28.4.04




Esse aí é outro que se divertiu à beça no Skol Beatniks



27.4.04


Cyber-Mindingo Invade Skol Beats

Há "tribos" de todos os jeitos: os punks, os headbangers, o straight edge, os clubbers, os góticos, os cybermanos - até tribo de índio existe. Mas a tribo de maior potencial neste mundo símio, que até então não ousava dizer o seu nome, finalmente apareceu com tudo. Trata-se dos "cyber-mindingos".

Na verdade só conheci um adepto confesso desse novo grupo, por ocasião do famigerado Skol Beats. Não se trata de um reles mendigo sem graça, como se pôde constatar do relato do próprio, feito após o festival. Não, o sujeito é mesmo o precursor de uma tribo que sem dúvida vai pegar. Os cyber-mindingos agora vão mostrar a sua cara suja.

Fomos eu e mais dois ilustres camaradas para o glorioso evento da música eletrônica, ao qual compareceram umas 50 mil pessoas ("pessoas" é eufemismo). Esse meu amigo não era então um cyber-mindingo, mas um pacato e honesto executivo de uma multinacional. A vocação mindingal irrompeu em seu peito no curso da malfadada balada, talvez pela mistura maldita entre música doida e substâncias ainda mais.

Fizemos um "esquenta" em casa, antes de ir. Pra ter disposição de ouvir tanta música eletrônica, e ainda trombar com uma horda de pederastas sem camisa, só mesmo de cara cheia. E haja esperança de agarrar alguma clubber perdida. Tomamos umas boas três doses de coragem, digo, uísque, cada um de nós. Arrematamos com umas duas Guiness e diversas latas sortidas de cerveja ordinária. Para compensar o excesso de música eletrônica que viria a seguir, mandamos ver no AC/DC e em outros rocks puros, das antigas. Antes da sobremesa, a comida salgada. Ou melhor: antes do estrago, o engov.

***

Já devidamente aquecidos e enlouquecidos, fomos à tal balada. Debelamos o trânsito com algumas infrações graves às normas regulamentares, e após engambelarmos umas duas ou três filas, tivemos o prazer de sermos achimcalhados pela nossa boa e zelosa Polícia Militar. Esse é o preço que se paga nesses eventos, além dos R$ 55,00 que o "patrocinador" cobra. Desgraça pouca é bobagem.

Nosso protagonista do cyber-mindinguismo, já derivando de Dr. Jeckyll para Mr. Hyde, começou a demonstrar nos esgares e na letargia os efeitos que suas diversas poções mágicas lhe proporcionariam. O cyber-mindingo em nascimento destacava-se no meio da multidão, que ouvia extasiada ao bom show do Basement Jaxx.

Não tardou e naturalmente todos se perderam, um tentando mijar no mato e levando dura de segurança, outro tentando xavecar uma portuguesa sem bigode. Fracasso de parte a parte. Mas nada disso com o cyber-mindingo: este finalmente se encontrara com a sua verdadeira natureza.

***

O indigitado não fez por menos, quando acordou da sua condição de homem respeitável: aprochegou-se do caixa e comprou logo cinco águas, pra mostrar que era cabra macho. Batendo o punho cerrado no elevado balcão das moças que serviam biritas, pediu em alto som, e com uma fleuma meio britânica meio cearense, todas as garrafas d'água de uma só vez, para espanto geral dos bêbados presentes à cena. "Esse aí é doido", comentou um sujeito de cabelos verdes e piercing na língua.

Inicialmente confuso a respeito de como carregar os seus mantimentos de H2O, a Providência veio socorrer o cuidadoso cyber-mindingo. Com presença de espírito, mais do que rápido pegou um saco de gelo sujo que viu no monte de lixo à sua frente, recheou-lhe prontamente com as cinco águas - não sem antes dar uma boa sorvida numa delas. Em seguida, como que para unir a utilidade ao estilo, amarou o aparatoso artefato na cintura. Alexandre Herchkovich (cacete, como se escreve o nome deste cara?) aprovaria o acessório.

Iniciava-se aí a transformação estética do cyber-mindingo. Garboso, começou a andar com graça e elegância, cheio de orgulho, na imensa pista que levava às tendas dos diversos estilos musicais. Nem se preocupou em entrar numa delas. A música que ouvia já lhe era indiferente. Importante mesmo era curtir o momento, exibindo-se naquela verdadeira passarela de moda, e apreciar as reações de espanto e inveja dos clubbers em relação à sua invejável figura.

Para arrematar o visual, pegou do chão um óculos de uma só lente (vermelha) que algum dançarino mais afoito deve ter quebrado. Adornado com o óculos de uma só lente, assemelhou-se por um momento a Pantaleão, saudoso personagem de Chico Anísio. O conjunto ficou de fato muito bonito: roupa amarfanhada pelo contato com o povo e com o próprio suor; cabelo totalmente desgrenhado; saco de cinco garrafas d'água amarrado na cintura; óculos vermelho de Pantaleão - tudo isso e um sorriso extático na boca. O cyber-mindingo já podia dizer o seu nome.

***

Não por acaso, a exótica figura começou a atrair fãs. "Você tem a pílula aí?" - perguntaram reiteradas vezes as doidinhas passantes, provavelmente confundindo-o com o Morpheus do filme Matrix. Como não fôra ao local para fazer comércio, aliás, muito pelo contrário, o cyber-mindingo continuou a sua odisséia pela passarela dos malucos, refutando os pedintes mais insistentes com um urro ininteligível. Como pensavam que o sujeito era louco e violento, deixavam-no logo em paz para passear.

A certa altura, a mistura maldita que habitava suas entranhas deu ares de que desejava respirar um ar puro. "Devo mijar", pensou ele, "bebi muita água". Achegou-se então de um muro, para fazer o descarrego. Tirou o bilau para fora, e só então percebeu que os cinco fortões do lado eram na verdade umas fraternas "bibas", umas auxiliando gentilmente as outras na difícil tarefa de mijar. Sem saber ao certo o porquê do revolvimento de suas entranhas, o cyber-mindingo foi premido pelas circunstâncias, e após um educado "dá licença", despejou um jarro de vômito nos pés dos homossexuais que o ladeavam. Não fizera por mal, mas as bichas saíram todas revoltadas. Ainda não estavam acostumadas, por certo, aos hábitos de um cyber-mindingo.

Meio vomitado, limpou a boca na manga da camisa, assoou o nariz para tirar os fiapos de bilis que lhe turbavam a respiração, e banhou-se com uma garrafa inteira de água, que despejou por sobre a própria cabeça. Completou a sessão de descarrego com três batidas fortes de punho no peito, à moda do famoso Tarzan, e arrematou a cena com um sonoro arroto dirigido aos céus. "Nasci de novo", assegurou por fim aos espectadores do bizarro espetáculo. Pôs-se então novamente à marcha. Só não sabia para onde.

Consumiu rapidamente o resto de sua provisão de água. Foi então que constatou não possuir mais fichas, nem tampouco dinheiro. Mas o cara era um legitimo cyber-mindingo: aproximou-se do balcão lotado e disparou à queima-roupa para a bela rapariga que servia as bebidas a quem lhe entregasse uma ficha: "moça, me dá uma água, tô precisando...". A solução de um mendigo é sempre esmolar. E um pedinte que se preze é sempre convincente em seu olhar de miserável. Não se sabe se comiserada pela triste condição do sujeito, ou se pelo desejo de se ver livre da fétida figura, que ainda trazia uns respingos de vômito na gola, e uns riscos de baba do lado esquerdo da boca, a bondosa moça presentou-o rapidamente com uma garrafa d'água, arriscando o próprio emprego. Grátis é a palavra a que um cyber-mindingo mais dá valor.

E assim transcorreu a noite de nosso maior expoente - e, por que não dizer, precursor - do denodado grupo dos cyber-mindingos. Após mais alguns pequenos golpes, e outros acréscimos à sua já bela indumentária (como alguns respingos de lama na barra da calça, uma rodela de mijo na braguilha, e uns parangolés feitos de faixas do festival por sobre o dorso), o nosso herói resolver repousar. A lida de um cyber-mindingo cansa.

***

Foi então àquele lugar que os entendidos chamam de "chill out". Ali nosso cyber-mindingo se encontrou, como se tivesse chegado a uma igreja renascentista: o lugar, imenso, estava abarrotado de pessoas de todos gêneros, dormindo verdadeiramente como mendigos, no chão, umas sobre as outras. Ele mal pôde acreditar no que via (a cena de fato impressionava até um cyber-mindingo).

