamam de eu ser fã do Senador Suplicímio e devoto do Inri Cristo. 30.3.04
Big Símio Brasil
Hoje aprendi que não poderei jamais fazer cocô na mão para depois atirá-lo sobre o coco do irmão primata que se queda em galho posicionado abaixo de mim, sob pena de também tomar na cachola a bosta atirada de um macaco que acima de mim se poste. E perdoem-me se escrevo difícil, só que isso faz parte da história. Vamos a ela. No começo da noite passada, tentando me desincumbir de uma tarefa da pós-graduação, comecei a ler um trecho de um livro chamado A Lógica do Sentido, do senhor chamado Gilles Deleuze, filósofo francês que passou desta para melhor em 1995, suicidando-se, por sinal. Devo dizer-lhes de imediato que nunca me senti tão burro. Li e reli, com os olhos a vinte centímetros do xerox, li e reli e não entendi picas do que se dizia, como se o idioma ali impresso (na tradução) não fosse o bom e velho português. Não foi como se lesse algo numa língua da qual só apreendesse 10% do total. Não. Ali eu não entendi coisa alguma. Nem vou tentar explicar o que foi aquilo, mais fácil é botar um trecho, um trecho qualquer, poderia ser outro, tanto faz: Dadas duas séries, uma significante e outra significada, uma apresenta um excesso e a outra uma falta, pelos quais se relacionam uma a outra em eterno desequilíbrio, em perpétuo deslocamento. Signos significantes sempre existem em demasia. É que o significante primordial é da ordem da linguagem; ora, seja qual for a maneira segundo a qual é adquirida a linguagem, os elementos da linguagem são dados todos em conjuntos, de uma só vez, já que não existem independentemente de suas relações diferenciais possíveis. O significado em geral, porém, é da ordem do conhecido; ora, o conhecido acha-se submetido à lei de um movimento progressivo que vai por parte, partes extrapartes. E sejam quais forem as totalizações operadas pelo conhecimento, elas permanecem assintóticas à totalidade virtual da língua ou da linguagem. Então tá... Mais do que convencido da minha macaquice fundamental, sabendo-me macaco absoluto, incapaz de compreender 1% que fosse do texto (que segue nesta toada pelas quinze longas páginas do trecho xerocado), resolvi tirar o time de campo e ligar a TV para esquecer da minha burrice. Então me deparei com o Big Símio Brasil, programa esquisitíssimo da rede Globo no qual um monte de gente absolutamente comum passa meses numa casa fazendo coisas absolutamente comuns. Não havia assistido a nenhum "capítulo" ainda da nova série hoje no ar, portanto nem saberei dizer o nome da moça que apareceu na tela quando liguei o aparelho (mas que diferença isso faria?). E lá se via a moça absolutamente comum, que não conhece sequer uma palavra em inglês, cantando We are the world. O refrão, no bretão surreal da moça, levado a porrilhões de lares brasileiros, saiu mais ou menos assim: Í áti uôus Í áti sílver Í ais dindom Ui lêique a dôdi lei Zi lés dais sílver Corta para o Pedro Bial dizendo que o nefasto "paredão", mal começando o programa, já contava com impressionantes 12 milhões de votos até aquele momento. E eu, ainda com a prova de minha burrice recente na memória, sem coragem de atirar meu cocô na cabeça da moça do Í áti uôus, comecei a achar que a tática de suicídio do velho Deleuze talvez não fosse de todo má idéia. 29.3.04
Pra não dizer que não falei de flores. Nessa porra de governo Lula, perdemos até o orgulho de dizer que no Brasil não tem furacão. Mim Quer Relembrar Dia desses, ouvindo o rádio enquanto ia ao escritório, pude gozar de um momento de pura revelação simiesca. Eu sempre gostei do Ultraje a Rigor, nos meus dias de garoto. Mas há muito o ostracímio banira de minhas gastas memórias os versos do bom Roger, líder da banda paulistana. Foi com redobrada emoção, portanto, que deparei-me com os versos da seguinte estrofe, nitidamente inspirada pelo caráter símio do brasileiro: "Mim é brasileiro Mim gosta banana Mas mim também quer votar Mim também quer ser bacana" Poucos momentos de gozo estético se comparam ao deleite que tais versos proporcionam a um bom símio. Para maior glória do Mundo Símio, segue abaixo a letra toda: "Mim Quer Tocar by Ultraje A Rigor Mim quer tocar Mim gosta ganhar dinheiro Me want to play Me love to get the money Mim é brasileiro Mim gosta banana Mas mim também quer votar Mim também quer ser bacana Mim quer tocar Mim gosta ganhar dinheiro Me want to play Me love to get the money Mim gosta tanto tocar Mim é batuqueiro Mas mim precisa ganhar Mim gosta ganhar dinheiro Mim quer tocar Mim gosta ganhar dinheiro Me want to play Me love to get the money"
O sábio Roger compõe mais um clássico em português castiço 25.3.04
NOSSA PRIMEIRA LEITORA.
