29.10.04

SIMIOISMO

A cada dia que passa, creio que fico mais símio.

Sou um organismo em franco processo de involução. E, do jeito que a coisa vai, dentro de alguns meses será bem capaz de que o único meio que me reste para a sobrevivência seja colocar o meu corpinho à venda. É isso mesmo: estarei à beira da prostituição.

Como minhas formas adiposas nunca foram de arrancar suspiros junto às moças mais belas, fico só imaginando que tipo de freguesa vai largar o seu rico dinheirinho em troca de alguns minutos de (duvidoso) prazer. Vai ser o diabo vindo em forma de uma velha semi-careca, de pêlos espalhados pelas bordas das narinas e pouco dada ao hábito de usar desodorante. Para esse mal, não há Viagra que dê jeito: vou mesmo é ter de fazer aquela operação consistente na inserção de um pedaço de 20 centímetros de mangueira de borracha dentro do cacete. Nunca mais mijarei sossegado.

Digo isso por que antigamente minha condição mental era melhor (ou, para ser mais exato, menos pior). Quando dizia alguma bobagem, logo depois me arrependia. E considerando que meu estado normal é papaguear uma besteira atrás da outra, arrependia-me mais do que a Madalena do Evangelho. Pelo menos, tinha a ilusão de estar aprendendo com o erro. Foram bons tempos.

Hoje em dia, sequer me dou conta da própria burrice. Emito alguma opinião e meu instinto me alerta de que, muito provavelmente, marquei gol contra. O problema é que as sinapses dos meus neurônios não acompanham mais a intuição; sei que estou errado, mas não consigo ver o erro. Em outras palavras: estou prestes a ficar retardado - se é que já não estou, e ainda não percebi, o que, para um retardado, não seria de surpreender.

Por isso tudo, fico alegre quando percebo que errei - percepção, repito, cada vez mais rara, e que, quando vem, merece comemoração e registro.

Digo tudo isso porque anteontem tive a imprudência de falar que o eleitor brasileiro é ou ignorante de pai e mãe, ou pura e simplesmente safado.

Acho que cometi um erro. Fui preconceituoso.

Por que só o eleitor?

Veja-se, por exemplo, o caso do quarto-zagueiro do São Caetano, o tal do Serginho ¿ o mesmo sujeito que, há uns meses atrás, no Maracanã, quis dar umas porradas no Romário, por estar desconfiado de que o baixinho seria, digamos, um tanto quanto folgado e sem educação.

Pois bem. O camarada tem 30 anos recém-completados, é atleta profissional, bate sem dó quando lhe convém, joga num time de ponta e tem o passe cotado em alguns milhões de reais. O Palmeiras tentou comprá-lo e não conseguiu, porque o turco Mustafá gosta só de time ruim e barato.

De repente, no meio de um jogo contra o São Paulo, o sujeito leva a mão à cabeça, bambeia as pernas e cai no chão, como uma tia velha que fica tonta depois de tomar o terceiro copo de chope num churrasco da família. Parada cardíaca.

Correria no campo. Um médico esbaforido vai até o quase-defunto, dá-lhe uns beijos soprados na boca; o massagista, um negão forte (como reza a tradição dos massagistas profissionais do Brasil), lhe manda umas muquetas caprichadas bem no meio do peito. E, afora umas costelas quebradas, nada acontece.

Um outro médico vai atrás da ambulância, um carrinho tira o jogador do campo, ele vai pro hospital. Lá ele morre. Esse negócio de morrer costuma acontecer mesmo.

O que não costuma acontecer é um fulano com o tal do Serginho ter um ataque do coração, no campo de futebol, na rua, dentro do cinema, ou no privada lendo a página de esportes do jornal.

Há uns vinte anos atrás, o Palmeiras tinha meia-direita chamado Carlos Alberto Borges, que tinha sido até convocado pra seleção. Num treino qualquer de dia de semana, um raio lhe caiu na cabeça. Exatamente: um raio vindo do dedo de Deus. Bem no meio da testa.

O sujeito está lá, suado, dando uma corridinha, chateado por estar fazendo um coletivo na chuvinha chata, pensando em ir logo pro vestiário pra tomar um banhinho e crau!!! Um raio bem na cabeça. Vá ser azarado assim na casa do caralho.

E o pior é que o desgraçado nem morreu.

Ficou completamente xarope, o infeliz. Começou a decair, a jogar cada vez pior. No próprio Palmeiras, chegou a ser reserva num time em que o boliviano Aragonés era titular absoluto e cujo principal craque atendia pela sintomática alcunha de Jorginho Mortalha - sem falar do goleiro, um tal de João Marcos, que foi mandado embora do Palestra para ir jogar no glorioso Noroeste, onde logo em seguida encerrou sua penosa carreira, ao final de um jogo em que até o presidente do clube de Bauru ameaçou lhe dar um tiro, caso ele não abandonasse o futebol imediatamente.

Perambulando feito um mindingo, o tal do Carlos Alberto Borges virou motivo de piada. Era um morto-vivo, com uma queimadura na testa. Tenho para mim que, atualmente, ele trabalha como professor de musculação numa academia em Jandira. E faz o pé-de-meia vendendo anabolizante caseiro pra molecada. Foi arrastado para a marginalidade, o pobre coitado.

E é aí que eu queria chegar: qual a diferença entre ter um ataque cardíaco e um relâmpago na cabeça? Uma fatalidade é, digamos, tão fatal quanto a outra. Com a vantagem, no caso do ataque cardíaco, de que morrer dramaticamente na televisão é bem melhor do que passar anabolizante caseiro pra lucrar uma graninha extra.

Mesmo assim, o Brasil inteiro chorou a morte do tal do Serginho. Inacreditável: São Paulo, neste exato momento, tem pelo menos uns 10 sequestros em regular andamento. Destes, em pelos menos uns 3, os familiares das vítimas estão recebendo pedacinhos do sequestrado pelo sedex, técnica de negociação muito apreciada pelos sequestradores para mostrar que eles são profissionais sérios. E todo mundo aceita isso numa boa, como um fato da vida, quase como um mal necessário. Ninguém faz uma passeata, nem que fosse só pra ir até o Palácio do Governo atirar merda. Muito pelo contrário: dizem até que o Alckiminho - que, nessas horas, costuma fazer um biquinho indignado, como se ele se tivesse sido obrigado a aceitar, muito a contragosto, o cargo de governador - pretende ser candidato a presidente. Contra a sua vontade, é claro.

Mas parada cardíaca de quarto-zagueiro é diferente. Aí, não. Aí é caso pra comoção nacional. Na falta de um Judas para ser empalado, bota-se a culpa na ambulância. Ou melhor: no motorista da ambulância, que, na hora do fato, não se encontrava dentro da dita cuja, com o motor ligado, em eterna vigilância.

Ao que ouvi, o tal do motorista, na hora maldita, estava no ambulatório médico do estádio - donde a sua demora para parecer.

E aqui vou fazer uma revelação: que ambulatório, que nada. O pobre homem estava mesmo era cagando.

Vamos convir numa coisa: não há vivente do sexo masculino que, num dia de jogo (e jogo importante, de dois times que brigam pelo título), com a possibilidade de ficar à beira do gramado, tenha o desprendimento de ir tirar um cochilo na maca do ambulatório médico. Corrijo-me: talvez o Dalai-Lama aproveitasse a ocasião para uma merecida sonequinha. Como me parece que o Dalai-Lama não era o motorista da ambulância - ao menos naquele dia -, só posso concluir que o condutor tinha motivos inadiáveis para sair do campo, aos vinte e poucos do segundo tempo. Não há dúvida nenhuma: o rapaz foi dar uma cagada. E das brabas.

Vamos botar a culpa da morte do Serginho em quem? Na merda, que saiu na hora errada? É triste constatar que, conforme o tamanho do azar, nem dar um barro sossegado é permitido a um trabalhador.

E por falar em barro, fiquei sabendo, ontem à noite, pelo rádio, que, no programa de televisão do lamentável apresentador Gilberto Barros (coisa tão medonha que até eu, devoto de INRI Cristo, admirador de João Krébi e eleitor do Senador Suplicímio, não sou capaz de assistir sem ficar com dor de cabeça), explicava-se ao povo como se tratava um ataque cardíaco, como se fazia uma massagem de ressuscitamento, quais os aparelhos que deveriam ser usados etc. etc.

E eis que, em meio a tanta falação, uma popular que se encontrava na platéia sente-se mal, vai ao banheiro e, na beira da pia, tem um ... ataque cardíaco!

Fizeram massagem, deram choque no peito da mulher, levaram-na de ambulância para o hospital, o diabo. Ataque cardíaco por sugestão, eis a única hipótese diagnóstica que me ocorre. Uma doença nova: o bichinho ouve tanto falar de ataque cardíaco que o próprio coração para de bater.

Treco não menos comovente, para mim, foi a onipresença de um tal de Doutor Nabil Ghorayeb, cardiologista especialista em ataque cardíaco em campo de futebol. O desinteressado médico não parou um segundo: deu entrevista em tudo quanto era jornal, rádio, TV e, apesar de vivo, até em mesa espírita.
Inspirado em Martin Luther King, o despreendido Doutor Gororoba disse que tem um sonho: quer ver aprovada uma lei que obriga que, em todos os jogos de futebol por este Brasil, o aparelhinho chamado desfibrilador fique à disposição na mesa do quarto árbitro (quarto árbitro, pra quem não sabe, é aquele cidadão cuja responsabilidade é levantar as plaquetas que indicam o número da camisa do jogador que vai ser substituído e do que vai entrar ¿ tarefa que, pela extrema complexidade, nem sempre é alcançada com êxito). Só tem um detalhe: para o Doutor Gororoba, mais importante do que a maquininha de dar choque, é a habilidade e a técnica de quem vai usá-la.

Por isso, explica o benemérito doutor, é preciso fazer um treinamento, intensivo e habitual, com os juízes, os bandeirinhas e os próprios jogadores, a fim de que, verificada a fatalidade, quem estiver mais próximo da mesa do quarto árbitro, que pegue rápido o par de ferrinhos e saia correndo pra dar choques no desfalecido.

Pelo pouco que conheço da dinâmica do jogo, acredito que os mais requisitados para tal mister serão os bandeirinhas. Veio, portanto, a cair bem a proposta do nosso doutor: já era hora de dar um toque de romantismo à desmoralizada arte da bandeiragem.

O que não ficou explicado, ainda, é como os bandeirinhas vão fazer para escalar o alambrado (ou saltar por sobre o fosso) no caso do desafortunado cardiopata estar no meio da torcida - sim, porque, como explicou o heróico médico, a lei tem por objetivo também proteger a vida do torcedor.

