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31.7.04
Piauí
Inspirado pelas peripécias escatológicas narradas por Dom Paulo e Dom Gustavo, eu, que andava há muito ausente deste espaço, vou lhes contar algo sobre a macaquice nacional, uma histórica verídica ambientada no Piauí e presenciada por este que vos escreve. Sabe-se que a mente do macaco nacional é tão inquieta e angustiada que não consegue ficar dez minutos que sejam num ambiente silencioso. Sempre alguém ligará a tv ou o rádio para botar um fundo musical no despropósito da vida. Silêncio, jamais. E foi assim no passeio de barco Delta do rio Parnaíba, no já citado Piauí, onde ninguém se atreveria a imaginar que se pudesse curtir a paisagem ouvindo o som das águas e dos pássaros. Jamais. Portanto, às 9h da manhã, com os olhos ainda sapecados de remelas, cerca de 40 turistas infames embarcavam na nave temática Mandu Ladino, cujos autofalantes, às 9h da manhã, como se disse, já vibravam com um forrozinho de quinta categoria para animar os macacos que faziam seu embarque nessa surreal arca de Noé dos infernos. Há que se dizer que 85% dos passageiros, por baixo, sofriam de obesidade, alguns chegando àquela variante classificada como mórbida. Pois enquanto acomodavam seus bundões gordos e peludos nas cadeiras de prástico pregadas ao convés do barco, o nobre comandante da stultifera navis lascava o CD da viagem, fazendo vibrar as panças do povo, assustando os poucos pássaros que ali ainda se atreviam. Digo o CD porque a coleção do comandante se resumia a um único e escasso CD, o medonho Aviões do Forró - volume II - a diferença está no ar. Descobri rápido o nome porque os vocalistas das bandas, em todas as dez ou doze faixas do disco, repetiam o nome e o slogan do maldito Aviões do Forró - volume II. Ao cabo das sete intermináveis e angustiantes horas de passeio, cada uma das faixas do CD deve ter tocado umas 18 vezes, também calculando por baixo. E o que dizer do som dos Aviões? Trata-se daquele tipo de música brasileira que aglutina e funde o que há de pior nos gênero chamado de brega-romântico-sertanejo, aquela massa de canções expatriada para além de qualquer limite do bom senso. Um som terrível, se é que esta é palavra suficiente para se descrever aquela lástima. E tocou 18 vezes em 7 horas de passeio, em looping. A macacada a bordo, por incrível que me parecesse, não se incomodou com o som que quase me deu um câncer no cérebro. Se não curtiu, no mínimo também não descurtiu. É como disse. O cérebro símio necessita de um ruído constante para ajudar a embolar a massa escura de seus pensamentos, portanto os Aviões serviam de fundo musical ao contra-senso e à falta de noção, daí ser bem vindo. A tragédia, porém, estava longe de parar por aí. Depois de umas três horas de viagem, balangando nas águas barrentas do Parnaíba, o sol equatorial do Piauí estava a pino, elevando a temperatura no convés para perto dos 40 graus. Os gordos infames, espremidos em suas sungas de cor berrante, já haviam consumidos incontáveis cervas em lata e agora avançavam como loucos sobre o camarão com arroz e pirão que se serviu a bordo. No autofalante, a canção Já tomei porres por você, música "de trabalho" dos Aviões em seu segundo volume, estourava distorcida pela sexta ou sétima vez. E o barco balançando, e o sol saariano tostando o couro flácido dos gordinhos. Mais uma cerva, mais uma dúzia de camarões. O gordinho indizível, esmagado no púbis por uma sunga bordô, com os pneus adiposos em dobras suadas, levanta ligeiramente a parte direita das ancas e deixa escapar um peido espremido pelo prástico da cadeira. A bufa se espalha pelo convés e se mistura pelo arroto de pinga e pirão liberado por outro gordo de óculos escuros, dente de ouro e sunga amarelo ovo. O sol tosta, os Aviões não param, o camarão nadando na pança de cerva se sublima em gases intestinais, o povo se diverte às picas. Bêbados, começam a dançar a dança da bundinha gorda, mais peidos, risadas, arrotos com cheiro de caranguejo, servidos como sobremesa. O massacre do bom gosto não tem fim. A garçonete do barco Mandu Ladino, vestida de índia, vai abrindo com tacape a cabeça dos caranguejos e mandando a moçada comer com farinha a "gordura" da mente esmerdeada do crustáceo. O gordo ri, peida again, arrota, e leva à boca, com sua mão peluda, a cabeça presa a patas peludas do caranguejo. Já tomei porres por você e outras pérolas vão para sua nona rodada nos autofalantes. Uma gordinha começa a dançar no convés, balançando ao som da sanfona e dos peidos dos jô-soares-dos-pobres. Mesmo com protetor fator 30, o sol do Piauí castiga a pele dos macacos, faz feder o cheiro dos 200 caranguejos esquartejados e melados sobre as mesinhas de prástico, a índia garçonete traz mais uma rodada de Nova Schin para a convenção nacional de gordinhos flatulentos. Nesta hora, me escorando no corrimão da escadinha do barco, já febril e adivinhando um aneurisma causado pela décima primeira execução do volume II dos Aviões do Forró, grito desesperado para a mocinha tirar o CD, caso contrário me atiraria no leito violento da foz em delta do Parnaíba. Ela diz que tudo bem, tira o CD. Minha vida, então, melhora 300%, apesar de, na subida da escadinha, ter sentido mais uma bufa do gordinho de número vinte um, o peludo da sunga verde-água. Mas a alegria dura pouco. Um dos macacos a bordo, provavelmente incomodado pelo silêncio que o obrigaria a analisar mais de perto seus pensamentos e sua vida sem porquê, reclama da "desanimação" e o CD Aviões do Forró - volume II - a diferença está no ar ganha o play pela décima terceira vez. A salvação nunca veio.