Nunca me dei bem com as mulheres. Se há algum tempo atrás a réstia de orgulho adolescente me impedia de admitir publicamente esse lastimável defeito de caráter, a reflexão vinda com a velhice precoce, mas não menos implacável, arranca-me das costas o peso da ilusão e, tal como um recém-convertido, impele-me a bater no peito por três vezes: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. E agora confesso: em se tratando do sexo oposto, sempre fui uma tremenda negação. Nem me atrevo a tergiversar sobre minhas experiências na arte da conquista. Sobre essas, basta dizer que não por opção celibatária, mas apenas por absoluta incompetência, venho amargando longos anos na mais miserável das abstinências. Tremo, gaguejo, tropico nas palavras; erro no tom, no volume e no jeito. Perco-me no raciocínio, obscureço minhas próprias idéias, pioro-as na expressão e, quando caio em mim, percebo que meu nervosismo deixou a moça em situação extremamente desagradável. Ao final, defenestro-lhe um involuntário perdigoto - e mato impiedosamente qualquer chance de romantizar o desfecho. Como sempre achei um tanto ridículo fazer a corte e exaltar as minhas, para dizer o menos, duvidosas qualidades para quem não me conhece, perdi de vez a paciência para entabular conversa fiada com estranhas. E assim sendo, sobram-me as mulheres - poucas, é verdade - que já conheço. A coisa anda tão braba que, afora minha genitora, o último do ser do sexo feminino com que conversei nos últimos meses foi a minha avó. Ela, que raramente fala comigo, sentou-se ao meu lado num almoço de família; de tão inusitada essa atenção, esperei que a velha fosse me soprar algum segredo desta nossa existência - quem sabe até algum método para arranjar mulher -, mas acabei me decepcionando: ela apenas me repreendeu por estar fumando na casa dela. Rogo aos amigos que não passam fome que me concedam previamente a graça do perdão: se eu lhes trair a confiança, é porque foi furto famélico. *** Este espaço internético caminha para três meses de existência, e quando o Senhor Quadrado - idealizador do blog, responsável técnico pela sua criação e manutenção, além de nosso mentor filosófico - me convidou a tomar parte na empreitada, empolguei-me com a idéia. Tendo a aparência física canhestra (o que pouco ajuda com as mulheres) e dinheiro nenhum no bolso (o que resolveria a questão da aparência), apostei que através da frieza de uma tela minhas idéias seriam adequadamente filtradas, exibindo minha sensibilidade para furor das jovens em geral. Fiz algumas contas com Dom Gustavo e concluímos, na ponta do lápis, que em dois meses teríamos arrumado pelo menos três mulheres. Para cada um. Qual o quê! Já decorridos os tais meses, nossa contabilidade acusa apenas uma pessoa do sexo do feminino que veio nos visitar - absolutamente por acaso, segundo ela mesma disse numa mensagem deixada ao lado das fotos de alguns pobres símios que se drogavam. Para não parecer apressado, pensei duas horas seguidas sobre o que dizer à dama e, com muita educação, pedi a ela que me enviasse uma foto. Hoje admito que talvez tenha sido mais direto que o desejável. Mas o fato foi que, em seguida ao meu pedido, recebi na minha caixa postal uma mensagem vinda da nossa primeira fã. Trêmulo de emoção, abri a missiva com um demorado clique no mouse - se estivéssemos nos tempos de Castro Alves, teria eu aberto uma carta, mas não sem antes sorver-lhe ao máximo o perfume vindo do envelope. Ingrata supresa: em resposta, a boa moça me mandou um vírus - e, por conta dele, meu computador travou, obrigando-me a chamar o técnico, esse reparador de corações esmigalhados dos tempos modernos. Convenci-me de que não tenho a vocação do amor. É por essas e outras que, uma vez mais, rendo-me à infinita sabedoria do senador Suplicímio, que, pelo que acabei de saber, prentende dar apoio a um projeto de lei que acrescenta a palavra "Amor" na bandeira nacional, antes da "Ordem" e do "Progresso". Este santo homem, que passou o diabo na mão da ingrata da ex-mulher, sabe bem do que está falando. Solidarizo-me com sua causa pelo amor: também estou precisando arranjar uma mulher, talvez duas. Feita a modificação na nossa bela bandeira, espero que o consciencioso senador, com os conhecimentos já adquiridos em virtude do seu famoso programa batizado de "Renda Mínima", apresente aos nobres congressistas um projeto de lei congênere, que poderia ser intitulado de "Mulher Mínima". Pelo programa, cada brasileiro maior de idade teria o direito de receber pelo uma vez por mês a visita de uma mulher, de modo a garantir sua subsistência. Nem que fosse uma mulher anã. Na miséria em que estou, essa oferenda governamental, ainda que pequenina, já seria uma dádiva. Mas o alerta da nova bandeira já serve para chamar a atenção de todos para situação dos menos abastados, camada na qual vou continuar, pelo menos enquanto não colocar um antivírus mais moderninho. 24.3.04
Noticimiado e Comentado "Menino põe maconha na lasanha de colega em escola Um menino de 5 anos foi flagrado ontem espalhando maconha sobre a lasanha de um amigo, como se fosse orégano, em um jardim de infância dos Estados Unhidos. De acordo com o site da rede de TV CNN, a lasanha foi confiscada por um monitor antes que a outra criança a experimentasse, na cafeteria da escola Gratigny, em Miami, Flórida." Sinal dos tempos. Nos meus tempos de guri a molecada fumava orégano simulando maconha; hoje põe maconha na lasanha simulando orégano. Povo rico, esses americanos. "Músicos pedem salário maior por tocarem mais notas Violinistas de orquestra alemã entraram com processo para receber mais que os demais músicos, pois eles tocam mais notas por concerto que os seus colegas. Um caso considerado absurdo pelo diretor da orquestra da cidade de Bonn." Se essa curiosa lógica colar - o que, creio, só pegaria na sábia e vanguardista Justiça Obreira brasileira - já pensaram quanto o Malmsteen não cobraria por um show na Alemanha? Como eles, os alemães, são povo sério e metódico - "o português que aprendeu matemática", no dizer de um amigo mezzo português, mezzo teutônico - com certeza botariam lá no ingresso: "show do famoso guitarrista Yngwie Malmsteen; 1.023 notas por minutos, em média; 'x' centavos de euro a nota; '1.023x' euros o ingresso". Um show de doom metal sairia quase de graça. "Gene da mandíbula ajudaria a desenvolver o cérebro Uma pequena mutação num gene que determina o tamanho dos músculos da mandíbula pode ajudar a explicar como os humanos diferem dos primatas e se tornaram a espécie dominante do planeta. A conclusão é de um estudo publicado na revista britânica Nature. A teoria revolucionária, resultante de um estudo conduzido por Hansell Stedman e colegas da Universidade da Pensilvânia, diz que ao ter músculos da mandíbula menores e mais refinados, os primatas em evolução mudaram radicalmente a forma de seus crânios, criando espaço para o cérebro maior que caracteriza os humanos hoje." No começo, o Noel Rosa. Este deveria ser o título da matéria, que deixei propositalmente para o final porque era a melhor e mais interessante, além de mencionar nossos colegas primatas, que são nossos parentes mais antigos - e portanto mais tradicionais e respeitáveis, mais até do que o César, o Moisés ou o Jesus (bom, acho que Jesus não deixou filhos, ao menos oficiais, de modo que livro dessa história de ancestral a cara do famoso hippie da Galiléia). Pois bem. Dizia eu que na verdade o que afirmam os percucientes cientistas é que, lá atrás na história símia, quando os humanos ainda não tinham aparecido, surgiu um macaco apelidado pelos demais como "Queixadinha", por conta de sua pouco avantajada mandíbula. Mas ah - para cada desgraça, uma vantagem - o Noel Rosa macaco da pré-história pôde assim desenvolver um cérebro muito maior que o dos demais símios gozadores, e por conta disso deve ter comido muitas mulheres, digo, muitas macacas. Sim, porque a sua linhagem se perpetuou e desenvolveu ainda mais o cérebro - e aí estamos para provar, exibindo o troféu de nosso genezinho da mandíbula pequena, e nosso cerebrão de comedor. Há males que vêm pra bem, deveras. Queixadinha dedilha o seu pinho 23.3.04