Seja como for, o fato foi que o Doutor Gororoba fez uma gravíssima advertência: atenção, muita atenção: no país, apenas e tão-somente a Sociedade de Cardiologia Futebolística do Brasil está autorizada pela Sociedade de Cardiologia Futebolística Mundial a dar os tais cursos para leigos - como é o caso dos bandeirinhas. Por extrema coincidência, a Sociedade de Cardiologia Futebolística do Brasil é presidida pelo próprio Doutor Gororoba (o que me faz especular que a matriz mundial talvez seja presidida, quem sabe, por algum parente do Doutor Gororoba). É um santo doutor, este homem.

Não há doença que mate mais o símio do que o simioismo (a doença de ser símio), venha ele da ignorância, venha ele da pura e deslavada safadeza, venha ele das duas coisas juntas.

É disso que vou morrer, mas, até lá, espero ao menos ser previdente e comprar logo a minha prótese de esguicho, de modo a ter êxito no ofício de enganar as velhinhas carentes, por pura falta de habilidade de me relacionar com gente mais esperta para enganar.



O Doutor Gororoba jura que equipe dele tem a cura para o paciente deixar de ser símio


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27.10.04

ELEISSÍMIAS (3)

Quem me conhece um pouco sabe que não sou dado ao auto-elogio. Muito pelo contrário: tenho muito orgulho de ser humilde.

Hoje, porém, vou quebrar o protocolo e rasgar a fantasia.

E a coisa é simples: manjo pra cacete desse treco de eleição.

De eleição entendo mais do que o Professor Paulo Maluf, a ex-senhora do Senador Suplicímio, o Geraldo Alckiminho e até mesmo aquele bondoso senhor que, dia desses, entrou em cana porque foi apanhado em flagrante torrando o dinheiro que ganha do Governo Federal no sublime esporte da briga de galo, arte que, pelo bom gosto e erudição, só pode ser admirada e compreendida pelos espíritos mais refinados.

Não que eu seja mais esperto do que eles. Nada disso. Minha vantagem é outra: tenho uma experiência que todos esses cabras nem sonhariam em ter. É fato, admito, que a experiência foi involuntária - mas nem por isso menos importante. Explico.

Fui convocado por 5 vezes seguidas para exercer a nobre atividade de mesário. Minto: fui empossado neste cargo apenas na primeira vez, quando da inesquecível peleja entre Mestre Fernando Collor e o temido socialista Lulassímio; nas outras 4 vezes, a Justiça Eleitoral, reconhecendo meus préstimos a serviço do País, me promoveu a Presidente de Seção. Naqueles tempos, a diferença entre um posto e outro era que o Presidente ficava com encargo adicional de levar aquele saco de lona cheio de papel até o local de apuração - e me vem daí a carinhosa lembrança de alguns colegas presidentes aglomerados no ponto de ônibus, todos esperando a condução paga do próprio bolso, com o saco nas costas, feito uns retirantes. Algumas vezes, por encontrar-me de carro, oferecia aos colegas uma carona, disputada entre os irmãozinhos na base da velha e pura porrada - momento em que descobriam mais uma utlidade para a urna de pano verde.

Pode parecer inacreditável, mas até mulher grávida de saco nas costas eu vi na espera pelo busão.

Pois bem. Ficar por 9 horas servindo o povo - e isso num dia só, sem falar do, para nós, mesários, amaldiçoado segundo turno - dá substrato para escrever um tratado sobre a alma do eleitor brasileiro. E desde logo revelo: é uma alma muitíssimo mal-humorada.

Via de regra, nosso eleitor entra na seção eleitoral xingando o sujeito que votou à sua frente, o outro que lhe espera para votar, o mesário que lhe entrega o voto, o candidato em que ele vai votar, o candidato em que ele não vai votar. E, pelos grunhidos que costumava ouvir vindos da cabine inviolável (em verdade, um pedaço de papelão colocado em cima de uma carteira escolar), posso atestar que muita gente cospe no próprio voto antes de dobrá-lo. Nada como uma carta bem selada.

Disse que o eleitor blasfema contra o próprio candidato, mas me enganei: essa não é a regra.

Não é a regra porque, tendo eu, por muitas vezes, revezado com os colegas mesários na nobre função de organizar a fila na porta da seção, testemunhei, também por muitas vezes, eleitores perguntando uns aos outros quais eram os candidatos do dia - resposta, convenha-se, um tanto difícil, em especial para os cargos legislativos. Vi a Delegada Rose, que era quem mais emporcalhava o bairro de minha zona eleitoral, ganhar muito voto por conta dessa peculiariedade:

- Você sabe quem é candidato? - pergunta um pobre-diabo a outro.

- Hum... - e outro faz uma cara de pensativo, coçando o queixo: - Não sei, não... Acho que a Delegada Rose é.

- Vou votar na Delegada Rose - conclui o pobre-diabo, satisfeito por estar próximo de cumprir a obrigação de votar em alguém.

Isso não é nada.

Ficar cinco horas enfurnado numa seção eleitoral, sabendo que quatro longas horas ainda estão à espreita, tritura o cérebro de qualquer um. Nessas horas, qualquer distração é como um copo d'água gelada no deserto.

Na última eleição em que atuei, a que consagrou, em 1994, o Professor THC como supremo mandatário da Nação, um subordinado meu, devidamente autorizado pela minha autoridade e certamente inspirado pelos ares de sabedoria do candidato a presidente vencedor, resolveu fazer uma reveladora experiência de cunho sociológico - digna, a meu ver, de um Prêmio Nobel.

A mutreta era a seguinte: depois de algum incauto eleitor preencher o papelzinho na cabine, meu assecla, bem na hora em que desgraçado se preparava para depositar o voto, fechava de súbito a tampa da urna e, em tom seríssimo, advertia:

- Peraí, rapaz. Que negócio é esse? Vai votar sem pagar, porra?

- Pagar o quê? - dizia o outro cabra, desconfiado.

- Pagar pra votar, cacete. Tá achando o quê? Que é de graça?

A resposta era titubeante, porém invariável:

- E ... E... E quanto é? - queria saber o eleitor, ao mesmo tempo nervoso e envergonhado pela possibilidade de não ter o dinheiro.

- Um real. Mas pra você eu deixo por cinquenta centavos.

- Filhas das putas ... - ralhava o eleitor, tirando a carteira do bolso. - A gente já é obrigado a vir nessa merda e ainda tem de pagar...

Neste momento eu intervinha e, num ar solene, à altura de minha condição de Presidente daquela Corte Democrática, dizia, sem quaisquer explicações, que era para desconsiderar a cobrança e depositar logo o voto na urna, antes que eu resolvesse mudar de idéia.

Fizemos isso umas vinte vezes seguidas. O resultado? 100% de êxito. Ninguém questionou a exigência daquele tributo - quando muito, o pessoal reclamava do preço. E só paramos de cobrá-lo (ainda que para depois perdoar o débito) por medo de sermos presos, tal como se estivéssemos patrocinando uma rinha de galo.

Dirá alguém que minha seção eleitoral era das mais humildes, frequentada pelas gentes menos abastadas - e daí a explicação para o ocorrido. É verdade. Só não sei se o eleitor engajado, politicamente mais consciente, é melhor do que a maioria.

Numa dessas eleições de que participei, uma mulher, de óculos moderninhos, cabelo pintado de vermelho e dos seus quarenta e poucos anos (apesar da incrível - e inexitosa - vontade de tentar parecer ter bem menos), apanhou, de maneira dissimulada, dois votos, cravou por duas vezes o nome do candidato na cabine e por um triz não consegue ter sucesso em colocá-los dentro da lona verde.

Não fosse a agilidade da mão de um meu assessor - o mesmo que, algum tempo depois, viria a ser o nosso cobrador oficial da taxa de votação -, que quase arrancou o braço da dita cuja, e eu, depois, teria de me explicar a algum juiz eleitoral, jurando por Deus que não tive a intenção de fraudar as eleições do Brasil. Outra desvantagem em ser Presidente de Seção. Quanto maior a altura, maior o tombo, diz o ditado.

Apanhado o voto extra, julguei que, após registrar em ata o incidente, o mínimo que me era de direito era saber em quem a infeliz tinha votado. Lulassímio na cabeça.

Um tempinho depois, a ponderada senhora voltou, desta feita acompanhada de um fiscal do Partido dos Trabalhadores, o qual, aos berros, me dizia que iria impugnar a minha urna. Respondi, de maneira educada, que, naquele momento, a única urna que ele poderia impugnar era a de sua santa mãezinha. E, se o desejo dele era se meter com buracos, que fosse saciá-lo com a própria genitora. Ele saiu indignado e nunca mais voltou. Mas a eleitora do Lulassímio prometeu que iria me processar - o que, pra falar a verdade, me meteu menos medo do que se ela tivesse prometido botar meu nome na boca de um sapo de macumba. Bons tempos aqueles, em que as ameaças eram apenas de processos.

Posso estar enganado, mas de toda essa longa experiência, a conclusão que me sobrou é a seguinte: o eleitor brasileiro, quando não é ignorante de pai e mãe, é um baita de um safado. Graças ao Pai do INRI, considero-me pertencente à primeira espécie - mas é claro que, como todo ignorante, posso muito bem estar enganado.

Estou errado? Claro que sim.

Certos estão os eleitores do Wadih Mutreta, que voltou à vereança nos braços do povo, para a honra e glória da cidade de São Paulo. E certo também está o pessoal que, no Rio de Janeiro, elegeu o sujeito que, ao lado daquele cabra que tem por sagrado ofício escolher a estratégia de campanha de muitos candidatos, foi preso na tribuna de honra do estádio em que se disputavam aqueles belíssimos certames galináceos - um tal de Babu não sei das quantas, cuja serena e ponderada figura inspira confiança e paz de espírito.

Pra piorar ainda mais, de uns tempos para cá, aboliram o velho papelzinho, substituindo-o por uma máquina de fliperama com a foto dos candidatos (para a alegria das crianças pequenas que, em companhia das mães, se divertem à beça no dia da eleição, apertando os botõezinhos enquanto o resto da fila espera). Agora sequer terei a opção de votar no Senador Suplícimio para todos os cargos e em todos anos, mesmo quando ele não for candidato - como era de minha tradição.

Confesso a minha mágoa e minha limitação; não sou dado a ficar me auto-elogiando.



Estes aí foram os grandes vencedores das eleissímias


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26.10.04

OS PIGMEUS E O VÍRUS SÍMIO ESPUMOSO

Após dar cabo das noticímias antigas, passei aos fatos do dia aqui do inferno. E eis que o destino me presenteia com a manchete abaixo reproduzida, que também foi notada e destacada pelo ilustre Dom Vito, nosso confrade e colaborador:

"CIENTISTAS DESCOBREM NOVO VÍRUS PARECIDO COM O HIV

Cientistas descobriram que um novo vírus, parecido com o HIV, infectou pigmeus na República dos Camarões. O vírus teria sido contraído por meio do consumo da carne de animais selvagens, especialmente de macacos.