Com vocês, a trilha sonora do armagedão... 30.7.04
27.7.04
TROMBONE DE VARA Inspirado por Dom Paulo, que corajosamente abriu seu coração, dividindo conosco a angústia de um dia ter cometido um ato escatológico, passo a narrar não menos opressor fato, que comigo ocorreu no aprazível balneário de Ilha Bela. Aquele fim-de-semana de feriado emendado tinha começado bem. Saímos de São Paulo no meio da tarde, eu e o amigo que bondosamente me deu uma carona em sua viatura (afinal, ir a pé até a bela ilha seria muito duro, principalmente na hora de atravessar o canal a nado). Antes do anoitecer, já estávamos prazerosamente degustando uma cerveja gelada na frente do cais, admirando a fúria do povo que, engarrafado, teimava em usar a balsa todos ao mesmo tempo. Dá gosto ver a pimenta arder no olho alheio. Mal sabia eu em que olho o capeta me botaria a sua malagueta. A casa que alugamos era magnífica, com piscina e uma incrível vista para as praias do continente. Na verdade, não a alugamos: o amigo que generosamente me deu a carona recebera o imóvel naquele fim de semana em pagamento de uns honorários que o pobre dono da casa lhe devia. O aluguel que o meu colega amealharia dos demais amigos serviria para amortizar a dívida do sacripanta para consigo. A noite foi ainda melhor que o fim de tarde: casquinha-de-siri, bobó de camarão e até um bom feijão caseiro, coisa que abomino. Já meio grogue pela ingestão da marvada, aceitei corajosamente o desafio e amalgamei o feijão com o resto do bolo alimentar que já fermentava em meu bucho. Como sobremesa, cerveja, muita cerveja. No dia seguinte, acordaram-me cedo, não sei por que maldito hábito praiano (eu, que só freqüento praia pela bebida e pelas mulheres, preferiria acordar às seis da tarde, mas isso é outra história). No desjejum, nada como uma boa lata de skol gelada, junto com um copinho de iogurte e um sanduíche de pão Pullman semi-embolorado. Mas contra a praia não há argumentos. Ela o dobra. Sentar numa cadeira emprestada, olhar o mulherio com uma cerveja gelada sobre a barriga inchada, sempre comentando os predicados de cada passante com os amigos - isso é que era vida. No almoço, lá pelas quatro da tarde, casquinha-de-siri, carne-de-sol com fava e manteiga de garrafa, além de uma ou outra debicada da caldeirada do amigo do lado. Cerveja, sempre, e uma cachacinha para rebater, porque ninguém é de ferro. À noite, era hora de enfrentar o verdadeiro banheiro de cadeia, no qual se transformara o lavatório do térreo de nossa casa. Muito homem junto dá sempre nisso: ambiente de cadeia. Os casados, providencialmente, se alojaram com suas intocáveis esposas no andar de cima. Já devidamente higienizados, fomos finalmente à caça no tal do "Bar do Inglês", fina estalagem a céu aberto. Pequeno bar, mas muito bem freqüentado. Poucas vezes eu vira um lugar tão cheio de mulher bonita. A noite estava apenas começando, mas o mulherio já estava indócil, como diria o sábio Falcão. Tendo em vista que só assisto o Programa do Ratinho quando quero me instruir com a TV, não reconheci a moça quando meus amigos me alertaram para a presença de uma tal de Karina Bacchi (é isso ou algo que o valha), modelo famosa, devidamente rodeada de outras dúzias de gatas da televisivas. Um tanto comovido pela informação, resolvi tomar coragem, digo, tomar mais uma cerveja no balcão. Foi aí que o desespero bateu, e meu organismo, por assim dizer, começou a dar mostras do meu pouco caráter. Aqui se faz, aqui se paga. O nervosismo causado pela presença das belas moças, associado aos meus pouco salutares hábitos alimentares dos últimos dias, criou uma espécie de Alien, que teimava em se revirar em meus intestinos, emitindo sons um tanto guturais. "É só cagar que passa", pensei comigo, tentando me confortar intimamente. No entanto, o arquiteto que desenhara aquele bar certamente não era freqüentador de logradouros do gênero. Além de pequeníssima a "casinha" onde se aninhava a privada - sem tampa, naturalmente - a porta que deveria dar privacidade ao cagante não só não travava, como trazia em cima e embaixo largas aberturas. Nada demais, não fosse o fato de essa "instalação" dar direta e exatamente para o balcão onde estava todo o povo - e as sorridentes modelos, naturalmente. "Apóio com uma mão a porta, para evitar que algum filho-da-puta a abra, e com a outra me seguro na parede, para não relar a bunda nessa privada fétida" - assim planejei meu miserável intento, já transido pelas pontadas que o Alien reiterava em minhas entranhas, dando mostras de sua elevada viscosidade. "Se peidar, cago nas carça", meditei na hora terrível. Suando frio, tive que pôr em andamento meu temerário plano, sob pena de melar-me de vez. "É vapt-vupt", pus na mente, e entrei no sanitário com vista para o bar. Acocorado feito um bugio que dá à luz, com uma mão na porta fétida e outra na parede, fechei os olhos e, com a calça arriada, orei pelo silêncio. Foi aí que o plano falhou. Só a imagem de um péssimo trombonista de vara, executando bêbado uma música dadaísta de sua cachola, poderia dar uma pálida idéia do barulho que a minha obra lançou nos ares do boteco. A romântica canção do Caetano Veloso, que o músico tocava para animar os convivas, estava certamente muitos decibéis abaixo do meu involuntário solo de trombone. E no meu solo havia repiques, múltiplos repiques, como se o beiço do trombonista estivesse meio fora de esquadro, e o instrumentista nervoso. É nessas horas que se valoriza o silêncio. A primeira faz tchã, a segunda faz tchum e... tcham, tcham, tcham, tcham! Não sei bem por que, lembrei-me da velha propaganda do Prestobarba. De fato, a primeira e ansiosa onda de massa fecal fizera "tchã", chapiscando toda a louça; a segunda, menos vigorosa, só complementou o serviço, repicando o solo de trombone; terminado o trabalho, "tcham, tcham, tcham, tcham!", o cenário que se descortinava não era dos melhores: uma privada infestada de merda amarela por todos os lados e... nenhum papel higiênico. Como eu pude me esquecer desse detalhe? Não importa: como sou alérgico e vivo assoando o nariz, trago sempre um lenço no bolso. Seria aquele dadivoso pedaço de pano, ainda pouco usado, que me salvaria de tal momento de dor e dúvida. Feito o polimento da região traseira, lancei o lenço no cesto e saí com a maior cara-de-pau que pude encontrar, não sem antes notar os respingos de urina que não pude evitar caíssem em minhas mal-ajambradas cuecas. Um antropólogo que a tudo assistisse do alto, talvez tivesse boa explicação para a reação das pessoas ao me verem, quando dei os dois passos que me separavam do público. Nenhuma delas, absolutamente nenhuma, parecia ter notado o ensurdecedor solo de trombone de vara que eu há pouco executara a uns, digamos, dois metros da turba. Certamente, a simulada naturalidade com que me trataram era análoga àquela de que por vezes lançamos mão, quando nos deparamos na rua com algum deformado, um sujeito sem braço ou orelha. Fingimos que é tudo normal - por mais que evidentemente não o seja. "Enfronho-me no meio da moçada, peço uma birita sutilmente, e finjo que não foi comigo". Assim tramei o meu retorno ao mundo das pessoas sérias. Ledo engano: no que consegui um lugar para ficar, no meio da lotação que já estava o lugar, senti nova pontada. A sensação, como é cediço, assemelha-se a um celular com vibracall recebendo chamada de dentro das tripas. "Ou corro, ou me cago" - essa foi minha conjectura na hora dolorosa. "Corro. Corro desesperadamente". Voltei à casinha sinistra, mais uma vez. Desta vez, mui espertamente, peguei na frente de todos um punhado de papel toalha para fazer a minha "higiene íntima" (nome que os frescos dão ao ato de limpar o rabo). A boa toalha, como sói acontecer, era daquelas cinzas, meio pardas, e mais ásperas do que uma lixa. O ato de limpar a bunda com aquilo, acocorado, equivale a passar uma caixa de fósforo gigante no rabo. E, de fato, o traseiro do infeliz quase pega fogo após ser higienizado com tal papel. Dessa segunda vez em que freqüentei a sutil estalagem, já com o bar bem lotado, notei que se formara uma pequena fila para usar a casinha, enquanto eu obrava acocorado. Pela conversa do pessoal da fila, plenamente audível do lado de dentro, pude ter a certeza de que meus solos de trombone eram de fato plenamente audíveis por todo o bar. Para meu azar, tive também outra certeza: a de que o maldito banheiro era unissex. Nem preciso mencionar, portanto, com que expressão de horror e reprovação as moças que aguardavam na fila olharam o degenerado que executou aquele ritual macabro e gutural, quando o infeliz saiu da funesta cabine. Para encurtar, solei meu trombone pelo menos umas cinco vezes seguidas, para regozijo dos amantes da boa música, e para a revolta do clone do Caetano, que teve que competir com tamanho espetáculo musical. Obrei muito. Obrei até esgotar o papel-lixa cinzento. Já com o cu em brasa, andando cabisbaixo e com o rosto tapado, como um fiscal apanhado por câmera oculta, pedi gentilmente a um colega que me levasse embora para a nossa casa, que, por sinal, ficava do outro lado da maldita Ilha Bela. Ao chegar, quase sem acreditar que conseguira prender a respiração por todo o trajeto, fui direto ao nobre banheiro-cadeia da ala masculina da casa. Foi então que o meu amigo (e sua esposa, certamente), que até então fora incrédulo em relação à gravidade do meu martírio, pôde ouvir de camarote, do andar de cima, um sonoro e exclusivo solo de trombone de vara. E se horrorizou.
