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29.9.04
FAÇA COMO A GENTE: PEÇA A UM COLEGA PARA, NO DIA 03, VOTAR NO MOJICA, 36.013, SÍMIO DO INFERNO!!!
Logo após o enterro de Dom Gustavo, nossa equipe não perdeu tempo: convencemos o coveiro a também votar no Mojica MINHAS SÍMIAS RAZÕES É muito provável que, querendo ajudar o Mestre Mojica a se eleger vereador no próximo domingo, acabe eu por lhe enterrar de vez a pretensão. "Se esse macaco vai votar em alguém, é bom eu saber pra votar contra", dirá alguém mais ponderado. É verdade. Mesmo assim, prometi ao finado Dom Gustavo, pouco antes dele desencarnar, que deixaria aqui, como última homenagem a ele, minhas 5 razões que explicam minha preferência pelo Mestre. Dá azar descumprir promessa feita a moribundo - até porque, cedo ou tarde, vamos nos reeencontrar no além e daí serei cobrado, sabe-se lá em que moeda e a que taxa de conversão para o real. É problema conhecer gente que acaba morrendo. "E por que 5 motivos?" - quererá saber alguma outra ponderada pessoa. Essa é fácil: porque não sei contar em número maior ao dos dedos de uma mão. Se soubesse, teria me dedicado às artes verdadeiramente ocultas, como a engenharia, a física nuclear ou a medicina. Vamos ao que interessa: 1 - José Mojica Marins é o típico sujeito que se fez por suas próprias forças, contra tudo e contra todos. Ele começou a rodar seus filmes no fundo de um galinheiro sujo, sempre dando um jeito de arrumar o próprio dinheiro. E uma carrada de gente, ao saber de sua intenção de fazer cinema, por pura dó, lhe aconselhou a parar com isso e ir ser bancário, que isso sim é coisa que dá futuro. Se o Mojica tivesse nascido há, por exemplo, quinze anos atrás, podem estar certos de que ele teria um blog. 2 - O Mojica foi um dos sujeitos mais censurados pela "Gloriosa" de 64 - se é que não foi o mais censurado. Só que, por financiar seus próprios projetos, o Mojica, a cada vez que lhe fechavam o teatro ou proibiam seus filmes, perdia muito, mas muito dinheiro. E ele, ao contrário do que muitos cabras politicamente corretos que estão por aí até hoje, não pediu ao governo um centavo de indenização, pensão, esmola, ou seja lá que diabo for. O Zé do Caixão não chupa o nosso sangue. 3 - O Mojica tem quase setenta anos. Nessa idade, vamos convir, não dá para ninguém pensar em se utilizar do cargo de vereador apenas para, de eleição em eleição, chegar até a Presidência da República. Mojica não tem o perfil do parasita que pretende fazer carreira para mamar nas tetas do Estado. 4 - Por estrito dever de ofício, fui forçado a conhecer muito cabra picareta ao longo de minha vida. É mera questão de prática: posso não saber contar números superiores ao dos dedos da própria mão, mas sei identificar um estelionatário quando vejo um - e, podem estar certos, disso não tenho o menor orgulho. Conheci pessoalmente o Mojica. Na nossa conversa, pude notar que, quando tocamos num assunto pelo qual ele não tem interesse (embora a nós possa ser interessante), ele desvia o olhar e, em cordial silêncio, se desliga do ambiente. Mas quando falamos de algo com que ele se identifica, ele não só fala sem parar por minutos a fio, mas se levanta e passa andar de uma lado a outro, numa empolgação genuína, digna de um adolescente. Ou seja: ele acaba por falar bem mais do que demandava a própria pergunta. Um estelionatário faz exatamente o contrário. 5 - Não sei se o Mojica ficou amigo da gente, mas nós ficamos amigos dele. (Em tempo: quando, digo "nós", digo eu e o Dr. Fernando Goiabeira, já que Dom Gustavo, como revelado, já não está mais entre nós. Por ora, o próprio Dr. Goiabeira, que, além de psicólogo, também é paranormal, tem recebido - com muita dificuldade, é certo - o espírito do nosso finado colega, que lhe comanda os dedos no teclado - donde a explicação para os textos que estão sendo enviados a este espaço sob a velha e saudosa sigla "dg"). | 28.9.04
!!!ATENÇÃO: É HORA DE VOTAR NO 36.013!!!
À MEIA-NOITE ENCARNAREI NA TUA URNA Foi neste momento que Dom Gustavo praticamente morreu... O povo sempre duvida dos editores do Mundo Símio, e, convenhamos, não sem razão. Mas sempre provamos o nosso valor e, sobretudo, a nossa tenacidade. A entrevista com o Inri já provara que, às vezes, não somos mentirosos. E agora é que o pessoal vai ter que botar fé em nosso trabalho: praticamente à meia-noite de ontem, entrevistamos o Zé do Caixão em pessoa, capa e cartola! O Rei das Trevas, tomado de fúria diante da pouca sabedoria dos editores do Mundo Símio, atentou ferozmente contra a vida de Dom Gustavo, como prova a imagem acima, flagrada pelo nosso ilustre fotógrafo, Dr. Fernando Goiabeira, que veio diretamente de Madagascar para a especialíssima entrevista. Infelizmente, os ferimentos causados pelas unhas do Zé causaram a gangrena do pescoço de nosso editor. Após o velório de Dom Gustavo, programado para hoje à tarde, os membros remanescentes do Mundo Símio editarão todo o riquíssimo material colhido em presença do Mestre do Terror. Sim, porque após o sacrifício de Dom Gustavo, o Mojica se acalmou e começou praticamente a falar de tudo e de todos. "O passamento de Dom Gustavo não foi em vão" - assegurou Dom Paulo. Sem mais rodeios, eis o que importa, por ora: VOTEM NO ZÉ DO CAIXÃO, Nº 36.013, PARA VEREADOR! ANOTEM O NÚMERO, INDIQUEM AOS AMIGOS E VIZINHOS! Como não nos levam a sério, repetimos ainda com mais vigor: votem realmente no Mojica, seu bando de símios! Ele é sério, tem propostas geniais e honestas. Ou vocês preferem ver novamente na vereança, pela ducentésima vez, Wadih Mutreta e Brasil Vita? Ou quem sabe o sósia do Pelé? O Zé do Caixão é um personagem, está certo, mas é a estratégia promocional de que pode lançar mão o Mojica, na falta de empreiteiras corruptas que lhe custeiem um Duda Mendonça. A pobreza de seus meios é o sinal indicativo da honestidade de seus propósitos. E para aqueles mais céticos e incultos, alinhamos abaixo treze boas razões para votar no Mojica: 1 - Ele é um candidato novo e com vontade de agir; 2 - Ele não suja a cidade com faixas, outdoors e outros pinduricalhos imorais e asquerosos; 3 - Preferiu filiar-se a um partido pequeno e sem recursos - o que mostra que ele é bem diferente dos candidatos, por exemplo, do bondoso Dr. Paulo Maluf - apesar de convites de gente graúda como o Quércia e o próprio turco; 4 - Antes mesmo de ser eleito, e mesmo sem a certeza da vitória no certame eleitoral, Mojica já fez muito pela comunidade, amealhando grande quantidade de doações de sangue para os bancos de São Paulo; 5 - É um candidato genuinamente popular, e não populista, em quem depositam esperanças os verdadeiros fodidos desta vida, como as crianças de rua, os mendigos, as putas, os travecos, os cineastas de verdade, os atores de verdade, e os desempregados; 6 - Ele não promete nada de maravilhoso, como faz questão de frisar; assegura apenas que se empenhará ao máximo para valorizar a cultura e defender os interesses dos menos privilegiados; 7 - Na área cultural, há propostas concretas, como cursos técnicos para atores mirins, para técnicos de áudio e luz, para eletricistas etc., visando com essas propostas elevar a auto-estima da molecada de rua, dando-lhes além de instrução e formação técnica, um imaginário mais rico e criativo, para além da condição miserável e sem perspectivas em que hoje esse pessoal vive; 8 - Os cabos eleitorais de Mojica são apenas seus filhos Crounel e Mariliz, os quais, como pudemos constatar, dia e noite não cansam de empenhar-se para dar visibilidade à candidatura e, principalmente, aos projetos sociais do pai (Crounel é mestre em administração pela USP, além de também ser formado em engenharia e direito pela mesma universidade, e não precisa de nenhum "cabide de emprego" na Câmara; Mariliz, igualmente, é atriz atuante e criadora da personagem LizVamp, e também não precisa de emprego do pai vereador); 9 - Nada justifica não votar no Mojica, muito menos por preconceito: se você e seus conhecidos não votarem nele, ou será eleito algum sósia de alguém famoso sem nenhum caráter, ou algum filho do Enéas, ou algum Wadih Mutreta da vida, ou, o que é pior, o Aguinaldo Timóteo. No mínimo, o voto no Mojica evita a eleição de uma dessas verdadeiras aberrações; 10 - O Mojica, é preciso reconhecer, é um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos, um gênio intuitivo, como reconhecido pelo Glauber Rocha, pelo Person, pelo Carlos Reichenbach e tantos outros, tendo ganho o festival de Sundance recentemente pelo documentário biográfico "Maldito". De cultura, portanto, Mojica fala "ex cathedra"; 11 - É também preciso reconhecer a incrível capacidade realizadora do Mojica, que mesmo sem instrução formal foi capaz de verdadeiros milagres gerenciais para realizar sem nenhum recurso suas dezenas (ou centenas) de obras, algumas delas obras-primas. É um cara capaz de fazer muito a partir de pouco, enfim, coisa de que precisa a Câmara Municipal; 12 - É um candidato ousado, incomum, corajoso e honesto, que constitui uma possibilidade de renovação da Câmara Municipal, hoje um verdadeiro antro; 13 - Ao fim e ao cabo, mesmo que você seja um niilista ou anarquista completo, um voto artístico no Zé do Caixão é muito mais belo do que a simples omissão, que fatalmente porá lá na Câmara um Aguinaldo Timóteo da vida. Por essas e muitas outras razões, pedimos novamente a todos os símios, num brado retumbante: VOTEM NO ZÉ DO CAIXÃO, Nº 36.013, PARA VEREADOR! ANOTEM O NÚMERO, INDIQUEM AOS AMIGOS E VIZINHOS! UM PEQUENO ESFORÇO FARÁ UMA GRANDE DIFERENÇA. Façam com que a morte de Dom Gustavo não tenha sido em vão. Nos próximos dias, praticamente a maior e mais bombástica entrevista deste e do outro mundo! | 25.9.04
CRÔNICA DE UMA PANCADARIA ANUNCIADA
Minha opinião de nada vale. Por ela ninguém paga; nada recebo em troca quando a dou. Se ela fosse boa, tal como diz o velho ditado sobre conselhos, eu não a daria de graça. Logo, minha opinião é ruim. Prefiro desse jeito - pelo menos ninguém vai me pedir o dinheiro de volta. Pois bem. Foram-se os tempos em que o debate de idéias, a retórica, o poder da argumentação, o apelo à consciência tinham algum tipo de valor. Hoje em dia, ganha-se qualquer coisa na pura e simples base da porrada. Por enquanto, ainda somos capazes de falar, mas só até um certo limite; no final das contas, no momento em decidir, na hora das ditas "últimas consequências", qualquer situação se resolve mesmo é no muque. Bate quem pode e apanha quieto quem tem juízo. E estamos conversados. Que esse tipo de, digamos, entendimento se aplique às lides do trânsito, das reuniões de condomínio, dos shopping centers, dos bares e dos supermercados, ainda vá lá. Já estamos acostumados - e alguns, mais do que acostumados, estão mesmo é adaptados; sem falar daqueles que, mais do que adaptados, estão mesmo é satisfeitos com essa situação. Mais de uma vez ouvi pai e mãe comentarem com orgulho a bronca dada ao filho na escola pela professora, porque o pequerrucho deles foi flagrado dando uma surra num outro pequeno desgraçado. Sem dúvida, a humanidade caminha para a franca evolução. Como deveria se dar com todo organismo maligno, iremos nos autodestruir e, em breve, a Terra será habitada só pelas pacas-do-mato. Eis o máximo de evolução que se pode esperar de um projeto defeituoso: destruir a si próprio, o quanto antes, para não dar mais prejuízo. Vamos falar a verdade: o universo não terá perdido grande coisa. Essas desvios de percurso acontecem; nem sempre as coisas saem como a gente gostaria. Obviamente, enquanto o estado da suprema perfeição não vem em definitivo, vamos vendo o remédio se espalhar por tudo quanto é canto. Na última semana, por exemplo, foi a vez das eleissímias. O Doutor Serrassímio (que, por puro azar, tem mesmo cara de vampiro, como lhe acusam os adversários), candidato à Prefeitura da pacífica cidade de São Paulo, foi dar uma volta pelo não menos pacífico bairro da Capela do Socorro para avisar o povo de sua candidatura - como se não bastasse o horário eleitoral, o noticiário e a montoeira de cartazes colados nos postes, muros e, pasme-se, até em alguns cachorros, como eu pude ver outro dia. Por muito pouco não levou um cacête para deixar de ser besta. A razão? "A Capela do Socorro é reduto eleitoral da família Tatto, que goza de poder na estrutura do PT na cidade e no Estado", diz a Folha de São Paulo da última sexta-feira. Por ter invadido o bairro da poderosa Família Tatto (e, pra piorar, sem antes pedir com respeito ao padrinho da Família para entrar, como é o costume entre as famílias da Sicília), o Doutor Serrassímio foi "recebido por um exército de cabos eleitorais, que o hostilizaram" e que estavam em maior número do que os asseclas do candidato invasor. E aí a coisa pegou: xingaram a mãe do Serrassímio, ameaçaram lhe dar uns tapas na careca e, pior de tudo, lembraram-lhe de sua semelhança física com o velho Nosferatu, fazendo um humilhante corinho: "Vam-pi-ro! Vam-pi-ro!". Isso não se faz. "Aqui, tucano não tem vaga", explicou um sujeito que trabalha como coordenador da campanha da ex-mulher do Senador Suplicímio: "A Capela do Socorro é vermelha. Não tem jeito", prosseguiu. Só faltou dizer: tá tudo dominado. Na verdade, contava o coordenador, todo aquele movimento se tratava de um plano: "Toda vez que os tucanos vêm aqui, a gente aciona a operação caça-vampiro". Sei não: as fotos que acompanharam a reportagem não mostraram nenhum militante petista devidamente municiado de cruz de madeira em punho e colar de alho em volta do pescoço. Acho que, nessa peleja de vampiro, se a coisa chegasse mesmo às vias de fato, os militantes do PT iam levar a pior. Já vi muito vampiro dar um pau em dez, vinte, trinta pessoas ao mesmo tempo. Talvez por isso o Doutor Serrassímio não tenha se intimidado: fazendo uma cara de mau digna de assustar qualquer vivente, ele dizia a quem lhe proferia tão graves acusações: "Repete o que você disse", ameaçava. Não sei se alguém teve coragem para repetir o xingamento, mas mais difícil ainda é advinhar o que Serrassímio iria fazer para dar cabo à retaliação. Provavelmente dar uma mordida no pescoço do desafortunado, especulo eu. "Eles têm medo. Quando me aproximo, fogem", constatou o candidato. Não é pra menos: como sabe qualquer um que já assistiu a um filme de vampiro, a mordida desses bichos causa a danação eterna ao homem, conferindo-lhe também a triste de condição de vampiro para todo o sempre. Não sei se o Serrassímio de fato é vampiro, mas, na dúvida, eu fugiria também. Diante dessa hesitação, a história ficou só no xingamento e na ameaça. Mas não estou otimista: o segundo turno está aí e, quando os milicianos do PT se aperceberem do poder milagroso da cruz de madeira e do colar de alho, a coisa vai ser diferente. Não vai ficar barato. *** Para quem aprecia uma boa pancadaria, nada melhor do que dar uma passadinha na Praça da Sé nesta segunda-feira, dia 27, ao meio-dia em ponto. O bicho vai pegar. É naquela região de São Paulo que os nobres serventuários do Poder Judiciário, em greve há quase três meses, acampam e fazem boa parte de suas manifestações. E vai ser por lá mesmo que a distinta classe dos advogados irá fazer uma manifestação pública contrária à greve, organizada pela OAB. O clima entre um lado e outro do balcão forense nunca foi bom, desde muitos anos antes dessa parada. De um lado, o digno patrono do jurisdicionado sempre achou que na parte de dentro do cartório só se encontravam vagabundos que, dependurados na estabilidade, suportavam, com visível mau humor, o dia presente apenas pela expectativa da aposentadoria, ainda que ela viesse só dali a vinte anos; do outro lado, o não menos digno serventuário sempre achou que, do lado de fora do balcão, só lhe apareciam pela frente ladrões e ignorantes, que mal podiam com o nó do sapato, mas que, por inequívoco talento para enganar os outros, conseguiam passar a mão no dinheiro do freguês e, por isso, se achavam no direito de serem folgados com qualquer um. Cá pra nós: os dois lados têm razão. Dom Gustavo, que nada tem a ver com essa história, precisou ir ao fórum logo no início da greve, quando, in loco, constatou, surpreso, a suspensão dos trabalhos. Ao perguntar a um funcionário se haveria previsão para voltar ao batente, ouviu como resposta o seguinte: "Pergunto ao presidente da sua OAB, aquele filho da puta que não apóia o nosso movimento. E, pelo visto, o senhor também não apóia o nosso movimento, né?". Diante do tom agressivo da informação e vendo-se, depois dela, cercado de uns dez funcionários de olhar ameaçador - os quais, pelo terno e gravata, lhe identificaram a figura do inimigo -, Dom Gustavo, assustado, precisou sair correndo para não apanhar ali mesmo, dentro do fórum. Eis uma desvantagem em não ser vampiro. Fiquei sabendo do tal ato público organizado pela OAB através do Doutor Milton, que, além de meu chefe, é meu consultor jurídico: - Por causa da porra dessa greve, não recebo mais meus honoreba. Filhas das putas. Esse bando de corno tem mais é de tomar um "cassetae doloris", como diria os romanu em latinho. Armou-se o circo. Pelo jeito, mais uma vez vamos acertar nossas diferenças na porrada. E, na minha opinião, não há como evitar. De minha parte, espero apenas que o Serrassímio apareça por lá para, com seus poderes sobrenaturais, inibir a grossa pancadaria que se avizinha, correndo atrás do povo pela praça com uma capa esvoaçante, enquanto exibe os caninos para assustar os mais exaltados (nem que seja com aquelas dentaduras de plástico de fantasia de Carnaval) - e, evitando o quebra-quebra, acabe por confirmar a matemática que reza que nada vale a opinião de quem a dá de graça, como é o meu caso.
