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28.6.04
ENTREVISTA COM INRI CRISTO - PARTE 4
O Mestre ameaça, com toda justiça, dar um golpe de karatê se não cessarem as perguntas cretinas feitas por nosso pouco instruído repórter SEXO Dentre as muitas durezas da vida de um símio, a mais triste é a ignorância. Sim, porque ao invés de continuarem perquirindo o Mestre a respeito das questões filosóficas, históricas e espirituais que uma conversa minimamente inteligente com o Filho do Homem exigiria - tais como os métodos malignos de convencimento utilizados pelo impiedoso Bebê-Encosto, o destino do bonequinho de gesso que o INRI arrancara da cruz da igreja de Belém do Pará (teria sido ele guardado junto aos sagrados pertences do Messias como lembrança de data tão importante, ou teria sido apenas lançado à lata do lixo como uma reles bugiganga?) ou sobre serem ou não os anfíbios e os ornitorrincos seres dotados de alma -, os repórteres do Mundo Símio, ignorantes de pai e mãe, resolveram apoquentar o INRI com perguntas sobre sexo, esse assunto ultrapassado e sem graça. É fato que a culpa não foi inteiramente nossa. Logo que adentramos aos domínios do INRI, não pudemos deixar de notar que boa parte das devotas que vieram nos recepcionar não eram de se jogar fora. Especialmente em se tratando do caso deste famélico repórter, que, num cálculo sincero, está sem praticar esse pecado há pelo menos uns 5 anos - não por convicção religiosa e nem, muito menos, por falta de tentativa. A fome também é uma dureza dos diabos. Antes da aparição do Mestre, fui obrigado a sussurrar de soslaio a Dom Gustavo que talvez fosse o caso de, após a sessão, convidarmos as freirinhas do INRI para tomar um drinque ou coisa parecida - embora nenhuma delas tenha dado o mínimo de espaço para tal, o que, cá pra nós, é coisa com que já estou acostumado. Perante o olhar de desprezo dele, tentei contornar a situação explicando-lhe que as moças eram bonitas, apesar das roupinhas, digamos, um tanto fora de moda, conforme se pode ver nas fotos que acompanharam o primeiro trecho da entrevista. - O Mestre não é bobo - ele me respondeu secamente, sem dar maior importância. Pois é. Foi daí que tivemos a infeliz idéia de perguntar ao INRI como é que funcionava essa história de sexo lá no templo dele. Afinal de contas, quem proíbe e limita a prática do sexo é aquele desgramado do Papa, sujeito com quem o INRI já cortou relações - e que, especulo eu, não perde por esperar, pois, ao que tudo indica, o Mestre está fechado com o Homem lá de cima. Depois de termos ouvido as explicações do Mestre a respeito dos sábios princípios alimentares que inspiram Ele e seus seguidores (a velha história do peixe desalmado), cocei a cabeça e pus-me de cócoras feito um bugio a obrar, para então, naquela confortável posição, apreciar Dom Gustavo perguntar sutilmente ao Mestre se, entre eles, também haveria princípios sexuais a serem seguidos. Tive a impressão de que, num primeiro momento, o Mestre não gostou muito da pergunta, a considerar a expressão de impaciência com que se apresentou a sua santa face. Tanto que Dom Gustavo, para se explicar melhor, em seguida observou que, assim como o ato de se alimentar de seres com alma (como o frango à passarinho ou a pizza de calabresa) pode, pelo menos em algumas culturas, ser considerado uma prática natural do homem, o mesmo poderia se dar com relação à prática do sexo - o que não é o meu caso, pois tudo leva a crer que isso, para mim, é coisa definitivamente proibida através de édito celestial assinado de próprio punho pelo Pai. Prosseguindo na exposição, Dom Gustavo ponderou que, se há princípios a serem seguidos para a alimentação, nada haveria de se estranhar se também os houvesse para o sexo. Foi um debate bonito de ver, daqueles que instrui e faz pensar. MS: Há, naturalmente, uma orientação, apesar de as pessoas serem livres. Mas assim como a orientação alimentar, há uma orientação sexual... INRI: Eu entendi. Queres uma explicitação completa do sexo. O sexo, a princípio, é para fins procriativos. Então, fora disto ele pode gerar ódio. Podes odiar um homem que está morando com uma mulher porque estás apaixonado por ela, e alguém pode te odiar por tu estares morando com a mulher por quem ele está apaixonado. Há um leque enorme de paixões nas baixas esferas. Agora, como está implantado esse sistema na Terra, então eu não digo para ninguém deixar de fazer assim. Ao contrário, têm pessoas aí da igreja que pedem "mas INRI, como é que eu faço, eu queria viver como os seus discípulos...", e aí eu digo "não, vocês não podem". Foi triste constatar que até os candidatos a viverem no templo do INRI têm, de longe, uma vida sexual muito mais interessante do que a minha, a ponto de lhe atrapalharem as convicções filosóficas. Definitivamente, o Pai do INRI dá asas a quem não sabe voar. INRI: Existe uma pressão muito grande na atmosfera social, que não permite que uma pessoa deixe de praticar o sexo. Dá para entender? Os discípulos, depois de tomar consciência da lei divina, eu explico para eles que aqui dentro é proibido praticar sexo. Agora, do lado de fora do muro cada um pode fazer o que quiser. Não sei, não. Mesmo sendo um profundo desconhecedor da lei divina, não há pressão social que dê jeito na minha necessidade. MS: Mas o ascetismo vigora dentro desta organização que o senhor instituiu... INRI: Não. Só entram discípulos, até porque seria uma coisa absurda... Porque discípulo é aquele que segue a disciplina. Você está proibida de praticar sexo? (perguntou o Mestre, se dirigindo a cada uma das duas discípulas presentes, que respondem, cada uma delas, com um sereno "não"). Tive o ímpeto de perguntar ao Mestre se, por algum acaso, eu estaria proibido de praticar sexo, mas me segurei, porque, naquela altura, ainda estava botando alguma fé na idéia do drinque - e vai que Ele responde que eu estava. INRI: E por que não pratica? (dirigiu-se Ele, novamente, às duas discípulas, ao que uma delas responde, com a anuência da outra: "porque descobri algo melhor"). Quase perguntei a elas o que seria a tal "coisa melhor", mas preferi deixar guardada essa carta na manga, como desculpa para a história do drinque depois da entrevista. INRI: Então, se a pessoa não quer, não quer! Se pode comer banana e não comer feijão, se pode comer abacaxi e não comer melancia... Então, quer dizer: tu não quer, é diferente. Agora, sinceramente, tu achas que eu poderia manter