Esse aí suspirou aliviado por chegar em casa a tempo 23.7.04
HECATOMBES Tal como se dá na história das civilizações, também na vida pessoal, de tempos em tempos, aflora uma revolução, uma guerra, uma catástrofe, um evento abrupto e dramático, daqueles que delimitam a fronteira exata entre o antigo e o contemporâneo, entre o antiquado e o atual, entre o passado e o futuro. São esses acontecimentos que definem, no caso das civilizações, o corpo que vai sobreviver e o cadáver que definitivamente vai ser enterrado debaixo de uma bandeira mofada. Esses eventos, que, no plano individual, marcam a vida de qualquer um, podem, com o futuro, se revelar bons ou se revelar desastrosos. No meu caso particular, infelizmente, eles só se revelam desastrasos. Vou demorar para esquecer, por exemplo, o encontro casual que tive na semana passada com a esposa de um amigo meu, num boteco de baixíssima qualidade, próximo à firma em que simulo dar expediente na maior parte de meus improdutivos dias. A boa senhora, talvez envergonhada por estar desacompanhada do marido (e, com toda a certeza, completamente constrangida por ter sido vista numa espelunca que, ao final da tarde, ainda exala o cheiro de gordura da gororoba servida no almoço), logo veio me explicar a razão pela qual encontrava-se em tão pouco nobre lugar: - Vim visitar uma amiga que trabalha no prédio aí da frente. Estava explicado. Ela não tinha culpa de estar lá, a boa alma - ao contrário de mim, que tive de confessar que frequentava o tal boteco por não dispor de numerário suficiente para ir a outro lugar. Percebendo que tal informação tinha chocado a minha amiga - a qual, diante da gravidade da minha situação financeira, não conseguiu disfarçar a cara de nojo -, resolvi amenizar o clima com uma informação, digamos assim, diplomática: - Costumo vir aqui, mas só nos últimos tempos. É que tenho economizado dinheiro pra comprar... pra comprar... - faltava-me o desfecho da desculpa - pra comprar... um sofá de couro - foi a melhor coisa que consegui imaginar. Não tendo ela impugnado, ao menos na hora, minha justificativa, julguei reciprocamente esclarecidos os motivos de nossas presenças e começamos a falar sobre amenidades. De amenidades, porém, passamos com relativa rapidez ao exercício intelectual que mais estimula o salutar hábito da boa conversa entre pessoas inteligentes: falar mal dos conhecidos em comum. Como tão sábia moça tinha estudado na mesma faculdade que eu, tínhamos múltiplas e inesgotáveis questões para debater. Foi daí que a tragédia aconteceu. Entusiasmado com tema tão empolgante - naquele momento, a estranhíssima gravidez de uma antiga colega que tivera dado à luz um saudável par de gêmeos de ascendência nitidamente oriental, não obstante não houvesse na família dos dois integrantes do casal, há no mínimo umas cinco gerações, um único desgraçado que tivesse ao menos pisado em terras japonesas, chinesas ou coreanas, ainda que em viagem de turismo -, comecei a falar feito um doido, questionando com veemência a honra daquela jovem mãe. E então a bomba explodiu. Em meio a tanta falação, deixei escapar por entre meus lábios uma fornida gota de saliva, a qual, dado o seu tamanho avantajado, fez uma preguiçosa curva para baixo, tomando o previsível rumo do rosto de minha interlocutora. Por conta da velocidade constrangedoramente lerda da bolota de cuspe de tamanho nada desprezível, pude antever a desgraça tão logo o último fio de baba se desprendeu, com capricho, de minha boca, o que me encorajou a tentar interceptar o caminho da dita cuja através de um brusco movimento com uma das mãos, como quem tenta afastar um mosquito a planar à frente do rosto - manobra que quase me fez desferir um mal calculado tapa no nariz da minha boa colega. Tarde demais: tal como o goleiro que deixa escapar a bola entre as pernas, não consegui evitar a trajetória do míssil que involuntariamente disparei. Logo após o infeliz acidente - e da ainda mais infeliz tentativa de evitá-lo, a qual acabou por delatar em definitivo a minha gafe -, vi que o horroroso perdigoto tinha ido se alojar com carinho bem na ponta do queixo de sua vítima, num cai-não-cai macabro e irritante. Tive ainda o ímpeto de, usando a mesma mão que acabara de desferir o inexitoso tapa no ar, afastar a indesejada bolinha líquida com o polegar, mas, no meio do caminho, achei que isso só iria piorar as coisas - que, em pouquíssimos segundos, já tinham ficado bem ruins. Com a desistência, fiquei então ali parado, com a mão estendida num surreal sinal de positivo, que perdurou, calculo eu, por uns cinco segundos - enquanto minha amiga, com os olhos esbugalhados e vermelha feito uma bandeira do PT, me fitava boquiaberta, com a babugem indesejada a formar-lhe uma espécie de barbicha transparente. E ali ficamos os dois, quietos, um olhando para o outro diante do súbito esgotamento da nossa conversa, sem saber o que fazer. Para amenizar a situação, lancei a esmo um ou outro comentário sobre a crise econômica que assola o país, com o que ela aquiesceu, sob um olhar mudo e, sobretudo, sério - fazendo triste contraste com a barbicha de cuspe que ia se encumpridando cada vez mais, embora não desse nenhum sinal de que ia se desgrudar da ponta do queixo da pobre mulher. Como ela não se animava a prosseguir no debate, saquei do bolso do colete um comentário enraivecido acerca do aumento da violência, inclusive entre as classes mais abastadas. Sem alterar o seu estado de contemplativa seriedade, ela balançou a cabeça afirmativamente, de uma maneira quase ríspida. O fio de baba, porém, não se animou a sair, apesar de se balançar freneticamente, feito uma serpentina de carnaval. Não havia jeito: para aquela gravata de saliva sair dali, só mesmo com um bom esfregão. Derrotado, despedi-me com um formal aperto de mão (pois tive medo de que, no tradicional beijinho de rosto, o interminável fio de saliva acabasse por se espalhar ainda mais pelo rosto da coitada), para em seguida dizer: - Desculpe qualquer coisa. E saí em disparada - porque não queria ouvir-lhe as golfadas, que certamente lhe jorraram pelas tripas assim que virei as costas. Incrível como uma coisa tão pequena pode causar uma tragédia tão grande. Nada, porém, como um dia após o outro: tragédia bem mais dramática deu-se comigo ontem, em meu próprio ambiente de trabalho - marcando-me, em definitivo, com o carimbo do Capeta perante todos os colegas que sou forçado a ver todos os dias. Da descrição desse outro incidente, no entanto, poupo este pequeno espaço, dadas as condições, por assim dizer, não muito higiênicas sob as quais ele se desenrolou. Diante da gravidadade daquela hecatome, sou obrigado a admitir o seguinte sobre o meu pequeno amigo perdigoto: eu era feliz e não sabia.