22.3.04
A sapiência do filólogo Antônio Houaiss
cu falido Regionalismo: Madeira. Uso: tabuísmo, jocoso. bunda achatada até o cu fazer bico Uso: tabuísmo. de modo exaustivo; até não poder mais cair de cu Regionalismo: Portugal. Uso: tabuísmo. 1 cair batendo as nádegas no chão; cair sentado 2 Derivação: por analogia. ficar sem dinheiro 3 ficar estupefato; assombrar-se, espantar-se dar ao cu Regionalismo: Portugal. Uso: tabuísmo. rebolar, saracotear-se dar o cu Uso: tabuísmo. praticar (passivamente) o coito anal; tomar no cu encher o cu Uso: tabuísmo. comer demais ficar com o cu na mão Uso: tabuísmo. ficar apavorado, cheio de medo ir ao cu de Regionalismo: Portugal. Uso: tabuísmo. praticar (como participante ativo) o coito anal em não ter no cu o que periquito roa Uso: tabuísmo. estar pobre demais, estar completamente sem dinheiro nascer de cu para a lua Uso: tabuísmo. ter muita sorte; ser afortunado no cu do judas Uso: tabuísmo. longe demais o que tem o cu com as calças? Uso: tabuísmo. o que uma coisa tem a ver com a outra? (us. para mostrar que não há analogia entre coisas anteriormente relacionadas) tirar o cu da reta Uso: tabuísmo. livrar-se de qualquer responsabilidade em relação a alguém ou algo tirar o cu da seringa Regionalismo: Brasil. Uso: tabuísmo. desembaraçar-se de algo desagradável tomar no cu Uso: tabuísmo. m.q. dar o cu ver o cu ao pé da calças Regionalismo: Portugal. morrer de susto, sentir muito medo; sobressaltar-se 21.3.04
SÍMIOS E CÃES. Eram bons tempos aqueles. Eu tinha uma vaga na garagem do prédio em que moro, um carro para colocar na vaga e - incrível ! - até mesmo uma mulher para pôr dentro do carro. Era, sem dúvida, um consumidor padrão. Hoje as coisas são diferentes. Ainda tenho carro, mas a posse que sobre ele exerço é precaríssima; por não ter pago o último imposto sobre veículos automotivos que o bondoso governo me cobra para manter em ordem minha saúde, segurança e bem-estar, posso ver-me desapossado dele a quaquer momento. Também ainda tenho vaga na garagem, mas minha posse é fictícia. Por conta do vazamento de um cano exatamente em cima da vaga, gotas de um grosso líquido escuro se esparramam por sobre a capota do velho carro, dando-lhe manchas de cor marrom dos mais variados tamanhos e que, no conjunto, formam bela figura de pintura abstrata - mas que não se desfazem nem debaixo do mais poderoso dos solventes. Como não sou nem nunca fui amante das belas artes, acabei tendo que deixar o carro na rua - enquanto o consciencioso síndico corre o mundo atrás de verbas para fazer o conserto do cano. Sugeri ao senhor síndico que fosse rápido na obtenção das verbas, pois estou convencido de que o vazamento é de ácido sulfúrico, o que põe em risco não só a minha saúde, como a de toda população codominial - mas ele, rindo da minha ingenuidade, garante-me que o líquido malcheiroso é apenas o esgoto concentrado vindo das privadas de cinquenta e seis apartamentos. Menos mal, então. Sobre a mulher, então, é melhor nem falar: além de há muito tempo já ter perdido a posse que não tinha, hoje em dia sequer sou capaz de encontrar um genérico que lhe faça as vezes - não havendo verba que dê jeito para tão miserável situação. Para solucionar esse problema, conto apenas com meu potencial de barganha política: vou esperar a véspera da próxima eleição e pedir ao síndico que também me arrume uma mulher, sob pena de destinar meu honrado voto para a velhinha da oposição, que já está fazendo campanha e prometeu, se eleita, "abrir a caixa-preta" do condomínio. Com ou sem mulher, torço para que velhinha vença a eleição e, além da "caixa-preta", resolva também abrir todos os canos da garagem para ver se o que tem dentro não é mesmo ácido sulfúrico. Alegria de esmerdeado é ver a merda caindo na cabeça dos vizinhos. *** Era costume meu e de minha ex-mulher encostarmos o carro próximo à entrada do elevador na garagem, antes de deixá-lo na vaga, de modo a largar por ali os pacotes de compras de supermercado, espalhadas pelo chão. Evitávamos, assim, o trabalho de transportar as ditas cujas desde a minha vaga - que ficava longe do elevador. É óbvio que minha mente limitada não teria requinte suficiente para antever tão complexo plano de ação. Assim como em todas as outras rotinas operacionais necessárias à nossa convivência comum, minha ex-mulher era quem tomava a iniciativa de definir, com rigor burocrático, as metas a serem alcançadas para se manter um bom padrão de casamento - incluídos aí a periodicidade do sexo, a hora de sair da frente do computador e o tempo máximo para poder ficar no banheiro sozinho (sob pena de, desrespeitando as metas internacionais de felicidade conjugal, ser sumariamente julgado culpado pela odiosa prática de traição, ainda que solitária, virtual ou verificada em razão de caso fortuito ou força maior). Num daqueles dias, enquanto repetia pela enésima vez a operação de tirar um pacote do porta-malas para colocá-lo no chão, senti um vulto passar rápido por detrás de mim e, assustado, quando me dei conta, vi um cachorrão todo alegre saltitando por cima das compras. Dado o tamanhão do bicho, achei que seria mais polido de minha parte não repreendê-lo e deixar que o prudente arbítrio canino encontrasse a hora mais adequada para parar de pisotear sobre minha humilde comida. Talvez aquele cachorro, em verdade, fosse um epiritualizado mensageiro que estivesse apenas querendo me mostrar quão fúteis e pequenos são os objetos de nossos desejos consumistas, que, por nos afastarem do progresso rumo à divindade, deveriam não apenas ser ignorados, mas destruídos com vigor. Sem dúvida, era uma bela metáfora sobre o crescimento espiritual - mas, mesmo assim, rezei para que o venerável cão não resolvesse dar a mesma demonstração com meu carro e minha mulher. Depois de alguns segundos de muita reza da minha parte, o mestre resolveu ir embora correndo. De fato, foi uma benção. Admirado, segui-lhe as passadas largas e vi que o mestre, dando agora uma lição de humildade, foi fazer festa para um outro casal, que colocava malas de viagem num outro carro, do lado oposto do garagem. Comovido diante de tanta sabedoria, fui falar com eles: - Ainda bem que o seu cachorro é bonzinho - disse à moça, que estava do lado de fora do carro. Ela nem se deu ao trabalho de me olhar; entrou no carro e bateu a porta, ao mesmo tempo em que o marido (ou namorado, ou coisa semelhante), que estava dentro do veículo, saiu e me respondeu: - O meu cachorro é