Apenas esse vivente será capaz de evitar a batalha campal da Praça da Sé | 24.9.04
LULASSÍMIO, NOSSO REI
Acordar cedo para trabalhar é coisa feia, indigna, chula e típica de quem está lascado. É coisa de quem, vendendo a alma para o capitalismo selvagem por não encontrar algum trouxa que lhe pague as contas, tem o sono abruptamente abortado pelo despertador, sacrifica o corpo na busca pelo dinheiro e, em meio à tormenta nebulosa de um cérebro que tenta funcionar na base do tranco, se arrasta da cama até o chuveiro ralhando contra tudo e contra todos, feito um moribundo à beira do ingresso para o inferno. Acordar cedo, acima de tudo, faz mal ao espírito. Vez ou outra, porém, o sacrifício até que vale a pena - se é que a exceção serve de consolo para a regra. Digo isso porque, por precisar acordar cedo, acabei por acompanhar, ao vivo, a entrevista coletiva que o nosso rei Lulassímio concedeu a algumas emissoras de rádio. Aumento do superávit primário para pagar a dívida, pedido de desculpas por inaugurar uma obra pública em São Paulo enquanto pedia votos para a ex-senhora do Senador Suplicímio, promessas de um 2005 muito melhor, nada disso me chamou a atenção. Tratam-se, essas, de questões para as quais meu xucro intelecto não está preparado para sorver, ainda mais às sete e qualquer coisa da matina. O que me chamou a atenção foi o início da entrevista. Ao início da dita cuja, alguém perguntou ao Lulassímio: - Tudo bem, presidente? - Tudo bem - respondeu o presidente, num tom de voz alegre, para depois acrescentar: - Quer dizer, mais ou menos: não tão bem, porque o Flamengo perdeu nos pênaltis ontem - explicou, com a maior tranquilidade do mundo. O Lulassímio disputa eleições desde 1982, de forma ininterrupta. Em razão desses mais de 20 anos de peleja, ainda que de modo involuntário, sei que o atual presidente se diz - ou melhor, se dizia - torcedor do Sport Club Corinthians Paulista. Vendo projetada sua barbuda figura por todo o território nacional na condição de Rei do Brasil, o Lulassímio resolveu que era melhor trocar de time. Agora torce para o Flamengo - que tem mais simpatizantes pelo Brasil do que o antigo time do rei. Um camarada pode trocar de emprego, de profissão, de mulher, de família e, hoje em dia, até de sexo. Mas quem, numa mesma encarnação, migra, feito uma salamandra, de um time de futebol para o outro não merece respeito. Tem o caráter menor do que o de um anão (todo mundo sabe, os anões são conhecidos pelo seu notório mau caráter, mas isso é outra história). E tanto menor é o caráter conforme a serenidade com que se revela a traição. Alguns, que gostam do Lulassímio porque votaram nele (e ninguém gosta de dar o braço a torcer), haverão de objetar: "O que o Lulassímio quis dizer foi que, no Rio, ele torce para o Flamengo; em São Paulo, ele continua sendo corinthiano". A despeito dessa interpretação ir mais longe do que disse próprio interpretado, pergunto eu: para que time o Lulassímio torce no Acre? E no Amazonas? E no Piauí? E em Ribeirão Preto, Botafogo ou Comercial? Duvido que o Lulassímio torça para algum time nos Estados do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais - lá, por serem divididas meio a meio as torcidas dos dois maiores times, nenhuma vantagem leva quem declara seu amor por um deles. E mais: num jogo do Corinthians contra o Flamengo, para quem o Lulassímio haverá de torcer? Para minha tragédia, torço para o Palmeiras desde que adquiri um mínimo de consciência a respeito de minha própria existência. No estádio ou no quarto, hipnotizado pelo narrador que falava sem parar pelo velho rádio de pilha, passei o diabo com as múltiplas e reiteradas vergonhas do meu time, durante boa parte da minha vida. Do mesmo modo, testemunhei o sofrimento dos amigos corithianos em 1993, ao verem o maior dos rivais ser libertado de quinze anos de escravidão imposta pela humilhação que parecia ser eterna - assim como também passaram o diabo em 2000, vendo o mesmo rival, com um time pior, lhes tirar nos pênaltis, pelo segundo ano consecutivo, a chance de ganhar um título inédito. Convenhamos: quem diz que torce para mais de um time de futebol não torce para nenhum. Não vamos negar o que sabemos. Outros irão dizer: "É justamente isso que explica a situação: o Lulassímio não torce para nenhum time, ele fala disso só para se solidarizar ao povo". Se for essa a verdade, então o caráter do Lulassímio é ainda pior: corinthiano, flamenguista ou torcedor do Treze de Campina Grande, para se dar bem, ele declara ser uma coisa que ele não é (e isso há mais de 20 anos). O senhor Paulo Maluf também declara que não tem contas bancárias no exterior. Sem contar que, agindo assim, o Lulassímio perde uma chance de ouro de explicar aos seus seguidores uma regra que deveria fazer sentido até para um torcedor da Portuguesa: não é o time de futebol que deveria sustentar a simpatia a esse ou a aquele companheiro que deseja participar de uma eleição, ainda que para síndico. Parece muito óbvio? Sem dúvida. Mas o Lulassímio não pensa assim: ele tem tanto respeito pela inteligência alheia quanto eu o tenho pela inteligência de um torcedor do Malutron, do Paraná. Por fim, sobra o argumento de que o rei, na verdade, está pouco se lixando para o futebol: dizendo-se apreciador do esporte, ele quer apenas ficar próximo do povo. É o mesmo expediente utilizado pelo general Médici, aquele democrata. Sempre é possível defender a atitude de quem a gente gosta, por qualquer que seja a razão. Muita gente achou que o Golpe de 64 foi uma boa idéia, e mais gente ainda achava o Médici um patriota. E há ainda os eternos eleitores do senhor Maluf - embora esses, a cada ano que passa, caminhem para a pura e simples extinção. Pode parecer exagero essa história, mas não é. Quem troca de time de futebol é capaz de trocar de qualquer coisa. É capaz de pisar no pescoço da própria mãe - acusação que, no passado, o próprio Lulassímio lançou contra o finado Leonel Brizola. E é não menos capaz de dizer um sonoro "Foda-se a Constituição" quando advertido sobre a dificuldade de sustentar a licitude da expulsão do País de um repórter imperialista que publicou coisas que não lhe agradaram - como revelou o jornalista Ricardo Noblat no seu blog. Sei que falar do mal do Lulassímio, assim como acordar cedo, é coisa feia, indigna e chula. Mas, acordando cedo ou não, vamos mesmo é sair todos lascados.