Dom Paulo se assusta com a própria capacidade de babar 20.7.04
A SORTE UM DIA CHEGA
O Mundo Símio agora terá as suas exclusivas camisetas. Quem for símio e leitor deste site - com o perdão da redundância - agora poderá demonstrar a toda a gente o seu notável saber e bom gosto. Aos que quiserem ser visitados pela sorte - que é sempre sorrateira, mas premia os sábios - basta mandar um e-mail para o endereço mundosimio@yahoo.com.br com o seguinte dizer: "MEU SONHO É SER SÍMIO". Cinco serão os eleitos, que terão a honra de passear pelas ruas ostentando nossa garbosa camiseta de símio, que nosso estilista Porcimar Boiollatto está desenhando neste exato momento, com a arte que lhe é peculiar. Como, ao todo, nossos leitores somam cinco eruditas figuras, muito provavelmente todos eles ficarão satisfeitos - ao contrário do rapaz aí de cima, que, ao tentar nos impor desairosa traição com nossa bondosa mulher, recebeu em retribuição carinhoso afago de nosso preposto, Doutor Sorte. 16.7.04
EU AMO A TELEVISÃO (5) Estou absolutamente convencido de que, em qualquer pesquisa de opinião que for feita hoje em dia, nove entre dez brasileiros entrevistados dirão que um dos piores males do mundo, senão o pior, é o desemprego. Pura estupidez. O desemprego, por si só, é uma coisa ótima. Ruim é não ter o dinheiro. Fui talhado, genética e culturalmente, para ser vagabundo, para ficar em casa assistindo à televisão e comendo batata frita de saquinho. Desgraçadamente, para ter alguns poucos momentos de ócio, sou obrigado a trabalhar na maior parte do dia. Ter emprego é uma coisa horrosa. A quem duvidar, eu pergunto: alguém conhece um sujeito que bate o ponto na firma sem ganhar nenhum tostão, dando expediente apenas porque acha que ficar desempregado é ruim? Só se, de berço, o camarada já for rico - e, ao mesmo tempo, doido varrido. Que o diga o Senador Suplicímio. Para ter o dinheiro, o povo, quando muito, suporta o trabalho. É o meu caso. Gosto tanto do dinheiro que, embora meu trabalho, nos últimos tempos, não tenha me rendido nem um pedaço de pão embolorado, acabei tomando algum troco no banco. Confesso que sou um degenerado: gosto de gastar o dinheiro. Como todo pecador que se preze, tive de arcar com a penitência: diante da (imotivada) insistência do banco em se recusar a me doar aquela gaita, acabei precisando trabalhar feito um cão danado nos últimos dez dias para pagar a primeira das cento e quinze prestações em que se dividiu o meu débito. Daí a explicação para a minha mudez nestes dias - sendo que a mudez de Dom Gustavo se explica pelo fato dele, inspirado pelas bençãos recebidas diretamente do Mestre INRI e invocando a glória de seus antepassados, ter desenvolvido o salutar hábito de participar de orgias na maior parte do tempo, bem ao estilo da antiga foto abaixo, que ele exibiu só para tripudiar sobre a minha fome, o desgraçado. Sendo obrigado a acordar no mesmo horário em que despertam as galinhas - ao passo em que Dom Gustavo, nesses tempos, tem acordado entranhado às ditas cujas -, não teria asssistido à televisão ontem à noite, se não fossem dois telefonemas que recebi, ambos dando notícia da entrevista que Mestre INRI Cristo concedeu no programa daquela ponderada moça, que se chama Luciana Gimenez - um exemplo a ser seguido pelos nossos jovens, e que, de já há muito, deveria ser o símbolo do Ministério da Saúde no combate à AIDS. O primeiro a telefonar foi o renomado psicólogo Doutor Fernando Bananeira, o qual acompanhava a entrevista na esperança de pegar alguma dica do Mestre a respeito do método de ação do Capeta sobre o sistema neuronial das pessoas - já que ele, como se sabe, encontra-se trabalhando com afinco no desenvolvimento de um miraculoso aparato capaz de interligar os sistemas neuroniais de dois viventes distintos, única forma conhecida de entrar em contato com Belzebu (com o que, esperamos, conseguiremos uma inédita e reveladora entrevista). O segundo foi nosso velho amigo Dôgra - seu nome de batismo, ao que me foi dito, é Douglas, palavra de fonética ingrata e pronúncia dificultosa, especialmente após a ingestão ininterrupta de bebidas alcoólicas por mais de doze horas seguidas (e dado que, na outra metade do dia, o Dôgra passa seu tempo dormitando, poucos são os que já lhe ouviram pronunciar o próprio nome de maneira correta, vindo daí a razão do nome artístico). Apesar de não ter entendido muito bem o conteúdo de sua mesagem, tive a impressão de, no meio de uma dúzia de balbucios desconexos, ter ouvido a palavra "Pai", o que me fez deduzir que o estimado amigo também estivesse me alertando a respeito da aparição do Mestre. Assim, em respeito ao trabalho sério e dedicado do Doutor Bananeira, bem como ao monumental esforço do Dôgra, senti-me obrigado a tecer humildes porém sinceras considerações a respeito do ocorrido - mesmo tendo ficado um pouco chateado com o Mestre pelo fato dele em nenhum momento ter mencionado a entrevista que concedeu ao Mundo Símio. Pai, por que me abandonaste?
Dom Paulo prestou muita atenção ao sofisticado debate religioso que viu na TV Acho inacreditável o fato de qualquer ser humano ainda ser capaz de duvidar das intenções do INRI. Pois parece-me que o Mestre deixa bem claro que ele acredita ser a reencarnação de Jesus. Nisso, vamos e venhamos, ele não manifesta a intenção de enganar ninguém. É impossível ser mais claro - se não pelas suas palavras, ao menos pelas suas peculiares vestimentas, as quais, convenhamos, não dão margem a qualquer tipo de questionamento a respeito de suas convicções. Creio ser improvável que, nessa altura do campeonato, alguém consiga mudar-lhe a opinião, assim como creio ser impossível alguém lhe acusar de falsidade - o Mestre é taxativo: ele afirma com clareza que é a reencarnação de Cristo. Diante desse, convenhamos outra vez, fato mais que visível, sobram duas alteranativas: achar que, de fato, o Mestre é a reencarnação do Jesus; ou achar que o Mestre não bate bem da cachola. Se a primeira hipótese for tida por verdadeira, creio que nem a retórica de um ministro do Supremo Tribunal Federal seria capaz de sustentar que o Mestre seria um embusteiro, falsificando a si mesmo (apesar do Paulo Maluf estar demonstrando que, hoje em dia, nem mesmo isso é tão impossível como antes se pensava). Agora, se a segunda hipótese for a correta - e isso, é claro, varia de acordo com a opinião de cada um -, então mais bizarro do que tudo é fazer perguntas raivosas ao doidinho, do tipo "Você também vai ressuscitar depois de morrer?", ou "Você tem filhos biológicos?", ou "O que significa a expressão 'Cristo'?", ou ainda "Se você é Cristo, qual a obra de assistência social que você faz?". Como disse certa vez Dom Gustavo, acusar o INRI de qualquer coisa faz tanto sentido quanto debater, a sério e com fervor, se o Marquito vestido de presidente da República seria ou não o próprio presidente. Isso tudo sem contar o evidente despreparo dos entrevistadores. Ninguém ali leu a "Parábola da Escada de Sabão". Nada se esclareceu a respeito dos motivos obscuros que guiam o terrível Bebê-Encosto. Tampouco se perguntou sobre a alma do desgraçado ornitorrinco, esse paradoxo biológico e