dezenas de mulheres como eu tenho aqui comigo, sem elas praticarem sexo, sem elas... Não dá, se não fosse porque elas descobriram algo melhor que isso! A minha discípula mais antiga, ela tem 77 anos, ela está comigo há mais de 20... Manda ela vir, só um instante, para eles verem (em obediência ao Mestre, no ato uma das discípulas levanta-se e vai buscar a colega de 77 anos). Quanto aos meus discípulos... eu tenho discípulas e discípulos, mas para os homens é mais difícil, e mais difícil pelo seguinte: porque cobra-se dos homens que deve ser macho, que isso, que aquilo outro... e se não fizer isso, é isso e parará... Fiquei um pouco mais esperançoso com a minha situação. Parecia que, no meu caso, o que estava faltando era cobrança. Só não consegui visualizar da parte de quem. Talvez fosse o caso de ir falar com minha pobre mãe, ela que tanto me cobrou para levar a sério os estudos - se bem que, nesse ponto, não teve muito êxito, a coitada. INRI: E também a mulher tem uma facilidade maior para entrar na senda da espiritualidade, que já vem de longas gerações sofrendo, sujeita, porque a mulher está sujeita ao homem, então para não estar sujeita ela descobre a vontade de não praticar sexo. Agora, cada um é dono do seu nariz. Diga-se de passagem, eu sou o único que não sai sozinho. Meus discípulos vão para a rua, eles todos têm autorização assinada por mim andam sozinhos, eles têm autorização assinada por mim para andar como roupa civil, porque existe hostilidade, entende? Então eles vão lá e voltam... Eu não quero nunca que ninguém esteja aqui comigo preso por juramento. Fizeram juramento, sim, para ter proteção própria. Mas cada um faz o que bem entende. Naquele momento, chegou a tal discípula de 77 anos, que cumprimenta e é cumprimentada por todos, mas não dá a mão, porque, como esclarece o Mestre, eles não têm o hábito de dar as mãos. Pelo que entendi da explicação, pareceu que era alguma coisa relacionada à economia de energia que flui pelo corpo, ou coisa do gênero. Eu, que dou a mão até para o mendigo que me pede esmola, achei estranho. Mas talvez seja esse o motivo pelo qual acordo cansado já pela manhã, especialmente nos dias em que preciso trabalhar. INRI: Quantos anos você tem? (a discípula diz que vai fazer 77 em agosto). E há quantos anos está comigo? (23 anos, completados em maio, esclarece a discípula). Ela antes de me conhecer foi lá para Jerusalém, conhecer a minha sepultura lá - sepultura entre aspas -, foi para vários países. Ela conhece o Brasil todo, é profissional de marketing... Eu só queria que eles te conhecessem, tá bom? (o Mestre começa a despedir-se da discípula, que pergunta "eles estão fazendo entrevista?", ao que o Mestre responde "sim, eles são aquele Mundo Símio..."). Ela estava comigo na catedral de Belém... MS: E a senhora segue abdicou de profissão, de alguma coisa assim... DISCÍPULA DE 77 ANOS (com forte sotaque nortista, e sem disfarçar o seu desagrado com a pergunta besta do repórter do Mundo Símio): Eu encontrei o filho de Deus, o que eu queria mais??? Fazer o que lá fora??? Praticar sexo é que não haveria de ser, pensei na hora. Sei não. Certamente inspirado pelo Tinhoso, não consegui evitar um outro pensamento vão e pecaminoso - e, com absoluta certeza, por conta disso vou passar o resto da eternidade na churrasqueira particular do próprio Belzebu. Por que o Mestre, justo quando se falava sobre sexo, fez questão de trazer a véia de quase oitenta anos pra gente dar uma olhada? O Pai do INRI que me perdoe, mas fiquei com a impressão de que o Mestre quis dizer algo como: "Olha, é melhor parar com essa história de sexo. Eu sei que vocês estão perguntando isso por causa das meninas que vocês viram. Mas eu só apresentei elas a vocês porque quis ser educado. Vocês viram só o filé, mas tem o osso também. Ou vocês por acaso acham que eu traço essa véia?". Maldito pensamento. Maldito, leviano e equivocado. Espero que Satanás pelo menos saiba contar algumas piadas enquanto churrasqueia seus condenados. INRI: Ela enfrentou uma guerra jurídica para ficar comigo. A família dela quis interditá-la - e interditou-a! E ela teve que provar na Justiça, através de psiquiatria, que ela é sã (a discípula de 77 anos despede-se e sai). Se a boa velha era sã, isso eu não posso afirmar, já que sanidade nunca foi o meu forte. Porém, ao saber que, por sugestão do delegado de polícia da região, os seguidores do INRI montavam guarda armados, de modo a evitar possíveis hostilidades vindas do lado de fora (coisa que, convenhamos, dada a ignorância geral que assola nosso mundo, não é de surpreender), achei que era ato de boa sanidade esquecer a idéia do drinque e, ao cabo da entrevista, despedi-me respeitosamente das freirinhas. Sem dar a mão, obviamente. 24.6.04
ENTREVISTA COM INRI CRISTO - PARTE 3
O Mestre pregava com fervor quando ainda era um simples profeta, sempre acompanhado por um copo de boa cerva para molhar as palavras O MESTRE NOS REVELA O SEU DIFÍCIL COMEÇO, E A DUREZA QUE FOI CHEGAR DE SIMPLES PROFETA A FAMOSO MESSIAS. CONTA AINDA QUE O SEU LANÇAMENTO FOI ABORTADO PELO AZAR DE O "BONEQUINHO" SER DE FERRO, MUITO DURO DE QUEBRAR. Clique aqui e ouça um trecho da entrevista (pedimos perdão pela má qualidade do áudio) Pois é, meus caros. Ninguém começa como Messias. É preciso ralar muito até chegar no ápice da carreira de filho de Deus. O INRI mesmo começou lá de baixo. Era como simples profeta que ele vaticinava acontecimentos mirabolantes, ao lado de uma garrafa de birita, nos bares em que militava - certamente o único ambiente que continha pessoas abertas e dotadas de bom senso suficiente ao entendimento de suas avançadas idéias. Mas veio então a revelação, da parte do seu Pai: era preciso demonstrar a todos que ele era a reencarnação de Jesus, aquele mesmo lá da Galiléia. O Pai ordenou-lhe então que "fizesse uma revolução em Belém do Pará e arrancasse o bonequinho da cruz perante milhares de pessoas, rompendo definitivamente com a minha antiga Igreja". Mas tempos antes, o INRI confessa, ele já tentara fazer a revolução. No entanto, apesar de apoiado por mais de 3.000 pessoas, não pôde em Caxias do Sul quebrar o boneco: o miserável artesão que fez o ícone o construíra com ferro. Aí não deu pra quebrar o danado. "Serviu só de balão de ensaio, entendeu?" - explica o Mestre. MS: Qual foi a sua intenção ao criar a SOUST, Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade? INRI: Na verdade, não é intenção. Eu