manso. É até treinado pra guiar cego - explicou-me friamente, também com o curioso hábito de não me olhar nos olhos. - O senhor é cego? - perguntei, apesar de achar estranho que um cego usasse óculos, além de acabar do lado do motorista do carro. - Vem! - ordenou a ele ao cachorro, abrindo a porta de trás. Dando desta feita uma lição de obediência, o mestre se jogou no banco de trás e, depois de fechar a porta, o dono do cachorro de cegos entrou no carro e se arrancou, respondendo a minha pergunta. Realmente ele era cego; cego para me enxergar. *** Lembrei-me de tudo isso ao saber semana passada que o mesmo governo que ameaça tomar meu carro baixou um decreto proibindo que cachorros de determinadas raças saiam pela via pública sem focinheira - e aplicando ao infrator (que creio ser o acompanhante do cachorro, e não o próprio) multa de cem reais, passível de ser majorada em caso de reincidência. Estou certo de que, mais dia, menos dia, por não ter pago o imposto, acabo parado por um guarda na estrada e me levam o carro. Se bobear, levo até umas bordoadas da polícia pra deixar de besta, e por não ter arrumado dinheiro pra poder andar por aí (motivo pelo qual, nestes últimos tempos, resolvi vender minha televisão para convertê-la em imposto). Mas estou igualmente certo de que nenhuma multa vai ser aplicada a quem quer que ande com seu cachorro solto pela via pública. Cá pra nós: um governo cujo secretário de Assuntos Penitenciários costuma dizer que, diante da falta de presídios para encarcerar quem infringe o Código Penal, o negócio é abrandar a lei e mandar soltar quem já está preso - num típico exemplo de situação em que o rabo é que abana o cão - não vai abrir concurso público pra fiscal de cachorro. Sendo assim, a menos que decidam tirar da aposentadoria o famigerado Homem-do-Saco (aquele sujeito que, segundo se contava antigamente, andava com um saco nas costas a pegar as crianças malvadas na rua), muito cachorro solto vai continuar por aí fazendo muita maldade - principalmente a maldade, vinda de seus respectivos donos, de dizer a todos os demais viventes que a integridade, saúde e vida alheias lhe são menos importantes do que aquele líquido amarelo que os cãezinhos deixam pelos postes. Provavelmente por curiosidade antropológica, um programa de rádio resolveu entrevistar algumas pessoas que passeavam com seus amigos num parque da cidade no primeiro dia de vigência do tal decreto - desrespeitado, como seria de se esperar, em exatos 100% dos casos. Dentre as muitas desculpas arranjadas, a que mais gostei foi a de um sedizente estudante de 19 anos, que afirmou, sem constrangiamento, que jamais iria colocar focinheira no seu pitbull porque o cachorro transpira pela boca - e o artefato iria lhe incomodar. Convenci-me de que o Homem-do-Saco precisa voltar logo à ativa. Após as entrevistas, uma treinadora de animais comentava o assunto, assim como se comenta um jogo de futebol ao seu término. Para ela, o decreto era deficiente, pois existem cães brabos em todas as raças - e não só em algumas. Após explicar que também existiam focinheiras que não prendem a língua dos cãezinhos, ela, de quebra, ainda deu uma dica para quem, na rua, perceber que vai ser atacado pelo bichinho do nosso amigo estudante. - O certo é ficar parado, com as mãos colocadas junto ao corpo. A gente deve olhar na direção do cachorro, mas sem encarar ele nos olhos. Se, por um acaso, a pessoa estiver com uma bolsa, ou com uma sacola, vale a pena tentar empurrar a bolsa na direção da boca do animal, quando ele estiver se aproximando. Muitas vezes, o cachorro fica mordendo a bolsa, até estraçalhar, e dá tempo de correr. Obrigado, doutora - agora sinto-me muito mais tranquilo. Acrescento apenas, por experiência própria, que rezar nessas horas também é de grande valia. Seja como for, pelo menos o zeloso governo teve a corajosa atitude de dizer num pedaço de papel que, sim, pitbulls e outros amiguinhos do gênero podem estraçalhar pessoas. E que, por isso, seria desejável que eles não andassem soltos por aí. Uma percepção revolucionária, como se vê. Pena que ainda não baixaram um decreto dizendo ser proibido deixar cair merda em cima do carro dos outros. *** 19.3.04
Robô-Macaco Deu no noticiário internético: "Auto-didata cria robô-macaco pioneiro Em um dia de sorte, Lucy pode distinguir uma banana de uma maçã. E essa é uma habilidade muito útil se você é um orangotango. Mesmo um robô-orangotango. Pode não parecer muito esperto para um humano, mas representa um trabalho pioneiro no campo da inteligência artificial." É com júbilo que vejo o mundo dos símios invadir o mundo da tecnologia. Aliás, sempre achei que macacos, cybers, geeks e outros bichos exóticos tinham algo em comum. Agora a fusão está completa, em carne e osso, ou melhor, em pêlo e ferro: chegou o macaco-robô. Imaginem as traquinagens que a traquitana é capaz de fazer. Se um bugio já dá confusão, mesmo tendo discernimento suficiente para o prodígio que é distinguir uma banana de uma maçã, imaginem as tretas que não vai arrumar uma bugia de ferro que nem isso sabe fazer quando não está "em um dia de sorte". Já vislumbro a bela cena do robô cagando rebites na mão e jogando no entristecido inventor, enquanto este aparafusa o rabo do danado. Ou então a engenhoca símia degustando uma cerva, ao invés do seu suco de óleo de máquina, provocando irremediável dano aos seus circuitos. Ainda bem que o inventor sempre terá uma desculpa para a falta de noção do macaco-robô: "ele não estava em um dia de sorte". Ah, bom.
O robô-macaco, que mais parece o capeta 16.3.04
Mel Gibson já está trabalhando na sequência de seu último filme. Agora, o título é "Jesus II, o Vingador do Futuro". 15.3.04
Cinema Mudo. Dentre as artes que aprecio, a que mais me toca é a da loucura. Dá gosto ver o senador Suplicímio embebedar o povo com suas palavras de sabedoria, assim como enche-me o coração de prazer estético ver o doidinho que mora no centro da cidade passar o dia inteiro sentado na calçada suja a fumar nervosamente dois cigarros ao mesmo tempo, um para cada mão. Ele não pede dinheiro para comprar pão nem para comprar pinga; pede apenas cigarros. Já faz muitos anos que ele se dedica à importante tarefa de fumar sem parar - e não me consta que o desgramado tenha tido efisema, ou mesmo uma reles bronquite. A loucura, sublime e absoluta, suplanta não só a razão, como as próprias leis da Biologia. É por isso que gosto do tal do Mel Gibson. Ele encarna bem o papel de doidinho, aos menos nos filmes a que assisti. E depois que fiquei sabendo de sua filiação a uma corrente da Igreja Católica cuja grande característica é a devoção total às palavras do velho e bom Papa - que hoje em dia, de tão corcunda, me lembra mesmo é o finado Frei Damião -, minha admiração pelo artista apenas aumentou. Como diretor, porém, tenho as minhas ressalvas. Ao que me consta, o senhor Mel Gibson dirigiu um filme que fala dos momentos finais da vida do mundialmente conhecido senhor Jesus Cristo. E, por mais incrível que possa parecer, esse filme virou polêmica. É inacreditável. No filme do senhor Mel Gibson, o senhor Jesus Cristo, depois de apanhar muito, morre no final. E eu me pergunto: e daí? Em todos os filmes feitos sobre o senhor Jesus Cristo, ele morre no final. Trata-se de uma história velha e requentada, na