espiritual notado apenas pelos mais avançados estudiosos da doutrina do Mestre. E o Milagre da Cueca? Alguém por acaso se lembrou de, pelo menos, mencionar o Milagre da Cueca? Não dá para acreditar. Gostei mesmo foi do final do programa. Foi trazido ao palco um sujeito de nome Barba, o qual, dizendo-se artista (num tom de voz que me lembrou a eloquência do Dôgra), ficou famoso porque pintou um quadro da Nossa Senhora Aparecida pelada. Na frente do INRI, todo mundo se faz de intelectual. Mas se um pobre-diabo resolve pintar a Nossa Senhora com os peitões à mostra, o pau come solto. O Jesse Valadão - o machão do Brasil, como dizia o Chacrinha - convertido a alguma religião há não sei quantos anos, tomou corajosamente as dores do Senhor Jesus e disse que, se o cabra pintasse a mãe dele, Jesse, pelada, eles iriam ter de resolver esse assunto lá fora. Só faltou ameaçar com um "Te parto a cara, vagabundo". Como se vê, a religião mudou muito a vida deste homem. Melhor do que ele só o Frei Paulo, que também foi convocado a debater com o INRI, na honrosa condição de integrante dos quadros da Igreja Católica Apostólica Romana. O Frei Paulo é daqueles velhinhos que todo mundo gostaria de ter como avô. Quando ele começa a falar, tenho a impressão de que, mesmo através da televisão, ele vai me comprar um sorvete, ou perguntar se eu quero comer algum doce. Aliás, acho que foi nele que se inspiraram os artistas que confeccionaram a gravura da caixa daquele conhecido chocolate em pó, tamanha é a sensação de ingenuidade e bem-estar que sua figura inspira. Os santos da Idade Média, sem exceção, deviam ser como ele: em tempos de barbárie, quem tivesse aquela voz angelical e olhar piedoso só poderia ser santo. Ah, que velhinho bonzinho. Pois bem. Quando perguntaram ao Frei Paulo o que ele achava do quadro do Barba, o homem se transformou. Repito: se transformou. As pupilas se dilataram, a pele branca se avermelhou e, de tão atordoado, sua voz outrora caridosa nem foi capaz de sai pela laringe - travou-se pelo meio do caminho, como um pedregulho a roer-lhe as tripas. Juro que, se, à sorrelfa, alguém lhe colocasse um Taurus por debaixo da batina, o Frei Paulo descarregava o revólver na cara do Barba. Descarregava, sem dúvida. E o faria certo da absolvição divina em face da legítima defesa da honra da mãe do Senhor Jesus. Todo mundo sabe que, nessas coisas, não se põe a mãe no meio.
Esse colega do Frei Paulo disse que ia dar uma pequena lição de arte para o Barba Nem de perdoar o Barba ele foi capaz. Porque, diante do mal-estar causado por sua complexa e polêmica obra, o artista, para se desculpar com os católicos, revelou, em primeira mão, seu mais recente e inovador trabalho: uma pintura da Nossa Senhora vestida normalmente! - Viu, Frei Paulo? - tentou apaziguar a diplomática Luciana Gimenez. - Agora que o Barba fez esse outro quadro, o senhor perdoa ele? - disse ela, como quem tenta induizr uma criança de dois anos de idade a fazer as pazes com um priminho. O Frei Paulo, porém, não deu o braço a torcer. De olhar fixo e com o tronco travado pela enervação, ele mal conseguiu pronunciar o seu veredicto: - Ele não devia ter pintado o primeiro quadro - rugiu, com a ferocidade de um aiatolá ensandecido. Ainda bem que gostei do jeitão do Barba; ao que parece, vamos passar bastante tempo juntos tostando no braseiro do Canhoto. De qualquer modo, debate tão acalorado ao menos acabou por me fazer chegar a uma conclusão: o INRI, com toda certeza, não é e nem poderia ser Deus, ou o representante ungido de Deus na Terra. Não que ele seja grotesco demais para nós. Nós é que somos grotescos demais para ele. Não merecemos o Mestre, eis a nossa triste verdade. Nosso Deus, sem dúvida alguma, é alguma coisa muito pior, muito mais mindinga - e, quando O virmos de verdade, vamos ter saudades da sofisticação do INRI, tanto da sua apresentação estética quanto da sensatez da sua doutrina. Recém-saído da vida de orgias, Dom Gustavo também resolveu fundar uma religião, mas sem abandonar o gosto pela companhia de uma boa mulher 14.7.04
8.7.04
ENTREVISTA COM INRI CRISTO - FINAL
Após ouvir em confissão os pecados que os editores do Mundo Símio já cometeram nesta vida, o INRI desesperou-se, e pediu aos céus perdão para essas almas irremissivelmente perdidas Ouça o convite que o Mestre gentilmente nos fez para um jogo de sinuca Ao final da entrevista, o INRI respondeu a questões mais prosaicas, como o que ele gosta de assistir na televisão, que livro está lendo, que som ele curte etc. O Mestre revelou-nos então que assiste basicamente aos telejornais de maior abrangência e melhor conteúdo. Disse ainda ser fã do Arnaldo Jabor, que acha um "livre-pensador" muito sagaz, apesar de não se lembrar do título do livro dele que estava lendo no momento. O INRI ainda se mostrou um exímio jogador de bilboquê, como se vê na foto aí de baixo, fazendo inveja a estes repórteres, que quando muito só conseguem macerar a própria mão com a bola de pau desse bonito jogo infantil. O INRI não erra uma Mas os dotes lúdicos do Filho de Deus não param por aí: o INRI, denotando verdadeira paixão por tal esporte, convidou-nos para uma boa sinuca da próxima vez que o visitarmos (ouçam esse convite clicando no link lá em cima). Disse que joga pra ganhar, e que "esnuca" mesmo o adversário, que tem que ser bom, senão não tem graça. Só esperamos que o Mestre não jogue a dinheiro, porque ganhar de Jesus na sinuca não deve ser mole. E tomara que ele não proíba uma jurubeba para acompanhar a partida e azeitar a conversa. Essa sinuca promete. Um dos momentos em que o Mestre perdeu a paciência com a falta de cultura dos nossos repórteres. Mas o mais surpreendente de tudo foi saber que o INRI curte mesmo é um bom samba de malandro, além da música clássica que normalmente o enleva e acalma. O Mestre, cheio de solicitude, ordenou a uma discípula que pusesse o disco da cantora Carmen Costa para que estes repórteres ouvissem o seu som preferido, que ela canta com magnífica voz, e que se intitula "Tem Bobo pra Tudo". A letra é mesmo sensacional, e reconhece essa verdade universal: tem sempre bobo pra tudo. Aí vai uma palhinha da letra: "Quem não sabe tocar violão, nem pistom, toca surdo. Sempre agrada porque nesse mundo tem bobo pra tudo. Camelô na conversa ele vende algodão por veludo. Não tem bronca porque nesse mundo tem bobo pra tudo. A mulher que é bonita consegue o que quer, não me iludo. E concordo porque nesse mundo tem bobo pra tudo. Todo mal do sabido é pensar que não é enganado. Quantas vezes também como bobo já fui apontado. Tem alguém que é bobo de alguém, apesar do estudo. Está provado porque nesse mundo tem bobo pra tudo." ("Tem bobo pra tudo" - de Manoel Brigadeiro e João Corrêa, 1952) Jesus, sinuca, jurubeba e samba: essa balada promete! Chega ao fim a entrevista com o INRI, a quem sinceramente desejamos que o Pai lhe guarde em boa saúde, curado da pesada gripe que o afligia. Nos próximos dias, mais textos doidos de nossa lavra, e, muito provavelmente, nova entrevista bombástica. Obrigado aos nossos 05 (cinco) leitores pela habitual paciência. 7.7.04
NOTA DE ESCLARECIMENTO - FIM DA ENTREVISTA.