Na Argentina, o Lulassímio torce para o Boca. | 22.9.04
SAUDADES DA MISSA CÔMICA Entre os objetos de maior valor que possuo está uma meia garrafa de 51 e um livro do Nelson Rodrigues, além de uns gibis velhos do Cascão. Tudo, presente de Dom Paulo a este mindingo que vos fala. O livro - que é um dos personagens principais deste texto - é o famoso "O Óbvio Ululante", um compêndio de crônicas escritas pelo mestre em sua coluna "Confissões", do jornal "O Globo", no correr do turbulento ano de 1.968. É de uma dessas crônicas que plagio a expressão "missa cômica", contida no título que encima estas linhas. Discorria o ilustre escritor pernambucano, na crônica "A Missa Cômica", sobre a proposta de Dom Hélder - essa figura eterna em seus escritos " de "atualizar" a liturgia da missa católica. "Por que apenas os órgãos, os violinos, apenas os címbalos podem louvar a Deus, e não o reco-reco, a cuíca e o tamborim?" - eis o que propugnava o ilustre arcebispo, segundo a transcrição literal do Nelson. O escritor, especulando sobre o futuro da eucaristia diante do alvitre de Dom Hélder, pintou uma cena daquilo que julgou ser o quadro que em breve se veria, caso a proposta do arcebispo vingasse: "Lá estão os padres, os coroinhas. E, ao mesmo tempo que cumprem o cerimonial, os padres e os coroinhas fazem toda uma ginga de ventre e quadris e sambam com uma impressionante variedade rítmica". E conclui o seguinte, acerca dos propósitos implícitos dessa nova liturgia: "A gafieira estava fazendo concorrência à fé. Portanto, vamos trazer para as catedrais o reco-reco, a cuíca e o tamborim". E o nosso Nelson, em toda a sua mordaz bonomia - perdoem-me o oxímoro - mal se deu conta de que sempre, absolutamente sempre, a realidade salta mais longe que a ficção. *** Chego em casa quase ao raiar do dia de domingo. No meu íntimo, talvez por efeito das diversas cachaças que ingeri, creio que ainda estou no sábado. No fundo, o dia em que estamos é sempre uma questão subjetiva. Pensem nos japoneses, que estão neste e noutro tempo ao mesmo tempo. Chego em casa, como dizia, e resolvo comer algo para tornar a ressaca do dia seguinte menos medonha (a habitualidade da cana dá esse automatismo ao bêbado, que se cuida sem perceber). Enquanto o pedaço de torta velha é recauchutado no microondas, esse aparelho milagroso, ligo a tevê. Rodo os canais e estaco em um deles: é a temida missa cômica feita carne e osso. Fosse o Nelson vivo, e morreria no mesmo instante. Esse foi o meu pensamento inicial. *** O Padre Marcelo. Sempre ouvi seu santo nome, mas nunca tinha visto sua iluminada figura em ação. E bota ação nisso. Nem o mais ousado entendimento julgaria possível, um dia, o sacerdote exigir de seus milhares de fiéis a prática do "alongamento" antes da missa. Que na idílica missa cômica do Nelson Rodrigues entrassem os reco-recos e os tamborins, vá lá. Mas nesta missa, real e palpável, entra o alongamento em pleno templo. Foi aí que comecei a sentir saudades da romântica missa cômica do Nelson. O futuro de cuícas vaticinado por ele, sem dúvida, era mais romântico que o nosso presente. Digo e repito: se meus olhos de bêbado insone não me traem, foi isso mesmo que vi. O clérigo, como numa dessas modernas academias de ginástica que infestam a cidade, demonstrava aos velhos, velhas, crianças e gordos da platéia como é que se prepara o corpo para uma eucaristia das boas. Puxa o braço pro lado, agora pra cima, agora a panturrilha, e assim por diante. É bom se preparar porque o sermão vai ser pesado. Receber o corpo de Deus no seu corpo não é coisa mole não, rapá. Tem que suar para receber a hóstia. Talvez se trate apenas de mais um exemplo do lema "no pain, no gain", expressão que certamente tem suas origens na própria igreja católica, ela que sempre apreciou um bom martírio, e chegou a dizer que o reino dos céus estava assegurado aos pobres e àqueles que sofrem. O céu tem por condição o sofrimento, e ai de quem não tiver sofrido em vida. Quem não sofreu em vida, vai é sofrer no inferno. Cá pra nós, prefiro viver bem e sofrer só depois de colocar o óbolo na mão do derradeiro barqueiro. E quem me assegura o catolicismo do "no pain, no gain" é o ilustre Padre Vieira, no piedoso "Sermão XIV, na Bahia, a irmandade dos pretos de um engenho, em dia de São João Evangelista, ano de 1633". Nessa bela lição de fé, o famoso orador católico assim justifica a escravidão aos escravos, numa empreitada retórica que, convenhamos, não deve ter sido das mais fáceis: "Assim como Deus vos fez herdeiros de suas penas, assim o sereis também de suas glórias, com condição, porém, que não só padeçais o que padeceis, senão que padeçais com o mesmo Senhor". Eis o que quis dizer o bom Padre Vieira, numa tradução livre: "continua escravo e ralando nesta vida, negrada do caralho, que com isso ganharão um vale polpudo a ser resgatado no Além". Mas o Padre Marcelo - que é bondoso e, sobretudo, moderno - como quota de sofrimento cobra dos fiéis apenas uns alongamentos e uns exercícios físicos, em troca do que dá aos tais, aqui mesmo nesta vida, a hóstia que purgará esse povo piedoso de todas as suas safadezas. É a salvação pela malhação. Bom, melhor que no tempo do bom Padre Vieira. Entretido e quase comovido pela missa-mais-que-cômica, esqueci a torta velha queimando no micro, até porque minha fome sumira diante de tal espetáculo. Meu cérebro é pequeno demais para conter a informação da fome e a da realidade do Padre Marcelo. Pois o show estava apenas começando. Deviam ser umas seis horas da manhã de domingo, e aquelas impolutas almas mal iniciaram seu ministério de fé. "Esses aí não devem ter saído no sábado à noite", pensei comigo, maldosamente. E, de fato, aquela santa ginástica dominical devia ser a melhor - ou talvez única - diversão daquela gente sem dinheiro para cerveja. O raio de sol de suas vidas era alongar com o Padre Marcelo, numa manhã de domingo. *** E eis que começa o show pra valer. De olhos esbugalhados e ouvidos atentos, tento captar a profunda lição das músicas cantadas pelo padre hype. Cantadas, dizia eu, e logo me corrijo: o cantor, digo, o padre Marcelo Rossi antecipava os versos de sua sagrada canção, para que o público inculto não errasse na hora de cantar. Assim ajudados, o coro ficou potente. Em dado momento, a turma cantou, em uníssono, a incrível "A Alegria (Aeróbica do Senhor)". Repito: A Aeróbica do Senhor. Quem duvidar que entre no site do bom padre-ginasta e confira com os próprios olhos e ouvidos, na seção em que se promovem os seus santos CDs (http://www.padremarcelorossi.org.br/?system=album&action=musicas&aid=47). Mais não direi sobre o teor das músicas, permeadas que estão de mistério e religiosidade muito mais intangíveis que o velho e anacrônico cantochão. A direção de imagem do espetáculo era, sem dúvida, muito melhor que a do Oscar, aquela festa pouco católica de Hollywood. Diante irresistível beleza contida na letra da Aeróbica do Senhor, uma senhora gorda emocionou-se. Começou então a chorar convulsivamente em meio aos muitíssimos milhares de fiéis. A câmera astuta logo a capturou em close, para gáudio dos telespectadores que acordaram às seis da matina só para dançar em casa ao som da santa música. Outra lágrima, outro close. Logo o choro se contamina e o cameraman, talvez enjoado de tanta água ocular, resolve variar e volta ao palco, digo, ao púlpito onde estão os "personal 'sacerdotes' trainners". Sim, sacerdoteS, no plural. Porque um espetáculo desse não se conduz com apenas um MC, digo, com apenas um padre. Além do mencionado Padre Marcelo, a estrela principal, havia também um outro clérigo dando show. Contrariando a nossa experiência que diz que o padre mais velho e experiente é hierarquicamente superior ao padre mais novo, ali o assessor era nitidamente o padre mais velho, que servia de "escada" ao padre mais moço. Mas também pudera: dificilmente aquele senhor de óculos atrairia tanta gente para um culto. O Padre Marcelo, antes de padre, era um atleta em seus quase dois metros de altura, conforme me afiançaram uns colegas mais instruídos que eu na fé católica. Graças a um desígnio insondável do bom Deus - me asseguram também esses amigos catequizados -, o jovem Padre Marcelo resolveu-se pela vida monástica depois da morte acidental de um primo, a quem ele era muito chegado. Deus seja louvado. *** Enquanto o Padre Marcelo recuperava o fôlego entre um número musical e outro, a palavra era dada a esse padre mais velho, seu auxiliar-de-palco. Começava então um sermão improvisado, no melhor freestyle dos rappers nacionais. Mas eis que o bom e experiente padre, na sua volúpia de pregar a palavra da salvação, começa a se empolgar e, sem tempo para maiores consultas ao texto frio da Lei de Deus, resolve tascar no público umas passagens bíblicas, digamos, pouco ortodoxas, sempre com o fito de ilustrar o piedoso sermão. E quem iria lhe dizer que a coisa não se dera daquela forma no tempo de Cristo? "E Jesus disse isso...", "E Jesus quer aquilo...", "E Jesus é aquilo outro..." - assim o criativo padre dava cores e contornos mais vivos ao seu convincente sermão. Nada mais justo: quando se conta uma história, é lícito ao narrador acentuar certos aspectos, ou desprezar outros de menos interesse e menor vivacidade. Na platéia, o público se rejubilava, mãos ao alto e olhos marejados, num "Aleluia!" sem fim. O que um padre fala é lei. E mais: é fato. A verdade se afere pela boca de onde saem as palavras. E, ali, quem falara fora um padre. E uma padre chegado do santo Padre Marcelo. Logo, é tudo verdade revelada, e revelada ali mesmo, ao vivo e online. *** Meio bêbado, meio humilhado pelos meus pecados diante de gente tão santa, acabei por me esquecer de outros detalhes da santa missa televisiva do Padre Marcelo, este ritual tão sui generis que faz a "missa cômica" vaticinada pelo Nelson Rodrigues parecer um idílio romântico. No entanto, outra pessoa mais instruída que eu nos mistérios da fé do Padre Marcelo Rossi me afiança que há prodígios muito maiores e mais dignos de nota do que a simples mise-en-scene da sua disputada missa. Há, entre tantos feitos notáveis, por exemplo a "tele-bênção das carteiras de trabalho". Sim, isso mesmo: o sujeito que não tiver disposição para se benzer na presença do santo clérigo paulistano, pega a sua carteira de trabalho, põe-na sobre a mão espalmada e, por efeito milagroso do santo padre e da tecnologia digital, recebe no aconchego de seu lar a unção que lhe garantirá emprego rápido e de boa remuneração. Viva o Padre Marcelo, o taumaturgo que, de Interlagos para o mundo, transmite o tele-milagre. *** É duro ter mais fé numa meia garrafa de 51 do que no alheado olhar do santo padre paulistano. Academia e diversão grátis, e um bom emprego de quebra. Fosse eu mais piedoso, e não precisaria ter estudado quase a vida toda, nem ralado feito um hamster de roda de gaiola. Para obter um bom emprego, bastaria pegar a minha velha carteira de trabalho, pô-la sobre a mão e derramar uma lágrima diante da televisão. É disso que, pelo jeito, o Jesus do Padre Marcelo gosta. Convenhamos: a exigência é um capricho pequeno diante de tão elevada recompensa. Doenças? Pelo mesmo expediente se curam. E se você não tiver um tostão para dar em troca, de modo a auxiliar o piedoso padre na construção de um templo bizantino maior, ou mesmo para adquirir um dos instrutivos seis CDs lançados pelo padre ¿ nada será problema. Para vocês, pobres que por falta de fé ainda não tiveram a carteira de trabalho assinada e a do bolso recheada, para vocês o show é cortesia da casa. Da Casa do Senhor. Afinal, tem ovelha que não dá nem leite nem lã, mas se reproduz, aumentando o rebanho para a maior Glória do Senhor. Quem mandou eu ser ateu, e ainda por cima ateu praticante. Tenho mais é que ralar no inferno que é a vida terrena. A única coisa que me conforta é o bom senso do Inri, esse oásis no deserto da dor, como diria o saudoso Tim Tones.
Esse aí já trocou até o vinho pelo whisky escocês | 21.9.04
EU, O CORNO
Sou um sujeito antiquado. Embora, em termos cronológicos, seja possível sustentar que não sou dos mais velhos - principalmente se a base de comparação for, por exemplo, a população frequentadora de uma casa de bingo nas terças-feiras à tarde -, sinto-me menos adaptado aos costumes em vigor do que muita gente que já era adolescente antes de eu nascer. Ser antiquado não é o mesmo que ser antigo - não obstante se possa ser as duas coisas ao mesmo tempo, o que, no meu caso, é situação que, de uns anos para cá, tem se dado com infeliz frequência. Sou tão antiquado que, nos meus tempos de jovem, os casais, ainda que ligados pelos laços que caracterizam o estado civil denominado de namoro (a saber, habitualidade, exclusividade e dependência), adiavam a todo custo ser chamados assim, e ofendiam-se se um terceiro o fizesse sem sua autorização expressa e formalizada - porque isso, pelos costumes da época, era considerado um demérito, um vínculo que, se caracterizado, transfigurava a nobre condição de homem (ou mulher) livre na desprezível figura de escravo de outrem. Hoje em dia, a coisa ficou diferente: casamento, namoro, amizade ou seja lá o que for, é tudo a mesma coisa: a habitualidade é apenas a rotina enfadonha, a exclusividade é a ficção dos fracos e a dependência, só se for econômica. De tanto comer melado, acabamos lambuzados. Se isso é bom ou ruim, aí já se trata de uma questão de gosto - que, por definição, não se discute. Eu, particularmente, acho bom - porque, como diz o Comendador Gomes, meu guru espiritual, se o povo quer comer merda, quero mais é dar a colher. A preferência, contudo, não significa que estou plenamente adaptado aos novos conceitos em voga nos dias que correm. Mas, pensando bem, acho que também não estava adaptado aos antigos. Que o diga a minha testa. *** Eram tempos misteriosos aqueles. Naquelas eras românticas, viver não era preciso; duvidar era preciso. Era preciso duvidar - duvidar da fidelidade alheia, duvidar da fidelidade própria; duvidar do que se supunha ser verdadeiro, duvidar do que se sabia ser mentira. Duvidar da própria dúvida. Ver a mesma moça - e nenhuma outra mais - quatro vezes por semana, falar ao telefone com ela os sete dias por semana, duas ou mais vezes por dia. E ainda assim ter a dúvida, a dúvida da próxima vez, por mais certa que ela fosse, por mais próxima que ela estivesse. E, de dúvida em dúvida, numa constância duvidosa, habituei-me a depender dela com exclusividade. E nessa condição fiquei por alguns meses, tenho dúvida de quantos exatamente. Tínhamos, ambos, dúvidas de tudo, jamais nos permitimos um chamar o outro de qualquer coisa que não fosse o próprio nome de batismo. Até que um dia ela me perguntou: - Você me promete dizer a verdade? Nunca entendi o que uma mulher pretende dizer com isso. Parto do pressuposto de que, se alguém me pergunta algo, é porque imagina que vou dizer a verdade - ou que, pelo menos, não vou dizer previamente que vou contar uma mentira. Espero viver mais uns oitenta anos para tentar desvendar esse mistério. - É claro - respondi, em dúvida. - Se você estivesse, sei lá, com os seus amigos, na faculdade... - é preciso dizer que nós não estudávamos no mesmo lugar. - Sei... - Numa festa da sua faculdade, por exemplo. - Sei... - E você tivesse conhecido, sei lá, uma loira linda, assim, maravilhosa - disse ela, que tinha os cabelos escuros. Nunca entendi a eterna rivalidade feminina construída a partir de uma simples diferença de tonalidade da cor dos cabelos. - Sei... - E ela desse em cima de você... - Sei... - E você tivesse certeza de que eu não iria aparecer na festa... - Sei... - Você... - Sei... - Você... - Sei... - ... ficaria com ela? Mas qual a necessidade dessa pergunta? - Sei... Ela se irritou: - Ficaria ou não ficaria? - É claro que não - confessei, com uma tranquilidade só menor do que a minha absoluta convicção. - E por quê? - Primeiro, porque as coisas não acontecem assim. Quando a gente gosta de alguém, nem percebe se vem uma outra pessoa e dá ou deixa de dar em cima de você. Mas ainda que eu pudesse perceber, a coisa vira uma questão de comparação: eu comparo você com a outra e, como entre duas coisas, a gente sempre escolhe a melhor, eu não vou ser masoquista e escolher a pior. É simples, apesar de parecer bobo. Ela não falou nada, mas não conseguiu esconder o sorriso de orgulho. Foi a minha vez de ter dúvida: - E você? - Eu, o quê? - Se fosse com você... - O que é que tem? - Você ficaria com um outro sujeito? - Não sei. Pronto. Eu acabava de decretar a minha própria sentença de morte. Se eu tivesse a sorte de encontrar a tal loira que, de maneira miraculosa (e, sobretudo, inédita), viesse se jogar por cima de mim, teria descumprido minha palavra de honra não para com ela, mas para comigo mesmo; se tivesse ela oportunidade similar, ainda que com um pedinte de rua desdentado, eu nada haveria que reclamar - porque, afinal de contas, ela foi bem clara, e nada me prometeu. Teria sido melhor permanecer em dúvida. Tivesse eu o dicionário de mulher-alemão que Dom Gustavo descobriu e teria interpretado o seguinte de toda essa história: "Trouxa". E, embora o dicionário possa explicar a semântica, creio que ele jamais será capaz de explicar o porquê. *** Antes do final de semana, ela avisou: - Vou visitar a minha avó no final de semana. - Sei... - Ela mora no interior... - Sei... - E você sabia que, nesse final de semana, vai ter um show do Gilberto Gil? Inacreditável coincidência. Ah, como era bom aquele tempo de dúvida... *** À luz de tão pouca dúvida sobre a iminência do meu corno anunciado, dei por tacitamente rescindido aquele contrato, de algumas obrigações e, convenha-se, pouquíssimos direitos. Não telefonei mais, comunicando, expressamente, minha intenção de não me manifestar. E assim ficamos sem nos falar pela semana inteira, lapso de silêncio inédito até então. Na sexta-feira ela me ligou: - Por que você não me telefonou? Creio que a resposta era dispensável. De modo que, em sendo assim, fiz outra pergunta: - E por que você não me telefonou? Outra resposta dispensável. Mas ela insistiu: - A gente precisa conversar. Tradução: "Meu filho, o corno que você tomou não foi brincadeira...". - Conversar sobre o quê? - Conversar. Tradução: "Vou lhe contar que o corno que você tomou vai ficar na História Mundial dos Cornos". Tentei dar uma de malvado: - Hoje é impossível. Vou à festa de aniversário de um amigo meu. - Onde vai ser? - Por que você quer saber? - Você não quer que eu vá? Tradução: "Querido, não esquente a cabeça com o par de chifres que eu lhe botei na testa: o que os olhos não vêem, o coração não sente". - A festa vai ser num bar, você pode ir se quiser. Mas acho que não vai ser um lugar legal pra gente conversar. - Puxa vida, eu gostaria tanto de ir... ¿ veio uma voz doce. Tradução: "Quem manda nessa porra sou eu". - Não tenho como impedir. - Pôxa, você é fogo, né? Tradução: "Não apenas irei, como vou ficar com um amigo seu na sua frente". Aquela história estava ficando mais tenebrosa do que "O Exorcista". - Preciso desligar - expliquei, com vontade de sair correndo. - Tá bom. Um beijo. Tradução: "Te cuida neguinho, que a coisa vai ficar feia pro seu lado". *** Aquela bondosa moça tinha um irmão, um pouco mais velho do que eu, o qual, embora tivesse alguns conhecidos em comum com minha pobre pessoa, nunca se interessou pelas minhas amizades ou pelos meus hábitos sociais. Portanto, não foi sem razão que estranhei quando a vi chegar na tal festa maldita acompanhada do bondoso irmão - de cujo nome, aliás, eu nem me lembrava (devendo, acredito, ser verdadeira a recíproca). Dessa vez, ela nem precisou dizer nada para que a tradução ficasse clara: "Rapaz, o que eu vou lhe contar hoje vai fazer você ficar com vontade de me dar um murro na boca. Não é à toa que eu trouxe até segurança". Posso desdenhar da boa garota com relação aos aspectos morais de sua personalidade, mas, para todo o sempre, hei de respeitar-lhe o inegável instinto de sobrevivência. - Oi, tudo bem? - ela me cumprimentou com um beijinho no rosto. O irmão, que mal falava comigo, me cumprimentou com incrível satisfação, abraçando-me com força: - Rapaz, tudo bem? Há quanto tempo que a gente não se vê, hein? Quando é que você vai lá em casa? ¿ perguntou-me ele sem esperar pela resposta, e indo feito uma flecha para um canto do bar, procurar algum conhecido para passar o tempo. Nunca havia dado um dedo de prosa com aquele cabra. Sem dúvida, o instinto de sobrevivência era herança genética daquela família. Diante de tão extremadas cautelas, só conseguia pensar numa coisa: "Fui corneado com algum conhecido. No mínimo por algum amigo. Talvez até por algum parente. Parente próximo, sem dúvida". Fiquei especulando sobre a identidade do meu carrasco. Desconfiei até do meu próprio pai, que, na época, além de casado com a minha mãe, já tinha mais de cinquenta anos idade. Seria, sem dúvida, muito difícil explicar tudo aquilo à minha pobre mãe. - E aí, tudo bem? Tradução: "E agora, otário? O que é que você vai fazer?". - Tudo bem. - Escuta, se você quiser curtir a festa, por mim, tudo bem. - Sei... - Mas você precisa saber que eu vim aqui porque queria muito conversar com você. Não tenho nenhum interesse nessa festa. - Sei... - Você é quem sabe. Se quiser, a gente nem precisa se falar. Tradução: "Dê uma de valente e eu serei capaz de dar uns beijos na boca do meu próprio irmão, palhaço". - Vamos conversar. E tinha outra opção? *** - Eu fui assistir ao show do Gilberto Gil. Finalmente parecia que ela estava sendo clara. Em muitos meses, era a primeira vez que sentia a sensação de não precisar fazer a tradução simultânea. - Disso eu já desconfiava. - Rolou uma coisa muito estranha. - Disso eu também já desconfiava. - Aconteceu sem eu ter intenção. - Disso eu tenho certeza. Ela se encorajou: - Sabe, eu estava vendo o show na pista... - No que fez muito bem. Um bom show deve ser sempre visto da pista. - Sabe a Carla, aquela minha amiga? - Estimo muito a pessoa dela. Lhe tenho apreço e admiração. - Eu estou falando sério. - Eu também. - Tá bom - disse ela sem acreditar, enquanto retomava a Carla. - A Carla me falou uma coisa que, na hora, eu achei estranho. - Pode ter sido estranho, mas certamente ela disse alguma coisa sábia. - Ela em falou assim: "Olha só, você reparou que o guitarrista do Gil não está tirando o olho de você?" - Moça de rara percepção. - Na hora, eu não acreditei. - No que fez muito mal. - Pois é. Mas depois eu comecei a reparar e... não é que o guitarrista estava olhando pra mim de verdade? - Isso é muito comum, principalmente em shows pequenos. - Comigo nunca tinha acontecido. - Sempre tem uma primeira vez. - E o pior foi que eu tive certeza de que ele estava olhando mesmo. - Nem precisava falar. - Eu olhei para ele e ele sorriu para mim. Daí eu tive certeza. - E quem não teria? - Mas mesmo assim eu não fiz nada. - Jamais eu duvidaria disso. - Só que, depois do show, eu e a Carla fomos até a porta do camarim tentar pegar um autógrafo do Gil. - No que fizeram muito bem. - E advinha quem estava na porta? - Só poderia ser o tal guitarrista. - Isso mesmo! Ela disse essa frase num tom de empolgação, com seu eu estivesse solidário com a sua causa e lhe fosse compreensivo. Nunca podemos subestimar a macaquice humana. - Sabe o que ele fez? - Mal posso esperar para saber. Mas acredito que deve ter sido alguma coisa muito digna. - Fez um sinal com o dedo, chamando a gente pra perto dele, na porta. - Rapaz de muita educação. - Aí, a gente foi, né? - Não é correto recusar um convite feito com tanta polidez. - Sabe o que ele me perguntou? - Se você já tinha refletido a respeito da existência ou não de Deus? - Não. Ele chamou a gente pra tomar uma cerveja no hotel da banda. O Gil ia estar lá. - Um convite irrecusável para quem precisa de um autógrafo. - E daí eu e a Carla fomos no carro deles. - Fizeram muito bem. - Quando a gente chegou, só tinha o pessoal do banda e mais duas outras meninas, que também estavam assistindo ao show. - O mais importante dessa vida é fazer amigos. - Foi muito legal. Só que daí a Carla sumiu. Sabe onde ela estava? - Acredito que a boa Carla, com toda a certeza, deve ter ido dormir no quarto do próprio Gilberto Gil. - Não. Ela ficou com um cara que trabalhava na iluminação. - Um cargo importante e de responsabilidade. Espero que ela faça bom casamento. - E daí eu fiquei meio deslocada. - Devem ter sido momentos difíceis. - Eu só conhecia o guitarrista. - Um porto seguro em meio ao mar revoltoso. - O quê? - Nada. - E daí eu fiquei com ele. - Faça-me um favor. - Favor? - perguntou ela, assustada. - Se for possível. - Que favor? - ela esperava pelo pior, qualquer que fosse o pior. - Não me conte onde você passou a noite. Me deixe morrer com essa dúvida. Ela olhou para baixo e respirou fundo, permanecendo imóvel por uns trinta segundos. Incrível como as pessoas não conseguem guardar segredo. De forma brusca, ela ergueu a cabeça e me olhou nos olhos com uma firmeza próxima da raiva. - Olha, o negócio é o seguinte: na hora, eu não me arrependi. Aconteceu. - Isso me parece claro. - Não me arrependi, e acho até que faria de novo. - Ter segurança é uma grande qualidade. - Só que tem uma coisa importante: enquanto eu estava com o cara, eu não consegui deixar de pensar em você. - Ter boa memória também é importante. - Pensei mesmo. - Se você está falando, quem sou em pra duvidar? - E digo mais: o cara me ligou três vezes nessa semana. - É pra isso que serve o telefone. Espero que não tenha sido a cobrar. - E sabe o que eu disse? - Certamente alguma coisa de que você não se arrependeu nem se esqueceu. - E não me arrependi mesmo. Disse pra ele me esquecer, porque eu gostava muito do meu namorado. Pensei com meus botões: e quem não gostaria? - No que fez muito mal. Eis aí a minha rixa pessoal com nosso atual ministro da Cultura. Trata-se, sem dúvida, de um sujeito maligno, um desgraçado a envenenar ainda mais nossa envenenada sociedade. Alguém há de perguntar: "Mas o que é que ele fez?". Sei lá. Alguma culpa ele deve ter, o desgramado. Saí de perto da minha recém-namorada e fui me embriagar na companhia do aniversariante. Acabava ali aquela história. Era o fim do tempo das dúvidas; iniciava-se então apenas uma era de certezas, a qual duraria para sempre. Não vou comprar o dicionário que Dom Gustavo mencionou, o tal que traduz a linguagem das mulheres. Como disse, sou antiquado demais pra essas coisas. Antiquado e antigo, ao mesmo tempo.
O amor sincero não resiste a um corno *** | 20.9.04
DIÁLOGO BILATERAL
Sei que não sou vidente, telepata, astrólogo ou profeta. Muito menos sou versado nas artes da quiromancia, da cabala, de umbanda ou seja lá que diabo for. Na verdade, não consigo nem prever a que horas vou chegar no trabalho. Mas de uma coisa tenho absoluta certeza: se, por algum acaso, num dia qualquer, ainda que no interior do mais emporcalhado dos botecos, eu me utilizasse da expressão "diálogo bilateral", seria xingado de burro por todas as almas penadas que por lá estivessem vagando, inclusive pelo mindingo que, com o dinheiro amassado da esmola, estivesse a tomar um copo de cachaça quente no canto no balcão. - Vai te instruir, ó ignorante! - berraria o português da caixa registradora manual. Uma trovoada de gargalhadas histéricas dos demais fregueses cairia ininterrupta por pelos menos uns cincos minutos. E, depois de não aguentarem mais rir, esses colegas, sentindo-se verdadeiros acadêmicos, fariam fila indiana para, um por vez, me homenagear com um soquinho na cabeça. Inclusive o mindingo. É provável, ainda, que o português, por detrás do balcão, me jogasse água para ver se me espantava dali, porque minha presença ali esculhambaria com o bom conceito do lugar. - Aqui não te sirvo mais, ó pá! Em resumo: não teria mais condições intelectuais de frequentar aquele estabelecimento. Caso o banho de água da torneira não fosse suficiente, seria expulso a pontapés, para depois, quem sabe, ser dependurado num poste, só para dar o exemplo de como é importante ter um mínimo de instrução. Por outro lado, na semana passada, o artístico ministro da Cultura, doutor Gilberto Gil, disse, em cadeia nacional de rádio e televisão, que, antes do compreensivo Governo Federal enviar ao Congresso o anteprojeto que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (aquele órgão que, pelo que entendi dos argumentos dados pelas autoridades pátrias, vai prestar um grande serviço à Nação limitando o número de salas que irão exibir o "Homem Aranha 3, A Vingança da Mosca"), era preciso promover um "diálogo bilateral" com a sociedade. É isso aí: diálogo bilateral. Creio, cá comigo, que o ministro até que foi modesto. Afinal de contas, todos sabem que boa parte da miséria e da falta de educação que assolam o País é consequência direta da exibição maciça do "Homem Aranha" e do "Homem Aranha 2" nos nossos shopping centers - sendo razoável supor que, caso o cinema prestigiasse nossos heróis nacionais, como, por exemplo, o Fantocha, o Capitão 7, o Padre Marcelo e o Doutor Dráuzio Varela, sem qualquer sombra de dúvida nossa triste situação mudaria radicalmente. Sendo assim, e dada a importância de tão delicado tema, arriscaria eu a dizer que a matéria demandaria não só um diálogo bilateral, mas alguns diálogos trilaterais ou, conforme o caso, quadrilaterais até. Sinceramente, isso não me surpreendeu. De quem, na primeira entrevista coletiva como ministro, apressa-se em declamar verso de sua própria autoria, dizendo "Subo nesse palco, minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê", tudo pode ser esperado - pois, se encaixado numa composição musical, o verso já tem beleza poética no mínimo duvidosa, a rima, saída da boca de um funcionário público, na mais benevolente das hipóteses afigura-se genuinamente dadaísta. Estivesse o culto ministro a falar coisas tão profundas no boteco que acima mencionei e, diante do olhar de perplexidade dos companheiros de balcão, só restaria ao português da caixa registradora berrar: - De que hospício vens, ó Gilberto? Muita gente vai dizer que o sujeito é um artista, que, diante de tudo que fez pela música popular brasileira, ele pode dizer que o bem entender, que ele tem crédito, que tudo que ele disser está acima da compreensão comum, que ele é um gênio etc etc. Não vejo sinceridade nesse argumento. Se um cabra que pensa desse jeito, num dia desses, chegasse em casa mais cedo do serviço e visse sua santa mulher fornicando na cama com o genial ministro, sou capaz de apostar que o sujeito iria mesmo era descarregar a garrucha na bunda ministerial, deixando-a com cheiro de pólvora, não de talco - pouco importando, numa hora dessas, o que o senhor Gilberto fez ou deixou de fazer pela música popular brasileira, ou até mesmo pela humanidade. É tudo uma questão de interesse e de ocasião. É triste admitir, mas parece que, entre nós, somos mais parecidos do que imaginamos. Outros poderão argumentar: "Por que essa preocupação toda com uma coisa tão boba? Por acaso você conhece o homem? Por acaso ele fez alguma coisa de errado com você?". A tendência natural seria antecipar uma resposta negativa. Pois é justamente aí que eu queria chegar. Ao contrário do que poderia supor a profecia fácil, tive uma experiência pessoal e direta com esse senhor, a qual me habilita não apenas a especular, mas a condenar a desonestidade de seu pequeno caráter. Lembrei-me de tudo isso ao ler o último texto de Dom Gustavo, que trata do dicionário criado na Alemanha sobre a tradução das falas femininas. É isso mesmo: o texto sobre a tradução da linguagem feminina para o, por assim dizer, idioma dos homens me lembrou uma lamentável história que se sucedeu comigo - e que envolveu o festejado ministro. Admito, é claro, a estranheza da correlação entre uma coisa e outra - que me faz parecer tão dadaísta quanto a entrevista do ministro que cheira a talco. Deixo, porém, essa explicação para depois, pois os padrões internéticos de tempo e paciência, como se sabe, lutam tanto contra quem escreve quanto contra quem lê, tornando-os mais parecidos entre si do que gostariam - assim como é na falta de habilidade para profetizar as coisas mais prosaicas, ou nas involuntárias manifestações dadaístas que fazemos todos dias, imaginando estarmos passando por geniais. Este intelectual também gostaria de instruir o povo | 17.9.04
DICIONÁRIO MULHER-ALEMÃO