não escolhi fundar uma nova ordem religiosa. Eu não escolhi dizer que sou Cristo. E ninguém é obrigado a crer. Eu cumpro uma ordem divina. Então, a SOUST nasceu da santa cólera do meu Pai, ao ver que a minha Igreja anterior se prostituíra, se transformara na meretriz do Apocalipse 17. Quando eu me chamava Jesus, eu disse assim: "Pedro, tu és pedra e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja", no singular. "Mas as portas do inferno não prevalecerão contra ela". Agora as portas do Inferno estão prevalecendo sobre a minha Igreja: Inquisição, venda de indulgências, venda de sacramentos... Eu disse: "Ide, curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli demônios, dai de graça o que de graça recebestes" (Mateus, 10, versículo 8). Eles cobram para casar, para batizar e até para enterrar os chamados mortos. Então meu Pai determinou que eu fizesse uma revolução em Belém do Pará e arrancasse o bonequinho da cruz perante milhares de pessoas, rompendo definitivamente com a minha antiga Igreja. Eu fui boicotado pela imprensa. Eu só fui mostrado sendo preso, mas tudo mais foi filmado. A revista Veja escreveu uma lacônica matéria, escrita por um free-lancer, e nunca me deu o direito de me expor. Apenas qualificou-me de louco. Eu fui submetido por conta desse ato, oficialmente, a um exame psiquiátrico, por uma junta psiquiátrica, nomeada pelo Dr. Jaime dos Santos Rocha, que afirmou que nem no dia do Juízo Final poderiam dar um diagnóstico, porque eu atuo numa outra esfera, e eles não me alcançam para me avaliar. Tudo isso aconteceu e ficou escondido. Mas, respondendo à sua pergunta, o motivo pelo qual eu fundei a minha Igreja é este: por mais que eu seja desprezado, por mais que ignorem a minha Igreja, eu fiz a minha parte. Quanto ao desprezo, à reprovação que eu venho sofrendo há mais de vinte anos, isso está previsto. Em Lucas, capítulo 17, versículo 35, está escrito que eu seria rejeitado por minha geração antes do dia de glória do Senhor. Está escrito também no Apocalipse, capítulo 1, versículo 14, que, quando chegasse o dia de glória do Senhor, eu estaria de cabelos brancos. Por enquanto ainda não estou com os cabelos brancos. E eu não tenho pressa. Ninguém nasce de cabelo branco. Logo, tem que esperar o tempo passar. MS: E por que o senhor escolheu Belém do Pará para este ato simbólico? INRI: Falaste bem: o Senhor escolheu. Eu já tinha percorrido o Brasil todo. Estive em todas as capitais brasileiras, nas principais cidades; em São Paulo, na Praça da Sé, no Rio de Janeiro, na Cinelândia, em Copacabana, o Brasil todo. E Ele disse que eu voltasse a Belém do Pará. A última capital que eu visitei no Brasil foi Macapá. E quando eu estava lá, o Senhor disse: "tu voltas a Belém (eu já tinha estado lá em 1.981), que lá é que vai ser o palco da Revolução". Porque até o nome combina, tem tudo a ver com o lugar onde eu haveria de renascer para humanidade, com um significado simbólico. Eu havia tentado praticar este ato em Caxias do Sul e ele foi abortado, porque o boneco era de ferro. Daí foi inútil, não deu pra fazer nada. E tinha 3 mil pessoas comigo lá. Serviu só de balão de ensaio, entendeu? MS: Nós vimos muita gente acompanhando o senhor, tanto no ato de Belém do Pará quanto em procissões de que o senhor participa. Imaginamos, portanto, que essas pessoas sejam, digamos, seus seguidores. O senhor tem idéia de quantos seguidores o senhor tem hoje? INRI: Eu não posso montar uma estatística. Primeiro, porque eu não cadastro as pessoas que vêm aqui. Segundo, porque, inclusive como testemunho da minha autenticidade e honestidade, eu tenho o tamanho da minha Igreja; eu sou o libertador, eu não cabresto ninguém. A pessoa vem aqui, toma a benção, arranja emprego se está desempregado e vai seguir a sua vida. Eu não obrigo ninguém a vir aqui, não cadastro. Só frequentam, no sábado, aqui, aqueles que deveras sabem quem sou. O restante vem e vai. Eu vejo nesses 20 e poucos anos que eu estou sediado aqui que vem muita gente, e tem muita gente que depois escreve de outro país, outra cidade, agradecendo, e seguem suas vidas. Uns entendem o significado da missão, outros não. Outras vêm até aqui pra tomar uma benção e depois vão agradecer a uma estátua. Eu não proíbo elas de fazerem isso, eu apenas olho com piedade. O coitado não enxergou que foi Deus que abençoou. 22.6.04
ENTREVISTA COM INRI CRISTO - PARTE 2 O MESTRE PONDERA E ADVERTE: É PRECISO TOMAR MUITO CUIDADO COM O TERRÍVEL "BEBÊ-ENCOSTO".
O Mestre é enfático ao advertir as moças sobre o medonho bebê-encosto Clique aqui e ouça um trecho da entrevista A despeito da presumível falta de sabedoria para fazê-lo, os repórteres do Mundo Símio, num momento de tresloucada e inadvertida ousadia, dispuseram-se a tentar se instruir com o INRI a respeito, vamos dizer assim, de temas mais filosóficos da doutrina cristã - isto é, da doutrina dele. Porém, como se verá nas respostas abaixo, de cara o Mestre deixou claro que, para debater com ele, os repórteres do Mundo Símio ainda precisavam comer muito arroz com feijão - ou então, muito alho cru com vinho, que é a alimentação básica do Mestre e seus seguidores, conforme nos revelou uma de suas discípulas (o que, sem dúvida, embora possa ser muito saudável, não recomenda o INRI e seu pessoal para fazer propaganda de pasta de dente). No trecho abaixo, INRI CRISTO explica, sem deixar quaisquer dúvidas, o motivo pelo qual só a carne dos peixes pode servir de alimento e, de quebra, faz uma terrível revelação: todo cuidado é pouco contra o invencível "Bebê-Encosto". MS: Considerando que o senhor tomou consciência de ser a reencarnação de Cristo, o senhor deve se lembrar também de muitas coisas que estão na Bíblia. Por exemplo: num dos Evangelhos, conta-se que Jesus teria dito que se deve nascer e depois morrer, e depois nascer de novo, e depois morrer outra vez... INRI: Eu disse isso para o Nicodemus. O Nicodemus era um homem já de idade, considerado mestre em Israel. Ele vinha ter encontros reservados comigo, me questionando sobre os mistérios da lei de Deus. Ele não entendia o que eu falava, porque ele tinha a cabeça cheia de livros, era um erudito. Porque um erudito é uma pessoa que engole muitos livros sem fazer a triagem. E daí engole um monte de abobrinha também. Ele tinha a cabeça dele cheia de livros, e não cabia mais nada. Aí eu disse assim: "Vós necessitais nascer de novo". Ele me disse: "Mas como, eu, nascer de novo? Eu, já velho, por