Uns dormitavam com a cabeça enfurnada no coturno do vizinho, outros quase de ponta-cabeça, e alguns encolhidos feito ratos com frio. Nos alto-falantes, uma espécie de mantra-techno, e de permeio uma imensa fila de gente tentando achar um lugar para também dormir. Assustador para uma pessoa normal, mas não para o nosso cyber-mindingo. No primeiro tropeço, caiu por sobre uma massa amorfa de gente em estado cataléptico - e dormiu feito um bebê.

Uma ou duas horas depois, conforme me afiançou mais tarde, acordou com alguns chutes involuntários na sua cabeça. Limpou então o fio de baba que formara em sua boca, e que ia até o monte de gente ao seu lado e abaixo dele. Era hora de ir embora.

Perdido dos amigos com os quais viera de carona, o jeito era pegar um taxi. Sem dinheiro, mas com sorte, conseguiu carona com uma menina que dele se apiedou, em frente ao ponto de taxi. Os mendigos tradicionais sempre inspiram dó, um cyber-mindingo tanto mais. "Vamos comigo, eu te deixo perto do seu destino. Eu vou no banco da frente, você no de trás, OK?". "Valeu, moça". Como iam efetivamente para o mesmo bairro, a oferta foi conveniente para o cyber-mindingo, e pouco onerosa para a boa alma.

Ao acordar quinze horas depois, meio sem saber onde estava (estava em casa), mas já novamente transformado em Dr. Jeckyll, o inovador folião ouviu o telefone tocar. Era uma prima sua, velha amiga, que não sabia que ele fora ao famigerado Skol Beats. "Eu não sei por quê, mas sonhei que você tinha morrido. Liguei pra me certificar. Graças a Deus você está bem vivinho..."

"Não sei bem ao certo..." - foi só o que conseguiu responder à prima o Dr. Jeckyll, ainda em dúvida se era o próprio ou se ainda habitava o seu corpo Mr. Hyde, o cyber-mindingo.



O cyber-mindingo curte um som antes do Skol Beats



26.4.04


Culinária Símia

Não é de hoje que penso em comentar as maravilhas da culinária símia. Aliás, somente por injustificável esquecimento deixei de analisar uma interessante notícia, que li há alguns poucos meses por ocasião da gripe do frango. Disse o repórter da Reuters, sintomaticamente na seção "Saúde" do Terra:

"Carne de Rato é Alternativa a Frango na Ásia

A gripe do frango pode ter arruinado as vendas de aves por toda a Ásia, mas o comércio de carne de rato nunca esteve tão em alta. 'Tenho um fluxo contínuo de clientes', disse Van Vath, uma açougueira que vende carne de ratos no Camboja, ao jornal Cambodge Soir.

Ultimamente, todas as manhãs, ela vende mais de 200 quilos de carne de roedor - o dobro do que ela costuma comercializar - já que as pessoas estão mantendo distância do frango, com medo de pegar o vírus da gripe. A doença já matou milhões de aves e pelo menos 22 pessoas no mundo.

A carne de rato - frita, grelhada ou assada com alho e vegetais - é uma comida muito apreciada pela população do Camboja. Mas o menu cambojano tem ainda outras peculiaridades. Além da carne de rato, aranhas, besouros, grilos, cobras, sapos e formigas são bastante apreciados. A tradição local diz que estes animais foram comidos pela primeira vez pelas pessoas que vagavam famintas durante o genocídio de Khmer Vermelho, na década de 70
."

A gripe do frango, de fato, é coisa terrível. Mas se por um lado os prudentes cambojanos fogem à carne do galináceo constipado, por outro esse povo demonstra um curioso destemor com relação à carne de camundongo, bicho que, convenhamos, não leva uma vida das mais elogiáveis. Como mostra a notícia, parece que os destemidos cambojanos não se importam em adquirir uma singela leptospirose, ou mesmo uma pouco prazerosa leishmaniose. Para eles, degustar um bom rato frito vale o risco. Êta nóis.

O jornalista que redigiu o texto acima transcrito bem anotou que o refinado povo do Camboja começou a se interessar por iguarias como ratos, sapos e besouros por ocasião dos massacres do Khmer Vermelho, quando a fome e a miséria grassavam no país. Com fome, até rato, afinal este é o único bicho que viceja na miséria. Nada mais justo e natural.

Mas foda mesmo é pegar gosto pela coisa.

A História está cheia de exemplos de pratos, hoje tradicionais, que foram inventados como solução à escassez. A famosa Paella espanhola seria nada mais que um cozido de restos, compostos de toda sorte de carnes disponíveis, mais arroz e outras quinquilharias gastronômicas, que os camponeses preparavam em suas diligências campestres. O sanduíche, outra composição de rebotalhos no meio de um pão. A pizza também não passaria, segundo os entendidos, de um punhado de sobras assado sobre um disco de massa. Os queijos podres franceses, o mosto de uvas fermentado, estas e tantas outras podreiras viraram pratos e bebidas tradicionais. São de fato muito bons.

Mas rato é outra coisa. Que os sobreviventes do Khmer tenham tido que comer ratos e insetos quando estavam na penúria, vá lá. Mas terem continuado com o costume, mesmo sem a escassez que justificava a monstruosa degustação, isso é que é digno de nota. Só o gosto símio pode explicar que o sujeito deguste um rato frito, acompanhado de farofa de aranha, quando pode comer vegetais, frutas, peixes e outros saudáveis produtos que a natureza gentilmente oferta.

Mas errado estou eu, sem dúvida. Não há razões para o gosto símio. Quando o macaco quer exercer a sua arte, não há quem segure. Nem a leptospirose.



Esse aí gosta de comer alface, o tarado



22.4.04



Símio Xavier, ouvindo com atenção a promessa de Dom Gustavo




ENTREVISTAS DO ALÉM.

O Brasil inteiro ainda lamenta a morte do paranormal Chico Xavier. Mas não o Mundo Símio.

Após intrincadas rodadas de negociações, o Mundo Símio, a partir de hoje, passa a disponibilizar periodicamente aos seus leitores entrevistas realizadas com espíritos do outro mundo, cujo objetivo, como não poderia deixar de ser, é esclarecer, instruir e ajudar o crescimento espiritual do povo em geral.

Isso jamais seria possível se não fosse a colaboração de outro renomado médiun espírita (com o qual se travaram as negociações mencionadas acima), que, se não é tão famoso quanto o velho Chico, é tão ou mais conhecido, respeitado e admirado pela almas que habitam o outro mundo. Trata-se do Símio Xavier, cuja apresentação ao grande público o Mundo Símio tem a honra e o privilégio de fazer, com exclusividade.

O Símio Xavier - que só aceitou fazer parte desta nova coluna após solene juramento, feito por Dom Gustavo em nome do Padre Eterno, de que o Mundo Símio, acima de tudo, é um espaço para divulgação de mensagens espirituais - vive praticamente isolado numa cidadezinha no interior do Ceará. Diz-se "praticamente" porque, aos finais de semana, multidões se aglomeram à frente de sua casa para ouvir-lhe as mensagens vindas do além.

Tal como fazia o velho Chico, o Símio Xavier tapa os olhinhos com uma de suas mãos e, com a outra, escreve numa folha de caderno velho os ensinamentos vindos dos espíritos que lhe tomam o corpo. Com uma vantagem: o espírito que toma posse do corpo do Símio Xavier também ouve o que lhe é dito de perto, de modo que é possível entrevistá-lo.

A primeira entrevista foi feita com o espírito que, na sua passagem pela Terra, diz ter-se chamado de Ashamed Mossan. Ninguém, por aqui, ouviu falar desse sujeito.

Mas, no curso da entrevista, o agraciado leitor do Mundo Símio terá a dimensão de quão importante foi a passagem desse homem pelo nosso planeta - assim como, aos poucos, o próprio repórter do Mundo Símio foi se surpreendendo.

***

Mundo Símio: Senhor Ashamed, por qual razão somente agora o senhor resolveu se manifestar junto aos encarnados aqui da Terra?