Foi dessa maneira que as duas primeiras versões do vírus da aids, o HIV-1 e o HIV-2, se desenvolveram. Eles existiam em macacos, nos quais são extremamente comuns, e, após um tempo incubados no organismo de seres humanos, chegaram ao formato atual, em que são mortais para os seus portadores.

Espumoso
O novo retrovírus foi encontrado por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins em comunidades que vivem nas florestas camaronesas. Ele se chama Symian Foamy Virus - Vírus Símio Espumoso.

Os cientistas acreditam que ele chegou ao organismo dos pigmeus por meio do sangue de macacos dos quais eles se alimentaram. O temor dos cientistas é que o novo vírus repita a trajetória do HIV, responsável pela morte de milhões de pessoas todos os anos.

Acredita-se que, nos anos de 1930, caçadores na África Central tenham contraído o Vírus de Imunodeficiência Símia através da carne de chimpanzés, que por sua vez o teriam adquirido de outros macacos.

No organismo humano, ele teria se transformado no HIV-1. Da mesma forma, um vírus originado em primatas do Oeste da África teria se desenvolvido no HIV-2.
"

Diziam os trovadores do Mamonas Assassinas que comer tatu é bom, pena que dá dor nas costas. Ao que eu acrescento: comer macaco é bom, pena que dá Vírus Símio Espumoso.

Pelo nome, esse microrganismo deve ser dos brabos. Além de ser símio, o desgramado do vírus é também espumoso. Afe Maria.

A razão do vírus ser espumoso não foi informada na notícia. O bicho, não contente em ser nocivo, é ainda por cima nojento. Espuma de vírus deve ser asquerosa. Aliás, como percucientemente notou nosso colega Doutor Ivanov, "Vírus Símio Espumoso" parece nome de arma que o Dr. Góri usa contra o Spectreman.

A vida é foda mesmo, senhores leitores. Não bastasse a AIDS, vem agora o tal do vírus espumoso do símio pra nos ferrar de vez. E tudo por conta de algum pigmeu degenerado, que contraiu em segredo núpcias com uma macaca.

Sim, porque, apesar de o texto acima falar que o vírus espumoso passou do símio para o homem via ingestão de carne de macaco, assim como teria ocorrido com o vírus da AIDS, ao que me consta a transmissão na verdade teria se dado de forma bem diversa. Ao invés de saborear o macaco morto e assado, me parece que os nobres pigmeus - esses refinados somelliers do sertão dos Camarões - teriam mesmo é traçado o bicho cru e bem vivo, para seu desgosto e opróbrio na comunidade símia.

Enfim, foi pelo estupro de um símio (ou melhor, contra um símio) que hoje nós homens somos obrigados a usar a odiosa camisinha. Digo nós homens porque as mulheres, que eu saiba, não usam camisinha - com exceção talvez da nobre classe travecal. E camisinha é ruim pra diabo, e tira, digamos, 50% do prazer do sexo. Mas usar camisinha é melhor que morrer igual ao Cazuza, de modo que prefiro usar o plastiquinho a virar sósia do ilustre menestrel carioca, autor do hit "Exagerado".

Taí um bom lema para campanha anti-AIDS: "camisinha é uma merda, mas é melhor do que virar o Cazuza". Tenho certeza que campanhas realistas como esta surtiriam mais efeito do que aquelas em que aparece a sua tia-avó encapando uma banana na frente das crianças.

Fica aqui minha desesperada exortação: pigmeus filhos da puta, parem de enrabar os símios!


Andam abusando dos pobres símios por aí


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25.10.04

TRATAMENTO DA PORRA

Agora que desencarnei, tenho mais tempo para pôr minha pauta em dia. Só morto pra conseguir ter tempo. Sem as necessidades biológicas que em vida tomam quase a totalidade do nosso tempo, é possível fazer aquelas coisas que simplesmente nos dão prazer.

E uma das coisas que mais me propiciam deleite é ler notícias bizarras, aqueles raros flagrantes do ser humano exibindo a sua verdadeira condição: a condição de símio.

E eis que me deparo com uma interessante notícia, pescada no Terra há uns dois meses. O fato já não é mais fresco, mas o teor vale ser lembrado. Vejam aí embaixo uma palhinha dessa, por assim dizer, saborosa notícia.

"PACIENTES AFIRMAM QUE RECEBIAM SÊMEM EM SERINGAS

Autoridades do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, retiraram a licença de um dentista acusado de injetar sêmen na boca de suas pacientes durante os procedimentos odontológicos. A ordem mandava que John Hall, da cidade de Corneliu, suspendesse as práticas dentárias imediatamente.

Segundo o site da CBS, seis antigas pacientes disseram que o dentista injetou em suas bocas uma substância com gosto estranho de uma seringa em seus bocas durante as visitas. Elas acreditam que se tratava de sêmen
."

"Eta tratamento da porra!", diria meu amigo Simião. É misteriosa a razão pela qual o bom odontólogo teimava em nutrir suas pacientes, a contragosto, com o próprio leitinho. Talvez considerasse as pacientes um tanto anêmicas, e, por excesso de zelo, resolvera beneficiá-las com os nutrientes que julgava possuir. Talvez fosse um trauma causado pela reiterada recusa de sua consorte em ingerir-lhe os fluidos corporais, o que, convenhamos, traumatiza qualquer um. Talvez fosse pura safadeza, ou mesmo "loucura loucurae simplex", como diria nosso sub-editor-adjunto e consultor jurídico, o Doutor Milton.

Mas se as razões do bom doutor são insondáveis, alguns fatos são incontroversos, como o nome da cidade do dentista profissional e nutricionista amador. O nome do lugar é "Corneliu". Isso deve dar mau agouro. Fico imaginando as autoridades federais interrogando a vítima. "E onde é que a senhora ingeriu a porra do dentista?", pergunta o agente, ao que responde a infeliz moça: "Foi lá em Corneliu". A cidade se perde pelo nome, e talvez o doutor fosse simplesmente corno, e quisesse passar adiante os seus genes pouco prestigiados, ainda que de uma forma um tanto incomum.

Outro fato que não se pode negar é que, se as infelizes pacientes do doutor sacana identificaram a substância que lhes fora posta na boca, é porque as nobres papilas gustativas dessas donzelas já travaram contato com o líquido infame em outros carnavais. Creio que uma mulher casta dificilmente saberia que gosto a porra tem. Portanto, se receberam o leitinho do doutor sem prévio aviso, pelo menos não poderão alegar que fora a primeira vez que ingeriram o famigerado suco de cacete.

Mas boa mesmo foi a desculpa que os advogados do taradão encontraram para justificar a existência de seringas com leite de pica no seu consultório dentário. Segundo a notícia, "o advogado de defesa Emerson Thompson explicou que o dentista guardava amostras de sêmen no consultório pois estava monitorando os efeitos de um remédio para o crescimento dos cabelos. Um dos efeitos colaterais do medicamento seria a diminuição da produção de sêmen e menor contagem de esperma".

Ah, então está explicado. Na verdade o doutor carequinha apenas queria uma opinião daquelas que a própria notícia identifica como sendo seis "antigas pacientes". O doutor, inocentemente, fez só uma singela consulta a suas clientes mais chegadas, presumivelmente mais experientes nesse especial tipo de degustação. "E aí, Susan, o que você achou dessa injeçãozinha? O sabor está bom? Está concentrado ou é preciso engrossar o líquido?". Isso é que é controle de qualidade.


O negócio é escovar bem os dentes


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22.10.04

DEMOCRACÍMIA

Aqui do Inferno, onde resido desde que o Mojica me matou, estou fazendo graves e simiescas reflexões. Ao contrário do que dizem, no inferno não há martírio nenhum. Nem tortura, nem fogo, nem nada. Afinal, como queimar ou espetar com tridente uma alma? O Hades, na verdade, é muito mais agradável que a Terra. No planeta em que vocês me lêem, através da psicografia do Dr. Fernando, é que torturas e desgraças ocorrem. O problema do Inferno é o tédio. Mas para espantá-lo escrevo estas sábias e ponderosas reflexões.

Outro dia fui questionado por uma feminista, minha colega de eternidade - sim, as feministas também vão para o inferno, todas elas - acerca das diferenças entre homem e mulher. Interessava à questionadora moça de óculos e sovaco peludo saber a minha opinião sobre essa briga, que para ela não tinha e nunca teria fim.

Coçando os olhos e dando uma cusparada de fumo mascado para o lado, respondi-lhe na lata: "É tudo a mesma merda". Tal foi a minha serena, convicta, elegante e peremptória sentença. "Mulé, hómi, véio, criança, aleijado, pobre, rico - é tudo uma bosta só. E, o que é pior: todos fedem".

Após perscrutar com o nariz o próprio sovaco para ver se fedia, minha interlocutora volveu em minha direção com um olhar perplexo, provavelmente impressionada com o tamanho da minha democracia. Ou talvez, agora me ocorre, ela simplesmente tenha constatado que o seu sovado multipiloso estava mesmo fedendo.

Comecei então a alinhavar as minhas boas razões, ilustrando com exemplos práticos da vida cotidiana dos símios.

"Não creio que a estupidez tenha predileção de sexo, assim como acho que a desgraçada - a estupidez - também não distingue idade, raça ou conta bancária. É totalmente cega, a filha da puta".

Se há alguma coisa democrática nesse mundo aí de vocês, como se vê, essa coisa é a estupidez.

Descartes, numa passagem que tenho por extremamente humorística, apesar de alguns levarem-na a sério, dizia que o bom senso deve ser a coisa mais bem distribuída do mundo, tanto que ninguém quer ter mais do que já possui. Mais não precisa ser dito acerca da simiedade.

No fundo, creio que no Mundo Símio (também conhecido como planeta Terra) só existe uma meia dúzia de homens, e outro tanto de mulheres, realmente razoáveis e inteligentes. Como todas as doze pessoas estão espalhadas pelo globo, tanto que nunca se viram duas pessoas de tais qualidades juntas no mesmo lugar, é preciso reconhecer que nunca conheci nenhuma delas. Nunca vi um homem ou uma mulher de reputação verdadeiramente ilibada, alguém que não tivesse gravado em algum lugar do corpo a marca infame da estupidez. Eu mesmo devo ter até carimbo de fábrica assegurando "teste de estupidez: aprovado". Sou símio e não nego. E eis aí toda a minha humanidade, clara e resumida.

Nos debates, o amigo fura o olho do amigo por vaidade e amor às próprias idéias. No trânsito, ficam no meio de duas faixas, param em fila dupla e, se possível, passam numa poça d'água para acertar o boy no ponto de ônibus. Nas filas, é um tal de velho simulando artrite, barriguda simulando gravidez, e office boy simulando urgência.

O cozinheiro coça a frieira e limpa o suor da testa com as mesmas mãos que amassam a farinha. O aluno frauda a si próprio dizendo o que o professor quer ouvir, e este finge segurança naquilo que ensina. Os amantes só não se corneiam reciprocamente por falta de oportunidade, de coragem ou de competência. E não se separam por comodidade.

