30.8.04


LINDI BISQUI, O FAMOSO GNOMO-MACACO

Para minha surpresa, não morri. Após um surto de lepra-pulmonar, renasci das trevas, como o Mum-Rá do desenho animado. Aproveito a oportunidade para agradecer ao Dr. Milton, meu médico e advogado, cuja garrafada milagrosa me curou. A panacéia, preparada pelas hábeis mãos do próprio doutor com ervas do vaso que adorna seu escritório de advocacia, tiveram mesmo o prometido efeito benéfico: após vomitar durante três horas seguidas, desfaleci. Ao acordar no dia seguinte, já me senti melhor. ¿É o encosto, que foi embora¿ ¿ tranqüilizou-me o bondoso curandeiro, que me cobrou apenas os R$ 50,00 da garrafada, ficando a consulta por conta da nossa velha amizade.

Mas como já estou forte novamente, ostentando orgulhosamente os 42 quilos de antanho, vou direto ao assunto: daremos aos nossos cinco bravos leitores, a partir de hoje, a honra de ler as inacreditáveis aventuras de Lindi Bisqui, o Famoso Gnomo-Macaco.

A quem se interessar pela fabulosa narrativa, encaminharemos gratuitamente, via e-mail, o primeiro volume da gloriosa saga, intitulado ¿As Incríveis Tretas de Lindi-Bisqui, o Famoso Gnomo-Macaco¿. Basta enviar um e-mail ao mundosimio@yahoo.com.br com o assunto ¿EU QUERO O LINDI¿, que prontamente enviaremos o texto ao interessado.

Se alguém ainda não ouviu falar das estórias do baixinho sacana, segue abaixo o índice da obra, que dará ao interessado uma vaga idéia do conteúdo de cada capítulo. Está dado o toque. Fiquem todos na paz do Inri, e não exagerem na libertinagem como eu, porque faz mal à saúde. Deixem o Lindi se exceder por vocês.

ÍNDICE

AS INCRÍVEIS TRETAS DE LINDI BISQUI, O FAMOSO GNOMO-MACACO

Cap.1 - De como nosso herói veio ao mundo, apesar das dificuldades opostas pelos elementos da natureza e cultura - todos eles uns cornos de merda.
Cap.2 - De como nosso tenro gnomo-macaco viu a grandeza do mundo e a superou com duas léguas de diferença.
Cap.3 - De como Lindi Bisqui sentiu inveja pela primeira vez.
Cap.4 - De como Lindi Bisqui arquitetou sua vingança, aproveitando a ocasião para receber lições de moral e boa etiqueta de renomada autoridade que por ali passava.
Cap.5 - De como Lindi Bisqui ganhou o apoio do Urubu Papai e com ele armou uma arapuca para os humanos gigantes.
Cap.6 - De como Lindi Bisqui se surpreendeu pela primeira vez e, depois, conheceu Finis Hómi, o Rei dos Mindingos.
Cap.7 - De como Lindi Bisqui ficou ainda mais sábio com os conselhos de Finis Hómi, e, depois, os esqueceu.
Cap.8 - De como Lindi Bisqui confundiu o amor com uma tigela
Cap.9 - De como Lindi Bisqui conheceu o inferno.
Cap.10 - De como Lindi Bisqui se tornou um bravo e foi salvo pelas grossas coxas de Gisele Bisqui, a mulher-tigela.
Cap.11 - De como Lindi Bisqui explica a razão universal para um povo pacífico, dando em troca o que havia retirado duas vezes.
Cap.12 - De como Lindi Bisqui descobriu a dor de um paradoxo.
Cap.13 - De como Lindi Bisqui voltou ao jardim encantado e tretou com Adamastor, o gigante anão, que lhe fez grande revelação.
Cap.14 - De como Lindi Bisqui não suportou a luz do conhecimento e fugiu para a caverna escura da ignorância.
Cap.15 - De como Lindi Bisqui viu a verdade e depois passou a fazer parte dela.
Cap.16 - De como Lindi Bisqui foi parar num shopping center e lá padeceu da tentação de Santo Antão.
Cap.17 - De como o gnomo-macaco encontrou abrigo em um estranho castelo, logrando obter para si nova serventia (ou Uma cumbuca para Lindi Bisqui).
Cap.18 - De como Lindi Bisqui conheceu a fama e ela lhe tirou da miséria.
Cap.19 - De como Lindi Bisqui foi à televisão e, num surto de bom senso, fez profunda revelação da verdade para todos.
Cap.20 - De como Lindi Bisqui se tornou o salvador do mundo.
Cap.21 - De como Lindi Bisqui descobriu o poder da palavra e do acaso.
Cap.22 - De como Otaram Taham negou algumas bananas mas, em compensação, presentou seu libertador com um palácio.
Cap.23 - De como Lindi Bisqui, digo, Mahatma Rato conheceu Chicão das Arte e virou também esteta
Cap.24 - De como Lindi Bisqui foi enganado por si mesmo com o auxílio de um pinguço.
Cap.25 - De como Mahatma Rato provou que ainda podia ir além.
Cap.26 - De como Lindi Bisqui desconheceu um antigo conhecido e fez um desconhecido socraticamente conhecer a si próprio.
Cap.27 - De como Lindi Bisqui experimentou, a contragosto e em sequência, do êxtase do povo, do remédio da farmácia e do desprezo de uma hostess tatuada.
Cap.28 - De como Lindi Bisqui compreendeu a futilidade da glória e fez cinematográfica renúncia.


Gisele Bisqui, a mina do Lindi, mostra que o baixinho sacana também é corno



27.8.04

QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA.

No curso dessa semana, pobremas (como diria o Doutor Milton, meu chefe e guia espiritual) técnicos nos impediram de nos manifestar na velocidade desejada.

Tecnicamente, Dom Gustavo encontra-se febril, acamado e terminamente proibido de entrar em contato com qualquer tipo de ser vivente. A suspeita, por ora, é de lepra. A junta médica que o examinou, porém, desconfia de coisa pior.

Tecnicamente, o Senhor Quadrado encontra-se em profunda e ininterrupta contemplação medidativa do Cosmo Infinito. Tenho provas concretas de que foram as miraculosas orações dele que fizeram a seleção brasileiria feminina de vôlei perder para a Rússia. Creio que, com tal milagre, o Senhor Quadrado quis manifestar a todos seu descontentamento com o esquecimento da imprensa sobre a fome no Nordeste.

E, tecnicamente, o subscritor da presente precisou trabalhar ininterruptamente para pagar a conta de luz - porque a do telefone já não chega há muito tempo, desde que a linha foi cortada.

Mesmo assim, alertamos aos nossos cinco leitores que, na próxima semana, divulgaremos os nomes dos felizardos ganhadores de nossa camiseta. E mostraremos também aquelas belíssimas vestimentas, só para dar inveja a quem o Pai do INRI não premiou com a sorte. O mundo é injusto mesmo, a culpa não é nossa.


Líquidos estranhos jorraram pelos orifícios de Dom Gustavo



24.8.04

Na falta de assunto, viva as olimpíadas





23.8.04

O CORNO, ESSE HERÓI.

Posso estar enganado, mas, para mim, o ápice da hipocrisia de um símio se dá quando ele se acha muito diferente de um outro qualquer.

Diferenças, é claro, elas existem - mas não são alguns anos a mais na escola, um ar de erudição emprestado de alguns livros, uma ladainha de descontentamento com a ignorância alheia (mas nunca com a própria) ou uma conta bancária mais recheada de tutu que dão ao símio o direito de se achar mais esperto do que os outros. Um corpinho mais malhado, um senso maior de compaixão ou, até mesmo, a mais pura das idiotices, derivada da intolerância bárbara de quem se julga herdeiro do direito de jamais ser contrariado (mal este que, em maior ou menor grau, a todos acomete), são apenas características superficiais. No fundo, todo mundo é apenas símio.

É por isso que admiro toda e qualquer história de corno.

O corno coloca todos, homens e mulheres, na sua mesma - e original - condição de iguais, sejam eles corneantes ou corneados. E a quem fizer beicinho, achando chula essa idéia, vou logo me defendendo: não há quem, para fazer bonito, por exemplo, numa mesa de botequim, não diga que não considera o velho Machado de Assis um dos maiores escritores do nosso Brasil varonil. Mais politicamente correto do que isso, só mesmo fazer a corajosa afirmação de que a miséria gera a violência (tese revolucionária que também faz muito sucesso nessas muito producentes discussões, que, como estamos vendo, estão salvando a Nação).

Pois bem: um dos mais conhecidos romances do velho Machado, se não o mais conhecido, conta, pura e simplesmente, a história de um corno. Bentinho - o corneado - tomou um baita corno de sua mulher, Capitu - a corneante. Isso mesmo: uma simples história de corno (ou, como diria o Doutor Milton, em latim, "cornae simplex").