Por pura coincidência, tivemos a honra de encontrar nos dias que correm 2 dos nossos 5 leitores. Chamou-nos a atenção o fato de que esses 2, embora tivessem apreciado a doutrina do Mestre INRI, achavam que a reportagem sobre o Messias de Curitiba nada mais era do que uma boa montagem de fotos acrescida de um ou outro texto catado aqui ou acolá. Por isso, em nome da verdade - por mais trágica que ela seja -, somos obrigados a esclarecer: a entrevista com o INRI foi tão real quanto o Celso Pitta ter ganho as eleições pra prefeito. Aquilo aconteceu mesmo. Além disso, vamos convir numa coisa: é impossível alguém imitar a inigualável voz do Mestre - principalmente saudando os integrantes do Mundo Símio. Dito isso, comunicamos aos nossos 5 leitores que, amanhã, publicaremos a parte final dessa série, com fotos e revelações inéditas. Será difícil encontrar alguém à altura do INRI pra entrevistar. O Mundo Símio, porém, jamais se desespera: já estamos em avançadas negociações com o renomado psicológo Fernando Bananeira, o qual, inspirado pelo conselho de nosso sábio leitor Doutor Peixoto, se propôs a construir uma máquina capaz de interligar o sistema neuronial de duas pessoas - em verdade, dois pedaços de borracha, presos na cabeça de cada qual e unidos por um fio de arame. Já que o Sinhô Diabo só se comunica pelo sistema neuronial, nada mais natural do que usar esse aparelho (ainda em estado de testes) para falar com ele. Agora só falta encontrar o Tinhoso. Se alguém souber dele - ou, pelo menos, de alguém que se apresente como tal -, estamos aceitando sugestões. Depois de ouvir o Filho de Deus, queremos ouvir o outro lado, o Cão. Afinal, sempre fomos democráticos, ainda mais em assuntos cósmicos. Mas, antes da entrevista diabólica, amanhã teremos um pouco mais de INRI - se o Canhoto não sacanear com o nosso sistema neuronial.
O Capeta falou no sistema neuronial do Corisco 5.7.04
PARÁBOLAS - UMA PEQUENA PAUSA PARA ESCLARECER O POVO INCULTO. Descobri que o Mestre INRI sempre tem razão. Tive um pequeno vislumbre dessa luz ao ver que, respondendo à percuciente, complexa e instigante indagação formulada por Dom Gustavo, qual seja, a de como seria a aparência do Capeta, o Mestre, com sagacidade, observou que Asmodeu não se tratava de um "macaco com chifres". Eis aí um fato de que sempre desconfiei. Macaco com chifres, como muita gente já deve saber, sou eu quando me é dada a raríssima graça de namorar alguma boa moça de família. E, embora não me considere propriamente um santo homem, tendo a acreditar que, de fato, não sou o Capeta. Convencido da santa sabedoria do santo homem (ou, melhor dizendo, do Filho do Homem lá de cima), debrucei-me sobre uma das obras do Mestre, o famoso "O Despertador", a fim de estudar com profundidade seus ensinamentos. E outra vez fui obrigado a concordar com o INRI: deveras, somente um ignóbil teria a petulância de entrevistar o Mestre sem o devido conhecimento de sua obra literária. A santa bronca que tomamos do santo homem ao perceber que não tínhamos nos instruído o suficiente antes de ir ter com ele é mais do que justificada. Mais um pecado que vou ter de explicar ao Pai do INRI. Conforme vou me instruindo nas verdades do espírito, vejo que, no meu caso, só uma eternidade no inferno vai ser pouco. Sendo eu um caso mais do que perdido, num ato de desprendimento e bondade, compartilho com os poucos que se dignam a ler esta pequenina confissão as revelações místicas do Messias - também na esperança, é claro, de suavizar a minha conta negativa com o Homem lá de cima, o Pai do INRI. Se o Capeta, como sempre desconfiei, não é um macaco chifrudo, qual seria a razão pela qual ele deve ser temido? O próprio INRI, ainda na resposta a Dom Gustavo, foi enfático: Belzebu age no "sistema neuronial". E daí me pergunto outra vez: se eu não sinto nenhuma força estranha a guiar meu sistema neuronial, como é que o Desgraçado me faz cometer tantos pecados, a ponto de já estar plenamente consciente de que, daqui pra frente, nem setenta anos de trabalhos forçados num asilo de morféticos tuberculosos vão me livrar do castigo eterno? A resposta está na "Parábola da Escada de Sabão" (O Despertador, 4ª ed., 1.996, pág. 142). Explica o Mestre que a tentativa de evolução do símio rumo ao reino dos céus é similar ao ato de subir, "degrau por degrau", uma escada "propositalmente" feita de sabão - coisa que, convenhamos, não é das mais fáceis, além de propiciar tombos dignos de um pastelão. Que o INRI me desculpe, mas o Pai dele tem um senso humor, para dizer o menos, discutível. Se subir numa escada de sabão já não é prática que a boa prudência recomenda, a situação fica ainda mais complicada quando o Capeta entra em cena. Sim, porque, afora a dificuldade natural desse estranho e radicalíssimo esporte, "o cruel e impiedoso demônio urina na escada", "gargalhando" ao ver "a vítima despencar". É muita maldade. Vai mijar assim lá no raio que o parta. Constatada essa óbvia verdade, a coisa mais natural a fazer para se livrar das artimanhas do Canhoto, segundo ensina o Mestre, "é descobrir de que maneira ele consegue urinar na escada". De fato, se estou a subir uma escada de sabão e vejo que um desgraçado está a mijar-lhe nos degraus, minha reação natural é, como diz o INRI, perguntar: "ele chega sorrateiramente pelas costas? De frente, quiçá hipnotizando a vítima incauta? Pelo lado direito ou esquerdo?". Eis aí uma questão de suma importância. O Filho do Homem, porém, avisa que tais perguntas são pura perda de tempo - e de alguns dentes também, conforme a gravidade do tombo. E adverte que, ainda que o povo passasse "noites, semanas, meses" tentando saber de onde vem o mijo do Capeta, tudo isso seria em vão. Porque, em bombástica revelação, o Mestre afirma que o Capeta, "incorporado em vós, utiliza o vosso aparelho de urinar para molhar a escada". Filho da puta. Agora, além de ver dominado meu sistema neuronial, descubro que também tenho dominado o meu sistema mijorial. Ao final da "Parábola da Escada de Sabão", o INRI explica que, na verdade, o ato de mijar significa as más obras que fazemos, resultado da dominação, pelo Capeta, do sistema neuronial. A solução para controlar o mijo? Vigiar, responde o Mestre, explicando que "só assim" se pode evitar que Satanás acabe "penetrando em vosso canal de pensamento, ministrando suas idéias negativas". E daí eu me pergunto: como é que vou saber, antes de me esborrachar pelo chão, se os pensamentos que chegam ao meu sistema neuronial são produzidos pelo Capeta ou são produzidos por mim mesmo? Admito, envergonhado, que acho que não entendi bem a "Parábola do Sabão". Vou precisar revisitar essa obra. O que foi mais fácil de entender - apesar de não menos surpreendente e gratificante - foi a revelação de que Simão Pedro também está entre nós. Sim, aquele mesmo cabra que, quando a casa caiu pro INRI, arregou feio para os soldados romanos, dizendo algo do tipo: "Jesus? Nunca vi esse cara na minha vida, nem sei do que vocês estão falando. Agora, por gentileza, me