O chefe fode com o empregado, que fode com ele, pegando quatro e não duas folhas de papel na hora de lavar as mãos. A mãe chantageia o filho com suas lágrimas, e o filho degenerado sempre acaba por revelar-se um mal agradecido. As crianças, aliás, em matéria de chantagem são insuperáveis: cospem na cara do pai por um pacote de figurinhas. Ah, e dificilmente alguém sai do banheiro masculino de mãos lavadas. Reparem.

E como hoje estou com a gota, diante de tantos exemplos de burrice congênita e incurável não livro nem a cara de Deus: se Ele existe, é um tremendo de um Joselito, e não sabe brincar.

É por isso que, quando perguntado por algum confrade de eternidade se "tal grupo é melhor que outro", sempre respondo na lata e com convicção: "É tudo a mesma merda".


Hoje Dom Gustavo resolveu sentar o cacete na humanidade


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21.10.04

MEDO DE AVIÃO

Os caminhos do Senhor são infinitos.

Mesmo ciente do salmo acima, por pura ingenuidade, acreditei que tudo quanto fosse piada, história, teoria, ensaio, tratado e até música relacionada ao medo de voar em avião estivesse pra lá de gasto. Por conseguinte, jamais teria eu a coragem de tocar nesse assunto, com quem quer fosse, sob pena de passar atestado de sujeito chato e, ao mesmo tempo, desprovido de inteligência. Ledo engano: não se deve questionar a palavra divina. A prova de sua verdade vem de onde menos se espera.

No meu caso, veio da rua, na forma de um folheto azul entregue por um sujeito magricela e desdentado, que me interrompeu o caminho na calçada para, como um anjo implacável, colocar de repente em minha mão o dito cujo, sem dizer nem explicar nada.

Ainda caminhando, comecei a ler o papel, de modo a me certificar de que não iria jogar no primeiro cesto de lixo que aparecesse algum aviso de que alguém estaria dando dinheiro de graça por aí. E qual não foi minha surpresa quando vi no prospecto, ao lado da figura de um aviãozinho branco, os seguintes dizeres: "Condor - Instituto de Psicologia e Pesquisa para o Medo de Voar".

É isso mesmo: com profissionais altamente qualificados, o Instituto Condor promove cursos para perder o medo de voar. "Você não está sozinho!", garantiu-me a folhinha azul, para meu conforto e satisfação.

Aleluia!

É pena que, no meu caso, a informação tenha vindo um pouco tarde.

Sou do tipo que se acostuma a qualquer desgraça e, mesmo tendo iniciado minha carreira de passageiro aéreo sob terrível pavor de perder a vida em queda livre (a ponto de, a cada decolagem, fazer um breve inventário de meus atos bons e maus, além de prometer a Jesus ir à missa no próximo domingo), hoje em dia não apenas durmo na aeronave como ainda deixo escapar pela boca aberta uma baba pastosa igual à de uma vaca e que, invariavelmente, orna minha camisa com uma mancha escura que custa a desaparecer - motivo pelo qual, acredito, jamais fiz sucesso com as belas aeromoças que, apesar das minhas tentativas de entabular uma conversa simpática ao final do vôo, me viram a cara com indisfarçável mal-estar. Ainda assim, a grade curricular do curso me instiga a, por assim dizer, fazer um estágio para me atualizar na matéria. Não é para menos.

O curso se inicia com "aulas teóricas sobre a dinâmica de vôo". A despeito de não fazer a mínima idéia do que seja uma "dinâmica de vôo", sempre gostei de aulas teóricas - em especial aquelas que têm lousas, carteiras duplas (para forçar uma amizade com o colega do lado) e chamada oral ao final da explanação, sob pena de, errando-se as perguntas, vestir um chapéu de burro, feito de cartolina (coisa que, sem dúvida alguma, dá um toque de emoção ao aprendizado). Espero que meus poucos conhecimentos de Física e Matemática me dêem alguma vantagem sobre os outros companheiros, porque, acredito, a competição não vai ser moleza. Não deve ser fácil entender como funciona um avião. E pior: um avião que voa - e voa, especulo, de uma forma "dinâmica". Temo que sejam necessários anos de dedicação e estudo sério para entender toda essa intrincada dinâmica. Infelizmente, o folheto não diz o tempo de duração do curso.

Depois de descobertos os segredos científicos que foram revelados por Santos Dumont à humanidade, iremos todos fazer uma "visita em aeronave comercial". Será a demonstração definitiva de que o que aprendi em teoria estava certo na prática - e, dali em diante, meus olhos nunca mais verão um avião da mesma forma sem graça de antes, tal será grandeza da revelação por mim recebida. Mal posso esperar.

Uma coisa, porém, é racionalmente ter-se ciência de um determinado fato; coisa bem diferente, por sua vez, é nossa alma, nossas emoções, nosso coração aceitar o mesmo fato. Sabedores disso, os idealizadores do Instituto Condor se anteciparam: após a tal visita, serei atendido por psicoterapeutas que me ajudarão a superar a "ansiedade" e o "medo de voar". Sim, meus amigos, enfim a libertação! Sob a escuta diligente de um doutor da mente, revelarei meus traumas de infância, as surras que tomei de minha maldosa genitora, a reprovação que tive de meu severo pai desde os tenros anos da infância; contarei sobre o maldito dia em que a Romilda, empregada lá de casa, comeu a minha sobremesa (um potinho de sorvete caseiro, se não me engano); revelarei que, do alto do telhado, atirei abacates podres em todos os quintais da vizinhança, finalmente revelando ao mundo o torpeza de meu crime e expelindo de minha alma a culpa acumulada; confessarei que tive pensamentos impuros com minha tia Laura, mulher do meu tio Aurélio - todas essas, certamente, as causas do meu medo de voar de avião. Só não sei se a tal terapia será em grupo ou individual - particularmente, gostaria que fosse em grupo, pois a vergonha de contar os pecados em público é recompensada com folga pela possibilidade de ouvir os pecados alheios (e eis aí um belo exemplo que confirma o adágio de que saber ouvir é melhor do que saber falar). Se o grupo for formado por mim e mais dois desgraçados, já sairei no lucro.

Por fim, o curso oferece um vôo de verdade, no qual serei acompanhado por "psicólogo especializado" em voar com os outros, ocasião em que provarei a mim mesmo que perdi o medo de voar. Esse item, porém, é "opcional". Nada mais justo.

Seja como for, o curso me pareceu completo. Para saber o que comer antes de embarcar em tão arriscada empreitada, o Instituto Condor me oferece os ensinamentos de uma "nutricionista", a qual, espero, me explicará o que não se deve comer para não ficar enjoado - ou, ficando, como utilizar com maior habilidade o saquinho de plástico que serve para essas tristes situações. Para saber a melhor posição de se sentar (e, quem sabe, assim evitar a baba melada que a força da gravidade insiste em puxar por sobre a roupa), um "fisioterapeuta". E para ter certeza de que não estarei embarcando numa canoa furada, terei as dicas de um "engenheiro de manutenção", que me ensinará a observar na pista se aeronave está ou não em condições de vôo - o que vai me deixar orgulhoso enquanto, do chão, acenarei com sinal de positivo aos otários que não fizeram o curso, instantes antes do avião explodir pelos ares.

A quem duvidar da estrita veracidade de minhas palavras, recomendo uma visita ao site www.institutocondor.com.br, onde essas e outras lições sobre a arte de ser um passageiro de avião estão expostas.

Tendo agora prova cabal da sabedoria das palavras do Senhor, pregarei a todos que o tema que há tanto tempo assombra a humanidade, o medo de voar de avião, não está nem jamais esteve desgastado - e, matriculando-me no curso do Instituto Condor, darei não menos cabal prova de que, ao contrário do que muitos supõem, não sou um sujeito chato nem desprovido de inteligência.


Finalmente, sinto-me preparado para voar de avião


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19.10.04

FUI DESCOBERTO

Algum desgraçado me dedurou.

E, o que é pior, o alcaguete sequer teve a hombridade de ir me delatar junto à polícia, à Receita, à Prefeitura, ao SPC ou ao síndico do meu prédio. Nada disso. O vagabundo foi cumprir o seu ofício de dedo-de-seta diretamente junto a Deus - ou, na falta Dele, em pessoa, a quem Lhe faz as vezes neste não menos desgraçado canto do universo onde, sem êxito, tento me esconder.

Recebi, por estes dias, junto com a conta da luz, do telefone e do condomínio, um envelope grande, de uma cor vermelha berrante, que, apesar de dar o meu nome completo como destinatário, não trazia nenhuma identificação do seu remetente. Como há muito tempo só tenho recebido as correspondências enviadas pelos meus credores, tive o ímpeto ir logo abrindo o dito cujo, na esperança de que, desta vez, tivesse sido presenteado com a carta de algum suposto devedor meu (se é que tenho algum), oferecendo-me algum dinheiro - ou, na falta deste, qualquer outra coisa que tenha algum valor pecuniário (o que, em face da minha situação, sem sombra de dúvida eu iria aceitar). Refleti alguns minutos, porém, antes de fazê-lo: há credores que, com inequívoco conhecimento das profundezas da alma humana, usam e abusam de envelopes bonitos (e sem a identificação do remetente) para fisgar o devedor pela curiosidade, lembrando-lhe, de forma inapelável, dos erros cometidos no passado. Antes fosse.

Tirei de dentro do envelope enorme uma carta que, logo de cara, já me acusava:

"Caro Sr. Paulo:
Venho oferecer-lhe, hoje, um consolo, um momento de alívio no seu dia-a-dia".

Jesus Cristo!

Como é que esse fulano desconhecido sabia que eu estava precisando de um alívio para o meu dia-a-dia?

Cogitei, no início, da carta me ter sido enviada por engano. O parágrafo seguinte, no entanto, não deixava dúvida:

"Sim, Sr. Paulo, é para propiciar-lhe esse instante de conforto e de paz..."

Paz, alívio e conforto para o dia-a-dia. Sem dúvida, o homem estava falando comigo. E daí a pergunta: mas quem diabos avisou ele dessa história toda?

Não pude saber quem me denunciou, mas a carta, mais rápida do que as minhas especulações, foi logo dando o serviço:

"... estou lhe enviando um belíssimo pôster do Imaculado Coração de Maria. Esta é a imagem de Nossa Senhora de Fátima, tal como Ela apareceu à Irmã Lúcia, em 1925, com seu Coração Imaculado cercado de espinhos".

Deveras, grampeada à carta havia uma foto de uma bonequinha de cera, cujas vestes realmente me lembravam a Nossa Senhora - não sei especificamente se de Fátima, se de Lurdes, se de Aparecida do Norte, ou se de algum outro lugar místico. Achei melhor dar um crédito à palavra da Irmã Lúcia e aceitar que aquela Nossa Senhora, exatamente do jeito que estava na foto, foi a que apareceu lá nos cafundós do Judas, em Portugal, há uns oitenta anos atrás - afinal de contas, quem sou eu pra duvidar da memória fotográfica da boa Irmã Lúcia?