É certo que, como todo corno que se preze, ele achou que era tudo história da cabeça dele, que uma amizade da mulher com um outro cabra não tem nada a ver, que jamais isso iria acontecer com ele etc, etc. Mas, quando o pequeno Ezequiel, seu suposto filho, nasceu com a cara do outro cabra, ficou difícil sustentar a idoneidade da sua bondosa mulher. É pena que, naqueles tempos, ainda não exitisse teste de DNA. Porque, disso estou certo, se houvesse como fazer o alcagüete exame, o próprio Machado se encarregaria de dar um jeito de terminar a história com o corno Bentinho engolindo, escondido no banheiro, o papel com o resultado do teste, para não passar vergonha na frente dos colegas.

Só para ficarmos nos exemplos da literatura brasileira, mas agora vistos na vida real: Euclides da Cunha, esse coitado. Tanta erudição não lhe evitou que um belo par de chifres ornasse sua privilegiada cabeça. E, também igual a todo corno que se preze, resolveu ir tirar satisfações não com a corneante, mas com o seu corneador, chamando o dito cujo para o pau. Conclusão: tomou um tiro nos cornos, o desgraçado - e saiu da vida para entrar na história, com direito a minissérie da Globo e o diabo.

Tudo isso para dizer o seguinte: confesso que assisto ao programa do João Krébi.

O João Krébi, creio eu, ainda que de forma inconsciente, é um sujeito que está prestando um grande serviço à humanidade. "E o que ele faz?" - perguntará alguém. Respondo eu: mostra cornos ao vivo na televisão.

Quando digo "ao vivo", quero dizer o seguinte: o João Krébi, a pedido do próprio candidato (ou candidata) a corneado (ou corneada), arma uma arapuca para a (ou o) corneante em potencial - que, sem saber que está sendo filmado, acaba invariavelmente sendo colocado numa situação em que é assediada (ou assediado) por algum ator ou atriz, de dotes físicos muito mais avantajados do que o do, vamos chamá-lo assim, corno original. O requinte de crueldade, porém, está no seguinte: o João Krébi mostra a fita ao corneado ao mesmo tempo em que o faz para o nobre telespectador, os quais, portanto, ficam sabendo juntos o final da história. Normalmente, a história acaba em corno - para alegria de um e desgraça de outro.

Muita gente vai dizer que isso é invenção, que ninguém se disporia a passar por isso na frente outras pessoas e que, com certeza, o papel de corneante e corneado também é feito por atores e atrizes. Cá pra nós: duvido.

Não existe um exército de Limas Duartes ou Fernandas Montenegros novos, aparecendo a cada semana na TV - pois só artistas desse quilate poderiam interpretar tão bem assim tão dolorido papel. Vamos falar a verdade: todo mundo sabe bem da tristeza da dor de um corno - e, justamente por se tratar de um estado de espírito conhecido, é fácil avaliar se esse, por assim dizer, confuso sentimento está ou não sendo artificializado na figura de outra pessoa. Quanto ao outro ao argumento - o da vergonha de se receber um atestado incontestável de corno na frente de pessoas conhecidas e desconhecidas -, só posso me valer de uma resposta poética: o coração tem razões que a própria razão desconhece.

Sabe-se lá que razões levaram o rapaz que estava de casamento marcado com a Juliana - e que com ela namorava há mais de ano e meio - a ir ao progama do João Krébi. Perguntado pelo apresentador a respeito do motivo de sua (evidente) desconfiança, o tal sujeito, pra variar, botou nas costas dos outros a culpa pela própria tragédia:

- Os meus amigos falam que ela é safada, e hoje eu vou provar aqui que ela não é - explicou, confiante.

Sempre culpa dos amigos.

E daí se passou à exibição da fita.

A moça, que tinha uma loja de roupas, foi convidada a visitar a casa de um representante que, ao que entendi, pelo telefone, tinha dito ter interesse em vender as mercadorias dela por várias regiões do país. Sem dúvida, algum tipo de mercadoria da Juliana foi vendida para o todo o país naquele dia.

Após uma meia dúzia de palavras, o ator que fazia as vezes de distribuidor começou a elogiar a beleza da moça, e perguntou se ela, por ser tão bonita daquele jeito, recebia muitas propostas não para vender, mas sim para tirar a roupa.

A Juliana não se fez de rogada: na lata disse que sim.

- Isso é normal, João Krébi. Isso é normal - observou o corno, comentarista da própria desgraça.

O ator perguntou então se ela, vez ou outra, já teria tido interesse em aceitar as tais propostas - ao que ela, sem piscar, respondeu que, sim, que já havia tido interesse, em mais de uma ocasião, mas que, ainda assim, jamais aceitara proposta tão vil, "para não misturar as coisas".

- Isso é normal, João Krébi. Isso é normal. Não faz muito tempo que a gente está namorando - justificou-se o rapaz alto e magrela, de vinte e pouco anos, cujos cabelos compridos e encaracolados me lembraram os do renomado cantor Luiz Caldas (ou então os do Caetano Veloso, nos tempos da Tropicália).

Daí veio o prelúdio da desgraça: o ator perguntou se a moça teria namorado, fazendo-a ficar em silêncio e de olhos fechados por uns quinze segundos, para, depois, dizer um dolorido "tenho".

- É isso aí, Juliana! - vibrou o crono, crente que havia marcado um tento.

- Achei meio estranho esse seu "tenho" - insistiu o ator. - Parece que você, sei lá, não gosta muito dele.

O corno ouriçou os pêlos.

- Ah, sabe como é, né? - disse a corneante. - A gente já namora há muito tempo, nossa relação não tá legal. Não é mais aquela coisa apimentada, sabe?

- PUTA QUE PARIU, JULIANA!!! - foi a primeira explosão de dor do pobre corno.

E isso era só o começo.

- Sei. Mas quando você diz "apimentada", você quer dizer na cama, certo? - o ator, de fato, estava bem treinado.

- Certo ... - confirmou a recatada Juliana

- PUTA QUE PARIU, JULIANA!!! Você nunca me disse nada, porra.

- ... e além disso, ele não é tão bonito, tão musculoso, tão charmoso como você.

- PUTA QUE PARIU, JULIANA!!!

- Sei - continuou o ator. - Quer dizer que o seu namorado não é romântico?

- Falando a verdade? Sabe quando você encontra a pessoa, vê um filme na televisão, dá boa-noite e vira pro lado pra dormir? É assim que a gente tá.

- PORRA, PUTA ABSURDO!!! Eu dou três toda a noite, João!!! - defendeu-se o corno, olhando desafiadoramente para a platéia. O povo, porém, é impiedoso:

- Corno! Corno! Corno!

O pior ainda estava por vir:

- Eu gosto mesmo é de fazer umas loucuras - o ator, de fato, sabia o que estava fazendo. - E você?

- Eu também.

- PUTA QUE PARIU, JULIANA!!!

Resumo da ópera: o ator tirou a camisa, agarrou a Juliana, beijou-lhe pescoço, deixou ela beijar-lhe os braços, o tronco e sabe lá Deus o que mais. Barbarizou, enfim. Sem falar da mão da garota que, não satisfeita em deslizar por sobre a calça do ator justamente na região onde se guarda o aparelho de mijar, tentava, com razoável dose de insistência, desabotoar-lhe a braguilha.

- PUTA QUE PARIU, JULIANA, EU NÃO SABIA QUE VOCÊ ERA SAFADA !!! João Krébi - continuou o corneado, em tom de denúncia -, não é à toa que o apelido dela no bairro é Juju Camburão - como se vê, o momento para ligar a pessoa ao apelido deu-se um pouco tardiamente.

- Você quer continuar vendo? - perguntou o João Krébi. - A coisa vai ficar pior - advertiu.

Depois de alguma hesitação, o corneado concluiu:

- Agora, já tô fodido mesmo. Toca em frente, João.

No meio do amassa, o corneador contratado ainda teve a petulância de perguntar:

- Sabe qual é a minha fantasia? Transar com duas mulheres. Você toparia fazer parte da minha fantasia?

- Com certeza - disse a Juju Camburão, com a rapidez e naturalidade de uma atendente de telemarketing.

- AAAAAAHHH !!! - era o grito de morte do corno.

E o povo, impiedoso como sempre, vibrava, como num arquibancada de estádio de futebol:

- Juju!!! Camburão!!! Juju!!! Camburão!!!

- Pô, galera, é a minha mina - o corno pedia clemência, mas não era ouvido.

- Juju!!! Camburão!!! Juju!!! Camburão!!! - era a verdade que não queria calar.

No final, o corneador passou chantili pela própria barriga e ordenou que a Juju Camburão fizesse a limpeza com a boca, no que foi atendido prontamente. Creio que o rapaz que foi ao João Krébi terá amargas lembranças com chantili sempre que vir o creme pela frente. Daqui pra frente, só pudim-de-leite simples de sobremesa.