Ashamed Mossan: Faço isso apenas porque o Símio Xavier me pediu. Gosto do rapaz e lhe tenho boa amizade. Ele insistiu muito para que eu desse essa entrevista. Ele acredita que, com isso, pode ajudar alguém. Eu sei que isso é uma grande bobagem. Primeiro porque ninguém pode ajudar ninguém; cada qual é que se ajuda sozinho, ainda que outros participem como figurantes. Segundo porque eu sei que esse lugar onde vocês vão publicar as minhas palavras é um negócio feito por enganadores e vagabundos, que nem são alfabetizados no próprio alfabeto em que falam. Pior ainda é quem lê esse tipo de coisa. Mas como ia dar mais trabalho e aborrecimento explicar isso tudo ao Símio Xavier do que dar esta entrevista, achei mais prático não contrariar o menino.

MS: Onde o senhor morou quando esteve encarnado pela última vez?

AM: Morei na região que hoje vocês conhecem como Palestina. E pra não complicar muito, vou logo dizendo que, usando um conceito fácil de vocês entenderem, poderíamos falar que eu era, digamos, palestino, como dizem por aí hoje em dia. Isso foi, segundo o critério de tempo de vocês, há mais de dois mil anos. Não estou muito certo disso, porque, aqui onde estou, o tempo, da forma como vocês concebem, simplesmente não existe. Nem sei mais como esse negócio de tempo funciona. Isso é coisa de macaco.

MS: E qual era a sua profissão?

AM: Escritor.

MS: Escritor? Naquele tempo havia escritores?

AM: Havia, mas não exatamente como hoje. Um escritor começava a carreira contando histórias para as pessoas da aldeia, mais ou menos como naquilo que vocês chamam de monólogo. Em troca, ele ganhava alguma comida, às vezes até algum dinheiro. Conforme fosse o talento do contador de história, vinha gente de outros lugares pra ouvir. E depois, se as histórias fizessem sucesso, ele escrevia o que tinha contado e vendia pra alguém; às vezes mais de uma vez ele escrevia exatamente a mesma história. Fiz um sucesso razoável no meu tempo. Vendi mais de cem histórias escritas diferentes, que era o que dava mais dinheiro. Mas nem por isso, nos tempos das vacas magras, deixei de pedir esmolas, que me sustentaram a maior parte da vida. Todo escritor, naquele tempo, tinha a mendicância por segunda profissão. De qualquer modo, tive lá a minha aceitação. Deu pra viver. Sem luxo, é claro.

MS: E qual a sua história de maior sucesso?

AM: Quando eu estava encarnado, não tinha esse negócio de fazer sucesso. Você escrevia uma história, vendia pra alguém, ganhava um dinheiro. Era esse o sucesso.

MS: E o senhor escreveu alguma coisa que, após a sua desencarnação, ficou conhecida?

AM: Pois é... Depois que eu desencarnei, teve uma história que ficou bastante conhecida sim. Era a história de um personagem chamado Jesus Cristo. Parece que o povo gostou. Sou bom nesse negócio de escrever.

MS: Quer dizer que Jesus Cristo é um personagem de ficção?

AM: É, me parece que sim.

MS: Então ele não existiu?

AM: Existiu tanto quanto o Dom Corleone, o Super-Homem ou Senhor Spock. Existir ou não existir, ser ou não ser, é tudo uma questão de intepretação.

MS: Já que é assim, o que o senhor teria a dizer sobre o seu livro?

AM: Olha, a princípio eu não ia dizer nada. Mas, já que estamos por aqui, quero aproveitar e pedir desculpas.

MS: Pedir desculpas?

AM: Exatamente. Me desculpem.

MS: Por quê?

AM: Quando escrevi o livro, nem sonhava com a quizumba que isso ia dar. Alteraram o meu texto, enfiaram ele dentro de um outro livro, mudaram a estrutura dos capítulos e, pior de tudo, inventaram uma religião com base nele. Daí, com o perdão da expressão, fodeu tudo.

MS: Como assim?

AM: Ora, não me diga que você não sabe. Você pode imaginar como seria ridículo alguém inventar uma religião do Dom Corleone, com todos os sacerdotes vestidos de terno, gesticulando igual a ele e imitando a voz rouca e o sotaque italiano? Nunca sugeri no livro que eu ou meus personagens éramos a favor dessa história de religião. Muito pelo contrário: meu livro mete o pau nesse negócio de religião. Além de ridículo, isso é uma tremenda duma sacanagem. Criaram uma religião a partir do livro, inventaram esse negócio de igreja, de doação de dinheiro pra obra Deus, sei lá mais o quê. Depois, inventaram uma baita estrutura de organização social com padres, papas, pastores, reverendos, bispos, arecebispos, o diabo. Invadiram países, continentes, escravizaram povos, torturaram e mataram gente a dar com o pau. E tudo sempre com alguém ganhando dinheiro por trás. Isso sem falar do abuso sexual das crianças, coisa que tem piorado de uns tempos pra cá. É uma barbaridade.

MS: O seu livro foi muito distorcido?

AM: Distorcido, o cacete! Ele foi é mudado. A história que eu escrevi tinha oito capítulos. A história dos quatro primeiros, que é dos seguidores do tal do Jesus descrevendo, cada um à sua maneira, o que tinha acontecido até a morte física do personagem principal, até que estão mais ou menos. Mas os quatro últimos é uma palhaçada. Mudaram tanto que até eu fiquei com dificuldade de lembrar do original. Depois que o Jesus morre, seus seguidores levam a palavra dele para outros povos: o livro inteiro, no fundo, é a história de uma idéia individual que se sobrepõe à morte física e às idéias coletivas dos outros. Só que, do jeito que está hoje, ficou tudo bagunçado: nunca houve encontro de qualquer personagem com o tal do Paulo de Tarso, cobrador de impostos, que nem sequer aparece na minha história. Esse personagem não é meu. Também nunca escrevi nenhum capítulo capítulo intitulado "Apocalipse", ou coisa parecida, que dizem ser de um São João não sei das quantas. Nenhum dos meus personagens virou ou sequer foi chamado de santo. Aliás, que porra é essa de santo? Quem inventou isso? Pode apostar que não fui eu. Sabe quanto eu ganhei quando vendi o original? Um dinheiro que não deu pra comprar dois pães. São todos uns filhos da puta. Hoje em dia qualquer macaco escreve uma bobagem e, se não lhe dão o crédito, ou se mudam o que ele escreveu, ele se faz de aborrecido, se faz de injustiçado. E EU? E EU, PORRA?!?

MS: O livro original tinha outro nome?

AM: É claro que tinha... Mas deixa pra lá. Desde que eu desencarnei, estou fazendo um tratamento para ficar mais sereno e menos irritado. Enquanto não conseguir, vou permanecer no grau em que estou, coisa que já está me deixando de saco cheio. Esse assunto do livro ainda me incomoda um pouco.

MS: O que o senhor acha da nossa vida aqui na Terra?

AM: Uma merda. Graças a Deus, não preciso voltar mais.

MS: O senhor acha que o nosso mundo está melhorando ou piorando?

AM: Aí na Terra?

MS: Sim.

AM: Era uma porcaria, está piorando muito e vai piorar ainda mais.

MS: E como é o lugar onde o senhor está agora?

AM: Estou exatamente um grau acima de vocês. Mas não se iluda. É melhor que o de vocês, mas também não é lá grande coisa.

MS: Deus existe?

AM: Daqui de onde estou também não dá pra ter certeza.

MS: Quando a gente desencarna...

Símio Xavier (abrindo os olhos de repente): Foi boa a entrevista?

***




20.4.04


Entrevista com Simião, o Velho

PIRAJUÍ - Seu Simião é agricultor aposentado. Velho, mas ainda forte, gaba-se de explorar os filhos e netos, de cujo trabalho extrai o seu sustento, porque na verdade nunca pagara o INSS. "Ih, menino, isso aí é tudo uma cambada..." - pondera o sábio ancião acerca do renomado instituto previdenciário.

Seu Simião é pessoa de destaque na imprensa local, dada a sua notória sapiência. "Gosto memo é de ficá na rede, seu moço. Quando levanto, é pra modo de fornicar um pouquinho. Esse é o segredo da minha saúde: pouco trabaio e muita fornicação. O trabaio estraga os hómi. E acaso existe muié pra quê? Pra trabaiá pra nóis e recebê em pagamento uma boa surra de pica, ora pois! Se a surra for boa e a pica grande, como a minha, o trabaio da mulé tá pago...". O velho não deixa de ser polêmico, e a coragem de suas declarações impressionam.

Segue abaixo a primeira parte da entrevista que fizemos com o honrado pirajuiense.