Certo, ganhei um retrato-falado da Nossa Senhora - o qual, espero, tenha sido feito por um bom retratista da polícia portuguesa. E daí?

Daí, prossegue a carta, que "Ela, Sr. Paulo, tem uma mensagem a lhe transmitir".

Para mim?!?

Não pode ser. Deve ter sido engano.

Mesmo assim, fui adiante com a leitura:

"Veja como Nossa Senhora parece viva. Só falta falar..."

Não sei, não. Olhei bem para a Nossa Senhora e vi que ela tinha um nariz fino e pequeno - e, por conta da boquinha mirrada e de lábios finos que ficava entreaberta, ela parecia estar fazendo um biquinho estranho, como se estivesse prestes a assobiar. Os olhos, por sua vez, tinham uma expressão indefinida, que podia ser tanto de uma ameaça de choro logo após uma risada quanto de uma ameaça de risada logo após uma crise choro. Posso estar enganado, mas, nessa expressão de perplexidade entre o riso e o choro, ela me pareceu com aquela cara de dúvida, típica de quem não entendeu uma piada contada numa festa - e que, por não saber se no final da história é para rir ou para chorar, adia até o último momento a expressão dúbia, na espera de que os outros lhe dêem a pista de como se comportar. Certamente, seria a pessoa que, não entendendo a piada, riria por último, na cola dos outros, por pura burrice. Sei lá. Ela me lembrou a minha prima Tonica - burra como uma porta, como dizia sempre qualquer um que lhe conhecia.

"Sr. Paulo", continuou a mensagem, "Ela tem uma mensagem a lhe transmitir".

Naquela altura do campeonato, só esperei que não fosse uma mensagem de cobrança de alguma conta que eu deixei de pagar - hoje em dia, vai saber, meus credores, em especial a companhia de telefone, andam cada vez mais persistentes e criativos. Logo imaginei que, a um toque meu no retrato da santinha e uma mensagem eletrônica iria berrar: "Paga a conta do telefone, filho da puta!".

Para minha sorte, não foi o que se sucedeu. A própria carta me tranquilizou:

"Ela está à sua espera, Sr. Paulo, como a lhe dizer: peça, peça tudo quanto precisar, que eu estou aqui para atendê-lo!".

Opa, tá falando a minha língua. Pedir é comigo mesmo.

Influenciado pela história da lâmpada mágica do Aladim, imediatamente comecei a esfregar a mão feito um alucinado na imagem da santa, e fui logo dizendo meus três desejos em voz alta: cinco milhões de reais, todas as contas pagas até o fim da vida e transar com uma mulher bonita pelo menos uma vez a cada seis meses. Sei que fui modesto, mas, no calor da empolgação, achei melhor não abusar.

Para minha desgraça, não era assim que a coisa funcionava:

"Tenha uma pequena conversa com Ela, Sr. Paulo. Apresente seus problemas, suas necessidades, suas alegrias. Desabafe um pouco, fale do seu dia-a-dia.
Sobretudo fale com Ela em suas horas de desgostos, de aflições, de angústias.
Então, lhe proponho emoldurar o pôster e colocá-lo num local de sua residência que seja calmo. Faça desse lugar seu ponto predileto do dia-a-dia.
Ponha em frente ao quadro uma cadeira cômoda. Chegando em casa, sente-se ali por uns minutinhos, sem pensar em nada, até passarem as agitações da rua. Apenas olhe para Nossa Senhora e se deixe envolver pelo bondoso olhar d'Ela".

Em seguida à revelação do ritual a se observar, transcreveram-se alguns relatos de uns coitados que, seguindo-o, conseguiram arranjar emprego e felicidade no casamento - entre outras coisas menos difíceis, como a cura do câncer e da AIDS.

Não gostei.

O lugar mais confortável de minha pobre residência é uma cadeira de plástico em frente à televisão. Não me agrada a idéia de, todo santo dia, papaguear meus pensamentos para um retrato da minha prima Tonica, colocado numa moldura em cima do aparelho. Sem falar que, desabafados os meus problemas, a foto da prima Tonica em cima da TV iria me desviar a atenção da programação. E mais: como explicar a foto para as visitas?

Pensei em colocar o retrato pregado na parede de azulejo que fica em frente à privada - lugar, sem dúvida alguma, confortabilíssimo para os meus pensamentos. Mas creio que, daí, ia ser a Nossa Senhora quem não ia gostar.

Por ora, guardei o tal retrato no armário, antes de decidir se vou ou não em frente com essa terapia do além, no melhor estilo freudiano (Surpreendeu-me, aliás, que a própria carta não sugerisse a compra de um divã, para que melhor se tratasse dos problemas diretamente com a "mãe celestial").

De qualquer maneira, tenho dúvidas se, neste momento, meu tratamento surtirá algum efeito: além do alongado prazo que esses métodos exigem do paciente, no mesmo envelope vermelho foi enviado um boleto bancário me solicitando uma pequena contribuição, em dinheiro, para ajudar na divulgação de tão miraculosa obra - e desconfio de que, enquanto não molhar a mão da santinha, desse mato não vai sair coelho. A quem quiser colaborar, dou de bandeja o meio como fazê-lo: basta acessar www.rainhadefatima.org.br - e fazer uma contribuição em meu nome. Porém, para evitar transtornos desnecessários, os interessados podem me mandar diretamente o dinheiro, que me encarregarei de depositá-lo na conta da Nossa Senhora para iniciar meu tratamento. A própria carta, "a título de sugestão", propõe que a colaboração seja de "10 reais, ou 15, ou mesmo 25 reais". Observo, porém, que o inocente sujeito que a escreveu (um tal de José Maria) está subestimando meus problemas: no meu caso, nem a Nossa Senhora iria se dispor a ter tanto trabalho por uma ninharia dessas.

Aos incrédulos, digo desde já: sei até por onde iniciar meu tratamento. Vou perguntar à Nossa Senhora o nome do dedo-duro que está por aí a me difamar por tudo quanto é lugar - mesmo temendo que, em resposta, me depare outra vez com a cada vez mais cansativa expressão "Sr. Paulo".



É assustador dar-se conta da própria transparência


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17.10.04

DIA DO PROFESSOR

Mestre Paulo Maluf pode ter dito muitas bobagens, mas numa coisa ele acertou em cheio: as professorinhas do Brasil são mesmo umas mal casadas.

Sei bem do que estou falando, fui casado com uma. Logo, casou-se mal a moça: casou-se comigo, não poderia ter feito escolha pior. Foi difícil convencê-la disso, mas, depois que expus meus argumentos com a sinceridade de sempre, ela se convenceu de minha boa razão - e, num ato de elogiável sanidade, foi ensinar suas lições em outra freguesia. É possível que eu tenha algumas qualidades, mas, certamente, aprender não é uma delas.

É duro admitir, mas para descobrir quanto é 7 vezes 8, preciso iniciar a tabuada do 7 desde o início. Até o 7 vezes 3, 21, vou bem - daí em diante, a coisa complica. Constatando esse dificuldade vejo que, no meu caso, o fato de ainda não ter morrido de inanição é uma prova concreta e incontestável da existência de Deus. E se, além de não morrer de inanição, consegui ainda comprar uma televisão, então a prova é de que não apenas Deus existe, como, de fato, ele faz milagres.

A TV Cultura, neste último dia 15, Dia do Professor, exibiu um programa especial, a respeito de umas professoras não sei de onde, que ganharam uns prêmios não sei de quê. Só sei que a festa da premiação foi apresentada pela Marieta Severo - que, dando uma aula de interpretação, disse, com os olhos marejados, que o grande sonho de sua vida, em verdade, era apenas ser professora. É claro.

Antes da festa, gravaram-se entrevistas com as professorinhas premiadas, sempre sob a mesma pergunta: o que é ser professor para você?

Uma moça disse que ser professor é saber passar lições de cidadania e de consciência política. Gostei desse conceito: aprender a não cagar na calçada e a nunca mais votar no Wadih Mutreta me parece bem mais fácil do que a maldita tabuada do 7. Digo que gostei do conceito, mas creio que ele tem sido muito pouco eficiente: o Wadih Mutreta foi reeleito e, pelo andar da carruagem, não vou me surpreender quando me deparar com massas fecais espalhadas pela rua, largadas ali por pura preguiça de ir até o banheiro. É pura questão de tempo.

Outra garota, cuja idade me pareceu mais de aluna que de professora, explicou que ser professor é "dar uma contribuição para fazer um mundo melhor". Essa é uma coitada. Debitarei sua ignorância da pouca idade que ela aparenta ter. Mesmo assim, a mestra deveria ter a preocupação de se instruir antes de ir falar bobagem na televisão. Para tal, seria suficiente uma breve consulta às palavras dos grandes pensadores do Brasil contemporâneo: INRI Cristo, Mojica e Dom Gustavo podem divergir de muitas coisas entre si, mas numa constatação eles são unânimes: o mundo está piorando - e muito. Portanto, se algum tipo de contribuição está sendo dada nestes últimos tempos para se chegar até aonde chegamos, o mais razoável é parar com ela. Quem sabe se alguns anos a mais de tabuada do 7 não iriam ajudar?

Uma terceira, esta já dos seus quarenta anos, disse que ser professora é "ensinar uma lição de vida a cada dia". Uma lição de vida por dia? Jesus Cristo, eu, que já estou no final da minha, não tenho uma só lição para deixar a quem quer que seja. Fosse eu obrigado a deixar alguma a alguém e, com muito esforço, espremendo, calculando e analisando tudo que vi e passei, diria que é importante saber a tabuada do 7. E se esse alguém me perguntasse o porquê da minha lição, ia mandar o infeliz ao diabo que o carregasse. Ele, se quisesse, que fosse perguntar à professora que dá uma lição de vida por dia - à exceção, acredito, dos finais de semana e feriados. Fiquei (e ainda estou) impressionado: uma lição de vida por dia - ainda que contados apenas os dias úteis - é uma média que põe o Paulo Coelho e a Lya Luft no chinelo (e olhe que esses colegas ganharam uma dinheirama com esse negócio de dar "lição de vida" para o povo). Gostaria de conhecer essa mulher - e perguntar a ela se, na sua ótica, o mundo estaria piorando ou melhorando, a despeito de seus ensinamentos diários aos apóstolos mirins.

Sei que tocar em assunto tão delicado assim pode suscitar ódios freudianos dirigidos contra mim: é muito provável que, seguindo a tradição brasileira, a maioria das nobres genitoras dos nossos 5 leitores seja composta de professorinhas. É também o meu o caso. E vejam só na porcaria que deu.

A Rádio Bandeirantes, no mesmo dia, resolveu homenagear os mestres também fazendo uma pergunta, só que esta dirigida aos alunos: o que é que você aprendeu com um professor seu e que, até hoje, você não se esquece? Os ouvintes ligavam para a rádio e, no decorrer da programação, exibiam-se algumas das respostas gravadas na caixa postal.