Mais impressionante ainda foi que, ao encerramento da filmagem (que terminou com a Juju Camburão, com a boca e a testa cheias de chantili, xingando o ator, ao ser avisada da armação), a própria corneante foi trazida ao palco e disse que, "apesar de ter errado", ainda queria se casar com o corno. E quem não iria querer? E, depois de reclamar do "papelão" da Juliana, o pobre corno disse que pensaria mais tarde sobre a manutenção ou não do noivado, pois, naquele momento, "estava de cabeça quente". Bota quente nisso.

Confesso que me diverti. Mas o diabo é que, gostando ou não, me divirto apenas com as situações que me são próximas, que me são conhecidas, que me são palatáveis e inteligíveis; jamais acharia graça de uma piada contada pelo Gandhi a respeito de sua dieta de frutas e nozes. Quem nunca foi corno que atire a primeira pedra - e quem nunca foi símio, também.

Ri de mim mesmo na televisão. E, fazendo-o, senti-me um pouquinho menos símio, não porque me achei melhor do que um outro, mas exatamente igual a ele - ficando consciente não da minha condição símia, mas do próprio estado de simiedade.



Nunca imaginei que um dia pudesse ser corneado



18.8.04

PELEJA ENTRE JESUS E O DIABO NA TELEVISÃO - PARTE 2

Pros colega eu vô contá
As minha interpretação,
Pra nóis podê filosofá
Nas coisa de religião.
(Dom Gustavo já falô,
Com palavra de dotô,
Nos narrando a confusão).

...


Muito me surpreendeu
Que algum cabra ainda negue
As palavra de Asmodeu
Pra muié de Mick Jégue.
(Desafiando Jesus,
As treva contra a luz,
É a peleja que prossegue).


...


O Demônio é ardiloso,
É um padrasto que bate,
Afirmou o mentiroso:
"Cristo mora em boate".
(Cristo quase chorou,
Mas pro Capeta apontou:
"E tu é igual a um cão que late")


...


Jesus não tinha discoteca,
Mas o Diabo insistiu,
"Como é que tu num peca,
Com tanta mulher no cio?".
(O povo todo se assustou,
Não houve quem não pensou:
"O cão acendeu o pavio")


...


Só que Jesus tem muita calma,
E pro Capeta revelou:
"Das moça eu só tenho alma,
Foi meu Pai que me ordenou"
(E o Diabo inconformado,
Se sentindo humilhado,
O assunto abandonou").


...


O diabo fica nu,
Se humilha mas não cai.
Prosseguiu o Belzebu:
"Me conte quem é seu pai"
("Se ele é tão poderoso,
Deve ser hómi corajoso,
E te abandoná não vai")

...


Tava lançado o desafio,
Até Deus foi provocado,
Só mesmo o Demônio vadio,
Pra duvidá do abençoado.
(A voz Cristo se ergueu
E pro Diabo respondeu:
"O meu Pai fica ao meu lado")

...

"Se teu pai fica ao seu lado,
Ele vai te segurá,
De um mergulho arriscado
Do Viaduto do Chá"
("E se isso acontecê
Eu vou é me convertê,
Pra depois nóis festejá")


...

Ao que o Cristo replicou,
"Tu é mesmo um cão sarnento,
Essa história não mudou,
Desde o novo testamento".
("Tu se acha muito esperto,
Mas se esquece do deserto,
Onde eu lhe dei meu argumento").

...

"Se o meu Pai lhe obedece,
Fazendo a vontade do Cão,
O Diabo se engrandece,
Virando de Deus o patrão"
(O Cristou se ajoelhou,
E outra vez ele chorou,
Recitando uma oração).


...

Se o Tinhoso se acalmô
Desse final eu me livrei,
Só vi que o Inri se pelejô,
Com mais um bispo e um frei
(Não se acabou essa a história,
No mesmo dia se viu outras glória,
Mas que expricá eu já num sei).




A peleja de Cristo contra o Diabo nunca foi fácil





PELEJA ENTRE JESUS E O DIABO NA TELEVISÃO

Eu escrevo pra contá
Peleja sensacional
Que vi na televisão
Em rede nacional.
Foi no programa da Luciana,
Aquela alta que abana
Uns peito fenomenal.

Foi lá que o Inri Cristo
Arresorveu se enfurecê:
Xingou Toninho do Diabo -
Foi coisa linda di si vê.
E o coro comeu sorto,
Até um desafio torto
Frei Paulo teve di recebê.

Afora o tal Toninho,
Também outros pelejô.
Entrou carola e escritor,
Atê um mindingo e um pastô.
Todos eles foi mansinho
Mas no meio do caminho
O cacete arrochô.

O Inri furioso
Começou a indiscrição:
Foi chamando desde logo
Todos eles de ladrão.
Mas Frei Paulo, cobra criada,
Já cravou sua estocada
Chamando ele de doidão.

No meio de tudo o capeta,
Representado por Toninho,
Arresorveu entrar na treta
E foi chegando de fininho.
Chamou o cão em pessoa
E emporgado na hora boa
Quase deu no seu vizinho.

O vizinho era o Cristo
Que chamaram mentiroso,
E o povo além de burro
Mostrou também que é maldoso.
E foi triste ver a cena,
Eu do Inri tive pena
Mais que do filho do tinhoso.

O pastor logo condenou
Pra sempre o Inri e o Diabo.
Disse no inferno d'eles dois
O Cão legítimo dá cabo.
Afe Maria, credo in cruiz!
Que me ajude Seu Jesuis,
Que nesse inferno inda acabo!

O Frei Paulo era calmo
Até a hora que um inocente
Arresorveu lhe dar palavra
E o veinho fez potente:
"Isso tudo é comédia!
Nesse circo não há rédea!
Não há cristo que agüente!"

Mas coro mesmo comeu
Foi com o Inri e o Toninho.
A disputa veio mansa,
Mas engrossou no finalzinho:
Foi toma daqui e dá de lá,
Dá-lhe aqui e toma lá -
Quisero tudo explicadinho.

O Inri desconsolado
Achou que era mió rezá;
O Toninho, endiabrado,
Continuou a se enfesá.
Chamou Cristo de louco
E foi por muito, muito pouco,
Que não foro se atracá.

O pograma era curto
Para tanta empolgação.
Esse o grande problema
Das peleja de televisão.
Finalizaro o santo embate
E logo em arremate
Tascaro fita de fornicação.

INRI mostra a Toninho e Frei Paulo com quantos paus se faz uma Arca de Noé




17.8.04


REMINISCÊNCIAS DE UM DIA ONZE DE AGOSTO

Mal posso descrever com que horror ele percebeu que se tratava de kronenbier, a famigerada cerveja sem-álcool que os bebuns doentes são tristemente obrigados a tomar, quando tentam retornar ao convívio de seus confrades de fígado menos estragado.

Após uma hesitação que durou um ou dois segundos, o tiozão barrigudo ponderou as coisas e julgou apropriado aceitar das mãos do mindingo o gole do odioso simulacro de birita. Debicou da garrafinha e, sem emitir nenhum "ah" de prazer, devolveu-a com cara aparvalhada a seu legítimo proprietário.

Trajava elegantemente terno e tênis, o tiozão. Sinal de bom senso.

O mindingo, que portava com orgulho aquela garrafinha de rótulo azul, certamente pensava tratar-se de cerveja importada, e já estava até meio bêbado com a força da bebida estrangeira que, justamente por ser estrangeira (no seu juízo de mindingo), acreditava ser mais forte que a nacional. O fenômeno poderia ser explicado como uma espécie de "efeito placebo" etílico-mindingal.

E de fato o álcool da cerveja sem-álcool devia ser brabo: o mindingo dançava uma espécie de frevo, apesar da música ser um techno pesado. A exótica e entusiasmada dança era entremeada por baixadas esporádicas ao chão, para a catadura de uma ou outra latinha de cerveja a ser reciclada no dia seguinte.

***

Todas essas belas e inspiradoras cenas pude presenciar quando, no dia XI de Agosto, visitei o centro acadêmico de mesmo nome. O local fica literalmente encravado na faculdade em que, claudicantemente, estudei as artes jurídicas.

O popular "XI" - como é carinhosamente chamado aquele antro outrora freqüentado por bêbados, mindingos, loucos e algumas raras piranhas - foi a minha sala de aula. Ali aprendi mais do que naquelas sessões, chamadas aulas, em que algum velho de terno e cara severa ensinava aos ditos alunos a arte de pegar no sono.

Mas o XI está mudado. Afora a digníssima figura do tiozão barrigudo de terno e tênis, que certamente entrou ali por engano e não por já ter estudado na faculdade, o corpo discente da escola agora é composto de higiênicos playboys e de distintas senhoras da alta sociedade. Na minha época, banho diário já seria extravagância para os freqüentadores do antro, digo, do XI.

Bons e passados tempos, aqueles.