Mundo Símio - Seu Simião, diga aí pra gente, quantos anos o senhor tem?

Seu Simião - Ânus? Tirano o meu, tenho o das minha cinco mulé, afora umas perversinha que de veiz em quando aparece pra acarinhá o véio.

Mundo Símio - Bom... Seu Simião, o senhor tem muito prestígio na cidade, não é? A que se deve tamanho apreço pela sua figura?

Seu Simião - É que nóis é sábio dimais, num sabe? Nóis diz o que o povo qué orvi. Esse é o sucesso de todo discurso: dizê o que o povo qué orvi. Vem um candidato pedi voto, e eu cravo lá: "pode dexá, seu moço, o sinhô já tá eleito, meu voto é seu, só não conte a ninguém pra não magoar o adversário". Vem o adversário, digo a mesma coisa e todo mundo sai feliz. Aparece aqui a Simiana, aquela minha vizinha ali, que mais parece o caramunhão, e eu tasco logo um "mai qui beleza! Parece um anjo!". É mentira, como o sinhô pode vê, porque a mulé é feia de doer, mas sabe como é que é, nóis é véio, e de elogio o povo gosta, então vou elogiando e comendo as catraia aqui da roça.

Mundo Símio - O senhor é realmente um homem muito sábio. A propósito, o senhor trabalhou em quê quando estava na ativa? O senhor teve estudo?

Seu Simião - Rapaizi, sabe que eu nunca gostei de estudá, e de trabaiá tinha priguiça. Como tem gente que não gosta de vagabundo, eu digo que sou agricultor aposentado. É quase verdade: sempre fui aposentado, e meus vinte fio, que me sustenta, trabaia na roça. Sô agricultô aposentado, então. Eu gosto memo é de oiá a turma trabaiando. Fico horas e hora aqui nessa rede, oiando o povo lá no sol capinando os mato. É bunito di vê. De veiz em quando cansa, mas daí nóis descansa barranqueando arguma das mulé...

Mundo Símio - Isso é que é vida, hein Seu Simião?

Seu Simião - Ih, rapaiz, isso é vidão bão. Pena qui cansa.



Seu Simião posa para uma foto, meio de má vontade pelo trabalho que isso dá



16.4.04

O equívoco das bananas

... e o símio que encoxa a pacová

(tem também o Monkey Cassidy and the Sundance Chimp).







Mais um retrato do charmoso Góri, em que ele mostra todo o seu estilo





Spectreman

Os mais velhos certamente identificaram numa das imagens postadas anteriormente a doce figura de Dr. Góri. Este sujeito era um macaco verde e raivoso, que ostentava uma bela cabeleira loira, em corte chanel. Juntamente com sua barba igualmente loira, e também cuidadosamente aparada, esse cabelo dava a Dr. Góri um ar de estranha virilidade. Tal semblante, e mais os gestos precisos de palestrante karateca, que pontuava cada exclamação com um golpe quadrado, davam-lhe o troféu de mais carismático vilão de todos os tempos.

O seriado Spectreman era feito lá no Japão, por pessoas de inegável bom gosto e refinado humor. Sim, porque não poderíamos supor que as incontáveis Tóquios diariamente destruídas pelos terríveis monstros de Dr. Góri fossem feitas comicamente de papelão por descuido ou falta de verba. Também nunca seria admissível pensar que a fantasia de Góri e Karas, o seu ajudante símio, fossem de pelúcia e plástico por mero acaso ou precariedade. E de modo algum um herege afirmaria que os monstros de espuma que atazanavam Spectreman e pisoteavam Tóquio seriam involuntariamente fake. Não, mil vezes não. O sorridente povo japonês fazia deliberadamente humor, e dos bons. Essa gente sabe das coisas, e seu bom gosto é proverbial.

O curioso é que, apesar de o seriado televisivo se chamar "Spectreman", poucos o assistiam para ver o lutador de karatê de máscara quadrada que fazia as vezes de mocinho. O povo queria mesmo era se deliciar com as mutretas que o garboso Dr. Góri inventava. Karas, seu estúpido escudeiro que sempre acabava por foder com os planos do bom dominador, também era atração divertida. Os monstros criados pelo genial doutor, então, estes ainda estão gravados em minhas lembranças.

Bons tempos aqueles em que a televisão exibia programas humorísticos de qualidade como "Spectreman". Esses tempos liberais, em que se admitia como vilão um japonês vestido de macaco verde com peruca loira (e chanel!), definitivamente não voltam mais. Triste é a época que não tem o seu Spectreman. Hoje em dia qualquer moleque de espinha na cara pode fazer animações e vídeos sofisticadíssimos no computador caseiro - uma perfeição sem a menor graça. Vou ver se consigo comprar uma fantasia de Dr. Góri na Rua 25 de Março - o antro das fantasias aqui de SP - para sair na balada. Garanto que farei muito mais sucesso com as mulheres.



Esse alegre folião certamente passou pela 25 de Março



14.4.04




"Joga as banana, filhas das puta"




Big Símio Brasil - parte 2

A rede Globo de televisão, suposta merecedora do selo "Padrão Globo de Qualidade", faz que é chique, mas deixa os bichinhos sem comer por dias e depois joga o cacho de banana pelo qual se mordem e se estapeiam os símios do Bebebê. A briga vale um carro.

Não bastasse o surreal programa --aquele que põe um monte de gente absolutamente normal pra ficar três meses numa casa fazendo coisas absolutamente normais--, e mesmo depois de sair o vencedor, o tio Pedro Bial ainda brinca um pouco mais com a macacada (dos dois lados da tela, nós e eles) no fim de semana subseqüente ao game-over.

Funciona assim. Eles pegam e botam de novo aquele bando de gente absolutamente normal no estúdio e ficam passando o teipe das brigas mais raçudas entre os peludos. Vai o Pedro e atiça:

- Ih! Eu não deixava! O que você tem a dizer sobre isso, minha amiga?
- Ah, Bial! A culpa foi dessa filha da puta, piranha do caralho. O Brasil pode não concordar, mas foi culpa da edição.
- Calma lá, filha --volta o Pedro-- a edição da Grobo é supimpa, não zoa.
- Não zoa o caralho, Bial. Essa filha duma quenga nojenta, cabelo ruim, pobre e ignorante me fodeu e...
- Calma, filha! Vamos deixar ela falar --diz Bial se voltando para a segunda-- fala, fulana!
- Bial, a culpa é dessa cachorra, perebenta filha da puta, bunda de celulite. É que a edição não mostrou, mas ela na verdade me mandou tomar no cu e me mostrou o dedo assim ó.
- Opa, peralá! --intervém o apresentador pela última vez-- a edição da Grobo é faive-estar, não fode.
- Não fode uma porra, Bial, essa vaca aqui vai ver só.
- Vaca é você, sua cachorra --responde a primeira-- agora eu vou te matar.

(...) as duas se atracam, o My Boy bota um fundo musical e a diretora ordena pelo ponto eletrônico, "isso, Bial, agora dá um pescotapa no fortão do Jiu-Jitsu, diz que foi o clone do Vinny e deixa o pau comer com força". O fantasma do Chacrinha, vagando bêbado pelos estúdios da emissora, joga um fantasma de bacalhau sobre a platéia imaginária, rangendo os dentes, sussurrando de si para si: "macacada do caralho, morram todos, seus nojentos!"

E daí segue o barraco, corta pros comerciais e a Grobo fatura mais um pouco em cima dos indefesos Bebebês.

Depois ainda reclamam do Ratinho.



13.4.04




Senador Suplicímio e seu conselheiro Paulus tramam a salvação do Brasil




AGORA VAI

Fiz muita bobagem na vida, mas de uma coisa nunca tive vergonha: sou um convicto admirador do senador Suplicímio.

Eleitor fiel dele desde as suas primeiras bandeiras por essa infausta selva que é a política nacional (e quiçá internacional), dediquei-lhe todos os votos que dei em minha vida, para todos os cargos possíveis e imagináveis - incluídos o de síndico do meu prédio e de presidente do centro acadêmico da escola em que estudei. É fato que de boa parte dessas eleições ele não participou, o que me deixou com fama de louco entre os vizinhos e de viril contestador entre os colegas. Mas nem por isso deixei de homenagear o Mestre, em todas as vezes em que fui convocado a prestar meu dever cívico para com a pátria, inclusive nas assembléias condominiais.