acaso vou reentrar no ventre da minha mãe?". Eu disse: "Quem não nascer de novo não pode conhecer os mistérios do reino de Deus". Essa é uma das vezes em que eu falei sobre a reencarnação. MS: Há quem diga que, ao dizer isso, o senhor quis dizer que era preciso nascer e morrer várias vezes, numa mesma encarnação, de modo a se modificar e... INRI: Fantasia, né? A gente sai do ventre da genitora, aspira o primeiro hausto de ar vivificante e, junto com ele, o espírito se apossa. É equívoco pensar que o espírito está dentro do ventre da mãe, porque o espírito não fica onde tem água. É por isso que os animais que vivem debaixo da água eu como. Eles não têm espírito. Eu não como cadáver de vaca, de boi, de galinha, porque tem espírito. Quando um indivíduo está no ventre materno, ele não em espírito, o espírito está do lado de fora, esperando a hora de avançar sobre o corpo. Isso foi que o meu Pai me mostrou. Por esse motivo é que, na hora em que a criança nasce, ela dá aquele choro: é o choro do acoplamento, a hora em que o espírito se apossa do corpo. Se não fosse assim, quando houvesse um aborto, o espírito ia ter de voltar pra fila, né? (risos) MS: É verdade. INRI: Eu sei de casos em que a mulher não queria casar, não queria ter filhos e o espírito ficou em cima dela, porque a predestinação dela era ser a genitora dele. E ele não sossegou enquanto não junto ela a um varão pra ter o filho. A pessoa não quer, mas o espírito fica ali, até juntar os dois corpos. Às vezes é difícil explicar por que ele escolhe aquela pessoa. Tem alguma coisa a ver com a lei do carma, a lei do retorno. É o que também pode ser chamado de predestinação. Mas como nada acontece na Terra sem o consentimento de Deus, nenhuma mulher consegue abortar quando alguém tem de nascer. Não consegue. MS: Então a mulher que pratica um aborto não está fazendo mal a um espírito. INRI: Não. Esse feto não merece o status de criança, porque não consegue ser independente. Não conseguiria servir de veículo para o espírito que está ali fora. 17.6.04
FINALMENTE A MAIOR ENTREVISTA DOS ÚLTIMOS 2.000 ANOS!!! EXCLUSIVO: INRI CRISTO, O AUTO-PROCLAMADO SÍMIO MAIS ANTIGO DO MUNDO, FAZ REVELAÇÕES APOCALÍPTICAS AOS REPÓRTERES DO MUNDO SÍMIO - Parte 1
Nosso Editor-Chefe posa ao lado do INRI ao cabo da bombástica entrevista clique aqui e ouça a saudação do Mestre ao Mundo Símio CURITIBA - O fim do mundo, atos revolucionários, a hecatombe nuclear, a perversão da sociedade atual, sexo, macacos, bilboquê, sinuca, vinho - tudo o que interessa foi abordado pelo Mestre, sem qualquer frescura ou papas na língua, na entrevista exclusiva que bondosamente nos concedeu dia 12.06.2004, na sede da SOUST (Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade) em Curitiba/PR. As revelações do Mestre foram de tal ordem que nosso Editor-Chefe, convencido pelos insofismáveis argumentos de INRI CRISTO, converteu-se imediatamente à sua fé, na tentativa matreira de se tornar um dos "eleitos" que se salvarão do fim do mundo. O fato foi devidamente registrado pelas lentes do nosso repórter, como se nota no flagrante abaixo.
Humildade A igreja do INRI está localizada em uma espécie de "Capão Redondo" ou "Rocinha" de Curitiba. O bairro, chamado Alto Boqueirão, é de fato uma boca bem distante do centro da bela capital paranaense, e fica próximo ao Zoológico Municipal - talvez daí o gosto do Mestre pelos símios. Simples como ele, as instalações de seu templo dão a medida da seriedade de sua doutrina, que não cobra nada de ninguém e tampouco tem muitos fiéis. É preciso peito para ser devoto do Mestre, como comprovou nosso Editor-Chefe.
Já empobrecidos pelos gastos no frete de um pau-de-arara para chegar até Curitiba, e sobretudo pelo custo da charrete que nos levou até a SOUST, chegamos lá ao meio-dia, em monástica e famélica humildade, já pensando em filar um prato de comida do Mestre. Na verdade, o que nos deixou mais sem grana foram as caras roupas de gala que adquirimos especialmente para a ocasião. Tais roupas, feitas em estilo medieval, são de alta sofisticação como se vê abaixo.
No que começamos a fuçar na fachada do prédio do Mestre à procura da campainha (afinal, como se pode ver é totalmente inexpugnável a fortaleza em que o Messias de Curitiba se preserva do mundo), de súbito, e sem que esperássemos, a porta se abriu para nós. "O Mestre já está fazendo dos seus milagres", pensamos credulamente. Na verdade, a sentinela do INRI - uma de suas várias discípulas - já nos observava quando apeávamos da charrete e pagávamos os R$ 28,00 que o Seu Júlio, motorista da condução, nos cobrou pelo longo traslado. O importante é que fomos muito bem recebidos pelas gentis e prestativas discípulas do Mestre (dizemos discípulas porque só avistamos um discípulo do sexo masculino no local, aquele que volta e meia acompanha o INRI na televisão, mas que logo se retirou, provavelmente para dar cumprimento aos seus serviços do dia). Diante da pluralidade de seguidoras mulheres, todas jovens e de boa cepa, obtemperamos: "O Mestre, de fato, é um homem sábio". O filme e a aparição à James Brown Logo de cara levamos um chá de cadeira. Afinal, o Mestre compreensivelmente não ia se deixar apresentar assim de uma vez, tampouco a forasteiros de caras tão suspeitas e estranhas como os repórteres do Mundo Símio. Como preâmbulo da audiência que se seguiria, as freirinhas, digo, as discípulas do Mestre pediram educadamente que assistíssemos a um filme sobre os prodigiosos feitos do Mestre. Assim que o vídeo começou a exibir as imagens, pudemos descobrir um pouco da missão, dos atos e glórias do INRI. Do que mais gostamos foi uma espécie de procissão, que vagou pelas ruas centrais de Curitiba levando o Mestre numa pesada liteira - na verdade uma espécie de trono real com escoras - em meio a uma verdadeira multidão de fiéis. Todos bradavam em uníssono, repetidas vezes: "INRI CRISTO é o unigênito de Deus", e portavam faixas com dizeres louvando o Jesus brasileiro, denunciando ainda os abusos cometidos contra ele. Estavam os repórteres do Mundo Símio vidrados na magnificência do espetáculo quando, de repente, ouviu-se uma movimentação do lado de dentro de uma grossa cortina que estava à frente dos bancos da igreja. Num ato espontâneo, todas as freirinhas, digo, todas as discípulas do Mestre se ajoelharam (conferir foto abaixo), e, de olhos fixos na cortina que era lentamente descerrada por uma colega, aguardavam a aparição do Deus encarnado.