***

Não sei por que, sempre tive atração pelo, por assim dizer, lado sujo da força. Não o lado negro, porque nisso aí quem é chegado é o Darth Vader ou o Pierre Verger. Lado sujo da força. Sempre gostei da sabedoria e do despojamento convicto dos mindingos; do engenho das putas de rua em chamar seus fregueses, na frente do Fórum; da coação gentil do guardador de carro da faculdade (o popular "Sangue Bom"); da serenidade com que os funcionários portadores da lista de chamada se deixavam subornar.

Também sempre me senti em casa nos banheiros vomitados daquela escola, em dia de farra; nas festas regadas a todo tipo de birita conhecida e desconhecida, em especial na carnavalesca Peruada; e, sobretudo, nos lascivos agarros que dávamos nas meninas menos católicas daquela faculdade com nome de santo.

Lembro-me, nesse particular, de um colega comedor que certa feita acomodou-se numa das diversas escadas espalhadas pelo antigo prédio para praticar, por assim dizer, coito anal com uma sua fã. A moça naturalmente de costas, e o rapaz em pé, devidamente engatado nela.

Eis que chega um comportado casalzinho, composto por um moço e uma moça daqueles excessivamente branquelos, que costumeiramente sentam-se na primeira fileira e assistem a absolutamente todas as aulas. Os tímidos, para seu azar, resolveram ir dar uns secretos amassos justamente naquele lugar, longe da vista do povo rude. Ao se depararem com a dantesca cena do engate-anal, quase enfartaram. Diante de um sorriso malicioso do meu amigo, que evidentemente era o único capaz de ver a inocente aproximação do casalzinho, os infelizes saíram correndo apavorados, e provavelmente nem se beijaram mais naquele pecaminoso e infausto dia. Devem estar acocorados em frente à santa da sede da TFP até hoje.

A velha academia, na sua parte boa, ficou em minha memória por esse e por outros belos episódios. Não sei por que, naquela comemoração do dia 11 de agosto, com direito a DJ na rua, pulserinha na mão, banheiro químico e rua cercada por seguranças particulares, senti-me irmanado apenas com o tiozão de terno e tênis branco, aquele que se horrorizou com a kronenbier do mindingo que dançava frevo.

A esperança de salvação que fica é aquela que bate em meu peito quando noto que o INRI, em pessoa, dia desses foi convidado para visitar a Sala do Estudante da faculdade, palco de incontáveis e inenarráveis pelejas etílicas e musicais. Se há quem reconheça a arte do INRI naquela escola, nem tudo está perdido.


O INRI tenta tirar o diabo do corpo de um estudante de direito



16.8.04

A VERDADE QUE DÓI (2)

De todas as maldades que pratico, a que realmente aprecio é a vingança.

Não que eu me considere um sujeito vingativo por ideologia, do tipo que atravessa mares e faz desabar cordilheiras só para criar uma situação que lhe permita provar do conhecido prato que só se come frio. Nada disso: se dependesse da minha própria habilidade para esperar o prato esfriar, ia acabar sempre queimando a língua - o que, no mais das vezes, é o que de fato me acontece.

Mas o diabo é que, volta e meia, as tais situações me aparecem pela frente, como que brotando do chão. Uma pessoa de boa índole, vendo cair-lhe no colo uma chance para acertar velhas contas com alguém que lhe fez mal, deixaria a mágoa de lado e, se bobear, até ofereceria a outra face - com a tranquilidade quase mórbida de quem sabe que, assim fazendo, está a avançar mais uma etapa na direção da libertação das torturas da mente e do espírito. Comigo é diferente: aparecendo a oportunidade, cravo sem piedade o punhal nas costas do desgraçado - porque, nessas horas, quero mais é que lasque, o vagabundo.

Em resumo: me vingo, mas não sempre. Só quando posso.

Mesmo sendo desse jeito, ainda tenho algum tipo de esperança para com o meu futuro: há tempos não cobiço bens materiais, tento evitar falar mal dos outros, não desejo as coisas do próximo nem, muito menos, do distante, procuro ser tolerante com quem me desagrada, dou esmolas na rua e creio que - involuntariamente, é verdade - já estou até me tornando casto. Para minha desgraça, no entanto, em se tratando de vingança, a coisa fica diferente.

Foi o que aconteceu com o Seu Gugu, o único motorista de táxi me derrotou na solitária batalha pelo direito do passageiro ao silêncio - direito típico das minorias, ao que me parece, dada a pouca importância que se dá a tão grave assunto.

O carro do Seu Gugu - chofer de praça que, quando ignorado em suas, por assim dizer, pouco inspiradas observações sobre a sociedade, os costumes e a humanidade em geral, entoa horripilantes hinos evangélicos só para torturar o freguês desavisado - era, não por acaso, o único que estava disponível no ponto próximo à minha casa, há coisa de uns dez dias. E eu, tendo um compromisso de trabalho que não poderia esperar pela liberação do horário do rodízio do meu velho carro, acabei por lhe contratar os serviços - tomando a precaução de, antes de entrar no táxi, fazer um discreto sinal-da-cruz, porque, ali, o negócio era feio de verdade.

- Dotô, há quanto tempo eu não vejo o senhor... - observou o velhinho de sotaque nortista, cujo sorriso de dentes brancos, assim como os cabelos brancos, fazia forte contraste com a pele morena, cor de couro.

- É verdade - respondi já meio enjoado, mesmo sabendo que insistir naquela impessoal forma de resposta era inútil; apenas faria chegarem mais cedo os macabros cânticos religiosos do Seu Gugu.

- E por que é que o senhor está sumido?

Os sucos gástricos começavam a pulular pelas minhas estranhas, feito lavas expelidas de vulcão. Era úlcera na certa, pensei.

- Muito trabalho - menti, desgostoso comigo mesmo e já levando a mão ao abdômen.

- Ah, mas o trabalho é coisa boa demais...

- Nem sempre ... - disse eu, quase sem voz, enquanto ia me segurando para não derreter banco abaixo.

Por sorte, ele não me ouviu.

- Porque o trabalho é abençoado pelo Senhor - explicou, tirando a mão do câmbio para erguê-la em direção ao céu, com o indicador em riste. Nesse momento, perguntei-me, com sinceridade, que mal teria feito eu ao mundo, para que não houvesse por perto de casa nenhum ponto de lotação.

- Se o senhor está falando, eu acredito - concordei, só para ver se pelo menos a minha nuca parava de doer, pois quanto à úlcera já não tinha a menor esperança.

- Não sou eu quem fala, dotô. Jesus é quem fala que o trabalho é abençoado.

Então veio-me a luz. Como que em transe, vi a solução miraculosa para o meu padecimento; vi o garçom que me oferecia, com polidez, o prato gelado que, de uma vez por todas, me aliviaria a úlcera e faria minha nuca parar de latejar. Não pude recusar:

- Quem, Seu Gugu?

- Jesus, dotô.

Confesso que pequei. Mas foi por necessidade.

- Eu conheço ele - continuei.

- Senhor? - de forma instintiva, o Seu Gugu pisou no breque e levou a cabeça de cabelinhos brancos para trás, dando-me uma inédita atenção.

- Eu conheço Jesus.

- Ah... - o Seu Gugu, querendo decifrar minhas palavras, coçava o cocuruto. - O senhor também é evangélico?

- Não. Apenas conheci Jesus.

- O senhor é crente?

- Também não.

- Dotô, desculpe a pergunta, mas como é que o senhor conheceu Jesus?

- Pessoalmente.

O homem, feito a garotinha do Exorcista, virou de maneira espetacular a cabeça para trás, quase quebrando o pescoço. Resolvi bater sem piedade:

- O Mestre é um puta gente fina.

Trocando rápido de marcha para poder voltar a coçar a cabeçorra, o Seu Gugu se virou outra vez para trás:

- Dotô, eu não entendi.

- Conheci pessoalmente o seu amigo Jesus.

- Na igreja?

- Não, em Curitiba.

Depois dessa, o Seu Gugu passou friccionar tão forte as unhas sobre a cabeça que imaginei que o homem ia acabar raspando o couro cabeludo até chegar ao crânio. Confesso que gostei.

- Dotô, o senhor viu Jesus em Curitiba?

- Exatamente.

- Mas como é que...

- Ele está morando lá - interrompi. - Incrível, não? No começo, eu também achei estranho. Mas, depois de ver o Mestre, achei até natural que ele escolhesse ir morar em Curitiba.

- Mas Jesus... Jesus... Jesus, dotô, subiu aos céus no terceiro dia... - era evidente que o sujeito estava atrapalhado.

- Aí é que o senhor está mal informado. Jesus subiu aos céus, disso ninguém duvida. O que pouca gente sabe é que ele já desceu e foi cair justo no Brasil. É uma pena que nem todo mundo saiba disso, principalmente aqueles que admiram o trabalho dele, como é o caso do senhor.

- Dotô, o senhor falou com Jesus?

- Pelo menos umas três horas...

- Três horas?