Foram muitos os votos, mas poucos os contatos. Na verdade, um só.

Já há alguns anos, enviei-lhe uma carta cujo teor altamente relevante para os destinos da Nação me obrigou a pedir sigilo absoluto ao senador sobre tema de que tratei. A missiva, na verdade, tratava de algo muito maior do que eu e o próprio senador Suplicímio; tratava da minha humilde colaboração, fruto de anos de estudo e reflexão, para finalmente tirar o Brasil do buraco. A idéia, revolucionária e avassaladora, modéstia à parte, não tinha como dar errado. E na esperança de ver implantado o progresso econômico e a felicidade geral do povo, selei a dita cuja e a enviei ao senador, dias após à sua eleição para o Senado.

Infelizmente, ele nunca me respondeu.

Hoje, porém, entendo o porquê de seu silêncio. Meu plano, mesmo sem que a população sequer desconfie, já está em curso.

Com a clarividência típica dos gênios, o senador Suplicímio deu-se conta da seriedade do plano e, por cautela, nada mencionou. Nem por isso, porém, o esqueceu; muito pelo contrário, o aperfeiçoou. Ele esperou, com paciência, que uma série de acontecimentos modificadores da conjuntura nacional e internacional viessem em benefício do êxito de meu plano, sem o que a tentativa de sua implantação poderia frustar-se. Agora não há mais jeito. Nosso futuro como potência é inevitável; nosso passado de promessas dá o primeiro passo para se transformar num futuro de realidades.

Estrategista por excelência, o senador Suplicímio soube a hora exata de, em silêncio, orquestrar os primeiros movimentos para o grandioso plano, o qual batizei em minha carta de Plano Mindingo.

E, para meu orgulho e felicidade, tiver certeza de que as primeiras medidas do Plano Mindingo já estão em plena execução ao ouvir o rádio na semana passada.

***
Num programa matinal de notícias, dois ex-ministros da Ciência e Tecnologia rivalizavam sobre a polêmica que se instalou a respeito dos pedidos feitos pela Agência Internacional de Segurança Nuclear, visando à fiscalização das usinas de enriquecimento de urânio do Brasil. Ao que me pareceu, a comunidade internacional - porque a tal agência é um órgão da Organização das Nações Unidas - quer ter certeza de que os honestos e ponderados políticos brasileiros não vão ameaçar o Paraguai (ou talvez a Bolívia) com um ataque nuclear através de bombas lançadas de catapultas gigantes (porque, infelizmente, nosso programa de lançamento de foguetes não anda lá essas coisas).

Um dos ex-ministros, que pertenceu ao governo passado, resumiu seus argumentos mais ou menos assim:

- Isso tudo é uma grande bobagem. Estão fazendo tempestade em copo d'água. O Brasil assinou o acordo mundial que veta a proliferação de armas nucleares. Então, tem que se submeter à fiscalização. É chato, mas a vida é assim mesmo.

- ABSURDO !!! - bradou o seu opositor, que, apesar de ex-ministro, ainda é amigo do homem que está mandando hoje em dia. - Do jeito que eles querem fazer, vão descobrir nossos processos de desenvolvimento de tecnologia. Vão nos roubar!!!

- Roubar o quê? - prosseguiu o ex-ministro cujo amigo, neste momento, não está apitando mais nada. - Vamos falar a verdade: produzir tecnologia nunca foi exatamente o nosso forte.

Nesse ponto, simpatizei o sujeito da oposição. Brasileiro gosta mesmo é de criar uma boa roça; plantar milho, feijão e mandioca - como fizeram quando, democraticamente, o povo invadiu, na Bahia, a fazenda de uns gringos malvados que estavam plantando eucaliptos, os desgraçados. Aqui, basta plantar que tudo dá. É plantando que se mata a fome do povo; pode demorar um pouco (no nosso caso específico, uns 500 anos), mas um dia a coisa pega. Esse negócio de tecnologia é lá com o Japão, com os Estados Unidos, com a Alemanha, com a Holanda. Trouxas.

- VERGONHA!!! - rugiu o amigo do homem. - Nossa tecnologia pode ser pequena, mas é nossa!!!

Aí tive de dar razão ao cabra da situação. A merda pode ser uma merda, mas é nossa. E se é nossa, ninguém tasca! Aproveitando a experiência passada do petróleo e a atual do urânio, vou propor ao senador Suplicímio, em outra carta, a criação da Merdobrás, que vai dar emprego a um montão de gente. "A merda é nossa", vai ser o slogan. Mas isso é outro assunto.

- Olha, não querer se submeter à vistoria é o mesmo que questionar o tratado que o Brasil assinou.

- E daí? Esse tratado vale pra uns e não vale pra outros. Por que é que ninguém faz vistoria em Israel? Por quê? Hein? - desafiou, com muita bravura, o amigo do homem.

Não sei por quê. Só sei que a primeira fase do Plano Mindingo está lançada. Agora o Brasil finalmente sai da merda.

***

A segunda fase do Plano Mindingo, salvação da lavoura nacional, é muito simples.

Criado o incidente diplomático sobre a inspeção das usinas de enriquecimento de urânio, o Palácio do Planalto, em nota oficial, vai dizer que não só não vai permitir a "desafiadora inspeção imperialista", como vai dizer que não reconhece a autenticidade da assinatura do Brasil no tal tratado que proíbe a proliferação de armas nucleares. Tudo porque, "segundo certidão expedida pelo 1º Tabelionato de Brasília, a assinatura em questão não é a do Presidente Lula; até porque, à época de sua celebração, o presidente era outro". "Logo", prosseguirá a nota, "não há como reconhecer-lhe a autenticidade".

Após deixar perplexa a comunidade internacional com tão enigmática advertência, o Governo Federal, já no dia seguinte, lançará outra nota oficial, esta concretizando o sonho dourado de boa parte dos brasileiros. Declarar-se-á guerra não apenas contra os Estados Unidos, mas contra o mundo.

O texto, segundo a minha sugestão ao senador Suplicímio, seria mais ou menos assim: "Hoje, o Brasil dispõe do maior arsenal nuclear do planeta. Sendo assim, não vemos razão para suportar as provocações e espoliações de que fomos vitimados por todas as outras nações, ao longo de toda a nossa existência, todas elas culpadas de nossa tragédia. Portanto, decretamos guerra a todos os países estrangeiros, nos termos de nossa soberana legislação".

É claro que vai ser impraticável concretizar essa promessa. Mas, para deixar claro que o Brasil é um país sério, ficará estipulado que, dali em diante, em todas as manhãs, ao invés do Presidente República participar do cerimonial de hasteamento da bandeira nacional, ele assistirá, em respeitoso silêncio e com a mão do peito, a um soldado do exército ateando fogo na bandeira norte-americana até queimá-la inteirinha, sempre sob as câmeras de televisão. Em vez de cerimônia do hasteamento da bandeira, a cerimônia será a do ateamento. Atear fogo na bandeira dos Estados Unidos, todos os dias.

É pouco provável que, apesar de provocativo, o gesto presidencial, por si só, seja suficiente para o País sofrer um ataque. Mas é para isso que serve a imaginação.
Logo em seguida, o Presidente da República decretará que o Brasil passou a ser uma nação islâmica. Para não haver dúvida disso, uma barba postiça gigante seria colada no queixo da estátua do Cristo Redentor, cuja santa cabeça passaria a ser ornada com um grande turbante negro. No bondinho do Pão-de-Açúcar, nada como uma foto gigante do Aiatolá Khomeini pra causar impacto. E o presidente, que sequer vai precisar usar barba postiça, só vai aparecer de turbante.

Nessa nova fase da República Islâmica do Brasil, o novo porta-voz da presidência será o nosso maior enxadrista, o velho Mequinho.

Sei que muita gente vai achar estranho, pois o Mequinho, além de andar um pouco afastado da mídia, é padre da velha e boa Igreja Católica. Mas isso logo vai ser esquecido. Assim que o Mequinho, na sua primeira aparição pública, ler com candura angelical uma nota na qual vai ser explicado que a origem de seu nome é apenas uma sincera homenagem a Meca, a capital do Islã - e que a história de padre era só pra despistar -, muita gente vai se arrepiar de medo.

Se ainda assim os gringos relutarem em nos invadir, o negócio é botar logo o Exército pra tomar posse da embaixada estadunidense e botar pelados na televisão os gringos que estiveram lá, todos algemados e de nariz de palhaço.