qual, no ápice do drama, o mocinho acaba se dando mal; depois de reclamar do destino (como, convenha-se, faz todo e qualquer mortal), o senhor Jesus Cristo morre, e a história acaba. Cadê a novidade? Nem vou perder tempo com essa fita; conheço o fim do filme. Aos mais incrédulos - e que não chegaram a assistir a outros filmes narrando a trajetória do senhor Jesus Cristo -, sugiro que, para terem certeza do que estou dizendo, leiam os Evangelhos do Novo Testemento (o livro que inspirou o filme do senhor Mel Gibson, e que já deve ter uns dois mil anos). Em todos eles, o senhor Jesus Cristo morre no final. Não há divergência quanto a este trecho da história. Polêmico mesmo seria fazer um filme em que o senhor Jesus Cristo ganhasse a peleja. Um filme dirigido pelo John Woo, no qual, antes de lhe pregarem a última das mãos, o senhor Jesus Cristo, com inesperada agilidade e com um olhar seco de vingança, segurasse a mão do soldado romano e, despregando a outra a mão, lhe desse um tapão na orelha. Depois, despregando os pés, o senhor Jesus Cristo daria um salto rumo ao céu e, voando, encheria de porrada um a um a legião de seus algozes, tudo com os efeitos especiais usados na série Matrix. A cada sopapo, o Jesus voador, circunspecto, poderia dizer, olhando com raiva nos olhos de cada romano amedrontado: "Isso é pela vingança do meu Pai, ó infiel". E pau na máquina. Ao fim e ao cabo, todos, inclusive os judeus, lhe dariam razão quanto aos ensinamentos, e o exército romano, evergonhado, deixaria a Galiléia. A cena final se daria num grande banquete onde o senhor Jesus Cristo, de taça de vinho em punho, conclamaria todos a viverem na santa paz. Amém. Isso sim seria uma bela obra de arte, sem contar que uma injustiça histórica seria reparada. É claro que tanto o Papa quanto parte dos judeus iriam reclamar, mas, diante de um filme tão polêmico, não dá para agradar a todo mundo. Simian Disco Davi Moraes, filho do Magnum, digo, do Moraes Moreira, acatou sugestão de nosso sábio confrade Serbon e adornou com a foto de um símio o seu simiesco disco de estréia, intitulado não por acaso "Papo Macaco". Vejam só que bela imagem (o disco é uma merda; comprem-no e joguem fora a bolacha, o que importa mesmo é a capa; depois, se quiserem, ponham um CD do Dead Kennedys baixado da internet lá dentro):
12.3.04
Pobrema de terrorismo? Chama o Adeildo! "O único brasileiro identificado até agora como vítima dos ataques de quinta-feira a vários trens em Madri foi operado nesta madrugada e está em observação, mas não corre risco de vida. Adeildo Alves dos Santos, de 28 anos, sofreu uma fratura no crânio com penetração de massa encefálica. Ele foi submetido a duas cirurgias, uma crânio-encefálica e a outra facial, segundo Milagros Marín, diretora do Hospital 12 de Octobre. De acordo com o vice-cônsul brasileiro Roberto Machado, que esteve no hospital na manhã desta sexta, Adeildo está bem e consciente. "A primeira coisa que ele me falou foi 'Descobre quem foi, que eu vou atrás'", disse Machado." Êta nóis. Pra que gastar bilhões em guerras, armamentos, aviões, cruzadores e mísseis para combater o terrorismo? Chama o Adeildo, dotô Bush! O cabra, mesmo com a boca esfacelada e um buraco no meio do miolo já queria partir pra peleja, numa imagem que me lembra o irascível cavaleiro que, mesmo sem nenhum membro no corpo, ainda chamava o adversário pra briga no famoso filme do Monty Python. "Descobre quem foi, que eu vou atrás" - as palavras do bravo sertanejo enchem de orgulho a nação brasileira. Dêem uma peixeira na mão do valente que ele encontra e capa o Bin Laden onde ele estiver. O cara é um cyborg movido a farinha de mandioca. Afe Maria. Êta cabra macho da desgrama. É o Brasil mostrando o seu valor.
Enfermeira espanhola dá alta ao valoroso Adeildo 11.3.04
Declínio do Império Sino-Símio Juro que deu na imprensa: "China anula lei contra seios assimétricos Foi cancelada ontem a lei da província de Hunan, no Sul da China, que exigia "peitos simétricos" em mulheres que queriam emprego no governo. Os desdentados que não tivessem "três dentes consecutivos ou quatro alternados" também eram proibidos de trabalhar para o governo provincial. A mesma norma também impedia candidatos muito magros: as mulheres deviam pesar mais de 40 quilos e os homens, mais de 45. Também era exigida uma determinada altura. De acordo com o jornal Beijing Morning Post, a anulação dessas normas relativas à aparência coincidiu com o cancelamento da que impedia o trabalho de portadores do vírus de hepatite B, embora continue em vigor para aqueles que desenvolveram a doença." Nunca fui comunista, apesar de também não ser capitalista. Sou simianista: acredito na natureza símia do ser humano, o que põe por terra a seriedade de quaisquer dos seus sistemas. No entanto, sempre admirei a capacidade desses regimes totalitários de impor as medidas corretas, sem dar ouvidos a democráticas asneiras. É com tristeza, pois, que leio a notícia acima, a qual demonstra inequivocamente o declínio pelo qual passa o Império Sino-Símio, terra dos bugios amarelos. As concessões ao ocidente, ao capitalismo e à democracia fizeram ruir essa belíssima lei que fazia eficientes e agradáveis as repartições públicas da prestigiosa e avançada província de Hunan. Já pensaram como era salutar a tal norma? Transpondo a antiga lei sino-símia para a nossa realidade símio-brasileira, ao invés de nos depararmos em nossa burocracia com aquelas atendentes esqueléticas, com aquelas banguelas estilo "1001", com mulheres de peitos estrábicos ou com baixinhas recalcadas, se fôssemos comunistas ao velho estilo de Hunan teríamos lindas morenas de peitos simétricos, esguias, saudáveis e belas. Isso é que é burocracia. Naturalmente, as funcionárias teriam que mostrar os seus seios simétricos, sempre que instadas a exibir as sua credenciais ao cargo. Isso sim é que é merecimento. Mas o Brasil não é tão sério quanto a antiga Hunan, e nem esta própria ostenta mais tão sábias normas como a "lei dos peitos simétricos". É com estranha saudade que tento imaginar a sessão legislativa em que fora editada essa norma exemplar: incontáveis chineses idênticos, com ar solene e fala ríspida, bradam revoltados exigindo que se ponha termo à odiosa contratação de mulheres de peitos assimétricos, excessivamente baixinhas ou desdentadas. "Onde já se viu? Nem podemos mais nos divertir com nossas funcionárias! Apalpamos-lhes os seios e constatamos que eles mais parecem os olhos do Sartre; Um sorriso de banguela quase nos cega; As anãs nos fazem perder o tesão. É o fim da picada! Assim não dá pra trabalhar! Vamos criar uma lei para exigir peitos simétricos, dentes e altura mínima, senão a pátria não vai para a frente!!!" Isso é que devia ser uma boa sessão legislativa. O senador Suplicímio cantando Bob Dylan nem se aproxima, em caráter artístico, à sessão legislativa chinesa. Triste Brasil, triste Império Sino-Símio. Depois de tantas passeatas inúteis como a dos riquinhos que fazem pombinha com as mãos, enquanto a empregada sub-assalariada lhes passava a camisa e fazia o almoço, é chegada a hora de um movimento popular sério: vamos exigir peitos simétricos nas nossas repartições! E, naturalmente, com direito a apalpadelas do contribuinte, afinal o povo quer saber se foi bem aplicado o dinheiro dos seus impostos.