- ... e olha que ele queria que a gente ficasse mais. Só fui embora porque precisava ir ao banheiro. Fica mal fazer essas coisas na casa de Deus logo na primeira vez que a gente vai lá, concorda?

Então o Seu Gugu gargalhou. Era uma gargalhada alta, uma gargalhada nervosa; uma gargalhada que parecia mais uma pausa, um fôlego para o cérebro respirar. Uma gargalhada de dúvida.

- Ah, dotô, o senhor tá brincando comigo...

- Negativo. Tirei até foto com o homem. Se o senhor quiser, amanhã faço questão de lhe mostrar.

- Mas que Jesus é esse que tira até foto? - a gargalhada tinha se transformado num final de risadinha, último estágio antes da volta à perplexidade.

- É o Jesus, ué. Que eu saiba, só tem um.

- O da Bíblia?

- O da Bíblia - confirmei, gravemente.

Depois de quase um minuto de silêncio, no qual o Seu Gugu mexia nervosamente as bochechas de um lado para o outro, provavelmente devido ao incrível esforço mental que despendia para se decidir a respeito da minha sanidade, ele resolveu retomar o assunto, aproveitando a deixa de um farol vermelho.

- Dotô, esse Jesus eu não conheço.

- Talvez o senhor já tenha visto ele na televisão.

- Na televisão?

- É, às vezes ele aparece na televisão. Só que agora, depois que ele voltou pra Terra, ele pede para o pessoal chamar ele de Inri, ao invés de Jesus. Inri Cristo. Já ouviu falar?

- ARRE !!! - gritou o velhinho, batendo com força a palma da mão direita junto à testa.

- Que foi, Seu Gugu? - perguntei, assustado tanto com o grito quanto com a interjeição, a qual nunca imaginei que ouviria de verdade.

- ARRE !!! - ele repetiu, descontrolado, batendo pela segunda vez a mão sobre a testa.

- Qual o problema? - se o sujeito estivesse batendo no peito ao invés de na testa, seria capaz de jurar que ele estava tendo um enfarte no coração.

- Eu já vi esse filho de uma égua!!!

- Pensei que o senhor gostava dele.

- Eu vou lá gostar de um cabra safado desses, dotô?!?

- Me desculpe. Achei que o senhor fosse religioso.

- E ISSO LÁ É RELIGIÃO?!? E ISSO LÁ É RELIGIÃO, DOTÔ?!? - esganiçava o Seu Gugu. São nessas horas que vejo que nunca deixarei passar em branco uma boa oportunidade de me vingar.

- Pensei que fosse.

- Esse aí é um cabra safado, que engana o povo e ofende o Nosso Senhor Jesus Cristo!

Num breve momento de compaixão, contei até cinco para ver se o tolerante Seu Gugu se acalmava.

- Seu Gugu, por que é que o senhor acha que o Inri engana o povo?

- Dotô, onde já se viu? Sair por aí falando que é Jesus Cristo...

- E como é que o senhor sabe que ele não é o próprio?

- Dotô, Jesus Cristo é o nosso salvador, o salvador da humanidade - novamente o Seu Gugu erguia a mão direita com o dedo indicador em riste, como quem faz uma pregação religiosa numa praça pública. - Jesus não ia falar daquele jeito nem ia aparecer daquele jeito, com aquela roupa, com aquela coroa... Aquele lá é um doido varrido.

- Então o senhor não gosta do jeito do Inri?

- Vixe! E eu lá gosto de jeito de doido?

- Seu Gugu, como é que o senhor tem certeza de que, depois que o senhor for dessa pra uma melhor, vai gostar do jeito do verdadeiro Jesus?

- Dotô, é impossível não gostar de Jesus. Porque todo ser vivente nesse mundo tem Jesus no coração. Jesus é o pai de todos nós - com essa explicação, notei que o Seu Gugu começava a se irritar não mais com o Inri, mas comigo.

- Um pecador que vai passar a eternidade carregando pedra no inferno também tem Jesus no coração? - já que era assim, resolvi dar-lhe um motivo para se irritar de verdade.

- Não, não... O pecador não tem Jesus no coração - ele dizia para si mesmo, coçando pela enésima vez a cabeça.

- Então é possível que muita gente vai acabar não gostando do jeito de Jesus quando se encontrar com ele lá no céu, pois pecado é o que não falta por aí hoje em dia, certo? E daí me vem na cabeça uma pergunta que eu sempre me faço: e se eu for um dos que não vão gostar do jeitão de Jesus quando encontrar com ele? O senhor já pensou nisso, Seu Gugu?

- Dotô, o senhor vai me desculpar, mas se Jesus viesse pro nosso mundo, ele só iria fazer coisas boas. Não ia ser como aquele lá - finalizou o chofer, usando o Inri para fugir da pergunta sobre o jeitão de Jesus.

- Que coisas boas, Seu Gugu?

O chofer respirou fundo, à cata da resposta, para, depois da pausa, concluir com satisfação:

- Milagres! - disse, aliviado. - Jesus ia fazer milagres para o povo ver.

- Eu vi o Inri fazer dois milagres em três horas.

- ARRE !!! - berrou outra vez, revoltado com tamanha blasfêmia.

- É sério - prossegui, ignorando o suor que empapava a camisa do Seu Gugu, apesar do frio de pouco mais de dez graus. - Meu amigo, que foi comigo conhecer o Inri, estava há uns dois anos sem ver mulher pela frente, se é que o senhor me entende...

- ARRE !!!

- No mesmo dia, ele quebrou o tabu.

- ARRE !!!

- O Mestre não brinca em serviço - expliquei-lhe, olhando pela janela para admirar a beleza daquela manhã agradável, fria porém clara.

- Isso é pecado, dotô!!! - advertiu-me o motorista que, ao menos naquele momento, pareceu-me ter perdido a sanidade que ele tanto apreciava nos outros.

- Comigo, a coisa foi ainda mais complicada.

- ARRE !!!

- O Mestre curou a minha dor de dente.

- Pecado ... - gemeu o homem.

- E olha que o meu dentista cobra caro.

- ...

- Agora posso comer até churrasco. Fico imaginando o que o meu amigo não tem comido...

- ARRE !!!

- Espero voltar lá ainda esse ano pra jogar sinuca...

- ARRE!!!

- ... porque parece que o Mestre gosta de tomar vinho jogando sinuca e...

Parei a história quando vi que, encurvado, o Seu Gugu parecia que ia vomitar no volante.

- Seu Gugu, pode encostar aqui mesmo - num átimo de dó, achei de bom-tom abreviar em dois quarteirões o sofrimento do pobre velho.

Para encostar o mais rápido possível na calçada, o Seu Gugu, que costumava ser vagaroso feito um condutor de charrete, jogou desperadamente o táxi em cima de, pelo menos, dois outros carros que trafegavam nas duas pistas ao lado direito da nossa, e cujos motoristas - com toda a razão do mundo - ofenderam bastante a santa mãezinha do taxista depois dele ter conseguido encostar. Foram dois milagres quase simultâneos: não ter havido um acidente e o Seu Gugu não ter levado um tiro.

- O Inri faz milagres mesmo - pensei em voz alta enquanto tirava da carteira uma nota de cinquenta reais, para a desgraça do Seu Gugu.

- Tá paga! Tá paga a corrida! - para se livrar de mim, o velho fazia qualquer negócio, inclusive não me cobrar, só para não passar mais tempo em minha pouco prestigiosa companhia.

Agradeci, mesmo diante dos abanos de braço que o Seu Gugu me dirigia, como quem está a enxotar um pedinte mal cheiroso que entra num restaurante fino para esmolar por entre os fregueses. Se o Seu Gugu tivesse um balde de água, juro que ele jogava em mim.

A vingança é um prato irresistível, mas indigesto, como já deve ter dito alguém.

No frio da calçada, não conseguia parar de pensar sobre a velha lição de moral que diz que dizer a verdade é sempre melhor, ainda que dolorida. Porque se a verdade do Seu Gugu doeu sobre ele, a vingança imediata da minha verdade doeu ainda mais sobre mim.



Quando morrer, espero encontrar o Jesus aí de cima




10.8.04


ELOGIO DO SÍMIO

Hoje acordei com a gota, de modo que arresorvi falar de filosofia símia, tudo para, ao final, culminar com um panegírico da vida macacal.

Quem nunca se admirou ao ver a desenvoltura com que o símio cagava na mão, em pleno zoológico, só para divertir-se jogando um punhado de merda fresca na assistência? Quem, contemplando tal ato de rebeldia gratuita, nunca obtemperou: porra, que bicho sem moral!

Pergunto ainda, a meus cultos e sábios leitores, quem de vocês nunca viu a cena de um símio que imita, simula, esconde-se, furta, ou executa com mestria outra obra de igual engenho?

O símio, antes de mais nada, é um amoral e um esteta.

O macaco, em especial o inteligentíssimo chimpanzé, opera sem juízo de certo ou errado, de modo que em suas ações, ausente qualquer noção de infração, não há culpa. Não há o que perdoar no símio, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão com o bichinho - diria o cantor que ora administra simiescamente nossa cultura.