"Isso é para os Estados Unidos irem se acostumando", dirá outra nota oficial lida pelo Mequinho. "Vai ser assim que toda a população deles irá viver, as vinte quatro horas do dia, depois que o Brasil anexar aquele território". E, junto com a bandeira norte-americana, no cerimonial matutino do Planalto, serão queimadas fotos gigantes de Abraan Lincon e George Washington, agora sob os olhares assustados dos norte-americanos pelados e de nariz de palhaço. Sem esquecer, é claro, da televisão transmitindo tudo.

Evidentemente, muita gente por aqui vai reclamar dessa história e pedir a deposição do governo, fazendo da queda do governo mera questão de tempo. Mas é pra isso que serve a agilidade de pensamento; enquanto os outros ficam discutindo, quem é esperto age rápido.

"Abrimos mão do nosso arsenal nuclear para lutar contra os imperialistas. Com esses putos, a gente vai sair mesmo é na porrada. Que venham para cá, se tiverem coragem", discursará o Presidente Lula em pessoa, cercado de lutadores de academia de jiu-jitsu, todos eles fazendo careta de mau e balançando a cabeça de um lado para o outro.

Diante de tanta provocação, não vai ter jeito: a invasão do País vai ser questão dias. Ainda que boa parte da população queira ela mesma dar um cacete tanto no Lula quanto no pobre Mequinho, todos generais do Exército manterão os quartéis fiéis ao governo - em troca de um acordo que lhes será vantajoso, a ser cumprido ao final da operação, como adiante se verá.

Já antevendo a aporrinhação que vai ser deslocar os mariners para cá - "Será o Brasil o nosso próximo Vietnã?", questionará o The New York Times; "Um Iraque já não é o suficiente?", alertará o Washington Post -, o presidente norte-americano, seja ele quem for, não vai se fazer de difícil para atender a um telefonema da embaixada brasileira.

E desse mísero telefonema virá a coroação final do Plano Mindingo; a cereja que faltava no grande e suculento bolo das dádivas pátrias.

***
O telefonema proporá a rendição do Brasil.

Isso mesmo: a rendição completa, incondicional, explícita e, acima de tudo, eterna. Sem nenhuma gota de sangue.

É simples: é só chegar e tomar posse. Faz o que quiser. Se vira. Toma que o filho é teu.

Em troca, o presidente, seus amigos mais próximos e os generais que lhe mantiveram no poder naqueles longos 4 ou 5 dias de cão vão todos morar na Suíça, subvencionados, para sempre, pelo governo norte-americano.

Para não decepcionar a parte do povo que, esperançosa de resgatar o orgulho nacional, acreditava que os Estados Unidos cairiam na nossa armadilha e topariam mandar para cá apenas os seus lutadores de artes marciais, e também pra evitar logo qualquer idéia de resistência, os Estados Unidos, de cara, jogam duas bombas atômicas. Uma no Piauí e outra no Espírito Santo, formando dois belos golfos na nossa nova geografia.
Aí não vai ter mais jeito. O Brasil, para poupar vidas humanas, será obrigado a se render. Diante dos fatos, todos vão ter de se conformar.

O negócio proposto no telefonema é bom pra todo mundo.

Livre daqueles dois encostos em forma de Estados, os norte-americanos vão poder explorar nossas riquezas (que passará a ser deles) da forma como bem entenderem. Eles decidem quais empresas devem continuar em funcionamento, quais devem ser fechadas, com que tipo de atividade nova vai dar pra embolsar um bom dinheiro, que tipo de atividade só vai dar prejuízo. Se houver alteração da massa, é só ameaçar com outra bomba.

Os soldados deles, que aleatoriamente patrulharão as ruas e as estradas, vão zelar pela segurança dos negócios e, como não dá pra ganhar dinheiro enquanto um esfola o outro por aí, eles terão autorização para metralhar quem se meter a valente. E também a metralhar quem não cumprir os contratos que assinou, conforme o criterioso e prudente arbítrio do soldado, que, em caso de litígio entre os nativos, se transformará em juiz das lides comerciais, trabalhistas, familiares, criminais e de quaisquer outras naturezas. É só parar um soldado na rua e explicar o problema. Se ele achar que o reclamante não tem razão, lhe passa fogo na hora. E se ficar em dúvida sobre quem tem razão (o que vai ser muito comum, diante da dificuldade com o idioma), passa fogo nos dois, que é pra não dar privilégio a ninguém e manter a imparcialidade. De modo que vai ser melhor andar na linha e evitar conflito com quer que seja. Se o caldo começar a entornar, já sabe: bomba atômica na cabeça.

Quem quiser, que abra o próprio negócio; quem não quiser, que trabalhe para os outros. Eis a esmola que, de bom grado, receberemos, vendo finalmente o potencial das riquezas pátrias ser desenvolvido por quem é profissional - e daí o nome do plano. Será a idade do ouro.

Como o sucesso do plano pressupõe a extinção radical e absoluta de toda e qualquer entidade de natureza estatal, apenas um órgão fará o papel de governo, seja no âmbito do Executivo, do Legislativo, do Judiciário; federal, estadual ou municipal. O órgão será estabelecido no último andar de qualquer um dos prédios velhos do centro de São Paulo, e, a identificar-lhe a função, haverá apenas uma tabuleta velha, onde, à mão, estará escrito: "Governo". Pronto, tá aí o governo.

Quem precisar dele, pode chegar: o Mequinho, que sozinho irá representar todo o "Governo", estará sempre à disposição para dar algum conselho espiritual - ou, quem sabe, até para um joguinho de xadrez. É certo que ele não poderá resolver nada; mas como o atual governo, além de desgraçar a vida do cidadão, também não resolve absolutamente porcaria nenhuma, a boa educação e simpatia do Mequinho, se comparadas ao mau humor raivoso do funcionalismo público de hoje em dia, na prática vai se revelar muito mais útil e vantajosa a quem se dispuser a procurar o novo governo. Pode até ser que ele demore um pouco para atender todo o povo, e filas literalmente quilométricas se formem na porta do prédio do Mequinho. Mesmo assim eu pergunto: e daí? Quem espera sempre alcança.

Alugar o país, como já se disse no passado, é espirrar na farofa, é coisa já superada. Aluguel pressupõe a devolução futura do imóvel. O Plano Mindingo não prevê a devolução de coisíssima nenhuma; prevê, isto sim, a venda definitiva, irrevogável e irretratável. Não aceitaremos a mercadoria de volta.

Aos que forem antipáticos à filosofia belicosa e imperialista dos filhos do tio Sam, digo o seguinte: meu plano, acima de tudo, é pacifista e democrático. Podemos, ao invés de provocar os Estados Unidos, fazer exatamente o mesmo, só que tendo por alvo o Japão, ou a Alemanha, ou a Inglaterra, ou a Holanda, ou a Itália, ou o Canadá. Diante da gravidade da situação, até Portugal já estaria bom (afinal de contas, quem é que não merece uma segunda chance?). É questão de gosto: cada um tem as suas preferências. Preservada a coluna vertebral do plano, o resto não tem importância.

Assim como não tem importância se o Brasil vai ou não fazer a bomba atômica. O negócio, como eu disse anos atrás ao senador Suplicímio, é arrumar o pretexto para iniciar o plano. Soube bem o senador o momento de fazê-lo. No plano original, minha proposta era arranjar alguma discussão a respeito da Amazônia; mas a idéia do urânio é bem melhor.

***




12.4.04

Eu quero ter um milhão de blogs e bem mais forte poder postar

Ia postar aqui, já que o tema tinha a ver com o universo símio, mas acabei publicando lá no blog solo, até pra fazer a presente propaganda junto ao seleto público de Mundo Símio.

Convido a todos, então, a ler o post O marciano que deu tilt no planeta Terra lá no quadrado.com.







Nosso santo Cardeal Primata fecha a páscoa com discurso em favor dos símios



8.4.04


Doutor Pepe e as Maravilhas da Medicina

O ilustre médico pirajuiense narrou-me fato assombroso, ocorrido em seus últimos anos na Faculdade de Medicina de Marília.

Contou-me o denodado doutor, hoje militante nas artes da Urologia, que foram duros aqueles tempos de sextanista de medicina, quando era obrigado a dar plantões em tudo quanto é área. Mas a experiência fora recompensadora, assegurou-me, ainda que nenhum vintém tivesse recebido pelos tormentos padecidos. Os fatos bizarros com os quais ele se deparava no cotidiano de um hospital universitário, estes sim, compensavam a dureza.