Não foi sem surpresa que li a notícia do lançamento, na Alemanha, de um dicionário que traduz para os homens as expressões femininas. Espantou-me menos o pitoresco do lançamento em si, e mais a constatação do quão elevada está a nossa ciência hoje em dia. Lendo a notícia, fiquei com uma sensação parecida com aquela que devem ter experimentado os telespectadores quando viram o homem pisar na lua. "Nunca imaginei que algum dia conseguiríamos essa proeza", deve ter dito o seu Chico de Pirajuí à sua patroa, como se também fosse dele, e não apenas dos americanos, o êxito da missão espacial. E, de fato, certas conquistas são de toda a humanidade, e não apenas de certos povos. Diz a notícia, veiculada pela prestigiosa Reuters: "Uma editora de dicionários líder de vendas na Alemanha planeja lançar um guia que ajudará os homens a traduzir o que as mulheres falam nas entrelinhas. O grupo Langenscheidt, mais conhecido por seus respeitados dicionários de língua estrangeira, editou um guia que traduz frases femininas desconcertantes como "Vamos ficar abraçados" (a tradução, segundo o guia, seria: "sem sexo hoje, por favor!"). "Cada capítulo, dividido por assuntos, oferece aos homens dicas de comportamento e explica mensagens obscuras transmitidas pelas mulheres em situações do cotidiano", disse Silke Exius, editor chefe da Langenscheidt. O livro "Alemão-Mulheres/Mulheres-Alemão" terá 128 páginas e deverá chegar às lojas em outubro." Apesar do reduzido número de páginas - e, por conseguinte, da diminuta quantidade de expressões femininas traduzíveis -, o livro já deve ser best-seller por antecipação. Qual homem de boa vontade nunca sonhou um dia entender as enigmáticas frases ditas cotidianamente pelas mulheres, e que fariam uma esfinge contorcer-se de dúvida? "Por que essa cara amuada?" - "Você nem reparou que eu cortei o cabelo hoje..." - "Mas está igual! Se cortou, foi um dedo, e olha lá, não dá nem pra perceber!" - "DOIS dedos. E ficou muito bom, fiquei muito melhor, mas você nem elogiou...". Depois desse diálogo, eis a sentença condenatória que transitou em julgado na mente da injustiçada namorada: "hoje à noite, sexo com esse desalmado nem pensar". O exemplo acima é de minha lavra, e fruto de experiência no contato direto com mulheres. Lamentavelmente, quando sair do prelo o tal dicionário mulher-alemão, não poderei me socorrer dessa poderosa arma de prevenção de conflitos, porque infelizmente desconheço o idioma teutônico. Mas o lançamento deu-me o que pensar, e agitou minha memória. É por isso que farei a seguir menção a outras expressões femininas de alta indagação, que comumente surgem nos diálogos (alguns diriam embates) entre macho e fêmea. "Onde você prefere jantar?", pergunta o generoso rapaz, já no carro, crendo que dar a opção de escolha à donzela é grande cortesia. "Vamos aonde você quiser. Você é quem sabe" - diz a mulher, numa aparente benevolência. E eis o que ela está pensando: "esse pusilânime me convida para jantar e eu é que tenho que saber o lugar?! Esse aí é um fraco". Dificilmente esse primeiro encontro um dia resultará em sexo. E outra: "Você emagreceu, hein?" - atesta o inocente varão, no intuito de fazer gentileza à moça. "Quer dizer então que eu estava gorda, é?!?" - responde a dama, já nada enigmática, externando a sua estranha conclusão em face do despretensioso elogio. "Vamos ao banheiro?", diz a moça à amiga. "Vamos futricar longe desses putos da mesa", é o que ela quer dizer. "Seu cabelo está lindo", repara uma amiga na outra. "O cabelo dessa vadia está ridículo, mas deixa ela pensar que não" - é o que a "amiga" quis dizer. "Você já me traiu?", pergunta a mulher ao esposo. "Não, nunca", naturalmente é a resposta. E eis o que ela pensou ao formular o questionamento: "se algum dia eu descobrir uma pulada de cerca, além de traidor, chamo-lhe de mentiroso!". E quando a mulher trai, não é por simples desejo lúbrico não. "O culpado é você, que não me dava a necessária atenção" - e fica o corno, além de corno, também culpado pela traição de que fora vítima. Tudo por causa da oblíqua forma de comunicação das mulheres. A moça e o rapaz com quem vem saindo dão uns amassos no carro, ou mesmo já na casa dele. Ele investiga as roupas dela, e ela consente, arfando. Na hora em que os prolegômenos ameaçam chegar ao mérito da questão, e contrariando a sinceridade arfante que exala de seu corpo, a moça vira pro rapaz e diz, parando tudo com gélidas palavras: "eu não sei se quero. Não estou certa se isso é certo. Eu não me sinto à vontade, ainda". A boca às vezes mente, mas o corpo sempre diz a verdade. É por essas e outras que saúdo a vinda do dicionário mulher-alemão. Pelo menos haverá menos cizânia conjugal na terra do Bach e do Goethe, ao menos aquela com origem nos erros de comunicação. Nós, desta banda do Atlântico, continuaremos a nossa eterna peleja macho-fêmea, uns falando uma coisa, e as outras, outra. Afinal, mais difícil que entender as mulheres, é entender alemão. P.S.: Mulheres, não me digam que este texto "é machista", porque eu sei que com isso vocês estarão querendo dizer simplesmente "esse texto é verdadeiro, por isso vamos dizer que é falso".
Na eterna peleja macho-fêmea, cada um puxa a sardinha pro seu lado | 16.9.04
MEU SACO ESTÁ CHEIO
Sou um homem paciente. Não me meto em brigas, evito discussões, dissimulo desconfortos e, para não meter uma bala na fuça de algum safado, sorrio discretamente e dou-lhe total razão, por maior que seja a barbaridade que me bata aos ouvidos. Não que eu aja assim por ser bondoso. Muito pelo contrário: assim o faço no meu exclusivo interesse. E isso por duas razões. Primeiro, porque estou convencido de que pouca gente é merecedora do contraditório. Explico-me: se um cabra teima em ter determinado comportamento, não sou eu quem vai convencê-lo do contrário. Entre a possibilidade de alguém poder ser convencido de qualquer coisa e a existência do E.T. de Varginha, ponho mais fé na história do alienígena que veio até a Terra numa nave espacial só para beber o sangue de uma meia dúzia de boizinhos da fazenda do Seu Tonico - que, aliás, jurou ter visto o bicho se engalfinhando com o Valente para depois fugir correndo pela mata até entrar num disco voador. (Eis aí o autêntico apreciador de sangue de boi - vem lá de Alfa do Centauro, ou sabe Deus de onde, só para satisfazer esse capricho, digamos, especialíssimo.) Essa hipótese, é claro, não se aplica quando o cabra, previamente, já está convencido de alguma coisa em seu íntimo - faltando-lhe apenas um interlocutor que lhe verbalize aquilo que antes ela já pensava. É por isso que admiro os sábios colegas que pensam como eu. Quanto aos outros, lhes tenho muito respeito e carinho, mas, no fundo, sei que não passam de um bando de trouxas. Em segundo lugar, padeço do vício da vagabundagem e, por conseguinte, me atormenta falar o que penso. Dá trabalho demais. Pondero, gesticulo, discuto, xingo e, se bobear, até deixo o outro camarada falar um pouco enquanto, em silêncio, ganho tempo para reforçar ainda mais meus argumentos. E mesmo quando o litígio se encerra com uma aparente vitória de minha parte, tenho a indelével sensação de que, se muito, só ganhei a antipatia alheia. Muita aporrinhação pra nada. Arrependido, concluo que esse é o tipo de peleja que perde quem apanha e perde mais quem bate mais. Diferente do que diz o ditado popular, dou um boi para não entrar numa polêmica e uma boiada para sair. E digo mais: ainda que me seja possível supor que uma determinada atitude possa vir a prejudicar a própria pessoa que comigo não concorda, aí sim é que quero mais é concordar. Sou do tipo que torce pra velhinha ser atropelada no meio da rua. Hoje, infelizmente, não aguentei. E, por causa disso, é bem possível que o Mundo Símio perca no mínimo 3 dos seus 5 leitores. Eu bem sabia que essa história não ia durar muito mesmo. *** Como de hábito, procuro me instruir assistindo à televisão. Essa prática, além de instrutiva, me ajuda a digerir as batatas fritas de supermercado que, há uns bons cinco anos, são o meu jantar de todas as noites - à exceção dos domingos, é claro, os quais reservo para cear, em profunda contemplação do cosmo infinito, duas pizzas gigantes, de 10 pedaços cada uma. É como se fosse uma tradição religiosa. Ontem, porém, perdi a fome. E tudo por causa do Frei Paulo. Esse santo velhinho é a imagem encarnada da própria Bondade. Os olhos azuis piedosos, a batina marrom franciscana, a voz trêmula de humildade, os gestos delicados, a velhice, os óculos de aros grossos, a coluna encurvada, tudo, absolutamente tudo nesse homem inspira o sentimento de paz e compaixão. É fato que, certa feita, no programa da mulher do Mick Jagger, o piedoso frei, tomado por inacreditável surto de ira, vociferou maldições a um pobre coitado cujo grande feito, digno de ser polêmico o suficiente a justificar-lhe a presença na televisão, era ter pintado num quadro a Nossa Senhora de Aparecida pelada. Pecado terrível - e que, de tão tenebroso, sequer mereceu o perdão do santo velhinho. O tal pintor, me parecendo fortemente embriagado não de emoção, mas de pura e simples cachaça, chegou até a mostrar ao Frei Paulo um outro quadro de sua lavra, este último solenemente respeitoso, com a santa encoberta pelo seu sagrado manto azul. De nada adiantou: "Ele não devia ter pintado o primeiro quadro", foi a sentença final que condenava o Barba, a alcunha sob a qual o herege artista se apresentava. Pois bem. Ontem, mais uma vez, estava o meigo frei no mesmo programa, mas por uma razão mais simples. A razão? Pedir dinheiro. "Fiz voto de pobreza, mas não de miséria", justificou-se o santinho. E para que o dinheiro? "Para pagar dívidas", disse o Frei Paulo, com a voz soprada feito a de um anjo. É isso mesmo: o homem estava endividado. Até os santos têm a sua fase de decadência. Fico imaginando que tipo de dívidas um frade franciscano poderia fazer. Mulheres? "Fiz voto de castidade, mas não de loucura", diria o velhinho, ao lado, imaginemos, da Carla Perez, com o pescoço enfeitado por um colar de brilhantes pagos com a sacolinha do dízimo. Não sei, não. Parece-me que o Frei Paulo já tem idade bastante pra não cair nessa. Acho que ele torrou o dinheiro dos fiéis foi mesmo apostando nos cavalos. Seja como for, para não fazer feio, o santo frei observou que, com dinheiro que estava pedindo, pretendia também montar uma creche. Vejam bem: o misericordioso padre não pretendia receber ajuda para manter uma creche que ele já possuía; ele queria dinheiro para, num dia futuro, quem sabe, montar uma creche. Com tantas instituições do gênero por aí, quase todas em petição de miséria, na iminência de serem despejadas por falta de pagamento do aluguel ou de verem cortadas a água e a luz, vem o Frei Paulo, com a candura de um coelhinho de pelúcia, pedir fundos para criar um outro treco desses - ao invés de pedir ajuda para as já existentes. Os religiosos que me perdoem, mas, depois dessa, acho que o Barba deveria pintar o próprio Frei Paulo pelado - o que me faria torcer para esse bondoso homem enfartar de vez e ir logo ter com Jesus lá no céu, de volta pro buraco de onde ele nunca deveria ter saído. De qualquer forma, nem por isso esforços desinteressados deixaram de cair no colo do santo padre. Um belo espetáculo de solidariedade foi visto. O Frei Paulo, sentadinho numa cadeira, ficava observando a mulher do Mick Jagger anunciar, um a um, os colaboradores de tão inovadora causa, os quais, depois de convocados, desfilavam pelo palco, como num desfile de modas. Depois da apresentação, cada colaborador parava diante do religioso e, com os olhos voltados para a câmera, explicava qual era a doação. - Frei Paulo, meu nome é Jorge e eu represento as Lojas Marabraz, que o senhor deve conhecer, porque vendemos os móveis mais baratos do Brasil - anunciou-se um gordinho de cavanhaque, após tomar a benção do santo frei. - Aleluia ... - balbuciava o Frei Paulo, com as palmas das mãos coladas uma à outra e o rosto voltado para cima, como que a orar para Jesus. - E nós vamos doar ao senhor 6 berços!!! - bradava o gordinho, no que em seguida foi aplaudido pelo povo. - Aleluia! - replicava o santo, com a vez embargada pela emoção. - E mais - prosseguia o gordo. - Vamos doar uma cama de casal. Cama de casal com colchão, entendeu?!? - Oh! Obrigado, obrigado - agradeceu o santinho, com lágrimas nos olhos, já pensando, especulo eu, em se endividar mais um pouco com alguma sósia da Carla Perez. Uma mulher bem vestida e maquiada, de uns quarenta anos, sentada num lugar distante do Frei Paulo e que me pareceu ser uma espécie de tutora dele, se intrometeu na conversa: - Jorge, posso te pedir um favor? - Pois não - prontificou-se o solícito representante das Lojas Marabraz, preço melhor ninguém faz. - Não daria pra você arrumar um sofá? O Frei Paulo precisa tanto de um sofá... Pra mim, ficou explicado o motivo da falência do Frei Paulo. - É... É... É claro - disse o outro, após alguns segundos de silêncio com o sorriso congelado no rosto - Frei Paulo, nós vamos dar ao senhor um sofá de 3 e 2 lugares!!! - Obrigado, amigo, obrigado - arfava o frei, naquele fiapo de voz típico dos velhinhos à beira do choro. Depois disso, a senhora Luciana Gimenez, que também ameaçava lacrimejar de alegria, anunciou um outro sujeito, um baixinho, também um pouco acima do peso, mas sem cavanhaque. - Frei Paulo, eu represento a Panicred. - Oh! - surpreendeu-se o santinho, obviamente sem saber que diabo seria a Panicred. - Nós nos comprometemos a arcar com a pintura de toda a interna da sua creche! - Aleluia! - e o Frei Paulo outra vez ficou em posição de reza, a olhar para o céu, agradecido. - Arca com a parte externa também, pô! - reclamou a mulher que, agora estou certo, devia ser devota do Frei Paulo. Dessa vez o doador titubeou: - Hum... Sabe como é... Hum... Aí é difícil. - Por quê? - quis saber a mulher. - Sabe como é.... Hum... Nós vamos pagar também o pedreiro, o pintor... Hum... São quase quatro mil reais... - pigarreou o senhor Panicred. - Aí é complicado... As possibilidades da empresa não são tantas assim... Sabe como é, nossa empresa é pequena... - Gente, a pintura interna já está bom - interveio a Luciana. - Obrigado, amigo - agradeceu o velhinho, pondo fim à discussão. - A ajuda de um amigo sempre é bem-vinda - disse, emocionado. - Luciana, só uma coisa - disse o senhor Panicred, voltando-se outra vez para a câmera e falando com a velocidade de uma velha fofoqueira. - Você, meu amigo, sabe que hoje em dia a situação está difícil. Todo mundo está devendo dinheiro por aí. Nossa empresa é especializada em limpar o nome de quem está nessa condição. SERASA, SPC, protestos, tudo. Nossa empresa limpa o seu nome pra valer. Por isso... - Opa, opa, opa - cortou a Luciana. - Não pode fazer propaganda. Seu tempo é gratuito - ela piscou. - A gente combinou: sem propaganda. - Não pode mesmo, Luciana ? - insistiu o senhor Panicred, com um olhar pidão de cachorro à beira de churrasqueira. - Não, não, não. - Tá bom... - e lá se foi embora o senhor Panicred, todo encolhido e cabisbaixo. Bem-feito. Quem mandou não querer pintar o lado externo da creche? Por experiência própria, sei que, para tirar o nome do SPC, só mesmo pagando a dívida. Quem promete coisa diversa, infelizmente, pratica o ato descrito no artigo 171 do nosso velho Código Penal: estelionato "simplex", como diria o Doutor Milton, meu consultor jurídico. Outros patrocinadores vieram. E até o nadador Xuxa presenteou o Frei Paulo com um agasalho da seleção brasileira de natação autografado por ele. Para o Frei Paulo vender num leilão e levantar um tutu. Assisti ao programa até o final, na esperança de que o Barba também aparecesse por lá e doasse um quadro ao delicado velhinho, de modo a promover a reconciliação entre ambos. Não sei se por veto do Frei Paulo, não sei se por não terem conseguido tirar o Barba do boteco, o fato foi que esse reencontro não se deu. Uma lástima. Apesar disso, nosso santo frei faturou bastante. Não sei se ele vai quitar as dívidas antigas, mas, com toda a certeza, já pode contrair novas. O turfe que o aguarde. Todas essas coisas não me chocam. O que me chama a atenção é o olhar do bondoso Frei Paulo: quem vê seus olhinhos azuis sabe que, de fato, ele se considera um santo, acredita nisso, está convencido disso, acorda, almoça, janta e dorme sabendo disso. Um santo que acha justificável receber dinheiro de quem promete livrar a cara do sujeito que está inscrito no SPC, mas que, ao mesmo tempo, não hesita em amaldiçoar o Barba com o fogo do inferno - mas sempre um santo. Um santo que batalha pela causa divina - isto é, pela sua própria causa, igualzinha a qualquer outra. Quanto mais se acredita estar próximo de Deus, mais longe dele se está.