Por outro lado, naquilo que tange ao homem - esse esboço imperfeito do símio - em todas as mitologias encontramos um mito fundador edênico, em que a culpa desempenha papel essencial. O homem faz alguma cagada, e daí passa a ser homem.

Na religião judaico-cristã, o homem antes da queda gozava de prazeres e abundância, sem conhecimento disso e tampouco de si e da sua condição. Na mitologia grega, em especial em Hesíodo, consta que a grei dos hiperbóreos era composta de seres que viviam em perfeita harmonia e, não raro, eram visitados pelos próprios deuses.

Em toda mitologia, em suma, há uma Idade de Ouro onde o pecado é desconhecido. Uns põem-na na aurora dos tempos, como as mitologias tradicionais. Noutras mitologias, inspiradas por um autor ou uma idéia, essa idade de ouro é colocada no fim dos tempos, como no superhumanismo do Nietzsche, ou mesmo no Marxismo do próprio. A entrada na idade de ouro, para estes, é uma espécie de promoção no emprego, por merecimento e decurso de prazo. Ao cabo da jornada, a humanidade receberia uma gorda aposentadoria, enriquecida por qüinqüênios de conhecimento, e então viveria à toa e na boa.

No entanto, ouso dizer que estão todos errados: a idade de ouro sempre existiu e esteve ao nosso lado. Basta ter olhos de ver. Esse estágio supremo de elevação espiritual e harmonia material está presente de corpo e alma - e pêlo - na raça símia, da qual o homem é uma pálida sombra.

Não há pecado para o símio. Há ações belas e divertidas e prazerosas - em oposição a outras feias, desinteressantes ou desagradáveis. O símio não caiu de um Jardim do Éden após comer da árvore do conhecimento. Doutor Adão e Dona Eva passaram a ter noção do certo e do errado depois dessa maldita degustação da maçã, e com esse senso moral veio a culpa e o pecado. Sentiram vergonha até de si mesmos, os desgraçados. Quem aí já viu um símio sentir vergonha do que quer que seja?

O símio, lhes revelo ora pois, nunca caiu de seu galho do Éden. Ele não ganha a comida com o suor de seu rosto, não explora e não é explorado (senão pelos homens). Não acredita nem em Deus nem no Capeta, não tem necessidades maiores que o seu tamanho, não julga e não é julgado pelos seus. Os símios, quando erram, o fazem inocentemente como uma criança que se lambuza de papinha. Aliás, não por acaso, as crianças humanas são chamadas de inocentes, pelo simples fato de estarem mais próximas da ingenuidade do símio que das artimanhas do homem adulto.

Garanto que uma macaca não deixa de dar para o macaco, por quem se interessa sexualmente, só para barganhar casamento. A macaca valoriza sua xereca, de modo que não a usa como moeda de troca para conseguir isso ou aquilo. Duvido que, tampouco, haja padres símios a pregar a danação infernal para aqueles que se abstiverem deste ou daquele prazer. Repudio qualquer concepção que diga que o símio não se pauta por um juízo de utilidade e prazer.

O símio assim agindo, com instinto e sem peias, faz surgir naturalmente uma harmonia individual e uma coesão social. Como ele prescinde de moral, os comportamentos não desandam e a sociedade se auto-ajusta espontaneamente. E se há um macho alpha, há outros beta que de vez em quando corneiam o dono do harém, sem que este perceba e sem que, algum dia, o tachem de corno. Não existe cornitude no reino símio. Esse é um predicado estritamente humano.

Pois então, cornaiada, declaro feito o meu elogio do símio. Não esperem pela volta da idade de ouro, nem pelo advento do superhomem. Sejamos todos símios, desde logo. Sejamos, pois, inocentemente completos como um bugio.


Dom Gustavo finge que é filósofo pra ver se come alguém



9.8.04

A VERDADE QUE DÓI

Confesso que sou mentiroso. E dos brabos.

Deixando de lado o velho paradoxo embutido nessa confissão (porque se sou mentiroso e afirmo que o sou, então estou falando a verdade), o fato é que, ao admitir tal realidade, acabo me vendo obrigado a fazer uma segunda confissão: acho que, ao contrário do que ouço dos outros desde criança, a mentira, no fundo, não é tão pior assim do que a verdade.

Ou seja: além de mentiroso, sou um tremendo cara-de-pau.

Antes, porém, de ser condenado à fogueira da danação eterna por mais essa, digamos, característica de personalidade, invoco a meu favor um testemunho: o testemunho da humanidade. Sim, porque a humanidade, sem exceção, mente sem parar desde a hora em que se levanta até a hora em que vai se deitar, passando pelo café da manhã, almoço e jantar.

Nem vou entrar em detalhes sobre a vontade diariamente reprimida de, no trabalho, amarrar o chefe numa cadeira e ir lhe tirando lascas de carne com uma faca cega até chegar aos ossos, ou sobre o ímpeto domado de dizer à carinhosa esposa que, apesar dela se tratar de uma boníssima alma, tentar praticar sexo com ela é menos interessante do que fumar um cigarro apagado - coisas a que se convencionou chamar pelo virtuoso nome de tolerância. A menos que se queira ser preso por homicídio doloso praticado com requintes de (justificada) crueldade, ou então ser a própria vítima do homicídio praticado dos mesmos requintes de (nesse caso, injustificada) crueldade, é fácil ver a utilidade e os benefícios das grandes mentiras, que nos livram de precisar contar as grandes verdades - muito melhor dizer, por exemplo, que temos uma "proposta melhor" de emprego ou que "a relação se esgotou". Difícil, porém, é enxergar a utilidade das pequenas mentiras - cujo inestimável auxílio temos o equivocado costume de dispensar, por não enxergarmos a gravidade de uma, em princípio, prosaica situação.

Bom exemplo disso, para mim, é a minha tormentosa relação com os taxistas.

Não sei por que raios de costume, convencionou-se, ao menos na lastimável cidade em que moro, que, ao se entrar num táxi, o frete já inclui o preço pela conversa com o motorista - na qual ele, sozinho, expõe o assunto, fixa os limites da polêmica e a escolhe a tese vencedora. Sei bem do que estou falando: numa distante época em que meu emprego me rendia algum dinheiro, de maneira irresponsável dei-me ao luxo só ir trabalhar de táxi - hábito prejudicial tanto para a mente quanto para o bolso, no qual insisti por uns três meses.

No princípio, tentei ser tolerante com aquele assustador costume usurário. Interrompia a leitura do jornal, franzia os olhos para simular um sorriso de simpatia e balançava afirmativamente a cabeça, dando a entender que, deveras, de dentro daquele carro belas lições de filosofia eram proferidas.

Contudo, ao ouvir pela undécima vez, ao cabo de pouco mais de duas semanas, que a solução para o Brasil era botar na cadeia todos os políticos corruptos, resolvi
adotar um esquema tático francamente defensivo.

Como que ungido pela mais inflexível das superstições, resolvi só adentrar ao veículo falante usando óculos escuros, inclusive à noite. Ao invés de deitar o jornal sobre o colo, passei a desdobrar as suas folhas por inteiro e colocá-las defronte ao rosto para a leitura, formando assim um parede de papel entre o banco de trás, onde invariavelmente eu me sentava, e o do motorista. E, longe de responder de maneira polida a cada uma das infelizes perguntas que me eram feitas, balbuciava apenas um desinteressado "É verdade", ainda que o chofer estivesse a enxovalhar o caráter de minha respeitável genitora. Nada tão saudável quanto uma pequena mentira.

De mentirinha em mentirinha, tornei-me quase imbatível.

E teria ficado invicto se não fosse o Seu Gugu, cujo carro costumava ficar parado junto ao ponto de táxi próximo à minha casa - o que, por puro azar, me transformou em seu confidente involuntário. Sujeito dos seus sessenta e poucos anos, gordinho, de pele bem morena contrastando com os cabelos brancos, seus gestos mansos na direção e o aspecto de bom velhinho faziam-me acreditar que ele seria capaz de vencer qualquer concurso feito para se escolher o Papai Noel brasileiro (a despeito do seu típico sotaque dos povos do norte, não sei se do Piauí, do Maranhão ou da Bahia, pois não gravei essa transcendental informação, muito embora o Seu Gugu, em absolutamente todas as vezes em que viajamos juntos, fizesse questão de me contar sobre sua cidade de origem e sua chegada na cidade grande, para trabalhar como motorista de caminhão).