Deus aparece na frente dos repórteres do Mundo Símio: ele está gripado O Mestre. INRI CRISTO. O Jesus reencarnado. O verbo divino materializado. O Messias de Curitiba estava diante de nós. Sentado calmamente em um esplendoroso trono entalhado em madeira-de-lei, INRI CRISTO placidamente apareceu frente aos nossos ávidos olhos. A cena toda lembrou-nos outro Rei, só que deste mundo: James Brown, the king of funk. A introdução das discípulas, toda a mise-en-scène preparatória, a ansiedade da platéia e finalmente o descerrar das cortinas - tudo contribuiu para esse grande culminar que foi a aparição do Mestre. Pasmos e sem reação, os repórteres mantiveram-se calados diante do Deus-vivo. O INRI, como que para desanuviar o ambiente, começou logo a dirigir-lhes a palavra, com generosas menções a este modesto site. "Eu li os textos de vocês, elas imprimiram e me passaram... eu gostei desse negócio de símio..." Como os repórteres estranharam o Mestre estar de meia-brancas, além de um capote vermelho para proteger-lhe do frio (que, de fato, era de lascar) e um lenço na mão para assoar freqüentemente o nariz, ele já foi logo se perdoando: "me desculpem a voz, mas é que eu estou gripado, essa gripe é forte... eu peguei em Portugal, já faz tempo, e até agora não me recuperei completamente..." É compreensível. Afinal, como o INRI esclareceu depois, ele é o Deus encarnado, sendo portanto tão homem quanto qualquer um de nós, sujeitando-se às mesmas contingências. O INRI, definitivamente, cativara os repórteres do Mundo Símio, que pensavam que iriam encontrar um Deus fechado e carrancudo (na verdade, não sabiam nem se sairiam vivos dali). O Deus encarnado é um puta boa praça. A entrevista, enfim - INRI revela: o fim dos tempos é uma questão de matemática e, quando isso acontecer, o bicho vai pegar forte. O Mundo Símio aconselha: para se dar bem no fim dos tempos, faça logo um curso de agronomia. Feitas as apresentações entre o Messias e os repórteres, fomos todos para uma salinha ao lado do templo, apertada mas aconchegante. É ali que o Mestre realiza as suas audiências, pelo que pudemos supor. Após pedir que fechassem a abertura do exaustor que ventilava e, por isso, esfriava o ambiente (coisa prejudicial à saúde do Mestre), o INRI pediu para chamar um seu chegado. Tratava-se, segundo ele, de um engenheiro vindo do Pará para lhe ver. O sujeito o acompanha há uns vinte anos, como nos foi relatado, e já apareceu até na Globo por conta de sua devoção a INRI CRISTO, fato que lhe causou vários problemas no emprego. Compreende-se. Depois de algumas perguntas mais institucionais, e que serão reveladas ao nosso público leitor nas próximas partes da entrevista, fomos logo perguntando ao Mestre sobre o que interessa: o fim do mundo. Diante de tão importante questão, que vai ao encontro de revelações místicas só a ele comunicadas pelo Criador, o Mestre pediu para falar tudo de uma vez, sem interrupção. Dada, naturalmente, a anuência dos repórteres do Mundo Símio, o Mestre persignou-se e falou de si para si umas palavras baixas e incompreensíveis, olhando para o céu. Visivelmente alterado, numa espécie de transe o Mestre pô-se a falar sem parar, como um rapper. O sotaque, mais carregado que nunca, mostrava que o que se dizia era revelação da grossa, e não uma simples pregação qualquer. Ficamos pasmos ouvindo as apocalípticas palavras do enviado do Senhor a Curitiba: MS: Muita gente, inclusive falando com base no Apocalipse, cogita do fim do mundo. O senhor acha que esse progressivo caos da humanidade conduzirá a alguma forma de apocalipse? INRI: Eu vou te falar tudo de uma vez só. Tem coisas que eu tenho de falar sem ser interrompido. Depois você pergunta, se quiser, sobre os detalhes. MS: Certo. INRI: Os homens, fazendo mal uso do livre arbítrio, construíram armas destrutivas, violaram as sagradas leis de Deus e esqueceram também dos santos mandamentos. Semearam, dessa forma, através de atos e pensamentos, catástrofes e terremotos, que, acompanhados da hecatombe nuclear, culminará com o fim deste mundo caótico. Menos de 1 milhão de pessoas restarão vivas na Terra, e a maioria será constituída de mutilados que suplicarão a morte, que em princípio não lhes ouvirá. Deus, nosso Pai, único Senhor do Céu e da Terra, será glorificado durante os próximos mil anos. Não viverá um só ser humano na Terra que não reconheça sua onipotência e sua onipresença. Todos se submeterão a um princípio de justaposição espiritual e permanecerão fiéis a Ele, cumprindo-se o que eu disse antes de ser crucificado: que chegará um dia em que haverá um só rebanho e um só pastor. Os eleitos e seus descendentes não manterão disputas políticas, territoriais ou religiosas. Todos caminharão juntos, com o pensamento voltado para um só ideal. A fraternidade existirá efetivamente entre os homens, que, despidos da hipocrisia, ódio, maldade, egoísmo e da chantagem emocional, estarão empenhados em cumprir os santos mandamentos. As prisões serão transformadas em escolas. Porque, no futuro, o homem, purificado no sofrimento, evoluirá, e a delinquência será extinta. A Medicina evoluirá e encontrará a cura dos males que atormentam o corpo no espírito, porque, após muito sofrimento e erro, a humanidade se conscientizará de que todas as fraquezas e todas as enfermidades físicas têm sempre início na enfermidade da alma. O sexo será exercitado como um rito de veneração a Deus. O homem, despido dos instintos bestiais, quase consciente dos mistérios da procriação, unir-se-á à mulher sob a luz da espiritualidade, reconhecendo a sua origem divina. O dinheiro será utilizado unicamente como elo sagrado, que facilitará o relacionamento humano. A humanidade voltará à vida simples e livre, em comunhão íntima e perene com a natureza. E preferirá o manjar simples e natural dos frutos e vegetais. A profissão mais nobre, durante os próximos mil anos, será a Agricultura. O homem buscará na Mãe Terra o pão místico para o banquete divino com a mesma inocência com que as crianças buscam no seio materno o leite vital que lhes faculta o crescimento e a sobrevivência, ante o olhar dúlcido e aprovador de nosso Pai. MS: ...? INRI: Eu falei tudo assim pra poder em cima disso explicar o porquê da hecatombe nuclear, que é inevitável. Nem que eu me ajoelhasse o resto da minha vida, e ficasse de joelhos na frente de Deus, não conseguiria impedir a extinção nuclear. Isso é uma coisa inevitável. É uma questão matemática. Porque a Terra tem várias faces matemáticas que devem ser levadas em conta para analisar isso. A explosão demográfica é uma coisa que salta aos olhos. Então como fazer para reverter esse quadro? Fechar os olhos? Ignorar a camada de ozônio, ignorar a violação do meio ambiente? Vamos enxergar com os olhos da razão, e vamos compreender sem hipocrisia, sem falsa ética, que algo está muito errado, e que não tem outra forma de deter a explosão demográfica, senão através da hecatombe nuclar. Não é que eu queira que isso vá acontecer, mas é inevitável. Por enquanto está se protelando, mas chegará o momento em que não tem protelação, que não tem como impedir. Só depois disso que eu falei é que o ser humano estará preparado para observar a Lei, isto é, aqueles que sobrarem. Porque vão acontecer coisas horrorosas, que o filme "O Dia Seguinte" não conseguiu sequer esboçar. Essas coisas estão para acontecer, e vão acontecer porque é inevitável. Eu mesmo, que tive a visão sobre o fim do mundo, porque tenho o meu lado que é humano, pensei: "eu também?". Vi que de todos os lados vinha a desgraça. E vi que é inevitável. Agora, tem muita gente que me odeia, blasfema, me xinga por eu dizer que eu sou Cristo, por eu dizer isso, ou aquilo, ou aquilo outro. Só que ninguém vem questionar a minha realidade. Ninguém quer saber por que eu digo isso. Enquanto os outros habitantes da Terra durmiam noites serenas, eu era acordado de madrugada, na calada da noite, para ver a parede do alojamento em que eu me albergava sair, desaparecer e enxergar o terrível vale de desgraças que esperam pela humanidade. Eu cresci assim. Às vezes passavam quase seis meses sem aquilo, e eu pensava comigo: "Graças a Deus, tudo isso acabou". Mas aí começava tudo de novo. Eu estava sendo preparado para depois falar ao mundo as coisas que estão por vir. E isso foi a minha infância toda. Eu fui à escola 3 anos, na minha vida toda. Eu sou teodidata. Eu não tenho instrução acadêmica. Eu estudei 3 anos na escola só pra ser alfabetizado. Sou instruído pelo meu Pai. (É isso aí, por hoje. Considerando que a audiência com o INRI durou quase 3 horas, o material será divulgado paulatinamente, a cada 48 horas, para que nossos leitores se recuperem do impacto das revelações do Mestre. Até breve. Fiquem na paz do INRI. P.S.: futuramente, trechos em mp3 da entrevista) 16.6.04
CALMA, QUE TÁ CHEGANDO...