Hoje, acordei disposto a falar umas verdades | 15.9.04
DEPOIS DO FILHO DE DEUS, O FILHO DO DIABO!!! Sim, meus caros. Depois de entrevistarmos o Inri - que, como todos sabem, é o Filho de Deus - num tremendo esforço de reportagem, agora é a vez de entrevistarmos o Filho do Diabo: Zé do Caixão! O Mojica, se tudo der certo, vai nos conceder a graça de entrevistá-lo, praticamiente. Aguardem os próximos episódios. E que praticamiente as tripa de todos você saia pra fora se perderem essa entrevista dos inferno!
Vocês praticamiente não perdem por esperar... | 13.9.04
A VERDADE DAS NOSSAS TRADIÇÕES Já dizia alguém muito mais abalizado do que eu que, mais importante do que o caboclo que escreve, é o assunto de que ele costuma se socorrer - não qualquer assunto, mas o mesmo assunto que, com insistência fundamentalista, ele sempre teima em abordar, ainda que a contragosto, e que, também a contragosto, acaba por lhe distinguir um pouco entre os demais mortais. Nelson Rodrigues, por exemplo, em seus tempos de cronista diário de jornal (que, aliás, duraram pelo menos uns vinte anos), quando estava meio sem assunto, baixava sem piedade o sarrafo em Dom Hélder Câmara e no Doutor Alceu Amoroso de Lima - chamando o primeiro de demagogo e o segundo de ignorante (isso, é claro, só para começar). O problema, no entanto, era que, mesmo quando o próprio Nelson achava que andava pegando pesado demais com os outros dois - e tentava variar o assunto -, alguém lhe encostava na rua, num restaurante, numa festa ou na própria redação, e soprava baixinho: "Rapaz, o que é que está acontecendo contigo? Por que é que você não fala mais do Doutor Alceu? Andas doente?". Como visto, não era o Nelson Rodrigues que tinha escolhido o Doutor Alceu e o Dom Hélder: eram eles é que o tinham escolhido. E lá ia o velho Nelson para máquina de escrever, feliz da vida, baixar o porrete nos vagabundos para manter a tradição. Pois é. Neste último feriado, encontrei, para azar dele, um dos cincos leitores do Mundo Símio. E ele me perguntou: "Você tem andado doente?". Cada um tem o tema recorrente que merece. *** Confesso que, sempre que posso, tenho me instruído com a doutrina do Mestre INRI. Minha idéia inicial era me dedicar com seriedade à leitura e reflexão de suas parábolas por pelos menos uns dois anos, de modo a me tornar um pouco mais versado em sua filosofia. Porém, ao revelar essa minha intenção a Dom Gustavo para colher-lhe a opinião, fui surpreendido com uma severa repreensão: - Ignorante! Como ousa meditar sobre a doutrina do Mestre, se você ainda nem está familiarizado com a história do santo homem? Pensei um pouco e vi que Dom Gustavo tinha razão. Era verdadeira blasfêmia tentar entender os ensinamentos do Mestre sem, antes, analisar seu histórico de vida (vida, que fique claro, nessa atual encarnação), suas dificuldades, suas glórias, suas batalhas. Envergonhado de minha monstruosa arrogância, perguntei ao colega se ele poderia me indicar algum texto por onde iniciar minha pesquisa: - Sim - respondeu, seco. - Pra começar, recomendo que você leia sobre os primeiros acontecimentos após a Revolução de Belém. A Revolução de Belém, pra quem não sabe (mas já deveria saber, afinal de contas, o fim do mundo está próximo e, de acordo com o INRI, quando isso acontecer, quem não estiver com ele vai estar fodido), deu-se em 1982, em Belém do Pará. Foi lá que o INRI, seguido pelo povo, entrou numa igreja e arrancou da cruz o bonequinho que imitava ele mesmo - o que redundou na sua injusta prisão pelos infiéis centuriões da polícia paraense. A partir dali, deu-se aquilo que o próprio Mestre chamou de ruptura com a proscrita Igreja Romana - sendo prova incontestável da maldição que se abateu sobre ela a terrível doença que, desde então, acomete ao outrora Santo Padre, transformando-o, a olhos vistos, numa desprezível espécie de corcunda tremelicante. Seguindo a ponderação de Dom Gustavo, descobri que o que aconteceu ao Mestre após o tal ato libertário encontra-se descrito na obra "O Despertador - 2ª parte" (sim, essa escritura é dividida em duas partes), no capítulo intitulado "Nicássio Kolino - O homem que trocou o Unigênito de Deus por um cachorro velho, cego e sarnento de quinze anos" (ob. cit., pág. 72, Curitiba, 1997). Só pelo título, vê-se a importância do que então se passou. A coisa foi mais ou menos assim. Após ter rompido com a igreja do Papa, a imprensa pôs-se a perguntar ao Mestre qual seria o seu novo feito. A resposta, a meu ver, até que foi previsível: fundar uma nova igreja, ora. E numa entrevista concedida à TV Guajará, de Belém, indagou-se ao INRI onde seria seu primeiro templo. Aí a resposta foi surpreendente: "Eu não sei", falou o filho do Homem. Tudo, porém, tem uma explicação. Revelou o INRI que o seu Pai, o Homem lá de cima em pessoa, havia lhe dito que, logo após o ato libertário, alguém lhe procuraria, orientando-o a respeito do local do novo templo. Até lá, tudo era mistério. E não deu outra. Acabada a entrevista, um cabra chamado Nicássio Kolino procurou pelo INRI, telefonou para o hotel em que o Mestre estava hospedado e disse que, há coisa de uns vinte anos, tivera um "aviso do céu": um "espírito" tinha lhe dito que o filho do Homem havia encarnado e, quando o Mestre viesse a Belém, que ele, Nicássio, estivesse preparado para o que desse e viesse. Era sua missão ajudar o INRI. Diante da concretização da profecia, o INRI resolveu "marcar um encontro" com o Nicássio. Pergunto-me todos os dias por que o Pai do INRI gosta de fazer as coisas tão complicadas desse jeito. Feitas as apresentações, o Nicássio logo tratou de levar o INRI para um lugar em que o Mestre pudesse fundar sua igreja. Tratava-se, segundo as escrituras, do lugar onde o novo discípulo do Mestre morava, além de trabalhar "numa oficina" que tinha ali; uma construção que era "dividida ao meio por uma parede, formando dois recintos com portas externas independentes". Nada mais apropriado. O Nicássio, solícito, perguntou ao Mestre com qual das metades ele queria ficar. Analisando o local, o filho do Homem concluiu que melhor seria se estabelecer no "lado em que havia um banheiro em anexo". E o Nicássio que fosse cagar no mato - acrescento eu. Precisando voltar ao "sul do Brasil" para se encarregar da "formalização" de sua nova igreja - tudo devidamente sacramentado pelo Tabelião do 2º Cartório de Títulos e Documentos de Curitiba -, o INRI ainda deixou para o pobre Nicássio a tarefa de "fazer as arrumações, pintar as paredes de branco, etc...". O Mestre, como visto, leva a sério a mensagens do céu recebidas pelos outros. Bem-feito. Ao voltar, o INRI passou a se reunir ali com o "pessoal que restava depois da revolução", que trazia, cada um, sua própria "cadeira", assim "formando uma assembléia". Os remanescentes da revolução também "fizeram um altar" na metade da casa do Nicássio e lá "colocaram uma cruz". Pronto: estava fundada a nova igreja. Enquanto isso, na metade sem banheiro da construção o Nicássio, começando uma, convenhamos, nova vida, ia se arranjando do jeito que dava - e junto com ele, iam tentando se arranjar também a esposa e um "cachorro velho, meio cego, sarnento", mas que, apesar das poucas qualidades, "era como se fosse um filho para o casal". Além do INRI e dos fiéis que volta e meia se encontravam para as assembléias, o Nicássio e sua família ganharam mais dois vizinhos de cômodo geminado: a discípula Abeverê e o "aspirante a discípulo" Tiago também resolveram morar por lá, junto ao Mestre. Não sei onde tanta gente cozinhava seus santos alimentos ou lavava e secava suas santas roupas. Com a casa diminuída pela metade, sem banheiro e ainda tendo, de uma hora para outra, a companhia de três novos vizinhos, não foi de se estranhar que a esposa do Nicássio, que não teve sonho nenhum, ficasse um pouco incomodada com a situação. Tanto que, conforme relatam as escrituras, ela "ficava sempre à espreita" do INRI, esperando uma "oportunidade de vê-lo derrotado" - seja qual for o conceito de derrota dessa gente. E olhem que a coisa não parou por aí. Tendo por ofício pregar a Verdade ao povo, na praça, é de se entender que o Mestre, na maior parte do dia, tivesse que se ausentar de seus aposentos. E, por conta disso, o Nicássio acabou ganhando um novo emprego, não sei se remunerado ou não: "zelador da casa do Senhor". Todos os dias, antes de sair, o INRI chamava o Nicássio e advertia: - Nicássio, não deixe a porta aberta, aqui agora é a casa do Senhor. Tu és o zelador da casa do Senhor quando não estou. Não era sem razão a advertência do Mestre: ficando aberta a porta, era possível que o desgraçado do cachorro sarnento, tal como na velha piada, acabasse entrando na igreja e mijando ali dentro. Motivo para tal o cão tinha, afinal de contas, o banheiro da família costumava ser ali. No começo, as coisas até que transcorreram bem. Mas eis que um dia, de volta de sua pregação, o INRI se depara com "uma poça de urina" dentro de sua igreja. E pior: bem em frente ao altar. Era evidente que, por conta disso, o Nicássio haveria que tomar um (merecido) esporro do santo homem: - Meu filho, eu te falei para não deixar o cachorro entrar aqui e profanar a casa do meu Pai - observou o INRI. Não sei se envergonhado, não sei se já preocupado por antever que a limpeza do mijo ia sobrar para ele, o Nicássio ficou mudo. E o Mestre prosseguiu: - Tu deixaste ele urinar em frente ao altar. Agora, por causa desta profanação, teu cachorro está amaldiçoado. Haja desgraça. Velho, sarnento, meio cego e, ainda por cima, amaldiçoado. Como visto, a sorte não era companheira do cachorro do Nicássio. Vá ser azarado assim no inferno. Como sói acontecer, a profecia se cumpriu e, em seguida, o danado do cão simplesmente sumiu, desapareceu, evaporou, ou, como dizem literalmente as escrituras, "escafedeu". Foi, de fato, uma punição à altura da falha perpetrada. Fico a imaginar, só por curiosidade mórbida, qual seria a punição ao cachorro do Nicássio caso ele, ao invés de mijar, tivesse dado uma bela cagada na frente do altar. Mesmo colocando anúncios no rádio e no jornal à procura do cachorro sarnento e meio cego, o Nicássio não logrou êxito em recuperar seu amiguinho. Foi muito triste. Sem cachorro, com a casa diminuída pela metade e tendo de ir obrar no mato - sem falar da nova vizinhança, do novo emprego e da aporrinhação da mulher, que já não estava aguentando mais -, nada mais natural do que o Nicássio começar a questionar aquela parceria. Cá pra nós: é possível que o Mestre tenha abusado um pouco da paciência do infeliz do Nicássio. De qualquer maneira, talvez por respeito ao santo homem, talvez para não meter uma bala em sua santa cabeça, o fato foi que o Nicássio, ao invés de ir pessoalmente pedir ao INRI que se retirasse do templo, preferiu deixar um bilhete ao filho do Homem, com os seguintes dizeres: "Está na hora do SENHOR remover seus pertences daqui, pois tempo destinado para utilizar esse local como igreja acabou". Não se sabe se a ordem de despejo também teve origem em alguma visão celestial. Ao que relatam as escrituras, a parceria durou de 25 de maio de 1982 a 9 de junho do mesmo ano, isto é, 16 dias, pouco mais de duas semanas. Naquelas condições, acho até que a coisa durou muito: parece-me que não há dúvidas de que pelejar a peleja de Deus ao lado do INRI não é para qualquer um - ainda mais com um cachorro e uma mulher para atrapalhar os trabalhos. A vida é assim mesmo. Cada um tem o fardo que pode suportar - que o diga o Nicássio, que perdeu o cachorro, mas continuou com a mulher, sendo talvez esta a sua maldição. Eu, por ora, vou suportando o meu - ao menos enquanto não me aparecer um cachorro ou, quem sabe, até mesmo uma mulher para me amaldiçoar de vez.