O Papai Noel brasileiro não tinha barba, mas tinha uma filha que acabara de terminar a faculdade de contabilidade e, com o marido, morava com o Seu Gugu e esposa, todos juntos debaixo do mesmo teto. A diversão do Seu Gugu, nos finais de semana, era colocar o genro para trabalhar com ele, de manhãzinha até a noite, na construção de uma casinha no fundo do seu quintal - porque o genro e a filha já estavam planejando trazer mais uma bela criança a este mundo justo e generoso.Com orgulho, o Seu Gugu falava que com ele não tinha conversa: mesmo com o sol a pino, ele e o genro tornado escravo não largavam do batente, fazendo a massa e empilhando tijolo sem parar. "Ele reclama, mas eu não dou moleza", me dizia, todo satisfeito. Horrorizado, logo imaginei um título de filme para sintetizar todo aquele sofrimento - "Deus e o Diabo no fundo do quintal do Seu Gugu".

Já durante a semana, o Seu Gugu preferia mesmo era ver novela, embora reclamasse bastante da "sem-vergonhice" das produções nacionais - comportamento que me pareceu um pouco contraditório.

Isso tudo, porém, era o de menos. O que era importante mesmo era o culto. Sim, porque o Seu Gugu era evangélico dos bons - e a convicção com que ele me instruía a respeito das coisas de Deus me faziam acreditar que, não tendo preenchido os requisitos necessários para se tornar pastor no templo que frequentava, o bom velhinho tinha resolvido ser pastor amador (fazendo-me, por consequência, um fiel amador).

- Ontem, eu terminei a frente da casa da minha filha. Louvado seja Deus, que está no céu !!! - esfuziante, ele me dava a boa-nova da segunda-feira, que, pelo jeito, me prometia uma semana de muita gastrite, talvez até uma úlcera.

Naqueles tempos, eu ainda não tinha iniciado a minha tática defensiva:

- Seu Gugu, o senhor não acha que Deus está em todo o lugar?

- Hein ?!? - veio o sotaque, mais nortista que nunca.

- Supondo que Deus realmente exista, o certo então não seria dizer Deus está em todo o lugar, e não apenas no céu?

- Em todo o lugar, onde? - quis saber o chofer, realmente fustigado com aquela questão, conforme denunciava o seu olhar no espelho do retrovisor.

- Em todo lugar. Nessa rua, dentro do carro, em mim, no senhor, dentro desse carro...

- Nesse jornal também?

- Também.

- Não - explicou-me sorrindo o Seu Gugu, com pena da minha ignorância. - Esse jornal é só um pedaço de papel. Deus está mesmo no céu - assegurou-me, para minha tranquilidade.

Achei melhor parar com aquela conversa e dar logo a vitória ao Seu Gugu.

- Dotô, e esse trânsito que não anda?

- Pois é - respondi sem vontade, com o constrangimento renovado a cada vez que o Papai Noel me conferia o título de doutor, enquanto os sucos gástricos me atacavam.

Começava de novo a ladainha sobre os políticos, cuja prisão sumária era a única solução para a Nação enfurecida.

Foi daí que tive a idéia da tal tática defensiva, posta em prática no dia seguinte.

Após uma semana de encorajador sucesso em face dos demais motoristas, deparei-me outra vez com meu mais terrível adversário: o temido Papai Noel do Sertão.

- Dotô, é muita miséria pra uma cidade só.

- É verdade - respondi, seco, sem abaixar a parede de jornal.

- Tinha mais é que colocar todos esses políticos na cadeia.

- É verdade.

- Tudo trabalhando, carregando pedra o dia todinho.

- É verdade.

- De sol a sol, de domingo a domingo, a pão e água.

- É verdade.

- E depois, quando morresse, ia tudo pro inferno, continuar carregando pedra.

- É verdade.

Depois dessa resposta, o caridoso velhinho notou que havia alguma coisa de errado, o que só pude perceber devido aos seus até então inéditos 30 segundos de silêncio. Ele resolveu me testar:

- Dotô, e essa pouca vergonha de hoje em dia?

- É verdade.

- Na televisão não tem nada que preste, só sem-vergonhice.

- É verdade.

- Até criança, na novela, faz sem-vergonhice.

- E verdade.

- Culpa desses políticos, dessa gente que só rouba o povo.

- É verdade.

- Tinha que prender esses safados.

- É verdade.

- Prender e mandar carregar pedra o dia inteiro.

- É verdade.

Mais 30 de segundos de silêncio. Finalmente, o Seu Gugu começava a ser derrotado, acusando os golpes que nunca, em toda a sua vitoriosa carreira, lhe haviam sido desferidos. Cheguei a ter certeza de minha vitória quando, movendo com discrição o jornal para o lado, pude ver, de canto de olho, sua mãozinha coçando nervosamente o cocuruto de cabelos ralos. Perplexo, ele estava de joelhos, à minha mercê.

- É verdade - disse eu, sem que nenhuma pergunta me fosse feita, só para mostrar minha superioridade.

- O quê, dotô? - ele perguntou, mais confuso do que nunca, ainda coçando os cabelinhos.

- É verdade - era a minha consagração.

Então tudo aconteceu. Não é tão simples assim derrotar um gênio, um profissional da retórica, um artista.

Tal como um Muhammad Ali surpreendendo um invencível George Foreman, num golpe inédito, genial e avassalador, o Papai Noel do Sertão respirou fundo, inflou o peito e começou... a cantar. A cantar, sozinho, hinos evangélicos.

Não que ele o fizesse em voz alta. Muito pelo contrário. Cantava numa vozinha soprada, fininha, quase envergonhada. Apenas o suficiente para me impedir de ler o jornal ou esquecer-lhe a onipresença.

- Com a força de Jesus, eu vou... Com a força de Jesus, eu vou - era esse o refrão do hino macabro, que, baixinho, me acompanhou até o meu destino.

O homem era um assombro.

Humilhado, decidi-me por voltar ao uso do carro próprio - e nunca mais adentrar a um táxi, a não ser que isso fosse a única alternativa para, por exemplo, fugir de um ataque nuclear.

Grandes ou pequenas, muito mais simples era contar as mentiras apenas para mim mesmo, sozinho.


Ler um bom jornal é mais difícil do que se imagina



5.8.04


DOUTOR PEPE E AS MARAVILHAS DA MEDICINA (2)

O ilustre médico pirajuiense narrou-me recentemente outro fato assombroso, não menos belo que o episódio da mulher-cabrita que não engravidava.

A intrigante questão médica envolvia agora um ancião do campo, que se viu obrigado a deslocar-se da roça ao consultório do bom doutor, em lombo de jegue, para que este milagroso seguidor de Hipócrates finalmente pusesse cobro ao aflitivo problema que o acometera.

- Bom dia, meu caro senhor. Em que posso ajudá-lo?

- Eu vim pedi pro sinhô dotô mi receitá uma vacina. Eu tive o memo pobrema faiz uns quinze ano, e tomei uma vacina e passô. Tô pricisado di novo.

- Mas o que seria exatamente a sua doença? O que o senhor está sentindo?

- É um pobrema da desgrama, dotô, tá mi tirano o sono!

- Sim, mas...

- Pois é, dotô, eu tô com uma vontade... uma vontade assim...

- Sim, continue, pode falar meu senhor.

- ...com uma vontade desgraçada de dar a bunda.

- Cuma?!? - engasgando, doutor Pepe involuntariamente expressou seu espanto à moda do Didi Mocó.

- Pois é, dotô. Eu tô com uma cocera no trasero, uma vontade incontrolavi di dá a bunda. Mas eu sô hómi macho, sim sinhô, dotô, e muitcho tementi a Deusi! Tenho setenta ano, e logo agora foi mi acontecê isso! Como eu disse, faiz uns quinze ano eu tive essa vontade istranha, mais aí um dotô me deu uma vacina e a vontade passô. Quero qui o sinhô mi dê essa vacina milagrosa di novo.

Sem coragem de perguntar qual seria a "vacina" que, uma vez aplicada na pessoa acometida desse triste problema, faz passar a incontrolável vontade de dar a bunda, e já suspeitando que ele próprio infelizmente não poderia acalmar o velho pela saciedade de sua vontade lúbrica, doutor Pepe, sempre ligeiro, saiu-se com essa:

- Pois aqui está. Pegue esta receita e leve ao farmacêutico. Ele vai lhe aplicar uma injeção que vai lhe curar imediatamente.

- Deusi seja louvado, dotô! Muitcho agradicido.

Não, doutor Pepe não recomendou ao bom farmacêutico que catracasse o velhote da roça, ali mesmo naquela cabininha destinada às injeções no traseiro.

Constatando que os males do idoso não eram senão devidos à senilidade (leia-se: loucura simplex), prescreveu-lhe um simples anti-ansiolítico, para acalmar o danado e suas lucubrações pouco católicas.

Foi assim que doutor Pepe mais uma vez deu cabo de um problema médico aparentemente insolúvel, e até hoje o velho não voltou para reclamar de nova recaída. Deve ter-se contentado com a injeção prescrita. Ou com outra, menos medicinal, que o acaso lhe tenha apresentado fortuitamente nos ermos do roçado.


O velho safado vai ao médico atrás da cura para sua estranha coceira



3.8.04

A VERDADEIRA HISTÓRIA SÍMIA

Todo mundo na vida tem uma ambição.