Divergências doutrinárias entre os editores do Mundo Símio a respeito da interpretação das palavras do Mestre INRI acabaram por atrasar um pouco a publicação da maior entrevista dos últimos dois milênios. É certo, porém, que em pouco tempo ela será publicada, pois, para por fim a tão intrincados debates filosóficos, Dom Gustavo já foi ao centro da cidade, de onde promete voltar com um revólver novinho em folha, pronto para apaziguar os ânimos e inspirar os debatedores a encontrarem o consenso vindo da palavra divina.
São Paulo II e Simião, envoltos pela mágica liturgia do INRI, discutem a respeito da possibilidade de se evitar o Apocalipse 15.6.04
ESTAMOS EDITANDO... Como não é todo dia que entrevistamos o Filho de Deus em carne e osso, estamos trabalhando dia e noite, com o devido esmero, na edição de todo o material gráfico e sonoro que coligimos na entrevista com o INRI. A publicação das palavras do Mestre sem dúvida será o maior evento dos últimos dois mil anos, e repercutirá mais que o plagiário filme do Mel Gibson. Pedimos, portanto, que os nossos leitores contenham a justificada ansiedade, porque em breve teremos a Nova Bíblia contendo as palavras do Messias. Editando as palavras do Mestre, estamos experimentando sentimento idêntico ao que certamente inspirou os Evangelistas quando transcreveram as palavras de Jesus. Aliás, foi com empolgação pelo seu alto mister que me disse o nosso colega editor que doravante se chamará São Paulo, e não mais Dom Paulo, nome que ademais lembra clérigo de menor hierarquia em relação ao apóstolo Paulo, aquele sim, seu homônimo que, como o nosso editor, era um legítimo ghost writer das mensagens do Messias.
Nossos editores trabalham freneticamente na transcrição das palavras do Mestre 14.6.04
INRI LIVES
Sim, o Mestre falou. Falou, abençoou e, de quebra, fez milagres, dos quais os repórteres do Mundo Símio nos próximos dias darão fiel testemunho, juntamente com a reveladora entrevista exclusiva que, em etapas, será publicada nos próximos dias. Dentre os temas abordados, detalhes sobre o apocalipse, o destino da humanidade, a manipulação da opinião pública e, principalmente, o hobby predileto do Mestre em seus, convenhamos, merecidos momentos de descanso. Enquanto a equipe do Mundo Símio prepara a edição da entrevista - que se fará acompanhar por místicas fotos do Mestre em companhia da nossa equipe de reportagem -, nossos leitores, infelizmente, terão que distrair a ansiedade com textos de menor valor artístico como o que vem abaixo. Vale a pena, porém, esperar pelas ponderadas palavras do Messias de Curitiba, que reiterou se tratar do símio mais antigo do mundo. Quem tiver olhos verá.
Nossa equipe já está trabalhando incansavelmente na edição da maior entrevista dos últimos dois milênios *** TONINHO MONTANHA E AS CRIANÇAS Quando vejo aquelas crianças estabanadas correndo pelo restaurante, empesteando o ambiente e, pior de tudo, atrapalhando o meu almoço, convenço-me de que a infância é grande porcaria; mas quando lembro dos meus distantes tempos de pequerrucho, aí é que fico convencido de que chamar aquilo de porcaria na verdade é um elogio. A infância, basicamente, é uma coisa que tem mau cheiro. Quem duvidar, que experimente entrar numa escola primária à hora do recreio. Seja qual for a cidade e a classe social, o perfume que exala da fase dita mais feliz da vida é um misto de pão velho beirando ao azedo com aqueles famosos salgadinhos de queijo que, saídos do pacotinho, jogam sobre o ambiente um aroma parecido ao dos sapatos recém-tirados de quem suou o dia inteiro pelos pés - o que o vulgo chama pura e simplesmente pelo simpático apelido de chulé. Mas a falta de higiene nem é o que mais chama a atenção. Na minha escola havia um moleque pálido, magro, de cabelos amarelos e desarrumados que, em incrível desafio à lei da gravidade, teimavam em apontar para cima, e cujo rosto, de tão estreito, beirava ao vertical. Pra complicar, o tal sujeito tinha um baita narigão redondo, completamente desproporcional ao traço esguio de todo o resto do corpo. É difícil admitir, mas o moleque, de fato, lembrava a triste figura de um espantalho em cujo lugar do nariz colocaram uma batata. O apelido? Fandangos - o nome de um salgadinho de milho cujo saquinho vinha enfeitado pela figura de um espantalho sorridente. Se a malvadeza infantil (que quem não é criança, para disfarçar a realidade das coisas, chama apenas de franqueza) não viesse acompanhada de violência, até que essa fase vida poderia ter algo de nobre e aproveitável. Mas é claro que as coisas não eram assim. Na mesma escola, a famigerada hora do recreio era compartilhada por crianças que estudavam desde a primeira até a quarta série daquilo que, à época, se chamava de primário - ou seja, crianças cujas idades variavam entre 7 e 10 anos. Nada mais justo, portanto, do que chamar os desafortunados da primeira série de "baixinhos" e os mais velhos, com igual justiça, de "grandões" - compondo os meninos e meninas das séries intermediárias uma casta de menor importância na cadeia ecológica local, razão pela qual, também de forma muita justa, eles não tinham nenhuma patente que lhes caracterizasse o escalão. Era tradição - ao menos daquela escola - que, na hora mais feliz do dia, a hora do recreio, um bando de grandões escolhessem a esmo um baixinho, fizessem-lhe um cerco humano intransponível e, com muita felicidade, esmurrassem sem dó o desgraçado. Invariavelmente, a agonia do peixe pequeno durava até a hora em que soava a campanhia dando ordem para a criançada formar uma fila militar de acordo com as classes a que pertenciam e voltar para a sala de aula - momento, este, de muita tristeza e desolação, menos, é claro, para a pobre alma escolhida para ser o Judas malhado do dia. Como as escolhas para servir de saco de pancada dos maiores eram feitas através de um revezamento aleatório e democrático, todos os baixinhos, a despeito de suas convicções ideológicas, sabiam que, mais dia, menos dia, iria chegar a sua vez. Era um fato natural da vida - assim como o sol que nasce, a noite que chega ou a morte que vem. Não havia como escapar - mas nem por isso sofria-se por antecipação. A vida era assim mesmo. E a vantagem de tomar umas cacetadas num dia era o alívio de se saber livre no dia seguinte. De modo que tudo era muito justo. Tão justo que, apanhada a presa pelos deuses da vida e da morte, os amigos da vítima, longe de tentarem auxiliar o azarado numa fuga improvável ou, ao menos, solidarizar-se a ele em resignada e muda contemplação, ficavam