No começo, o Nicássio estava empolgado com a idéia de receber o Mestre em sua casa | 9.9.04
!!!CAMISSÍMIA!!! Finalmente, o dia da glória tão esperada chegou. Como sempre, o Mundo Símio cumpre aquilo que promete (e olhe que nossas promessas nem sempre são das mais fáceis de cumprir). Nossos cinco leitores mais abençoados pelo Pai do INRI (na verdade, os únicos cinco leitores que se dispuseram a nos escrever) seguiram rigorosamente as regras do concurso. Enviaram um e-mail com os dizeres "MEU SONHO É SER SÍMIO" e, é claro, ganharam a camissímia. Agora, eles poderão exibi-lá aos colegas na rua, demonstrando sabedoria e erudição. Ei-los: - Senhor Anonymous (cuja entrega será feita via fax. Favor fornecer-nos o número para envio da camiseta); - Comandante Marcos (cuja entrega será feita pelo Doutor Milton, desde que, é claro, nosso comandante resolva se manifestar, pois, tendo em conta seu silêncio dos últimos tempos, desconfiamos que esse mui estimado leitor infelizmente faleceu - o que, pelas regras que inventamos, nos autoriza a passar a mão na camiseta, na qualidade de herdeiros naturais de todos os seus bens); - Mestre Serbon (cuja entrega será feita através da internet, por meio dos miraculosos poderes das ondas cerebrais do Senhor Quadrado); - Filho do Serbon (a entrega, por óbvio, ficará a cargo do Mestre Serbon); - Dom Gustavo (que terá o prazer de entregar a camissímia a si próprio). É isso aí. Quem ganhou, ganhou. Como somos mui bondosos, no entanto, concedemos a quem não ganhou uma última chance de ostentar a camissímia. Mas somente após pagar-nos uma prenda, a ser escolhida caso a caso. Se o interessado for homem, já adiantamos que a prenda será dinheiro vivo mesmo. Para deixar o cabra que se chama de Frei Paulo ainda mais puto, silenciaremos, mais uma vez, a respeito do que faríamos se o Barba pintasse a nossa mãe pelada. Ao invés disso, vamos presentear o nosso amigo religioso com o ensaio fotográfico abaixo, feito em nossa luxuosa redação, pelo fotógrafo contratado pelo Mundo Símio especialmente para esta edição, Dôgra Manguaça. Como vocês poderão ver, o Dôgra, mesmo bêbado e caído, conseguiu captar alguns momentos da rotina de nossos dias. Dom Paulo mostra com orgulho os sábios dizeres de trás da camissímia Dom Gustavo chega às 16h para trabalhar, ainda bêbado do dia anterior Enquanto Dom Gustavo não chegava, Dom Paulo roubava um assunto da televisão Dom Gustavo toma mais uma para a mão parar de tremer Dom Paulo, mal sucedido em roubar assunto da televisão, resolve se instruir lendo as obras completas do INRI Como Dom Gustavo não consegue nem segurar o balancete do Mundo Símio, Dom Paulo dá uma força Dom Paulo mostra a Dom Gustavo, que não conseguiu entender os números do balancete, o quão rentável fora o Mundo Símio na semana Satisfeito com o dinheiro, Dom Gustavo diz que naquele dia não trabalharia mais, e que era hora de ir se instruir em algum boteco Dom Paulo, que é o único que trabalha no Mundo Símio, se desespera com a falta de assunto e resolve mais uma vez pedir um milagre para o INRI, que é quem sempre nos inspira lá de Curitiba Foi o INRI que, por e-mail, concedeu a graça do assunto desta edição. "Ide e tirai umas fotos aí. Fazei um ensaio fotográfico, que assim se enche lingüiça até a próxima edição" - asseverou o milagroso Mestre. É. O INRI tem sempre razão. | 8.9.04
ELEISSÍMIA (2)
Sempre que encontro alguém por quem devoto respeito e admiração, dou um jeito de encaixar no meio da conversa, seja ela qual for, a seguinte pergunta: você acha que, de uns tempos para cá, os seres humanos estão melhorando ou piorando? Feito um pedinte que bate à porte clamando por pão, aceito, de bom grado, qualquer resposta que me for ofertada. Na esmagadora maioria das vezes, porém, recebo como doação um diplomático e pouco esclarecedor "Depende", invariavelmente seguido de uma expressão circunspecta de dúvida da parte de meu doador. Olhem só: jamais perguntei a respeito do avanço tecnológico, das descobertas da Medicina ou da evolução dos transportes. Pouco me importa o advento do refrigerante dietético, da lente de contato gelatinosa ou daquelas abençoadas pílulas azuis, cuja propaganda é feita pelo Senhor Pelé e que, em poucos anos, já salvou mais casamentos do que o fizeram todos os conselheiros matrimoniais da face da Terra juntos, em toda a História. A pergunta é: somos mais ou menos estúpidos do que éramos há, digamos, vinte anos atrás? Eis uma bela questão. Seja como for, deixo a controvérsia de lado para, com coragem, fazer uma contundente afirmação: nossas campanhas eleitorais são tão boas quanto as de vinte anos atrás. Talvez sejam até melhores. Sob esse aspecto, sem qualquer sombra de dúvida, o ser humano, se não está melhorando, ao menos não está piorando. Graças a Deus, o homem pode perder de vez a vergonha - mas a vocação para a arte, a mais refinada arte, ah, esta ele não perde jamais. *** Como já disse antes, por mim, passaria o dia inteiro assistindo à propaganda eleitoral na TV. É lamentável que somente algumas poucas horas por semana sejam reservadas no rádio e na televisão para tão relevante programação. Por acreditar que é obrigação do Estado promover a instrução da nossa população, espero que Conselho Federal de Jornalismo - ou outro órgão que lhe faça as vezes - acabe com essa palhaçada e obrigue os meios de comunicação a transmitir, em cadeia nacional, o horário eleitoral gratuito não apenas às vésperas das eleições (como, infelizmente, ocorre nos dias de hoje), mas em todos os meses do ano, seja este de eleição ou não. Já é hora do povo se instruir. E, como é sabido, nada melhor do que a educação artística para refinar o intelecto e, também, o coração. Na cidade de São Paulo, por exemplo, vê-se uma campanha bela como poucas. Nem vou me referir aos candidatos mais conhecidos, como a ex-mulher do Senador Suplicímio, o ex-Ministro da Saúde ou o ex-Paulo Maluf. Esses aí não representam o povo. Aliás, hoje em dia, não representam mais nem eles mesmos - porque o marketing eleitoral cobra, e caro, justamente para isso: fazer o cabra parecer que ele, na verdade, não é ele. Daí a explicação para o José Serra aparecer no vídeo com uma simpatia digna de um Sílvio Santos, a ex-mulher do Senador Suplicímio aparecer com um ar de serenidade digna de um monge entupido de Prozac e o Senhor Maluf aparecer com uma expressão de candura digna de um Menino Jesus de presépio. Gosto mesmo é dos candidatos que representam o povo. Meu preferido é o Osmar Lins, do Partido dos Aposentados. Gosto muito desse partido e a ele pretendo me filiar - até porque, como meu sonho é tornar-se um aposentado o quanto antes para ganhar qualquer coisa desde que não precise trabalhar, creio ser de bom alvitre já me enturmar com a classe política que vai defender meus interesses, e quem sabe até me conseguir uma boquinha. Quando se põe a falar, o camarada, num sotaque cantado que lembra mais o cântico de um repentista arretado e embrulhando as palavras umas sobre as outras, como se falasse e tossisse ao mesmo tempo, diz sempre a mesma coisa. O diabo é que, mesmo tendo visto muitas vezes o seu programa - e prestado o máximo de atenção -, não consigo entender o que desgraçado diz. Até este momento, identifiquei as palavras "revista", "Folha de São Paulo", "eleição", "disse", "eu", "luminoso" e "rabo de foguete", ou coisa parecida. Por dedução, creio que o homem quer dizer algo como: "A Revista da Folha de São Paulo disse que nessa eleição eu apareci como um luminoso rabo de foguete". Sei lá eu o que ele pretende dizer com isso - e, muito menos, qual o mérito de ser comparado a um rabo de foguete pela Revista da Folha de São Paulo. Em compensação, seu slogan de campanha é plenamente passível de ser entendido: "Peroba neles!" - é como sempre termina as suas aparições. Pra mim, o conteúdo de seu programa de governo é mais do que suficiente: "Peroba neles!", e estamos conversados - qualquer coisa a mais que isso é apenas embuste. Semprei gostei da objetividade. Ao que se vê, Mestre Osmar Lins segue a escola do Rivailde Ovídio, que, há vinte anos atrás, tinha por programa de governo três, e não mais que três, perguntas: "Onde está você, Franco Montoro? E as sua polícia? E a suas obras?". É bom saber que as boas tradições estão preservadas. Admiro o Doutor Osmar Lins. Tenho a impressão de que, um dia desses, ainda vou vê-lo de terno amassado atravessando a Praça da Sé, todo esbaforido. Vou chamá-lo para tomar um café requentado num dos afamados bares da região, servido num copinho de vidro - e tenho absoluta certeza de que ele não só vai aceitar, como ainda vai me agradecer por ter pago o dito cujo, não sem antes me cumprimentar com mão empapada de suor. Se bobear, vai me pedir para pagar também uma coxinha. Apesar de ter o melhor programa de governo, quer me parecer que ele não é o mais artístico dos candidatos, no sentido estrito do termo. Nesse quesito, meu voto vai para o Levi Fidélix. E olhe que nem me admiro com o aerotrem - uma espécie de trem voador que, pelo que entendi, resolveria não só problema do transporte de São Paulo, mas do mundo. O que me chama a atenção é que, antes de falar do aerotrem, a propaganda do Levi o exibe em meio a uns vinte figurantes, todos dançando numa praça, ao som de uma marchinha de carnaval. O mais animado, que balança com ritmo os braços para cima, é próprio candidato - o único que, no meio do povo, está de terno, provavelmente para ter mais destaque na imagem. Ou seja: o Levi, sem o menor constrangimento, dança no meio do povo, pelo povo, para o povo - balançando o barrigão que ameaça lhe escapar pelos botões da camisa. Ele próprio é o bailarino de sua coreografia. Sou capaz até de acreditar que ele estava de fogo quando gravou a propaganda, só para dar mais autenticidade à cena. Esse candidato, por óbvio, segue a doutrina do velho Pedro Geraldo Costa, que cantava o jingle de sua campanha durante o horário gratuito - e tudo ao vivo, que fique claro. Impossível ser mais artístico. Mas o ponto alto desta campanha está a cargo dos candidatos à vereança, que este ano trouxe uma novidade: Maurício Ateu, do Partido Verde, o candidato, como ele gosta de dizer e repetir, "100% ateu". É isso mesmo: o camarada quer porque quer preservar para a eternidade os golfinhos, as baleias-azuis, as baratas, os pernilongos, os ratos e, talvez, até mesmo a floresta amazônica, mas está 100% convencido de que ele próprio, depois de morrer, vai ter a mesma consciência de um pneu velho; quer dar ao capim-gordura, à paca-do-mato e à anta-xuré aquilo que ele está certo de que não vai ter. Sem dúvida, este santo homem é, acima de tudo, um humilde. Ateu ou não, merece a canonização. Até porque, que fique bem claro, ele é 100% ateu. Não é como aqueles que se dizem ateus, mas só 90 ou 80% ateus. O tom romântico dessas eleições, na minha humilde, embora não atéia, opinião, está por conta da candidata principal do PRONA à Câmara Municipal. Trata-se da Senhorita Cássia, como ela mesma faz questão de se apresentar. Nunca, em toda minha já longa existência, imaginei que ouviria alguém se apresentar com o pronome de tratamento "Senhorita". Cáspite! Eis que aparece a Senhorita Cássia, uma bela jovem, de sedosos cabelos negros e voluptosoas carnes - mas que tem as partes menos pudicas do corpo cobertas por um sóbrio vestido, despertando, assim, a imaginação dos cavalheiros que, agora mais do que nunca, lhe fazem a corte nos saraus da cidade. Como todos os outros seguidores do Doutor Enéas, ela imita o tom de voz gritado e raivoso de seu líder espiritual. Não sei por qual razão, mas sempre que vejo esses asseclas do Doutor Enéas, especulo que, se eles se encontrassem pessoalmente com o Mestre INRI, imediatamente se converteriam à sua fé e implorariam para ir morar em seu templo, em Curitiba. Que o Pai do INRI tenha piedade da Senhorita Cássia. E, por falar em piedade, nada mais piedoso do que o Papai Noel, o bom velhinho que presenteia as crianças no final do ano. Pois é, agora ele também é candidato - já que, desta vez, segundo o próprio, pretende presentear também os pais das criancinhas, dando-lhes saúde, emprego, transporte, segurança, comida e educação, tudo isso na condição de um reles vereador. Não estou surpreso: o Papai Noel está habituado a fazer milagres; é, de longe, o candidato com mais condições pessoais de cumprir aquilo que todos os outros candidatos a vereador prometem, sem exceção. O número dele? 45025, "para lembrar do dia do Natal", explicou-me o velhinho bonachão pela televisão. Nem só na Capital do Estado as eleições são artísticas. Em Guarulhos, um outro pretendente a edil está colando cartazes pela cidade com a foto dele sentado numa cadeira de rodas, de modo a mostrar que suas duas pernas foram amputadas - ou sei lá o quê. O mote da campanha é: "Esse aí não passa a perna em ninguém". Faltou dizer, contudo, que não passa apenas porque não pode. E quando acho que nada mais me surpreende, vejo que sou um inocente inútil. Pois não é que até o mesmo o Wadih Mutreta é candidato a vereador outra vez? Maurício Ateu, Senhorita Cássia, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Judas de Sábado de Aleluia, Aleijadinho de Guarulhos, o diabo de asa, todos estes apenas dignificam as eleições com sua arte. Mas o Wadih Mutreta esculhamba de vez o negócio. Pra quem não se lembra - ou não conhece -, o Wadih Mutreta foi um dos líderes do governo Celso Pitta na Câmara Municipal. O outro líder, colega do Wadih Mutreta, era um tal de Vicente Viscome, um cabra cujo semblante me trazia a idéia de algo parecido com o que deveria ser uma espécie de irmão mais novo do Ray Coniff - à diferença de que, no caso do nobre vereador, a peruca branca era um pouco mais curta e menos lisa - e que, antes de exercer a vereança, ficou rico no respeitadíssimo comércio de revenda de carros usados. No plenário, o colega do Doutor Wadih Mutreta tinha o democrático hábito de dar ostensivas bananas a quem estivesse assistindo à sessão e não compactuasse com a sua, por assim dizer, ideologia. Atualmente, esse bondoso homem está preso - o que, pelo draconiano tratamento dado pela legislação eleitoral a esses santos que só querem o bem da Pátria, lhe impede de ser candidato também. Tremenda injustiça. Pelo menos o Wadih Mutreta não foi preso - podendo, assim, levar adiante seus ideais, ao contrário do que, lastimavelmente, deu-se com seu colega. Ao que me parece, portanto, para ser candidato pelo partido desses dois colegas, o requisito exigido é não estar preso. Já é alguma coisa. E, depois de tudo isso, ainda há quem faça beicinho de dúvida, quando perguntado se a humanidade está piorando ou melhorando.