Um sujeito gravou uma mensagem dizendo que, com o professor fulaninho, aprendeu inglês. Quero crer que, para esse colega ter se dado ao trabalho de ligar para a rádio e deixar gravada uma mensagem ao mundo, o tal professor fulaninho só pode ter sido professor de matemática, ou de química, ou de biologia, ou de história, ou de geografia ou até mesmo de economia doméstica. Mas mesmo assim, de tão bom que era, até inglês chegou a ensinar para o pobre-diabo que até os dias de hoje está bestificado com a sabedoria do mestre. Impressionante.

Um outro camarada disse que nunca se esqueceu do dia em que repetiu de ano. Não é para menos. Só que surpreendente mesmo foi o que ele ouviu da professora, ao saber da bomba: "Você nunca mais vai esquecer do dia de hoje". Confessou o ouvinte que, dali em diante, passou a ser, sempre, o primeiro aluno da classe, até o final de seus estudos. Inacreditável: estivesse eu no lugar daquele cabra e, com toda a certeza, teria retalhado a sapiente face da mestra, nem que fosse com um lápis sem ponta. Sei não: para dizer um treco desses a quem acabou de tomar pau na escola, a professora devia estar armada com um trinta e oito. No mínimo um trinta e oito, quem sabe até uma automática.

Eu, do meu canto, tentei lembrar de alguma coisa dita por algum professor que tenha tentado (sem êxito, obviamente) me ensinar alguma coisa, e que me ressoasse nos ouvidos até hoje, como um sábio conselho ou uma lição de vida a ser adotada. Vasculhei a memória e, para minha desgraça, não encontrei nada digno de nota. Vejam bem: não digo que nada do que me foi dito é digno de nota; o que digo é que não consegui registrar, muito menos utilizar, alguma lição digna de nota.

Pensei então em frases que, a despeito de minha incompreensão, tenham, sei lá por que, ficado gravadas, ainda que sem razão para tal. Ocorreu-me apenas uma.

Na época do colegial - troço que, acredito, hoje em dia nem existe mais; fala-se, se não me engano, em ensino médio, ou coisa parecia -, tive aula de biologia com um professor chamado Savino. É outro milagre divino o fato de ainda eu lembrar-lhe o nome.

Pois bem. O tal do Savino não tinha nada de mais, nem de menos. Não me lembro se suas aulas eram boas ou se eram ruins. Aliás, mal me lembro de sua cara - se bem que, isso posso afirmar, tratava-se, o mestre, de um sujeito barbudo e com cara de bem poucos amigos, beirando à rudeza; ele quase não falava e, o quando o fazia, mandava o fulano que lhe tinha perguntado algo calar a boca. Eis um sábio autêntico: se sua lição fosse seguida, muita bobagem ia deixar de existir no planeta; é pena que a profundidade de seu ensinamento não tenha sido passível de compreensão pelo vulgo.

Porém, a característica que lhe conferia um certo destaque - e, nisso, meus contemporâneos que ainda estiverem vivos haverão de me avalizar - era outra: ele vivia coçando o saco. O tempo inteiro.

Uma mão no giz, a outra no saco. Uma mão no apagador, a outra no saco. Creio que ele devia ter alguma doença.

Seja como for, não se tratava de uma doença decorrente do vício do cigarro. Certa feita, ao ver um maço aberto sobre a carteira de um moleque, o mestre interrompeu a aula e perguntou:

- Você fuma?

Pareceu-me que, nesse momento, não se houve com a sua costumeira perspicácia: a menos que o moleque fosse um tarado colecionador de cigarros, era óbvio que ele fumava.

- Fu... Fu... Fumo - respondeu o pequeno fumante, em parte surpreso, em parte temeroso, em parte envergonhado.

- Eu parei - explicou o mestre, todo pimpão (e eis aí a única vez que vi o tal do Savino a sorrir).

- Pa... Parou? - disse o moleque, apenas porque não tinha outra coisa para dizer.

- Há 2 anos - confirmou o mestre, junto a uma risada de superioridade sobre o coitado, que já começava mal a vida de fumante.

- E por quê? - quis saber um outro aluno, que não tinha nada que ver com aquela história.

- Porra, é simples! - asseverou o mestre, claramente irritado pelos 2 anos de abstinência de nicotina. - Dá uma olhada no pulmão de um cara que não fuma e compara com o pulmão de um cara que fuma. É só enxergar o resultado. É óbvio, porra!

Depois da frase, o Savino, com um olhar desafiador para a classe, deu uma coçada de saco nervosa, que quase arrancou-lhe as bolas na frente de todos.

É só enxergar o resultado, revelou o mestre.

Está aí o que interessa.

Do meu lado, vejo que continuo fumando, não consigo decorar a tabuada do 7 e sou péssimo nubente para qualquer professorinha. Eis o resultado, que eu teimo em não enxergar.


Mesmo perguntando aos mestres, me foi difícil entender a lógica da tabuada do 7


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15.10.04

VOLTANDO À VACA-FRIA.

Passada a nossa fase mojiquense, informamos aos nossos 5 leitores que, na próxima semana, retomaremos nossas atividades praticamente normais. Digo "praticamente" porque, doravante, teremos praticamente um miserável texto novo por dia, praticamente.

Fortes emoções, porém, virão. Não foi à toa que contratamos o Doutor Fernando Goiabeira, que, agora, afora seus notórios conhecimentos de psicologia aliados aos seus dotes de paranormal, está finalizando seus estudos sobre a arte da umbanda - com a qual, promete ele, milagres serão feitos, aos olhos e ouvidos de todos.


Estamos empolgadíssimos com a semana que virá


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13.10.04

ENTREVISTA COM ZÉ DO CAIXÃO - PARTE FINAL: A VERDADE SOBRE TODAS AS COISAS


Pára tudo: Mojica decreta o final da entrevista e enxota os hereges do Mundo Símio


CLIQUE AQUI E VEJA O VÍDEO DO MOJICA ROGANDO UMA PRAGA AO MUNDO SÍMIO (agradecimento especial ao Dr. Fernando Goiabeira, nosso fotógrafo, cinegrafista e parapsicólogo que fez a genial edição)


Infelizmente chega ao final a entrevista com o Mojica.

Nesta parte filosófica e moralizante da entrevista, que deixamos de propósito para o fim, o mestre abre seu coração. Descasca a natureza humana como a uma banana, impondo sua grave visão de futuro. Mostra o valor da tradição e demonstra a atual escassez de antigos valores, como a coragem. Observa com horror o emboiolamento do jovem brasileiro, e diz que já teve uns enroscos com umas lolitinhas por aí. E conclui: o homem está se tornando símio.

O balanço que praticamente fazemos da entrevista é o seguinte: Mojica é de fato um gênio. Mas, muito mais que isso, o Mojica é um tremendo de um boa gente. Deu gosto estar na presença do mestre. Um abraço, Mojica.

P.S.: No fim deste post, uma inédita seqüência fotográfica que registra como Dom Gustavo se aposentou compulsoriamente deste mundo, com o passaporte carimbado pelo Mojica.



MS: Nós gostaríamos de lhe fazer uma pergunta que, sempre que podemos, fazemos a quem admiramos. O senhor, que viu e viveu muitas coisas ao longo dessas décadas, nos responda o seguinte: de uns tempos para cá, pelo que o senhor tem visto, a humanidade, sob o ponto de vista ético, está melhorando ou piorando? Em outras palavras: o homem, sob o aspecto moral, encontra-se num processo de evolução ou tende a se transformar numa besta?
MOJICA: O ser humano, infelizmente, se não surgir uma área que não seja levada pela corrupção ou pela vaidade e que possa ajudar - e eu não diria que isso tenha de ser o Cristo que vai voltar -, vai continuar em regressão direta. O ser humano até para dirigir no trânsito está sentindo dificuldades. Eu não sei o porquê, se está perdendo o Q.I., mas alguma coisa está acontecendo; está-se perdendo a solidariedade. No passado, por exemplo, o cara tentava agarrar uma moça e as pessoas reagiam. Hoje, o pessoal quer que agarre, que pegue - e eles estupram na sua frente essa menina. Eu vi há pouco tempo um casal, um senhor e uma senhora. E vi uns caras arrancando tudo do velhinho; a velhinha entrou em desespero por causa do marido. E ninguém, ninguém, fez nada! Eu entrei com tudo pra ajudar e levei uns tapas na cara. E daí gritaram: "Porra, o Zé do Caixão tá aí". O pessoal só entrou pra ajudar porque eu era o Zé do Caixão. Se não fosse isso, iam deixar os caras tirarem todas as coisas do velhinho até ele ficar pelado.

MS: Pois é...
MOJICA: Eu converso muito com adolescentes, com jovens - e, realmente, eu tenho muitos fãs jovens. Eu procuro entrar na mente deles; eu quero colocar a minha ética para discutir com eles, falar dos anos quarenta, dos anos cinquenta. Mas a cabeça deles está ficando oca demais... Eles estão ficando cada vez mais fúteis. As coisas estão ficando fáceis demais, parece até que os caras vão ficando enjoados, vão ficando boiolas, porra!

MS: Ô louco...
MOJICA: Mas é. Naquele tempo, se falava pra mulher que, se ela não cuidasse, se tudo fosse apenas sexo, ela ia acabar transando na rua, como um cachorrinho. E hoje está assim. Você anda pela rua, passa pelo metrô e vê lá pessoas transando numa boa. Então eu acho que a coisa vai ficar pior; o ser humano vai ficar pior do que um animal. Nós, que ainda somos animais racionais, vamos ficar completamente irracionais. Vamos ser mesmo aquilo que você acabou de falar, a besta, ou sei lá o quê. E acho que vai ser uma coisa geral. Não há mais respeito nem pela mãe; os caras desrespeitam a mãe, o avô... Meus filhos me chamam de papai e as pessoas acham uma coisa incrível. E qual é o problema de falar "papai" ou de falar "mamãe"? Eu não vejo nenhum problema nisso: são palavras carinhosas, com que se trata uma pessoa mais idosa. E, de repente, todo mundo ri, tira sarro, faz piada disso. Daqui a pouco, vamos ver uma criança de oito anos que vai querer transar, vai querer fazer sexo. Parece que só existe isso na Terra. Não há ninguém para explicar alguma coisa, para parar com isso, como na minha época havia. E hoje, que estamos mais evoluídos com a tecnologia, estamos desse jeito...