Neguinho com vegetais em todos os buracos imagináveis era coisa do dia-a-dia, quase indigna de menção especial. Havia também o famigerado "G-5", ou "grupo de cinco", que consistia na imobilização do paciente mais recalcitrante (em geral os bêbados) por um pelotão de fortes ortopedistas. Outros episódios interessantes eram protagonizados por mendigos à procura de cama, comida e roupa lavada. Insatisfeitos com a informação de que hospital era lugar de doente, e não de assistência social, alguns deles faziam questão de pular de cabeça na porta de vidro, espatifando-a, só para provar que estavam realmente aptos à internação. Certamente eram muito convincentes em seus argumentos.

Mas o fato que mais marcou minhas lembranças, e que tem relevantíssimas implicações antropo-símias, foi o misterioso caso da mulher que não engravidava.

***

A Dona, uma capial de alguma cidade vizinha, teimou que não podia ter filhos. Foi então examinar-se com os bons proto-doutores que militavam no hospital universitário. Feito o exame clínico, nada se notou na mulher. Pediram-se então exames de ultrassom ou de outra parafernália mecânica. Nada. Chamaram o doutor mais experiente. Nada, de novo. Exames de sangue e o escambau foram feitos em diversos lugares do Brasil. Absolutamente nada. A mulher era mais sadia do que touro de exposição agropecuária.

Examinaram então o miserável do marido, que certamente deveria ser o culpado pelo filho que não nascia. Após escrupulosas investigações, chegaram ao surpreendente veredicto: o marido também era mais fértil do que um coelho no cio.

Perplexo e cabisbaixo pelo mau resultado de seus exames, e já francamente puto com a desconfiança da boa matuta, Doutor Pepe resolveu tomar a decisão que todo bom investigador tomaria diante de uma minuciosa produção de provas que não apontava para lado algum: resolveu começar de novo, do zero, sem desprezar nenhum detalhe, por insignificante que parecesse.

- Dona Rosicreide, diz aí: como é que a senhora e seu esposo fazem?
- Como nóis faiz o quê, dotô?
- Como vocês... a senhora sabe, como vocês estão fazendo a atividade pra ter um filho?
- Atividade, dotô?!? Nóis num tá fazendo nada de errado não, dotô, nóis segui as lei.
- Catzo, o sexo, porra!, como a senhora e o seu marido fazem sexo. Descreva pra mim agora. Se não fizer isso a senhora não vai ter filho nunca!
- Ah, dotô - disse a jovem senhora, tingida de vermelho-cor-de-vergonha - isso nóis faiz como todo mundo... Mas já que o sinhô qué sabê...

Deve ter sido mais ou menos assim o diálogo entre o médico e a paciente, pelo que pude imaginar. Fato é que após a descrição dos pormenores, o minucioso profissional da saúde finalmente solucionou o tormentoso problema, que já chamava a atenção de todo o nosocômio.

- A mulher só dava o cu, porra!!! - bradou depois o vitorioso médico, na roda de chope.

Descobriu o bom doutor que o desgraçado do marido, acostumado aos favores das cabras, só praticava o coito anal com a cônjuge, sem nem sequer imaginar que haveria outro orifício mais propício à concepção de um filho.

A esposa também dava a sua contribuição para o infausto resultado, porque igualmente nem sonhava que a coisa não se fazia como eles faziam.

- Então agora a senhora faz assim, desse outro jeito, por esse outro caminho...

A surpresa da Dona com a novidade só não foi maior que a do marido: havia dois buracos pra fornicar com a mulher, e só um deles "fazia fio" (filho, em bom caipirês). Não tardou e as duas boas almas abriram a fábrica de miseráveis, que até hoje não deve ter sido fechada. Método anticoncepcional, para o tradicionalista povo brasileiro, só o antigo: a gravidez. Afinal, como é de geral sabença, mulher grávida não engravida. O negócio é fazer um atrás do outro. A Santa Igreja aprova - e recomenda.

Além de causar admiração, o fato verídico narrado acima traz esta lição, concreta como pedra: o homem perdeu o instinto do símio e não ganhou uma razão superior. Se Nietzsche - que dizia que o homem é a ponte entre o macaco e o super-homem - tivesse tido a sorte de conversar com Doutor Pepe em algum boteco de Marília, ficaria ainda mais louco do que já havia ficado. O Mundo de fato é Símio... e o homem está abaixo do símio.



O primeiro rebento de Dona Rosicreide, parido pelas mãos de Doutor Pepe




7.4.04




Até o Símio Moreira quis entrevistar o Tio Juca depois das polêmicas declarações





EU AMO A TELEVISÃO (2).


Quando não tenho nada pra fazer, gosto de assistir à televisão; quando tenho, aí é que gosto mais.

Mesmo tendo o que fazer no último sábado de madrugada - como, por exemplo, dormir, que é a coisa que qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e decência faz nessas horas -, não resisti à tentação do Tinhoso e, feito um viciado perambulando de boca em boca, peguei-me às 3 e tanto da matina apertando desesperadamente os botõezinhos do controle remoto para trocar os canais.

Nessa toada de doido, só fui satisfazer o vício maldito quando me deparei com aquele conhecido programa de auditório, em que um senhor de idade que se veste feito uma criança fica rodeado por um bando de crianças que, para fazer bonito na televisão, fazem perguntas aos convidados feito senhores de idade. O entrevistado, naquele momento, era um tal de Juca de Oliveira, ator, diretor e produtor de teatro - mas cuja maior qualidade, para mim, é ter uma cara de bonzinho acima de qualquer dúvida.

O tal do tio Juca, segundo me disseram os informados, é único sujeito que, realmente, ganha dinheiro com teatro neste teatral país. É claro que muito gente vai dizer que aquele outro senhor magrela, de nome estrangeiro, cabelos cumpridos e óculos redondinhos, e que mais me parece o Virgulino Ferreira, o Lampião, depois da hecatombe nuclear, também ganha dinheiro com isso. Sei não. Pra mim, o que esse Lampião desidratado faz não é teatro - é puro dadaísmo; um amontoado de coisas sem sentido e, que justamente por serem sem sentido, são sempre aplaudidas pelo povo, porque ninguém quer passar atestado de símio.

Seja como for, o fato é que, indagado sobre como acabar com tanta maldade que se vê no mundo (pergunta, como se vê, típica do pacato e consciente jovem brasileiro), o bondoso tio Juca, do alto da mansidão do seus cabelos brancos, falou mais ou menos o seguinte:

- Só acredito numa coisa: clonagem.

Apesar do tom quase angelical do sábio tio Juca, tomei um susto mais que suficiente para sepultar o início de sono que ameaçava chegar, e agucei os ouvidos para,
depois de dada a sentença, ouvir-lhe a fundamentação.

- Nosso ancestrais - explicava o amoroso tio Juca -, por uma questão de sobrevivência, desenvolveram instintos como o de solidariedade, amizade, respeito e colaboração. Por uma questão de adaptação, o homem de hoje perdeu biologicamente esses instintos. Por causa disso, só a clonagem de seres humanos, que deverão ser geneticamente modificados para receberem, outra vez, aqueles instintos perdidos, é que vai melhorar a vida neste planeta.

Trocando em miúdos: é melhor fechar logo a porta da casa, espalhar gasolina, tascar fogo em cima e sair correndo. Quem chegar por último é mulher do padre. Salve-se quem puder.

Em abono à sua tese, o simpático tio Juca disse, com satisfação, que sua opinião é compartilhada por aquele famoso cientista inglês que sofre de uma doença rara - a qual, com passar dos anos, vai fazendo pouco a pouco o paciente ser engolido pela sua própria cadeiras de rodas, tal como um buraco negro faz com o universo (vindo daí, na minha opinião, a sabedoria desse cabra com relação a esse e tantos outros mistérios do universo; nada como a experiência prática para fundamentar a teoria). Mas quanto a isso não sei se o tio Juca está com a razão: ao que me consta, o tal cientista só expressa suas intenções através de um rádio que ele traz dependurado no pescoço (e que me faz lembrar aquele veterano rapper que, demonstrando bom-gosto e erudição, só se apresenta em público com um relógio de parede pendurado no pescoço). E como o rádio do cientista é acionado pelas batidas do coração (ou pelas ondas cerebrais, não sei ao certo), um fulano desses sempre corre o risco de ser mal compreendido. Diante de tanta maldade no mundo, não vou achar entranho se for descoberto que algum espírito de porco, já há um bom tempo, tem por hábito colocar um gravadorzinho dentro do rádio do rapaz da cadeira, pouco se lixando pra opinião do coitado - que nem sequer poderia descarregar a sua fúria com tamanha injustiça dando umas bordoadas no sujeito que lhe colocou as palavras na boca, ou melhor, no rádio.