dêem licença, que eu preciso trabalhar." Simão Pedro reencarnou na excelentíssima figura do "Dr. Edson Centarini, ex-delegado de polícia" e "ex-juiz de direito" (ob. cit., pág. 76). O Doutor Edson, ao que se vê, trocou a estabilidade do funcionalismo público nestas paragens pela estabilidade da eternidade lá do outro mundo, na condição de chegado do Filho do Homem. Muitas críticas podem ser feita ao velho Pedro, mas jamais a de que ele não tem vocação para arrumar bons empregos. O que mais me chamou a atenção, contudo, foi a incontestável forma pela qual se deu a revelação da verdadeira identidade do Doutor Edson - ou Doutor Pedro, agora já não sei mais. Foi um "fato meio estranho", como ele mesmo admitiu. Numa a viagem a São Paulo em companhia do INRI e de mais um pessoal, o Doutor Pedro, no quarto do hotel em que se hospedou, tomou um belo banho, botou um "terno limpo e prateado" e foi dar uma palavra com o Mestre. Na presença do INRI, percebeu que "havia uma mancha de sangue de uns três centímetros de diâmetro na região da virilha". Assustado, o Doutor Pedro voltou ao banheiro e, mesmo vendo que a "cueca estava toda ensanguentada", "Não havia em meu corpo, em parte alguma, nenhum ferimento!". Depois de tirar a "cueca suja", Sua Excelência removeu o sangue das "coxas". E o mais inacreditável de tudo: ao se vestir para ir ver novamente o Mestre, ele constatou que "minha cueca estava limpíssima na hora em que eu a vesti"!!! Era o milagre da cueca, acrescento eu. Depois do milagre da cueca, o próprio INRI disse ao Doutor Pedro que essa era a prova de que ele seria o Edson, ou melhor, disse ao Doutor Edson que ele seria o Pedro. E, diante de tão insofismável "prova física", como duvidar daquela realidade? Rendido a tão concretas evidências físicas, o próprio Doutor Pedro responde: "INRI Cristo me disse e eu acredito. Eu sou a reencarnação de Simão Pedro". De fato, ninguém poderá provar o contrário, principalmente após o inarrável milagre da cueca. Infelizmente, parece que nosso velho conhecido Simão Pedro não tem lembranças do seu passado bíblico. Só espero que ele não arranque a minha orelha com uma espada, como fez com um outro vagabundo naquela sua encarnação.
Esse livreto mostra a peleja do INRI em Roma. Depois de ter sido surpreendentemente mal recebido em Roma, o Mestre voltou pro Brasil para se armar com um poderoso porrete, que ele faz questão de brandir para atemorizar o Papa 1.7.04
ENTREVISTA COM INRI CRISTO - PARTE 5
O Mestre é um puta gente fina EXCLUSIVO: INRI REVELA COMO AGE O CAPETA, RELEMBRA OS TEMPOS EM QUE VIVEU NO COPACABANA PALACE, E AINDA POR CIMA EXPLICA COMO SE TOMA BANHO NUMA KOMBI Clique aqui e ouça um trecho da entrevista Poucas coisas são mais interessantes que o capeta, convenhamos. Foi por isso que, mal escondendo nossa profunda curiosidade, perguntamos ao INRI se ele tinha mesmo sido tentado pelo Tinhoso, pelo Coisa-Ruim, pelo Caramunhão - pelo Cão em pessoa, enfim. Para nossa profunda surpresa, no entanto, o Mestre esclareceu, com a voz meio rouca pela gripe (e não por mandinga do Canhoto, espero) que o demônio "não é um macaco com rabo e chifre como dizem". Mal pude acreditar: o Demo não é um macaco com rabo e chifre! Entretanto, mesmo não sendo símio, o Lúcifer é malandro: ele não se apresenta, ele sutilmente fala no "sistema neuronial" das pessoas. Êta Tinhoso tinhoso. É por isso que nunca o vi, apesar de suspeitar já tê-lo ouvido muitas vezes, principalmente quando estou do lado de uma mulher bonita. "Agarra-ela, agarra-ela" - só pode ser o Belzebu falando no meu sistema neuronial, no intuito de ver-me currado numa delegacia de polícia. O Mestre revela ainda que já foi bacana. Morou até no Copacabana Palace. Mas triste mesmo foi ter que morar depois numa Kombi, e andar com a sandália toda estropiada. Graças ao Pai, hoje o INRI pode repousar em sua casa de campo de Paranaguá. Mas àqueles que forem ter com o Mestre, uma advertência preciosa: antes leiam o livro do homem, chamado "Despertador". Caso contrário, levarão uma dura como a que levamos - com toda razão, aliás. Se tem uma coisa que emputece o INRI é o interlocutor ser pouco erudito, especialmente se não tiver lido suas obras clássicas, como o dito livro com nome de rádio-relógio. MS: São muito interessantes essas revelações que o senhor nos fez da época em que, pela primeira vez, o senhor veio à Terra. Mas há um outro episódio muito interessante, sobre o qual achamos que valeria a pena o senhor falar alguma coisa, que é aquele episódio da tentação no deserto, pelo demônio. O senhor foi tentado pelo demônio mesmo? INRI: Como é que o demônio me tentou no deserto. Eu estava lá jejuando e o demônio... veja bem: antes de João Batista me batizar, eu estava enlameado dos pecados do mundo. É por isso que eu exigi (o batismo). Eu experimentei os pecados do mundo como qualquer ser humano, para conhecer os pecados do mundo. É por isso que na Bíblia não aparece onde eu estive dos três aos trinta anos. E quando eu fui batizado por João Batista eu exigi que eu fosse batizado porque eu sabia que o batismo significava um corte com o passado. E só depois pousou sobre mim o espírito santo, porque antes não podia porque eu estava sujo dos pecados do mundo. Daí eu fui jejuar. Então o demônio, que não é um macaco com rabo e chifre como dizem - reparem que a minha voz está meio esquisita por causa da gripe... - não é um macaco com rabo e chifre como dizem, e sim uma entidade espiritual, um ser espiritual, um corpo sutil. E ele veio falar assim, por exemplo... uma das passagens é: "se tu és o Filho de Deus, transforma esta pedra em pão". Eu disse "nem só de pão vive o homem". Ele disse: "se tu és o Filho de Deus, atira-te daí para baixo, que está escrito que o Filho de Deus os anjos protegerão". Está escrito: "não tentarás o teu Senhor". Ele disse: "se tu és o Filho de Deus, ajoelha-te diante de mim" - e mostrou-me a cidade de Jerusalém, e todas as coisas do mundo, de luxo e de conforto... "Se tu és o filho de Deus, ajoelha-te diante de mim que eu te dou todos os reinos da Terra". Eu disse: "só ao Senhor devo adorar". Então acontece que não era um macaco que veio. Ele veio no meu sistema neuronial falar essas coisas. E eu, vencendo as tentações, cheguei a um ponto que ele já não falou mais. Porque o demônio é um ser inteligente, e quando ele vê que não adianta, ele desiste. Mas ele persevera, e persevera muito. E neste século a mesma coisa, quando eu jejuei. Se eu não tivesse vindo ao mundo sem livre-arbítrio, as dificuldades são tantas para se conseguir sustentar uma túnica, para se caminhar de um país ao outro, como eu caminhei vinte e sete países sozinho... Inúmeras dificuldades são, que eu não teria resistido se eu tivesse livre-arbítrio. Mas em substituição ao livre-arbítrio o Pai se manifestava e dizia "Eu sou contigo, vai adiante". Então é melhor ter Ele que o livre-arbítrio. Eu tive momentos terríveis. Quando eu fui expulso da Venezuela, eu fui desembarcar no Rio de Janeiro, num lugar onde outrora eu vivi, no hotel