Não há quem se levantaria da cama, pela manhã, se não fosse a motivação criada pelo desejo de se conseguir alguma coisa que não se tem, de se perseguir um objetivo a ser alcançado, de sentir um prazer até então apenas imaginado - ou, pelo menos, de ganhar algum dinheiro que o gerente do banco já está telefonando para cobrar.

A verdade, infelizmente, é que não há cachorro que corra sem que uma linguiça seja colocada à sua frente, assim como não há macaco que se encoraje sair do galho, a não ser pela vontade de apanhar a banana que está no chão - muito embora, no mais das vezes, a ilusão da distância faz parecer suculenta a banana que, vista de perto, está meio podre e cheia de formiga.

Tão importante quanto a ambição é a inspiração. Não há quem não se mire num exemplo, num ideal - senão de perfeição, ao menos de orientação. O símio, em geral, para se motivar a pular do galho em que está, precisa, primeiro, saber que um outro símio deu um salto semelhante, ainda que para apanhar outra banana. E assim segue a vida: um bando de macacos imitando os outros, arriscando, na sorte, a pular de um galho conhecido para outro desconhecido, ou do galho para o chão, mais desconhecido ainda. Isso quando o vagabundo do símio se digna a tentar trocar de galho - pois, geralmente, a preguiça convence o desgraçado do macaco de que, mesmo sendo um galho podre e prestes a cair, melhor ficar nele do que se arriscar a bater o queixo no chão.

No meu caso particular, minha ambição é modesta. Não desejo ser rico, nem reconhecido entre os meus pares.

Meu desejo é bem simples: gostaria de tornar-me sábio. Ou melhor dizendo: gostaria de tornar-me apenas não muito ignorante.

Eis a razão pela qual admiro, por exemplo, a obra do Senhor Quadrado.

A quem não conhece o Senhor Quadrado, é preciso, para começar, dizer o seguinte: foi ele quem criou este pequeno espaço internético.

Mas, por incrível que possa parecer, esse nem foi o seu o maior feito. Eu, que acompanho o incansável trabalho do Senhor Quadrado há quase duas décadas, estou absolutamente convencido de que este santo homem já atingiu a iluminação espiritual. Explico-me.

O Senhor Quadrado, quando se viu convencido, há algum tempo atrás, da existência de Deus, logo de cara tornou-se padre (ou coisa parecida) e passou cinco ininterruptos anos orando para Jesus, dentro de um quarto escuro e empoeirado, com uma bíblia debaixo de braço, pedindo para não ser mandado para o Inferno (não obstante ele próprio, por espontânea vontade, tenha, em vida, se mandado para a morada de Belzebu, conforme relatado no último texto que emanaram de seus santos dedos). É fato que, naqueles tempos, ele rezava deitado numa cama, mas nem por isso deixo de acreditar que ele atingiu a iluminação, dado o tom profético que até hoje, mesmo após ele ter deixado de lado suas poderosas orações, sempre acompanham as suas palavras. Foi mais ou menos assim que se deu no dia em que ele determinou que fosse o criado o Mundo Símio:

- Vou criar um blog chamado Mundo Símio, e você irá participar.

- Participar fazendo o quê? - perguntei eu, que, em eterno estado de ignorância, ouvia pela primeira vez a expressão "blog".

O Senhor Quadrado, porém, parecendo estar lendo o meu sistema neuronial, me respondeu com outra pergunta:

- Você sabe o que um blog?

- Não faço a mínima a idéia. Mas, para ajudar o senhor, disponho-me desde já a ajudar com a faxina.

- Ignorante! - repreendeu-me o Senhor Quadrado, com, admito, total razão. - Vou te explicar o que é isso.

Após ter ouvido, boquiaberto, as sábias lições do Senhor Quadrado a respeito de blogs e de muitas outras coisas da vida, uma dúvida me apareceu:

- Senhor Quadrado, mas por que é que o senhor me escolheu?

- Ora - explicou o meu mentor -, porque tu é um baita de um símio.

Convencido da razoabilidade do argumento do Senhor Quadrado, senti um medo dos diabos. Como é que eu, que mal sabia juntar uma palavra na outra, ia me encarregar da missão de escrever habitualmente um texto cujo tema ficaria relegado ao meu temerário arbítrio? E pior de tudo: como é que eu iria escrever um texto que, talvez, fosse lido por alguma outra pessoa?

À luz desses graves problemas, ousei ponderar ao Senhor Quadrado que talvez fosse o caso de pedir que o serviço fosse feito por alguém que, pelo menos, soubesse escrever.

- E quem você sugere? - ele quis saber, sem disfarçar uma certa irritação pelo fato de eu ter trazido o problema sem dar a solução.

- Conheço um sujeito que se chama Dom Gustavo. Parece que ele sabe escrever. Pelo menos é o que povo diz por aí.

- Hum... - murmurou o Senhor Quadrado, coçando o queixo. - Traga ele aqui.

E lá fui eu falar com Dom Gustavo, prometendo-lhe, em retribuição ao encontro com o Senhor Quadrado, três cervejas - das quais ainda sou devedor, dada a minha nada saudável condição financeira.

Para minha satisfação, ambos logo se entenderam - e o Senhor Quadrado, vendo os fidalgos modos e o fino vocabulário de Dom Gustavo, nem precisou ler suas obras já escritas para saber que aquele homem, ao contrário de mim, sabia, sim, escrever.

A coisa estava resolvida: o Senhor Quadrado ditaria os princípios filosóficos que inspirariam o Mundo Símio e seria o responsável pela avançada tecnologia necessária à manutenção e desenvolvimento do blog, além de colaborar, vez ou outra, com um texto de sua santa lavra, quando estivesse com paciência para tal. Dom Gustavo, o maior dos escritores que tive a graça de conhecer pessoalmente, além de cultor das artes do estilo, da filosofia e da retórica, instruiria o povo, lançando sobre o vulgo as verdades da mente e do espírito. E eu, em meio a tamanha empolgação com o sucesso certo do plano entabulado pelos outros dois, empolguei-me também, e mais uma vez me coloquei à disposição para ajudar com a faxina - pois não tinha entendido muito bem a explicação anterior do Senhor Quadrado sobre o que seria um blog.

Sob o olhar de desprezo de ambos, minha oferta nem mereceu resposta.

Logo depois, no entanto, surgiu a primeira celeuma em nossa sociedade. Dom Gustavo, em razão de seus inesgotáveis compromissos de ordem sexual, não teria tempo suficiente para escrever suas palavras com a habitualidade desejada pelo Senhor Quadrado.

E ambos, com visível irritação nas faces, fulminaram-me com os olhos que, de tanto ódio, beiravam à cor vermelha, condenando-me por não ter trazido para nossa primeira reunião uma solução prévia para tal problema.

- Será que eu tenho de fazer tudo, porra? - questionou-me o Senhor Quadrado, dando prova de que até os santos perdem a paciência.

- Já não basta eu ter de escrever, cacête? - reforçou Dom Gustavo, com igual dose de mais do que justificada indignação.

Foi uma lástima. Falhei feio já na minha primeira participação para nossa empreitada. Mas, graças a Deus, estava acompanhado de homens sábios.

- Só tem um jeito - disse Dom Gustavo. - Vamos colocar esse aí pra escrever também.

O "esse aí" era eu.

- Já que não tem tu, vai tu mesmo - aprovou o Senhor Quadrado, encerrando a questão valendo-se do conhecido provérbio espiritual. - Se o blog der errado, já sabe de quem é a culpa, né? - vaticinou, apontando o dedo para mim.

E eis que surgiu o Mundo Símio: o Senhor Quadrado nos inspira, Dom Gustavo nos explica os caminhos para chegar às bananas e eu, por finalmente ter descoberto o motivo pelo qual não se pode fazer uma faxina num blog, também saí lucrando.

Dia 31 de julho completamos 6 meses de existência.

E nossa empreitada é um sucesso: já temos 5 leitores, número muito maior ao que tinha imaginado que iríamos ter em toda a nossa vida, ainda que no ápice do blog.

A prosseguir nesse acelerado ritmo, daqui a cinco anos teremos cinquenta leitores, se a sorte ajudar. Pedirei permissão aos outros dois colegas para cobrar um real por mês de cada leitor; se der certo, poderei largar o meu emprego - vivendo apenas de enganar os outros e, por consequência, dar inequívoca evidência de que, de fato, acabei conseguindo me tornar sábio.

(Em tempo: desgraçadamente, a verdade sempre aparece. Não é que o Professor K. Mello, estimado amigo e nobre consorte da respeitosa moça sobre a qual, de forma desastrosa e involuntária, lancei um covarde ataque salival, se manifestou no texto em que me denunciei, cobrando-me os honorários do psiquiatra que precisou contratar?)


Nossa festa de aniversário de meio ano foi à altura de nossa meia inteligência