A culpa é do Tio Sam 10.3.04
Da Série "O Hómi Evolui?" - Parte 1. Cascão é obrigado a tomar banho depois de dez anos 09/03/2004 10h51 Um autêntico Cascão foi obrigado pelos vizinhos a tomar banho depois de viver pelo menos uma década sem tomar uma única ducha. Exalando fortes odores, o homem de 52 anos vive na cidade de Kapenguria, no Quênia. Os vizinhos cansaram de reclamar e pegaram o Cascão queniano, à força e o colocaram no chuveiro. John Kasokong é solteiro e o seu cheiro vinha incomodando todo mundo que vive próximo da sua casa. Quatro homens musculosos agarraram o fazendeiro quando ele saía de sua fazenda e o amarraram com cordas para conseguir lhe dar um banho completo. O banho acabou se transformando num evento público em Kapenguria e foi observado inclusive pelo chefe da localidade.
NOTA IMPORTANTE.
A partir de hoje, o Mundo Símio com exclusividade passará a publicar os primeiros capítulos da obra "O Hómi Evolui?", da lavra de Dom Leonardo Henriques Gomes da Silva, antropólogo, simiólogo, historiador, poeta, português e símio. Trata-se de chocante estudo através do qual o Professor Leonardo nos leva a intrigantes perguntas a respeito da possível evolução do hómi, a partir de dados históricos-biológicos-sociais-econômicos. Neste momento, o Professor, que já recebeu seus honorários pela exclusividade cedida ao Mundo Símio, encontra-se selecionando seus textos, de modo a não causar impacto forte demais junto a quem se dispuser a lê-los. Em instantes. 8.3.04
Direito Mindingo Eis a noticímia mais séria que li na internet nos últimos tempos. Zé Dirceu, CPI e o escambau já soam como disco riscado. Vamos ao que interessa: "Justiça alemã não autoriza bordel e filmes pornô a alemão desempregado (Internacional - 08.03.2004) Um desempregado alemão, de 35 anos, fracassou hoje em sua tentativa de receber do Estado dinheiro para pagar-lhe quatro visitas ao bordel e oito filmes pornográficos por mês, a fim de garantir seu "equilíbrio físico e psíquico". O Tribunal Administrativo de Ansbach, da Baviera, no sul da Alemanha, negou o pedido do desempregado por considerar que essas despesas são cobertas pela ajuda social que recebe, de uma média de 287 euros por mês. O homem buscou os tribunais para exigir o que considera uma obrigação do Estado a fim de satisfazer suas "notáveis necessidades sexuais", que o obrigam a ir a bordéis porque sua mulher, uma tailandesa com quem tem um filho, voltou a seu país de origem. "Preciso das visitas ao bordel para restabelecer meu equilíbrio físico e psíquico", argumentou em seu pedido. Além disso, responsabilizou as autoridades alemãs pela separação da tailandesa, pois a seu modo de ver estas se negaram a pagar a ela uma passagem de volta à Alemanha. O homem pretendia que o Estado lhe pagasse quatro visitas a bordéis por mês, incluído o deslocamento à vizinha cidade de Nuremberg, no valor de 125 euros cada, além de oito filmes pornográficos e duas revistas de contatos por mês. O solicitante anunciou que recorrerá da sentença." O mindingo alemão tá com a razão, com o perdão da rima involuntária. A culpa da sua miséria sexual é do Estado. Eu mesmo penso em aforar uma demanda para forçar este Leviatã brasileiro a me pagar umas putas de vez em quando. Onde já se viu: pago imposto pra cacete e não recebo nenhuma puta em troca. Aliás, nem seguro desemprego recebo do governo, que se recusa a pagar-me o benefício sob o pífio argumento de que eu estou empregado. Puta injustiça. Vou pra Alemanha. É melhor ser desempregado lá do que empregado aqui. Depois do cuverte, elas qué é jantá - já dizia Adoniran Barbosa, se não me engano, referindo-se às necessidades femininas de serviço completo após a reles preliminar que lhes possibilita um velho, cujos instrumentos sexuais, por assim dizer, se restringem a dedo e língua. Os Titãs também já cantaram que nóis num qué só cumida, nóis qué diversão balé. E eu acrescentaria: nóis tombem qué mulé. É esse triste e lamurioso brado que nos manda o pobre alemão. Penso que o Estado deve mesmo garantir satisfação às suas "notáveis necessidades sexuais". Nada mais justo. E depois ainda há quem reclame do mindingão brasileiro que, resignado pela omissão estatal, sem alternativas homenageia as transeuntes com uma sonora punheta em pleno passeio público. 6.3.04
5.3.04
Sem comentários
Manchete do UOL: "Morre no Rio, aos 88 anos, o playboy Jorginho Guinle" (...) Ele tinha sete anos quando o Copacabana Palace foi inaugurado por seu tio, o empresário Octávio Guinle, em 13 de agosto de 1923. O playboy era responsável para levar para as festas do Copacabana Palace artistas de Hollywood como Rita Hayworth. (grifos by Mundo Símio) Ali, buma aiê.
O playboy na flor da idade 3.3.04
OLHO DE SÍMIO.