Mesmo assim, gostei muito da explicação do tio Juca. Até porque ela explica a razão da evidente superioridade símia.

Minha única ressalva quanto a isso tudo é o fato do próprio tio Juca, não há muito tempo, ter trabalhado numa novela interpetando um cientista que fazia clones, se não me engano, em algum país do Oriente Médio. Assim como o público, nas ruas, xinga e ameaça bater nos atores que fazem papel de vilão na novela, pode ser que o tio Juca esteja um pouco empolgado demais com o sucesso de seu personagem.

De minha parte, acredito que contribuiria muito com a evolução da humanidade caso meu clone fosse premiado, em acréscimo, com o dom de saber ganhar dinheiro e conquistar mulheres - pelo menos dois salários mínimos por mês e umas duas mulheres por ano, o que já seria incontestável prova do acerto da teoria do tio Juca. Mas, pensando bem, se quem vai se dar bem nessa história é o clone, e não eu, quero mais é que o tio Juca se lasque lá na casa do Capeta.

Talvez fosse o caso de lhe arrumar um radinho para colocar no peito.

***




5.4.04




O comunista barrigudo degusta um pão-de-queijo no Fran's Café




PITSÍMIOS

Eles são quatro, chegam espalhafatosos e logos se espalham pelo salão do café que funciona vinte e quatro horas, de um modo inconvenientemente elétrico para as duas e meia da manhã.

O primeiro, de traços orientais, beirando os quarenta, é tão alto quanto magro, e traz sobre a coluna encurvada o peso abafado do ar que simula descontração imposto ao recato inato e hereditário. É o mais silencioso do grupo; mesmo assim, aproxima-se de uma mesa e, educado, pergunta ao seu único ocupante se as demais cadeiras estão livres. Estavam.

As duas mulheres - uma de óculos, com os cabelos pintados de uma cor clara indefinida pelos nomes que existem no dicionário e que certamente já ultrapassara os quarenta, e outra pelo menos uns dez anos mais nova, mais baixa, de rosto de belos traços e que estava toda vestida de preto, mesma cor dos cabelos e dos olhos -, por uma razão inexplicável, se abeiram no balcão, próximas da estufa que guarda os salgadinhos e pães-de-queijo.

- E olha que nem pai eu tenho !!! - explica a mais nova, sorridente, como se a frase concluísse o final de uma história engraçada, no que foi de imediato entendido pela outra, que disparou a gargalhada protocolar, ouvida em todo o café.

O último integrante, de uma idade que ficava entre a da moça vestida de preto e da sua companheira de cabelos de cor indizível, usava uma daquelas eternas blusas quadriculadas de flanela, que, com os botões desabotoados, exibia a oval barriga que quase não era contida pela camiseta branca. E se sua fronte exibia já avançada calvície, os cabelos longos próximos da nuca demonstravam a convicta tentativa de, ainda que em lugar impróprio, desafiar o desfecho que lhe fôra arranjado por sua própria natureza. Este, de imediato, sentou-se à mesa central do café, enquanto o companheiro providenciava as cadeiras faltantes.

E, uma vez sentados, parecia ser justamente ele o condutor da conversa.

- DA BURGUESIA EU SÓ QUERO AS MULHERES E OS VINHOS!!! - berrou, fazendo rir os companheiros e obrigando todos os outros fregueses do café daquele burguesíssimo bairro entupido de prédios residenciais a ouvirem-lhe a opinião, com olhares assustados não pelo conteúdo da opinião, mas pelo volume da frase.

O sujeito de traços orientais, mesmo sorrindo, comentou alguma coisa num tom mais baixo, que não foi ouvido por ninguém das outras mesas - ao contrário do que deu com a réplica que lhe veio em fulminante sequência, feita pela moça mais nova:

- MACHADO DE ASSIS, O CARALHO! Se fosse pra ouvir isso, eu nem ia fazer mais teatro.

- DA BURGUESIA EU SÓ QUERO AS MULHERES E OS VINHOS!!! - gritou outra vez o gordinho semicareca, e outra vez os amigos puseram-se a gargalhar.

Depois, foi a vez da mais velha:

- Uma vez, o Paulinho da Viola me falou que...

- ... DA BURGUESIA EU SÓ QUERO AS MULHERES E OS VINHOS!!! - interrompeu o gordinho, outra vez aplaudido pela risada dos amigos, ovacionando-lhe o humor perspicaz.

Pelo jeito, aquela conversa ia longe. E todos os outros fregueses do café estavam fadados a compartilhar da alegria imposta pela força do bando de invasores.

Uma mulher, sentada à mesa mais próxima do grupo, levantou-se e foi direto ao caixa:

- É o fim. A gente vem aqui tomar um café e é obrigado a aguentar a falta de educação dos outros.

O atendente, acabrunhado, sorriu em silêncio, enquanto teclava o computador. Mas nem por isso a freguesa deixou de prosseguir com a reclamação, tão nervosa que tremia ao abria abrir a bolsa.

- E o pior é que a gente, que é educado, é que é obrigado a sair.

Não era o caso da educação que justificava a ausência da violência - e sim o contrário. De todas as partes.





2.4.04


De Marmotas e Símios

Deu novamente no noticiário, dia desses:

"Famosa marmota anuncia mais seis semanas de frio

Se os americanos estavam cansados do inverno, Punxsutawney Phil mandou uma mensagem para eles hoje: se acostumem com isso. Após uma batida em um tronco de carvalho, Punxsutawney Phil foi despertado e saiu de sua toca em Gobbler's Knob e, a marmota mais famosa do mundo "viu" sua sombra durante o 118º Dia da Marmota, no estado da Pensilvânia. De acordo com as tradições locais, isso significa que os americanos enfrentarão mais seis semanas de inverno
."

Símio é o povo que acredita em marmotas, talvez diria Zaratustra. Mas o fato é que sempre me intrigou esse belo costume do sábio povo americano, consistente em reunir-se uma vez por ano, no meio de um frio do caralho, para olhar um gordão apalermado levantar um bichinho estranho que curtia tranqüilo a sua hibernação.

Não ponho em questão a seriedade desse método de análise meteorológica. Um país como o nosso que tem o seu severo Cacique Cobra Coral não pode tachar o bom americano - que, como sabemos, é bem mais inteligente e culto que nós - de ignorante. Afinal, os cálculos meteorológicos feitos pelos mais sofisticados computadores, usando as fórmulas matemáticas mais abstrusas, freqüentemente erram mais que a preclara marmota gringa, ou o nosso velho e bom cacique.

O que impressiona a minha imaginação são as sutilezas da solenidade da marmota. Imagino aquele gordão, que todo ano segura o bicho, acordando de manhã. Meio sonado feito uma marmota, o bolo-fofo, que mal dormira na noite anterior de ansiedade pelo grande dia, vai direto ao banheiro salpicar a tez avermelhada de gel para barba. Após aprontar-se feito um lorde, foge ao macacão de mecânico que ostenta o ano todo, vestindo cuidadosamente a casaca e a cartola comprados a prestação. Naquele dia, esse cara é o rei. Afinal, quem além dele é o eleito, o único homem designado para a importantíssima missão de tirar um bicho vesgo e feio de sua toca e levantá-lo para a multidão?

Na hora do esperado espetáculo, é a hora do bicho se foder. Há meses dormindo, e já na hora em que se encaminhava para o melhor do sono, com sonhos repletos de tubérculos gigantes e orgias de marmota, o animal é subitamente acordado com uma pancada violenta em sua porta. Sem tempo para fugir ou mesmo inteirar-se do que se passa, é erguido feito um troféu. Quando finalmente consegue abrir os olhos feridos pela luz refletida na neve, vê uma multidão de seres esquisitos (ele é uma marmota, catzo) urrando contra ele. Acovardado, o bicho fecha novamente os olhos.

Naquele ano haverá mais seis semanas de inverno, concluem os exegetas presentes à solenidade



Um macaco levanta uma marmota por sobre a cabeça