mesmo é a gargalhar do pobre-diabo, incentivando os grandões a capricharem nas solapadas - e, às vezes, quem sabe até tirando a sua própria casquinha, fruto de uma antiga diferença mal resolvida. Sem dúvida, ninguém gosta de ser parte do time que está perdendo. Certamente, não faltará quem debite essa violência aos males da vida urbana, ao absurdo arraigado da competitividade histérica e ao mau preparo pedagógico dos bem-intencionados e diligentes professores e professoras - esses coitados que, tal e qual os homens do governo, não têm culpa de nada, e embarcaram nessa onda apenas por devoção desinteressada às justas causas da humanidade. Para muitos, o problema não é a infância em si, mas a base de comparação. No ambiente sadio, livre e bucólico das cidades menores do interior, as coisas com certeza são diferentes. Não deixo de dar-lhes uma certa razão. O Toninho Montanha, por exemplo, morava no interior. E, ao contrário do que vejo por aí desde que estou neste planeta, ele, com absoluta sinceridade, pregava o amor junto às crianças. *** Por sorte ou por azar, parte de minha família vem de uma cidade pequena, daquelas que, de tão pequenas, fazem todos os matrimônios parecerem incestos - senão biológicos, ao menos morais, já que, quando as linhas hereditárias não se encontram no passado (o que é muito raro nas pequenas localidades), a falação de uns sobre a vida dos outros acaba fazendo de todos parentes, ainda que por afinidade. Cidade besta, de beira de estrada vicinal e com um nome esquisito, de um santo de menor importância na hierarquia católica. Uma típica cidade morta, como definiria o Monteiro Lobato: uma vila que se orgulha da importância de um passado de fazendas de café ou de parada de estradas de trem enferrujadas, e que, de tão pequena, já não enxerga nem a própria pequenez. Um lugarejo cuja atividade cultural predileta é a fofoca pura e simples e tem nas tias velhas casamenteiras as grandes expoentes da única atividade economicamente ativa que restou: tentar casar as parentas mais novas com algum doutor forasteiro. Enfim, uma cidade de merda. Por mais incrível que pareça, a tal cidade tinha um museu a lhe eternizar as glórias de outras eras. Sei disso porque o casarão que abrigava as lembranças de seu repeitável passado, limpo e imponente, ficava exatamente ao lado da casa da minha avó. Porém, mais bizarro do que a existência de um museu num lugar daqueles era quem tinha por ofício tomar-lhe conta - e que, ainda por cima, morava lá, junto aos fantasmas: o Toninho Montanha. Desconheço-lhe a origem do apelido. Mas, sem dúvida, a segunda parte da alcunha faz jus à coragem do rapaz: o Toninho Montanha era travesti. E dos brabos. Se hoje em dia o exercício da arte do travequismo já não é lá prática das mais fáceis (não conheço, por exemplo, nenhum traveco que seja gerente de banco, juiz de direito ou psiquiatra), fazê-lo há algumas décadas atrás - e numa cidadezinha como aquela - era coisa impensável. Mas o Toninho tinha peito. Moleque, pela janela da casa da minha avó espreitava o infeliz limpando o jardim do museu, como quem espreita o diabo à porta do próprio inferno: bochechas e peitos inchados pelo silicone, cabeleira loira digna de atriz de seriado americano, batom nos lábios, shortinho jeans, trejeitos de mulher e... barba por fazer. Incrível: o camarada se empenhava ao máximo para parecer do sexo feminino, mas fazia questão de exibir a barba de homem, de pelo menos uma semana sem ver a gilete. Talvez o Toninho achasse que a barba fosse o seu, por assim dizer, charme diferencial. Talvez o Toninho apenas precisasse de um bom psiquiatra. Meus avós e tios se referiam a ele com a piedade que se devota a um doente terminal. E conviviam bem: ele não falava com eles, eles não falavam com ele, e todos tocavam a sua vida, sem interação. Já os primos que moravam lá, da mesma idade da minha, tinha concepções bem diferentes. Tendo eu a obrigação de passar boa parte das minhas férias na casa da avós, acabava por fazer amizade temporária tanto com os primos quanto com os amigos deles. E numa daquelas conversas vagabundas de fim de tarde, em que pouca maldade resta para se fazer com o próximo, veio-me a revelação, sob a forma de troca de acusações, como soem aparecer todas as verdades. Um dos moleques, não me lembro por qual razão, teve a orientação sexual questionada por um dos meus primos, a título de galhofa e por falta de assunto melhor. Em rápido revide, ele lançou a acusação: - E você, que vai comer doce na casa do Toninho Montanha? No início, silêncio geral. Mas meu primo, talvez constrangido pela minha presença, resolveu fazer o que todo mundo faz quando se vê em situação de desvantagem: botar a merda na frente do ventilador ligado. - E daí? Você também vai. - Fui - replicou o outro -, mas foi o Cebola que me levou. O Cebola, até então terceiro desinteressado naquela demanda, foi de uma sinceridade de chocar: - É, mas o doce de abóbora do Toninho Montanha é bom. - O Toninho Montanha tem mão boa pra doce - confirmou o meu primo, em toda sua simplicidade caipira. - O melhor doce que eu conheço - corroborou uma quarta testemunha. - E o dia em que ele fez quindim? - rememorou um quinto moleque. Todos se lembraram do dia do quindim. Tendo descoberto que os companheiros tinham por hábito participar de festins na casa do próprio Capeta, não consegui disfarçar minha surpresa: - Vocês vão na casa do Toninho Montanha? - Comer doce... - explicou o Cebola, com um sorriso maroto que deixava claro nas reticências que aquele doce não era dado apenas pelo prazer gastronômico do Toninho Montanha em ver cheio o bucho alheio. - Todo mundo vai - continuou o meu primo, com o mesmo sorrisinho dos infernos. - O Toninho gosta quando a gente vai, ele que pede pra gente ir. Só que tem de aguentar depois, né? Uma risadinha aqui, um comentário ali, as coisas estavam claras. Em troca de favores sexuais (os quais, em específico, abstive-me de perguntar), o caridoso Toninho Montanha alimentava a molecada com doce de côco, quindim, brigadeiro, doce de goiaba, doce de laranja, bolo, torta, o diabo. E, pior, nem eram guloseimas que ele comprava no mercado; pelo jeito, o degenerado gastava as horas na frente do tacho, de shortinho e barba por fazer, caprichando, com carinho maternal, nos quitutes que iam ser servidos nas orgias que ele patrocinava, dentro do museu. O desalmado tinha a mão boa pra doce e, também, para outras coisas. Daí a razão de quem diz que a infância é uma coisa boa. Boa como os doces do Toninho Montanha.