Em 1.974, um sujeito alcunhado de Don King, recém-saído da prisão por ter metido a porrada pra valer num cabra que não lhe pagou uma aposta, prometeu uma dinheirama para dois outros sujeitos se pegarem de porrada pra valer, com a vantagem de não correrem o risco de ir para a cadeia. Um dos sujeitos, batizado Cassius Clay, já há algum tempo se chamava Muhamed Ali; o outro, menos conhecido, se chamava George Foreman. Se o tal do Ali nunca fôra propiamente muito bonzinho (muito pelo contrário, ele gostava mesmo era de prometer - e cumprir - que ia sentar o cacete nos adversários até sair pedaço de miolo pelo nariz), o tal do Foreman era muito pior. Porque o Ali, mesmo dizendo que fazia e acontecia, que mandava prender e mandava soltar, que era isso e era aquilo, falava sempre de um jeito meio canastrão, quase como um comediante - ou como aquele tio velho que, em tudo quanto é reunião de família, faz-se de brabo só pra fazer um tipo, mas não engana nem as crianças, que, na primeira oportunidade, lhe dão por trás um peteleco doído na orelha. O Foreman, não; além da cara de quem está indo trabalhar no primeiro dia depois de feriado prolongado, ele só se expressava através de grunhidos, todos eles monossilábicos como todo grunhido que se preze. Muhamed Ali era popular, tinha amigos em tudo quanto era lugar, fazia caridade para os pobres e não raro aparecia na companhia dos filhos. George Foreman tinha por amigo apenas um pastor alemão, que também não tinha lá cara de muito bonzinho - mas que, ao menos, tinha a vantagem de ser mais eloquente que o dono. Como se meter com um ou com outro era prejuízo na certa, o prudente sr. Don King resolveu fazer a luta entre os dois no Zaire, de modo a conseguir levantar um dinheiro extra junto ao ditador de plantão pra ter mais chance de cumprir o prometido - eu, cá pra nós, acho que ir para a África foi uma questão apenas de estratégia: se o dinheiro não desse pra pagar os lutadores, o Don King ia se embrenhar pelo mato pra tentar virar rei de pigmeu. Quanto à luta, em si, a coisa parecia favas contadas. Pouca gente botava fé no Ali, apesar dele ser bem mais simpático; já em final da carreira, na sua última luta tinha levado uma surra dos diabos de um outro camarada, chamado John Fraser - que malhou o Muhamed feito criança que malha o boneco do Judas antes da Páscoa. O Foreman, por sua vez, tinha acabado de malhar o Fraser, e nunca tinha perdido uma luta na vida. Sem contar que, mais jovem, ele parecia uma montanha perto do Muhamed - que, obviamente, não era nenhum pigmeu. Chegaram os dois no Zaire no mesmo vôo, e Muhamed Ali, com aquele jeito de quem finge estar nervoso, já no aeroporto começou a dizer que ia sentar o braço no Foreman; que ele, depois da luta, só iria se alimentar por um canudinho; que, depois da sova, ia virar sopa de ossos, e que ia fazer tudo aquilo para vingar o povo negro, seus ancestrais da África. Todo mundo aplaudiu e o Foreman não disse nada. A história foi adiante: mais nervoso ainda, o Ali erguia o indicador para cima e falava que era chegada a hora de dar uma lição pra todos, de voltar às origens, fazer da África o palco pra mostrar ao mundo o valor do homem negro. Como o discurso era absolutamente sem sentido, todos vibraram. O pastor alemão latiu para a barulheira, e o Foreman se deu por satisfeito, levantando-se para ir embora. Nos dias que se seguiram, por onde quer que passasse, Muhamed Ali era seguido por uma multidão de populares, todos alegres a cantar só um refrão: "Ali, buma aiê! Ali, buma aiê! Ali, buma aiê! Ali, buma aiê!". Traduzindo: "Ali, mata ele!". Não é à toa que essas simpáticas tribos da África estão se pegando de pau há uns quatro mil anos. No começo, o Foreman não ligava. Mas, alguns dias depois da chegada, nem era preciso o Ali estar presente. Bastava estar o senhor Foremam a se exercitar pelas estreitas ruas de terra e os nativos - alguns, talvez para mostrar sua milenar cultura ao resto do planeta, de lança em punho - vinham sempre com a mesma ladainha: "Ali, buma aiê! Ali, buma aiê! Ali, buma aiê!". E o Ali, não contente em repetir que iria mostrar o valor do homem negro, que a África ia resgatar a honra dos negros do mundo inteiro, resolveu também engrossar o coro sempre que saía do hotel, dizendo para si mesmo, quase como num refrão de escola de samba: "Ali, buma aiê! Ali, buma aiê!", enquanto erguia os braços para a multidão. George Foreman, que tinha perguntado sobre o significado da frase desde que chegara, aparentava nem ligar. Mas no dia em que ele treinava num ginásio improvisado debaixo de uma casa de teto de palmeiras e viu que, do lado de fora, o povo gritava "Ali, buma aiê!" para o pastor alemão que estava amedrontado na porta, ele perdeu a serenidade, virou para o treinador e disse: "Porra, será que esses caras não estão vendo que eu também sou preto, caralho!?!?". Não viam - e depois de tomar uma sova do autêntico africano, o branquelo resolveu parar com aquele troço de boxe e ir virar religioso, que religião é coisa mais fácil de entender. Ali, buma aiê. *** Toda emperiquitada, a coroa de cabelos loiros sai do escritório, na companhia de uma amiga, bem mais nova. As duas têm dificuldades com as malas abarrotadas que carregam, mas mesmo assim a mais velha insiste em levar o molho de chaves do carro na mão. Não há tempo a perder: é um final de tarde de uma sexta-feira de Carnaval. Empolgadas, elas conversam em voz alta, no tom e no volume de gargalhada, enquanto esperam o elevador chegar. O elevador chega, elas pedem para a asecensorista esperar e, uma a uma, elas amontam as malas ao fundo cubículo. O cubículo, porém, é pequeno demais para tanta alegria: - É, Sônia, já é Carnaval... Onde você vai pular? - pergunta a loira para a ascensorista. Humilde, ela baixa os olhos e coça os cabelos, exibindo um sorriso de vergonha, não de Carnaval: - Ih, dona Sandra, aqui a gente trabalha amanhã e trabalha segunda. - Então vê se não abusa no domingo e na terça, hein? - ri a dona Sandra para a amiga mais nova, que resolve também entrar no papo. - Olha lá, hein, Sônia: só um namorado por dia, viu? Mais do que um fica feio, né? Por não saber como continuar com aquela conversa, a ascensorista permanece com o sorriso envergonhado até ver as outras duas retirarem aquele monte de malas. Ao sair do prédio, a Sandra se despede do porteiro: - Tchau, Jair. Vai pra praia no Carnaval? - O quê? - pergunta o Jair, sem entender a pergunta. As duas, no entanto, nem se dão ao trabalho de explicar; vão conversando sorridentes rumo ao estacionamento. O manobrista de sempre deixa o carro de sempre para as duas de sempre. - Pedro, bom Carnaval pra você! - é o desejo da coroa. - Obrigado - responde o Pedro, sem dar muita atenção. - Toma umas por mim, viu? - O quê? - Toma umas por mim - ela repete. - No Carnaval pode. O Pedro sorri um sorriso igual ao da ascensorista. - Carnaval, pra gente que ganha por hora, é ruim. O estacioamento do prédio fecha quatro dias. - Então não abusa da farra, hein? Desta vez, é o outro que sai, deixando as duas falando sozinhas. Ele precisa ir logo apanhar mais um carro; em véspera de feriado a coisa fica preta, todo mundo fica nervoso para ir logo embora e saem todos ao mesmo tempo. Antes de entrar no carro, a Sandra comenta com a amiga: - Não é maravilhoso esse clima de alegria do Carnaval? Ali, buma