MS: É verdade...
MOJICA: Eu confesso que tive problemas com meninas de dezesseis, dezessete anos. Eu casei com uma moça que tinha dezoito para dezenove anos, mas, meu Deus, ela tinha uma cabeça de uma mulher nos seus quarenta anos. Era muito diferente de hoje. Hoje, não dá nem para você falar com uma menina de vinte e três, vinte e quatro anos. Elas não têm nada na cabeça. E um rapaz de trinta de anos, que então teria o direito de comandar, de ajudar, também não tem nada na cabeça. É claro que existe regra e há as suas exceções. Mas, se fosse para colocar um número, eu diria que, entre as mulheres, de cada cem salvam-se somente cinco. Entre os homens, a coisa está um pouco melhor: eu diria que nós temos entre nove a dez por cento que se salvam. Só que tem um negócio: a mulher é aquela que vai ser mãe, vai ser aquilo que todos nós temos de respeitar. Cacete, se ela não vai saber ser mãe, o que é que vai acontecer pra criança que nasce?!? Vai todo mundo nascer para um caminho só: o roubo é bonito, a droga é legal; isso aqui vai virar uma zorra, uma torre de Babel, ninguém vai se entender e nós vamos entrar em Sodoma e Gomorra novamente. Não que eu acredite nessa história de Sodoma e Gomorra, que está no Livro da Verdade: tudo isso é lenda. Mas serve para alertar a nossa mente de que nós podemos ter essa Sodoma e Gomorra, coisa que, se não existiu, vai existir agora. Então, nós estamos em regressão.

MS: E o senhor vê como mudar isso?
MOJICA: Como parar isso?

MS: Sim.
MOJICA: Eu acho que só através da comunicação. Quando eu vejo, por causa de novela, as pessoas chorando, eu penso comigo: está aí a salvação. Quem sabe, se essas coisas fossem discutidas numa novela? Por que não uma novela direta, sem esquecer do visual que o povo quer ver, sem esquecer do suspense, da emoção, mas falando dessas coisas? Eu não gosto de novela, mas eu vejo todo mundo comentando na rua, todo mundo falando sobre a novela. As novelas têm um poder muito forte. E o cinema também. Fazer uso correto da comunicação: quem sabe, este é o caminho da salvação para parar a regressão; para evitar que a juventude continue regredindo, podemos usar a comunicação. Rádio, fotonovela, novela, cinema, teatro, documentário, eu acho que esse talvez seja o caminho. As coisas vão entrando na mente... Você sabe que, se você pegar um filme e colocar a informação de uma determinada maneira, certas coisas podem acabar acontecendo. Coisas que podem até dar cadeia.

MS: Como assim? [Neste momento, o repórter do Mundo Símio, por puro reflexo de quem já foi preso, ameaça desligar o gravador para que, diante da gravidade do ilícito penal que o Mestre ameaçava confessar, não fosse registrado tão comprometedor trecho da entrevista, para segurança de todos, inclusive dos leitores].
MOJICA [um pouco irritado com a burrice do repórter do Mundo Símio]: Pode gravar, pode gravar, porra!

MS: Pois não.
MOJICA: É o seguinte. Eu fiz isso há muito tempo atrás, não vou repetir, é proibido, mas eu vou falar agora. Na verdade, os americanos já fizeram isso. Você sabe que, numa fita, vinte e quatro fotogramas passam em um segundo. E daí, se você, numa fração de segundo, põe a imagem de uma coca-cola, ninguém vai perceber, mas aquilo vai entrando na mente. E o pessoal, todo mundo, quando sair do cinema, vai querer tomar uma coca-cola. Não adiante oferecer outra coisa: o cara sai com sede e quer uma coca-cola. Eu fiz uma experiência assim. Pusemos uma cruz ao invés da coca-cola. E daí o pessoal saiu do cinema e, não sei, não dava pra entender... Um falava alguma coisa assim: olha, tenho de ir no cemitério amanhã, visitar um túmulo de não sei quem. Um outro falava que tinha de ir na igreja fazer não sei o quê. Porra, a cruz! A cruz tinha entrado na mente daquelas pessoas.

MS: A tal da mensagem subliminar.
MOJICA: Isso é uma arma, uma arma diabólica. Mas, se nós pudermos mostrar uma mensagem que vem direto na própria história, por que não voltar, por exemplo, com as rádio-novelas outra vez? Mas tem de ter o suspense - o suspense e a mensagem. A mulher começa a seguir, o homem começa a seguir, e daí a gente vai ver a evolução dos homens de amanhã, que vão ser quem vai dominar realmente o futuro. E isso seria como um início de um movimento. As pessoas começariam a ficar mais fortes, não perderiam a autoconfiança, que é uma coisa importante. E eu acho isso tão importante que eu sempre dou uma mensagem sobre isso, e que eu já quero deixar agora para vocês.

MS: Como o senhor quiser.
MOJICA: Essa é uma mensagem que serve para todos que vão estar com a gente no site. Quando você precisar de um conselho, nunca peça um conselho ao outro. Porque na maioria das vezes o outro quer ser você. Quando você precisar de um conselho, pegue um espelho. Olhe a sua imagem no espelho. Peça para a sua própria imagem. O seu subconsciente lhe dirá o caminho. Você pode cair. Mas levanta, sacode a poeira e vai em frente. Você chega lá. Como eu cheguei.


DRAMA DA VIDA REAL: A TERRÍVEL MORTE DE DOM GUSTAVO


A peleja começa: Mojica prepara seu bote


Antes que Dom Gustavo esboçasse reação, Mojica hipnotiza o pobre símio


Já enfraquecido pelos poderes mentais do Mojica, Dom Gustavo não oferece resistência às garras sedentas de sangue do Mestre


Exibindo sadismo sem par, Mojica ouve com prazer os derradeiros gemidos do símio


Dom Gustavo emite o último suspiro: já é um corpo sem vida


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7.10.04

ENTREVISTA COM ZÉ DO CAIXÃO - PARTE 3: TUDO SOBRE INFERNO E CINEMA


A morte de Dom Gustavo já ficou lendária: até Caravaggio pintou a cena derradeira


Nesta terceira parte da entrevista - a penúltima - o Mojica instrui o povo inculto acerca das maravilhas das ciências cognitivas. Também relata a elaborada didática que sorveu empiricamente, ainda quando infante. De quebra revela as origens do Zé do Caixão, lucubra sobre o Nazismo, descreve o quão gelado é o Inferno, e ainda por cima discorre sobre episódios memoráveis da sua original arte cinematográfica, destrinchando suas geniais trucagens.


MS: O senhor estava falando de cultura e tal, e hoje eu por acaso estava passando perto da Biblioteca Municipal, ali perto da Sete de Abril, e tem uns buracos na calçada - que eu não sei se é tubulação ou o que que é -, e eu vi um monte de criança saindo dali, essas crianças de rua, e eu vi umas dez ou quinze saindo dali. Então é até uma cena metafórica, porque ao lado da biblioteca tem criança morando em buraco. O senhor tem algum pensamento em relação a isso?
MOJICA: Eu tenho um pensamento meu que vem há tempos... e tem um amigo meu egípcio que quer montar um negócio aí... então se eu estiver na política eu acho que eu terei mais força. A gente já vem lutando por isso eu acho que desde os anos setenta... que eu venho lutando com esse egípcio, e eu quero ver se se realiza, eu quero pôr nas escolas, obrigatório, o ensino de artes cênicas, porque as crianças gostam de aparecer. E aí eles vão deixar de cheirar cola, vão querer ir à escola, porque eles vão poder ser atores, atrizes, técnicos, temos que formar técnicos...

MS: ...E o senhor já fez isso...
MOJICA: ...Então isso é uma loucura minha que eu vou tentar pôr. E é até uma coisa que pode gerar emprego. Vocês sabem que eu não entrei na campanha para prometer emprego a ninguém, mas eu acho que vai gerar pra classe muito emprego. E tem que ser obrigatório. Porque eu me lembro da minha época de criança na escola, e tudo que tinha ilustração, a criança gosta. Eu sou fanático por estória em quadrinho, sou um dos maiores colecionadores, vendi coleção só para acabar filme, então isso me empolgava demais. Já a coisa ilustrada, se você põe em movimento, fica mais rápido da mente captar. Então digamos que em toda escola, fosse obrigatório mostrar pra criança determinada mensagem, ou para estudar, ou para estudar mais, ou para deixar de ser mentiroso, respeitar os mais velhos, eu acho que tem estorinha, que eu tenho feito muito em escolas, eu pego a criança e conto essa estorinha, e toda estória com essas mensagens... Tem uma estória, que eu não sei se vocês conhecem, "O Menino e o Lobo" [Mojica conta a famosa estória, onde o menino mentia sobre a presença de um lobo, até o dia em que o lobo apareceu realmente e aí ninguém acreditou, levando à morte do moleque]. Então é uma estorinha que você mostra, e de repente a criança já vai pensar que tem que falar a verdade. Eu acho que tem que partir desse princípio. [chegam Crounel e Mariliz, filhos do Mojica, que ficaram a noite toda distribuindo "santinhos" do Mojica nas faculdades da região. A filha do Mojica, que muitas vezes aparece na mídia como a sexy LizVamp, está travestida de Zé do Caixão, com direito a barba falsa feita de rolha queimada, cartola e capa]

MS: Mudando um pouco de assunto: o senhor está trabalhando em algum projeto novo, ainda que seja com algum material que o senhor já tem?
MOJICA: Eu já tenho uma verba arrecadada, que eu vou usar para um filme que já era para ter passado em setenta [sessenta?] e sete, mas que passou por muitos problemas. Passou por problemas de censura, e houve até um produtor que chegou a falecer sem finalizar o projeto. A idéia é de encerrar a trilogia que se iniciou com o "À Meia-Noite Levarei sua Alma" e ia se encerrar com "A Encarnação do Demônio". "A Encarnação do Demônio" não foi feito. O filme já tem uma parte da verba e se não aparecer mais verba, eu vou fazer sozinho mesmo. Com "Encarnação" você terá a origem do Zé do Caixão; vai saber toda a ideologia e a filosofia do Zé do Caixão. Porque, no início, você sabe que eu tive dificuldade com o Zé. Não fui morto por pouco, por pouco muito mesmo.

MS: Por quê?
MOJICA: Isso aconteceu principalmente quando saiu o "Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver". Por toda a parte de São Paulo ao menos (mas dizem que no Rio foi isso também), faziam cartazes enormes dizendo: "Zé do Caixão é nazista". Então eu tive que fazer algumas palestras, onde eu procurava passar para as pessoas que Hitler procurava a raça ariana. Ele procurava, na verdade, a raça bela. Ele não queria as pessoas muito inteligentes, não, porque daí elas poderiam ultrapassar a cabeça dele. E o Zé do Caixão procura o ser perfeito na mente. Ele quer o corpo são - que não esteja doente, claro -, mas ele não quer a pessoa loira, ou morena; pra ele tanto faz se for negra, se for loira. Ele quer uma mente realmente inteligente. Ele está lutando por isso.

MS: No terceiro filme vai ficar explicado.
MOJICA: É, mas isso eu já consegui. Eu expliquei, dei palestras e conseguiram me entender. No início, foi difícil. Eu não sei quem jogou isso, mas sempre tem aquele que joga, e não dá pra saber a razão. Foi um ano em que eu sofri, mesmo sendo um dos maiores sucessos com o "Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver".