Toninho Montanha e um de seus amiguinhos, depois de comerem melado. *** 8.6.04
INRI CORPUS CHRISTI.
É com muita honra que o Mundo Símio anuncia que foi confirmada a bombástica entrevista exclusiva com INRI CRISTO, que será veiculada neste humilde espaço no decorrer da próxima semana - isso, é claro, se o PÂI assim o permitir. Dom Gustavo, que, como nossos estimados leitores já devem ter percebido, está sumido nestes últimos dias, rumou a pé para Curitiba na última sexta-feira, em mística e descalça peregrinação - ao cabo da qual, espera-se, ele encontrará o Mestre em pessoa. Esperamos, com sinceridade, elucidar os insondáveis mistérios da fé através das muitas perguntas que nossa redação preparou, anotadas num pedaço de jornal que está (ou pelo menos estava) no bolso de Dom Gustavo. Dentre outras coisas de igual importância, esperamos que o Mestre esclareça de vez que diabo de feriado é esse tal de Corpus Christi. Enquanto isso, nossos leitores vão ter de se contentar com textos de escribas de menor valor. Oremos, assim, para que Dom Gustavo encontre o Caminho - e não gaste em cachaça todo o dinheiro que nosso editor-chefe cuidadosamente lhe entregou, mas que, infelizmente, não deu para bancar o busão. *** 2.6.04
DA ARTE DE ESCARRAR Só quem não anda pelas ruas, em especial pelo centro de São Paulo, desconhece essa misteriosa arte. E não pensem que é fácil ser um bom escarrador. Eu mesmo já pratiquei bastante, e até agora não consigo expectorar com a graça e higiene dos mais experimentados. Invariavelmente, quando resolvo imitar os artistas do escarro e aperto a narina direita para, com a esquerda, esvaziar as fossas nasais, após a forte expirada fica sempre um fiapo de ranho e plasma transparente entre o dedo e o nariz. A única solução é a espalhafatosa limpada de dedo na barra da calça. Outro problema que acomete os inexperientes durante o malfadado ato de assoprar o escarro pelas narinas, é a surpreendente "ranho-retro-propulsão", nome pelo qual se pode descrever o incrível fenômeno de o escarro não sair em linha reta quando fortemente assoprado, como lhe seria natural segundo as leis da física. De fato, por vezes o produto da corisa revolta-se contra a mão que auxiliava a narina direita a se tapar, saindo da narina esquerda com força tremilicante e aderindo, como que para salvar-se, fortemente sobre essa mesma e indefesa mão. A solução, nesses casos, é simplesmente lavar a mão nalgum boteco, ou, na impossibilidade, simplesmente resguardá-la no bolso até que a meleca seque. Engana-se quem pensa que a arte de escarrar confunde-se com o simplório ato de puxar sonoramente o catarro do âmago do nariz para a boca, cuspindo-o em seguida na calçada. Por meio desse expediente só se apura mais a saliva, incrementando o cuspe com substância nasal. A arte de escarrar assemelha-se a assoar o nariz, porquanto aparentemente consista em despejar diretamente a produção do nariz no meio exterior. Mas é muitíssimo mais sofisticada que isso, até porque, quando se assoa o nariz, se deposita o escarro nalgum pano ou papel, ao passo que por intermédio da arte de escarrar elimina-se magicamente as exceções e secreções oriundas das ermas fossas-nasais. Claro está que o artista do escarro, a despeito de sempre amador - afinal, nunca vi alguém ser pago para escarrar - é um sujeito versado em complexos expedientes buco-nasais, pulmonares e diafragmáticos, todos eles desenvolvidos e exercidos em prol da esotérica arte de escarrar. Esses conhecimentos, porquanto secretos, provavelmente são comunicados apenas ao iniciados em alguma esconsa "seita do bom escarro". Aqueles que andam pelas ruas e têm olhos de ver comprovam o mistério. Esses curiosos observadores certamente já notaram como, em plena Praça da Sé, e sem ao menos parar, o artista do escarro sorrateiramente tapa uma narina e, pela outra, num jato expele todo o catarro que lhe atormenta, sem deixar vestígio em sua face ou tampouco nas mãos. O escarro, de tão rápido, parece que saiu por vontade própria do corpo do infeliz, e o observador por vezes o procura no chão, sem achá-lo, e sai com a convicção de que o trem estava mesmo vivo. O artista, anônimo, continua o seu caminho com altivez e elegância, como se nada tivesse acontecido. Há modalidades na coisa, por certo. Além da escarrada "meia-narina", é comum também a "nariz pinçado". Nesta espécie de escarrada, menos discreta, o artista faz uma pinça com o indicador e o polegar da mão direita, e com ela aperta o nariz, deixando a mão espalmada à mostra, com os demais dedos ferreamente esticados. Aprontada a pinça, o escarrador toma de todo o fôlego que dispõe e, fechando os olhos, dispara uma tremenda ventania pelas narinas, de modo a não deixar pedra sobre pedra. Como resultado, tudo o que estava dentro do nariz do constipado é pulverizado no ar, igualmente sem deixar vestígios. Taí outra característica dos artistas do escarro: a higiene. Eles não deixam prova de seu crime. Notem. Ou pulverizam o escarro no ar, ou disparam-no como uma bala num canto qualquer. Só os inexperientes como eu melam a mão ou deixam uma marca de ranho no bigode, para desgosto e reprovação dos circunstantes. É por isso que ando sempre com um lenço no bolso. Tendo desistido da arte de escarrar sem as mãos, resigno-me a humildemente dar uma assoada sonora e ridícula no lenço, que, encharcando-se, acaba mais por sujar do que limpar o nariz, além de irritá-lo e deixar marcas de assadura por onde passa. Isso sem falar na nojeira que é um lenço usado esquecido no bolso, coisa da qual só nos lembramos na próxima ocasião de uso, em que constatamos, sempre com desgosto, que as abas do providencial paninho estão grudadas por ranho antigo e esquecido. Esse é o preço de não ser um artista do escarro. Esse jovem diz que sabe escarrar, mas não convence |