aiê. *** Soube, por estes dias, que já faço parte do seleto grupo de pessoas que se graduaram na faculdade há 10 anos. E o soube porque alguém, sei lá eu com que intenção, resolveu criar um grupo na internet, o qual, formando uma macabra espécie de corrente, vai incorporando o e-mail dos mortos-vivos que estavam quietos no seu canto - coisa que, se não me engano, se chama "grupo de discussão", ou "grupo de amigos", "grupo para dar golpe nos outros", ou "grupo de gente que não tem mais o que fazer". Uma moça de bom coração, com quem, por coincidência profissional, mantenho relações cordiais, e que diz haver se formado no mesmo ano que eu, me telefonou avisando da tal lista. A princípio, não entendi bem o que ela queria, mas, cordialmente, informei que minha condição econômica não permitia dar-me ao luxo de fazer doações em dinheiro. - Não é dinheiro - ela explicou. - É o seguinte: o pessoal quer fazer uma festa pra todo mundo se encontrar. Eu acabei de entrar no grupo. E cada um que entra no grupo tem de repassar o e-mail de mais duas pessoas pra gente juntar todo mundo. Posso repassar o seu pra você fazer parte do grupo? De fato, me enganei. Achei que cada colega deveria contribuir com dois reais tirados de outros dois colegas para sei lá o quê. Considerando que na faculdade em que fingi estudar ingressam mais de 450 pessoas por ano, a corrente dos dois reais iria dar um bom dinheiro. Por via das dúvidas, perguntei à bondosa moça se o fato dela repassar o meu e-mail redundaria na obrigação de eu precisar pagar um real a alguém. Ela, com muita paciência, me garantiu que não - e acabei aceitando fazer parte de tão arrojada empreitada. Embora estivesse autorizado a entrar no tal grupo da morte, acabei esquecendo da história, mas um outro amigo - que também diz que se formou no mesmo ano que eu - aconselhou-me a fazê-lo. Fi-lo então porque qui-lo. Ao que me pareceu, já havia oitenta pessoas cadastradas. A idéia inicial, conforme explicava a primeira mensagem, era fazer uma festa "para os colegas e toda a família". Pensei em enviar uma missiva indagando se era obrigatória a presença de meu pai e de minha mãe, mas, diante da data sugerida para o encontro, percebi a impertinência daquela questão: "O ideal seria fazer o encontro em outubro, no começo ou no final do mês, devido ao Dia das Crianças". Como não comemoro mais tão importante data já há pelo menos uns três anos, deduzi que o idealizador do encontro gostaria de ver os filhos dos outros - o que, para mim, apenas faria sentido caso o idealizador fosse o Michael Jackson. Li, depois, umas quarenta mensagens que vieram em sequência, todas elas de gente que me era desconhecida. Pareceu-me que os mais faladores eram os que, por uma ou outra razão, estavam morando em Brasília - sinal inequívoco de bem-estar. Em termos de falação, eles perdiam apenas para uma senhora - de quem igualmente nunca ouvi falar - que tinha um "escritório" na Itália. O assunto principal era "Vi Fulano no trânsito; ele está com pose de rico"; ou "Vi Sicrano num restaurante, mas não fui falar com ele, porque ele estava com uma cara muito séria"; ou então "Vi Beltrana na rua, mas ela não me viu; ela está igualzinha, só que agora está muito elegante". Graças a Deus não fui visto. De qualquer modo, diante de tanta falta de educação, creio ser de bom alvitre fazer o raio desse encontro para as pessoas se desculparem umas com as outras. Afinal de contas, ver um conhecido e não cumprimentá-lo é o fim da picada. Invariavelmente, cada novo integrante cumprimentava os demais com um tradicional "Gente, que legal poder falar com vocês de novo!!!". E daí a coisa descambava pro "Vi Fulano", "Vi Sicrano", sempre intercalados por fleumáticos "He-he-he". Li todos os textos para ver se conseguia peneirar algum palavrão. Não encontrei nenhum. Mas, pelo menos, pude me inteirar de tudo. A senhora que "trabalhava" na Itália sugeriu que o encontro fosse feito em dezembro para ela poder ir, o que, até onde eu sei, ficou sem resposta. Um outro sujeito, sem maiores apresentações, pediu que todo mundo comprasse o livro dele, chamado "Compra de Imóvel" - o qual me é totalmente desconhecido, assim como quem o escreveu. A senhora da Itália interveio na conversa e disse que o livro do rapaz era muito bom e tinha sido muito útil para ela. De fato, ela estava empolgada. Mas se o imóvel já estava comprado, então não era eu que iria comprar o livro. Depois, surgiu uma controvérsia com relação ao pano de fundo do evento: churrasco à tarde ou jantar à noite. A maioria dos que falavam chegaram a uma mesma conclusão: não importava o lugar ou o horário; importante mesmo era rever os amigos, saber como todos estavam, lembrar dos saudosos dias da faculdade e das boas histórias daqueles tempos. Ali, buma aiê. 2.3.04
De Símios e Mindingos Deu no Terra: "Chineses desempregados se tornam "web-mendigos" Vários jovens chineses desempregados usam a Internet para contar sua situação e pedir esmola a desconhecidos, um fenômeno social que já está sendo conhecido nesse país asiático como "web-mendigos". Essa prática está especialmente espalhada pela cidade de Chengdu, no sudoeste do país, onde foram encontrados pelo menos dez internautas dedicados a esta atividade e muitos cidadãos já receberam suas mensagens." À parte a evidente macaquice do fato noticiado, o que me chamou a atenção foi a similitude da condição dos pobres chineses cybermindingos com a dos símios brasileiros. Estes, como se nota na imagem abaixo, também estão se socorrendo da esmola para sobreviver. A situação está dura mesmo. É, no entanto, com alegria que vejo a categoria dos símios associar-se à classe mindingal. O mindingo - que alguns sisudos chamam de mendigo, expressão pouco sonora e nitidamente impopular - é o único ser livre. É o único indivíduo que verdadeiramente vestiu o manto (melhor dizendo, os farrapos) do desapego. Durante séculos os orientais expuseram as suas idéias de abandono dos luxos e vaidades terrenas, mas sempre dentro de palácios, ricos monastérios ou casas confortáveis. Entretanto, só o bom e velho mindingo, afeito à filosofia prática e avesso a especulações fortuitas, logrou demonstrar na própria vida o que é desapego. Assim é o mindingo: um sujeito totalmente livre, que não tem moral, não tem bons costumes, não tem higiene, não tem lei, não tem dinheiro, não respeita o clima, nem os velhos, nem as crianças, despreza a moda, as hierarquias sociais e até mesmo os hábitos salutares. Não é por outra razão que todos inconscientemente admiram, com incontida inveja, aquele mindingão que, adornado com um cobertor rasgado e fétido, descasca uma prazerosa punheta em plena Avenida Paulista, ao calor do meio-dia, saboreando em sonho a executiva gostosa que sai elegantemente do escritório para almoçar no quilão da esquina. Também com respeito e admiração olhamos aquele mindingo que evacua seus mal digeridos restos de comida, aos olhos das velhas e crianças, sem o maior constrangimento. Não é por menos: trata-se de um Buda em estado de iluminação. O símio, jocoso por natureza (quem nunca se admirou em ver um chimpanzé cagar na mão e jogar na assistência, em algum zoológico?), faz portanto muito bem em associar-se à figura solene do mindingo. É fato alvissareiro que deve por todos ser louvado. Viva o Brasil, país de símios e mindingos.
"Moço, dá um trocado?" |