Copacabana Palace, na suíte 951... MS: O senhor já viveu no Copacabana Palace?!? INRI: É, eu vivi na suíte 951 do Copacabana Palace, no tempo em que a dona era a Mariazinha Guinle. Eu tomava banho na piscina e tudo... Então eu desembarco no Rio de Janeiro vindo da Venezuela pela aviação Avianca, de túnica, de sandália, sem dinheiro, e tendo que falar ao povo na cidade, em Copacabana, onde outrora... Quem me albergou foi a Polícia Federal... MS: (risos) INRI: ...porque eu vim como expulso. Então só mesmo a presença de Deus, o meu Pai, que me confortava e dizia "Eu sou contigo, tens que passar por isso, vai adiante". E eu fui adiante. Eu remendava a minha sandália... Eu nunca me esqueço um dia em que eu estava caminhando pela Avenida Copacabana, conhecida como Avenida Nossa Senhora de Copacabana, entre aspas. E era um sábado de tarde, eu estava albergado lá no Leblon, na casa de um advogado, e eu estava caminhando, porque eu não tinha o dinheiro para ir de bonde até lá no Leblon, e arrebentou a minha sandália. Aí o demônio, inevitavelmente, me disse: "se tu fosse o Filho de Deus... todo mundo está aí passeando de carro com a família, e tu estás aí mal calçado, com a sandália arrebentada, não tem ninguém sequer para consertar a tua sandália...". Então nessa hora, se não fosse o Senhor, eu me esborrachava lá mesmo, entende? E outra vez que eu estava dormindo na casa de uma mulher, um apartamento meio humilde em Copacabana, e ela teve que ceder o apartamento para uma prostituta que veio dos Estados Unidos, porque a prostituta tinha prometido para ela que iria levá-la para os Estados Unidos, e que iria mudar a vida dela... Só que ela não sabia que era uma prostituta essa que veio lá, entendeu? Ela trabalhava, naquele tempo, vinte anos atrás, num negócio de informática no Rio de Janeiro, negócio de processamento de dados. E daí ela pegou e, por causa da promessa da outra ela teve que dizer "sinto muito, você vai ter que sair daqui, eu não vou mais poder te albergar aqui no quitinete". Aí eu estava olhando lá, na praça, olhando para o prédio, até achar alguém que me albergasse. Isso lá em Copacabana. Só para você entender, quando alguém diz "ah, esse louco, esse farsante...", ah, e isso tudo o meu Pai dizia: "tu tens que passar por isso tudo até fundar a igreja. Aí depois que fundar a igreja, aí tu vai morar um bom tempo numa Kombi". Eu morei numa Kombi, e aí eu tomava banho em Copacabana dentro de uma Kombi. Mas já era muito melhor do que antes. Eu fechava as cortinas, e ia no posto de gasolina buscar uma água, porque não tinha ninguém no Rio de Janeiro que me desse um lugar para tomar banho, entende, onde outrora eu morei num hotel de luxo. Então, se não fosse a ordem de Deus... Mas Ele é tão bondoso e tão perfeito que ao mesmo tempo que ele, graças a Deus, me mandou ao mundo sem livre-arbítrio, quando eu precisaria do livre-arbítrio Ele se manifesta. Eu não sei explicar por que nos momentos mais terríveis que eu vivi aqui na Terra, foram os momentos em que eu estive mais íntimo com Ele. Eu não sei explicar por que que isso é assim. Nos momentos mais terríveis - sabe aquele momento em que a pessoa quer explodir - era a hora em que ele se manifestava mais veementemente, e dizia "olha, Eu sou contigo, vai adiante, confia, que lá adiante tu vais colher o que estás plantando agora". É muito difícil explicar o porquê, mas é assim. E às vezes eu olho para trás e eu digo "não é possível que hoje eu tenho a igreja". Bem ou mal, isso aqui não é um Palácio, é a casa do Senhor, e eu moro numa montanha lá em Paranaguá também, né, Ele me deu um lugar para morar perto da natureza... Mas às vezes eu penso: "qual é o melhor momento, é agora ou antes" -, porque agora Ele me instrui, Ele me fala, mas eu não peço para voltar a viver no isolamento em que eu vivi, nas condições em que eu vivi... mas a presença confortante Dele... eu estava vivendo na floresta, em "Aramboiê", na França... Ah, isso eu não vou contar, se quiserem que leiam o livro (o Mestre fica muito irritado)! Sim, porque ou vocês têm algum interesse e haverão de ler o livro "Despertador" e conhecer a minha história, porque o que está lá eu não vou mais falar...
EU AMO O FRAMENGO.
Felipe é a perfeita representação do antifutebol. Todo emperiquitado, ele estufa o peito, faz pose de fidalgo, deixa a bola próxima ao pé esquerdo e, arrogante, espera que o pobre marcador lhe venha feito peixe esfomeado a fisgar a minhoca do anzol. Felipe sabe que, em 9 de 10 vezes que tentar a jogada, leva a melhor sobre a vítima. Mas ele não se contenta. Ciente da estatística, e forte na recente humilhação que acabou de impor ao adversário, ele gira o corpo, retorna ao ponto de que partiu e, com o mesmo trejeito, chama de novo o desgraçado para o baile dos desesperados. E um desdentado, lá de algum buraco do estádio cuja marca maior vem da derrota de um combinado de Vasco e Framengo contra a seleção do pequenino Uruguai, grita, todo sorridente, com um radinho de pilha colado ao ouvido: "Framengo, Framengo, Framengo...". E o se o marcador é algum anônimo de um time menor, o grito se justifica ainda mais. Nada é tão bom como bater no pequeno. Mas o marcador se levanta, outro vem em seu auxílio, um terceiro abandona a posição para arrancar a isca. Felipe então solta a bola, e o jogo segue o rumo da normalidade. Porque humilha o marcador, Felipe é comparado a Garrincha. É comparação de cego. Garrincha, visando ao objetivo prático final de se livrar do adversário e partir para o gol, usava das armas de que dispunha, dentre elas, a mais característica, se livrar do marcador com o drible que deixa tonto. Felipe inverte a prioridade: primeiro, dribla; depois, vamos ver no que dá. Ele precisa assistir aos tapes da Copas de 58 e 62, ou, quem sabe, até mesmo ler o livro do Ruy Castro. Nas Copas, não há aquelas imagens de baile imaginário; no livro, não há o matuto inocente e ingênuo. Só que quando a coisa aperta, e é preciso ser objetivo porque o time está a perder, Felipe se enerva, tenta o drible pelo meio, perde a bola, se joga no chão, reclama com o juiz, ameça de morte o marcador, e mostra que é um símio. Por isso ele é a representação do antifutebol; assim como é na vida, no futebol é possível se ganhar de um adversário visivelmente melhor, desde que se saiba conviver com as próprias limitações (como fez Scolari nos tempos de Grêmio e Palmeiras, ou como fez o próprio Telê, na final do Mundial contra o Milan). Jogar bonito e levar piaba é coisa apreciada pelos europeus, que sempre gostaram muito das derrotas da nossa seleção. Se Parreira, para preencher a cota de cariocas na seleção brasileira, precisa convocar alguém do Framengo, que convoque então o camisa 8, o tal de Douglas. Seu visual, os cabelos em especial, no melhor estilo "mindingo nervoso, que arranca a comida ao invés de pedir", denota sensatez e erudição, e, já que a arte é a prioriedade, que a estética seja colocada em primeiro lugar.
Em nome do futebol-arte, o Douglas precisa ser convocado para a seleção *** |