Este aí diz que, desta vez, as eleições estão mais sérias | 3.9.04
ELEISSÍMIA.
Quando acho que sou diferente, vejo que sou absolutamente igual a qualquer um; mas quando penso ser igual, vejo que, de fato, sou diferente. Não há vivente que não tenha despendido páginas e páginas comentando as eleições, em especial para baixar o sarrafo no horário eleitoral gratuito. Não haveria de ser diferente comigo; vou fazer a mesma coisa. Mas não exatamente a mesma coisa, porque preciso confessar o seguinte: eu amo o horário eleitoral grautito. Amo todos os candidatos, bem como todas as suas propostas. Por mim, o horário político poderia passar umas dez horas seguidas na TV. Lembro-me, com saudades, da campanha para a Prefeitura de São Paulo de 1985. Aquilo sim foi eleição séria. Ruy Côdo, Rivailde Ovídio, Ana Rosa Tenente, Pedro Geraldo Costa, Fernando Henrique Cardoso, Jânio Quadros e, até mesmo, pasme-se, o Senador Suplicímio (que, naqueles tempos distantes, era apenas deputado estadual). Em minha opinião, a proposta de governo mais séria da campanha era a do nobre candidato Rivailde Ovídio, do Partido Social Cristão, cujo símbolo, se não me engano, era um peixe. Isso mesmo: um peixinho. Franco Montoro, que era governador do Estado, deve ter sido um dos poucos que não gostaram da proposta do partido. A proposta vinha gritada pela voz fina do candidato, um velhinho magro, careca e de óculos, mas cuja expressão séria passava a impressão de honestidade e pudor: - Oooonnnnde está você, Franco Montoro? E a sua polícia? E as suas obras? Oooonnnde esta você, Franco Montoro? Pronto, tava aí a proposta de governo: onde está você, Franco Montoro? E a sua polícia? E as suas obras? Pra mim, estava mais do que suficiente. Isso é o que deveria ser toda proposta de governo: simples, objetiva, direta e sucinta. O resto é embromação. Jingle de campanha? Pedro Geraldo Costa, sem dúvida. Ele mesmo cantava o seu romântico hino, ao vivo, sem o dispensável auxílio de aparelhos, gravações ou mixagens: - Dentro do meu coração... Tio Pedro já ganhou a eleição... Simplesmente sublime. Vejam bem: o homem não queria ganhar a eleição nas urnas; queria, isto sim, ganhar a eleição dentro do coração do eleitor. No meu, Tio Pedro ganhou. Não me lembro do que a candidata Ana Rosa Tenente dizia. Sua voz era tão acanhada que, mesmo colocando o volume máximo da TV, não dava para ouvir. Mesmo assim, ele teve expressiva votação, apenas em razão de sua exótica condição de candidata e, ao mesmo tempo, mulher. Correu o boato de que, após o pleito, a Playboy teria lhe feito um convite, obviamente para mostrar a urna - o que, lastimavelmente, foi recusado. Bons tempos aqueles. Ruy Côdo, por sua vez, era um cabra do tipo agressivo, que faz denúncias. Ficou uma semana anunciando que teria uma gravíssima acusação para fazer contra um dos outros candidatos. No dia esperado, apareceu ao lado de uma melancia em cima de uma mesa velha. - Hoje, quero fazer uma denúncia contra o candidato Fernando Henrique Cardoso - dizia raivoso, sem se preocupar com os perdigotos, com as duas mãos para trás, como que a esconder da câmera algum objeto. - Fernando Henrique é o candidato-melancia! - berrou, sob o fundo musical de uma daquelas óperas usadas para trilha sonora nos filmes de terror de antigamente. - É o candidato-melancia!!! - bufava, enquanto a música ficava cada vez mais alta. - Verde e amarelo por fora... Verde e amarelo por fora ... - a música ultrapassava o limite do tolerável - Verde e amarelo por fora ... E... E... - e eis que, num rompante da mais sincera fúria, o camarada saca por detrás de si um facão de cortar cana e, com força, desfere um golpe preciso na pobre melancia ao seu lado, que se esparrama pelo chão, toda despedaçada. - ... e vermelho por dentro! E vermelho por dentro!!! - concluía, arfante. A denúncia tinha procedência. Num debate promovido acho que pela Globo, Bóris Casoy - que, na época, nem tinha programa de televisão - perguntou se Fernando Henrique acreditava em Deus. Todo mundo se lembra da resposta: - Bóris, você se lembra quando a gente jantou na semana passada? Pois é, você me prometeu que não ia fazer essa pergunta. - Mas agora eu estou perguntando - disse o Bóris, sem demonstrar qualquer emoção. - Não, mas você tinha me prometido... Baita maldade: onde já se viu, prometer uma coisa a um político e não cumprir a promessa depois? Acho que, por ter perpetrado tamanha barbaridade, o Bóris, junto comigo, com o Barba e com o Toninho do Diabo, vai assar a bunda na fogueira de Belzebu. E certamente achará sua punição uma vergonha. - Eu sei disso, candidato. Mas agora eu quero saber. - Não respondo. Você me prometeu que não iria fazer a pergunta. Desde aqueles tempos, Fernando Henrique já deixava claro o seu recado: é preciso respeitar os contratos. Muita gente achava que aquele seria o ponto alto do debate. Inocentes. Não conheciam o poder de fogo do Senador Suplicímio. Respondendo sabe-se lá a qual pergunta, o Senador Suplicímio, num gesto de genialidade tirou de uma sacola dois bichos de pelúcia: um coelho e uma tartaruga. Pôs os dois por cima da bancada e iniciou a explicação: - Hoje, eu vou contar uma história. Era uma vez um coelhinho, que se chamava PMDB. E o coelhinho, que se achava muito esperto, resolveu apostar corrida com uma tartaruguinha muito simpática, que se chamava PT - o Senador Suplicímio colocava um bichinho em frente ao outro, como se eles estivessem combinando a aposta entre si. Foi uma explicação artística, metafísica até, como o é toda e qualquer mensagem passada pelo Senador Suplicímio. - Daí - prosseguiu -, começou a corrida. O coelhinho, que era mais rápido, foi logo correndo na frente da tartaruguinha - e o Senador, com a mão, deslocava o coelho pela mesa, em saltinhos, tal e qual deveria ser nos filmes infantis. - Só que o coelho, antes do final da corrida, achou que, de tão longe que estava a tartaruga, podia tirar um cochilo e resolveu dar uma dormida - o Senador Suplicímio virou o coelho de barriga para o céu, na posição que, como se sabe, os coelhos costumam dormitar. - Só que a tartaruguinha era muito valente - explicou, fazendo a pobre tartaruga deslizar pelo tablado, sem tirar a barriga do chão - E, por ser muito insistente, ultrapassou o coelho e ganhou a corrida. Gênio. Esse homem é um gênio. Será lembrado daqui a mil anos - e isso será pouco perto de sua sabedoria. Não obstante, quem venceu a eleição foi Jânio Quadros. Porém, é preciso dizer: nada mais justo e merecido. Só quem tomou um porre de acordar gemendo pela manhã pode compreender o Jânio. Naquele estado de vergonha mental e esgotamento físico, dá mesmo vontade de renunciar não só à presidência, mas à própria vida. Nada mais humano e sincero. Especulo que a coisa deve ter se sucedido mais ou menos assim: - Quer saber de uma coisa? - disse o presidente para si mesmo, enquanto, encolhido feito um mindingo debaixo de um jornal, meditava sobre se deveria se levantar da cama ou ir se deitar debaixo dela. - Quero mais é que se foda. Vou renunciar a essa merda. Por ser o mais humanista de todos os políticos brasileiros, meu voto sempre foi de Jânio Quadros. Confesso que até hoje sou janista. E sempre serei. Vejo-me, então, diferente de todos os outros. De qualquer modo, deixando de lado a nostalgia, afirmo o seguinte: a campanha que corre nos dias de hoje não deve nada à de 1985. Porém, não desejando eu abusar deste pequeno espaço que me é concedido - nem, tampouco, do pequeno saco de nossos cinco leitores -, deixo o melhor dessa história para mais à frente, quem sabe em outra ocasião - como, aliás, faz exatamente igual qualquer um que se dispõe a falar sobre qualquer assunto.
Já é hora da Justiça Eleitoral moralizar as eleições | 1.9.04
A TRISTE HISTÓRIA DE UMA MACACA MAL COMIDA É sabido por todos o que a falta de uma boa surra de pica faz com qualquer mulher. A coitada que não recebe sua quota diária - ou, vá lá, semanal - de boa pica acaba por ficar irritadiça, mal educada e infeliz. Se a desgraçada for chefe então, vira uma tirana com seus subordinados. Mesmo as mais feministas hão de concordar com essa realidade incontrastável. Deve ser uma confusão hormonal, ou algo do gênero. Não sei, porque não sou afeito às artes medicinais como Dr. Milton e Dr. Pepe. Mas, seja por feiúra ou por falta de macho competente, fato é que a ausência de sexo de qualidade faz da vida da mulher um inferno - e daqueles que com ela convivem, dois infernos. O que surpreende - embora não devesse - é que com as símias se dá o mesmo, mas com um agravante: além de ficar puta, a símia sem-sexo resolve fumar e cuspir nos outros. É isso mesmo. Vejam só a curiosa notícia abaixo, colhida no Terra: "Falta de sexo leva macaca a fumar na China Feili, uma chimpanzé que vive no zoológico de Zhengzhou, capital da província chinesa de Henan, aprendeu a fumar e a cuspir nos visitantes. Os tratadores do local afirmam que o animal tem uma vida sexual insatisfatória." Vida sexual insatisfatória = símia mal comida. "A fêmea, de 13 anos, equivalentes a 26 de um humano, era amável e obediente quando foi comprada de um zoológico da província meridional de Cantão. No entanto, Feili perdeu suas boas maneiras ao ser levada para Henan, uma das províncias mais povoadas e pobres da China. "A chimpanzé está cuspindo no público e fumando", constatou um surpreso jovem durante uma visita. "Há pouco tempo um turista jogou um charuto que caiu fora da jaula e ela está utilizando um pau para se apoderar dele", acrescenta." A símia usa um pau para conseguir um charuto para pôr na boca. A coitada está mesmo necessitada... Mas o péssimo hábito de fumar, assegura um conhecido da símia, ainda não se converteu em vício, graças a Deus. Deve ser só um paliativo para compensar a falta de algo melhor para pôr na boca. Mas é curioso notar que a macaca raivosa pegou dos homens não só o charuto, como também a mania de escarrar. Isso prova que o símio nasce bom, e é o homem que o corrompe. Confiram: "Feili fuma de curiosidade, mas não é viciada em tabaco", assegurou Liu Bing, diretor do zôo, que acha que a mania de cuspir da primata se deve ao fato de ela imitar alguns visitantes mal-educados. Liu afirma ainda que a dificuldade em achar um companheiro apropriado para Feili é "a causa de ela ter deixado de ser uma "boa menina" para se tornar "uma harpia". Mas culpa mesmo tem o corno do símio esposo, naturalmente, que não passa de um velho broxa: "O diretor garante que Feili tem um "marido" de 41 anos que não é capaz de "satisfazer seus desejos sexuais". "Estamos tentando encontrar um companheiro alternativo para a chimpanzé em outros zôos, mas ela não costuma se dar bem com os novos". Oxalá a Feili encontre um macho que compareça direitinho. Só assim a macaca voltará a ser civilizada como uma verdadeira símia, e deixará de lado os hábitos humanos de fumar e cuspir nos outros. É os hómi que fode com os costume dos símio | OS SITES ABAIXO APÓIAM A CAUSA SÍMIA: HOME - ARQUIVOS |