MS: Esse é o filme em que o inferno aparece colorido?
MOJICA: É, é o inferno que aparece colorido dentro do filme em preto-e-branco. Mas esse negócio de nazista, porra, me assustou. Só que daí começaram a assistir a fita e perceber que não era nada daquilo. E começaram a ver que eu tinha filhos, que eu não era o Zé. Passaram a dizer: "O homem é casado, tem filhos... Ele é normal." (risos)

MS: Esse, certamente, não foi o único tipo de preconceito que o senhor sofreu.
MOJICA: Não. Teve, por exemplo, uma vez em que eu fui convidado para ir à Escola Superior de Cinema, na Avenida Paulista. Me criticaram o tempo inteiro e eu ouvi tudo em silêncio. Depois que todo mundo falou, eu disse: "O problema é o seguinte: esse negócio de diploma é assim: na teoria, é uma coisa; na prática, é outra. Então vamos ver os futuros diretores aqui. Traz aí o tripé, vamos bolar uma historinha e filmar". Todo mundo falou, falou, e não conseguiram fazer nada. Eu disse então: "Já que vocês não conseguem bolar a historinha, então a historinha é assim: um homem é convidado e não sabe que vai servir de cobaia. Ele vai ser atacado, destruído e vão dizer que o cinema é diferente de tudo aquilo que esse homem faz. E antes que esse homem, quem sabe, se torne um mito, ou, quem sabe, uma lenda, os outros já querem lhe cortar realmente na raiz. A historinha está aqui e o homem sou eu, que é com quem vocês querem acabar. Onde vocês puserem a câmara, a historinha já está feita". Aí começou. Chegou o primeiro e disse: "iluminação; põe ali". Bem, eu deixei a coisa ficar desse jeito por uma meia hora: cada um que vinha pra fazer um take, não conseguia fazer. Ninguém conseguiu fazer porra nenhuma. Chegou a minha vez e eu disse para o câmera que estava lá: "Começamos aqui. Plano geral; daí vai com a zoom na cara daquele sujeito lá, que tem a cara mais doida dos que estão aqui, está doido pra me massacrar". Ele fez direitinho. Dali em diante eu fui fazendo uma historinha completa, que acabou em dez minutos. E aí o pessoal começou a aplaudir. E todo mundo quis fazer estágio comigo (risos). Foram todos lá pra sinagoga onde eu filmava. Começou numa quinta-feira, depois filmamos na Sexta-Feira da Paixão e no sábado - que, por coincidência, caiu no dia da filmagem da cena do inferno que você falou. Aí os mais burros começaram a perguntar, querendo dar uma de inteligentes: "Espera aí. Como é que o senhor vai fazer o inferno com cores, se o senhor só tem cenário branco e a se a sua fita é em preto-e-branco?". Depois, houve uma falha minha, porque, quando eles me falaram em Dante Alighieri, eu não conhecia: pensei que era um diretor de cinema. Eu nunca copiei esse cara, nem sabia de onde ele era; pensei que, como o nome parecia ser italiano, ele devia ser algum diretor da Itália. Aí me disseram que ele era o autor da "Divina Comédia". Eu também não sabia o que era isso. E pensei: "Melhor eu parar, se não isso aqui não vai sair". Virei pra eles e disse: "O problema aqui é o seguinte: aquele que já foi ao inferno, me diga qual é a cor do inferno. Aquele que já morreu, ou que não morreu mas já foi ao inferno, me diga aí qual é a cor do inferno". Ninguém falou nada. E eu falei assim: "Então como é que vocês sabem quais são as cores do inferno? Eu ponho a cor que eu quero!". Só em 2.001, junto com o Ivan Finotti e o André Barcinsky, é que eu descobri, quando ganhamos um prêmio pelo documentário "Maldito", que eu tinha acertado nessa cena do inferno, que eu fiz com neve. Foi a primeira vez que eu vi neve na minha vida e vi que a neve queima, queima mesmo. Eu estava certo na história do inferno, porque gelo queimava mesmo e era isso que eu estava tentando passar. Inferno, cada um põe o seu o inferno, aquilo que lhe perturba. Como, no filme, a vida é preta e branca, e o inferno eu vejo na imaginação, então eu fiz em cores. Foi como no "Despertar da Besta", em que os caras começam a tomar LSD e daí o filme fica colorido.

MS: Aliás, foi no "Despertar da Besta" que o senhor contracenou com o senhor mesmo sem efeitos especiais.
MOJICA: É. Na época, o pessoal queria saber como fazer. Aí era o seguinte: você pega a fita, conta os metros, volta na câmara; eu voltei na câmara, e você não vê nem os riscos. Filmei do outro lado, voltei os metros. Cortamos um papel preto e colocamos bem na metade.

MS: O senhor usou o mesmo negativo duas vezes.
MOJICA: Usei o mesmo negativo duas vezes. No "Meia-Noite...", pra fazer a cena do cara que vem e fala "mortos!", eu peguei o negativo e pus purpurina. Todo mundo perguntava: "como é que pode?". Foi um caos naquela época, ninguém sabia como eu tinha feito.

MS: Deduzir isso tudo sozinho, fazer isso tudo sozinho, naquela época, sem efeitos especiais...
MOJICA: Hoje, você vê diretores por aí que usam o vídeo para filmar. Eu não tenho essa de ficar olhando no visor. Eu ponho a câmera, olho como é que está e digo: "Põe a 25. Vamos aqui com a 18. Essa vamos fazer com a 65". Eu não preciso nem olhar na câmera. Tem cara que trabalha comigo e pede pra eu olhar. Eu digo: "Olhar pra quê? Eu sei como está saindo, põe logo essa merda aí". É uma prática que eu adquiri, porque eu tive a sorte que vocês não tiveram e ninguém teve: eu nasci inteligente, graças a Deus; mas o meu maior privilégio é ter nascido dentro de um cinema. Com dois, três anos de idade, eu estava dentro do cinema. Eu já gostava da área de comunicação, era inteligente e estava com o telão na minha frente. Porra, eu só tinha que me desenvolver melhor do que os outros. Se outros nascerem dentro de um cinema, vão ser até superiores a mim. Essa é a vantagem que eu tenho sobre eles.

(Não perca o final da entrevista, em que o mestre manda uma mensagem sensacional diretamente para você, sim, você símio do inferno!)


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6.10.04

ENTREVISTA COM ZÉ DO CAIXÃO - PARTE 2: O SEQUESTRO DE SÍLVIO SANTOS


O Mojica, cansado de ouvir tanta besteira dos repórteres do Mundo Símio, resolve furar os próprios tímpanos


Nesta parte da entrevista, o Mojica nos esclarece sobre a sua contribuição para o seqüestro do Sílvio Santos, explicando-nos como a queda das torres do World Trade Center livrou a sua barra nesse rumoroso caso. Discorre ainda, erudito que é, sobre o empreendedorismo, sobre os pastores evangélicos e sobre as estratégias Janistas de conquista do poder político. De quebra, nos relata o episódio em que um notório Vampiro se apavorou de verdade com a sua figura.

MS: Então o senhor dá aula pra detetives?!?
MOJICA: Porra, eu dou muito aula pra detetive!

MS: Para o cara poder "atuar" na profissão dele, e tal...
MOJICA: Pois é, e deu uma zebra, né? Porque um deles [um dos sujeitos que fez o curso de atuação dirigido a detetives] foi o cara que raptou a filha do Sílvio Santos...

MS: É mesmo!?!
MOJICA: Pois é, o cara foi tomar aula comigo lá com outro intuito, né...

MS: Mas o cara aprendeu bem, pelo jeito (risos).
MOJICA: Aprendeu...

MS: ...E foi corajoso...
MOJICA: E foi bem no dia em que eu ia dar uma entrevista direta, a Sônia Abraão ligando pra cá, eu estava atendendo pra fazer a entrevista e de repente ela falou "olha o que está acontecendo na televisão!", e as torres estavam explodindo... Senão seria um dos casos que iriam dar pano pra manga, esse caso aí...

MS: Então esse camarada teve aula com o senhor...
MOJICA: Teve aula e depois raptou a filha do Sílvio Santos...

MS: ...E o Sílvio Santos também!
MOJICA: É! E o Sílvio também! Mas ficou aquela coisa, porque foi uma entrevista [à Sônia Abraão, em que o Mojica contou ter dado aulas ao seqüestrador] feita no dia em que deu esse problema em Nova Iorque...

MS: ...E pra concorrer com esse fato é duro...
MOJICA: Pois é, não deu. Mas eu vou te contar... eu fui agora nas favelas, mas com expertise, todos indo comigo, do meu lado... Eu dou aula. Aula na rua. Eu vou dar aula no dia dois [de outubro, véspera da eleição], e qual é o problema? Porque eu pego eles na sala e levo pra rua. Aquele largo que tem lá na Sete de Abril. É a véspera da eleição, mas é o meu trabalho, eu dou aula, então eu vou dar aula, eu dou aula há mais de oito anos pra eles... Porque é o seguinte. Começamos de uma coisa: o Jânio que me pôs isso na cabeça, na época. Ele pegou todo o pessoal, os seguidores dele e falou assim: eu venho vendo as suas aulas aí, de que vem falando todo mundo, e "político tem que ser tudo ator". E eu comecei a fazer pra cada um... a dar lição do que o político tinha que fazer... Então começou com o Jânio, com esse negócio que o Jânio falou que "político é ator". Padre... pastor... tem que ser ator. Tem que ter arte dramática, exercício, mais do que nunca. O próprio Jânio me inspirou com os políticos, e depois os vendedores, passei a dar aulas para os vendedores, e uma série de coisas. Então, arte dramática. Porque se você se meter a vender alguma coisa você tem que botar na cabeça do cara; tem que ser legal, tem que estar vendendo, tem que mostrar seriedade... Então é uma arte.

MS: E o senhor, até para vender os seus filmes, teve que criar um método para convencer...
MOJICA: Tive que criar um método para convencer!

MS: E o senhor criou um sistema de cotas para financiar os seus filmes...
MOJICA: Isso! Através de cotas eu acho que fui o primeiro homem a financiar os filmes, ao menos o Jô [Soares] tem falado isso, porque o Jô me conheceu bem antes...

MS: Ele inclusive iria participar de um filme, mas não foi e acabou subsituído por um dos policiais que foram lhe prender, o Macarrão...
MOJICA: É, é aquela do Macarrão! O Jô iria contracenar com a Ítala Nandi, mas ele acabou inventando uma viagem, porque ele ficou apavorado (risos). Mas do "A Sina do Aventureiro" ele fala sempre que pode... Foi este ano que eu mandei o material da "Sina..." pra ele? [Mojica informa-se com sua assistente, que responde em tom afirmativo]. Eu mandei o material da "Sina..." e ele fez questão... ele pegou lá um cara que fez um filme de bangue-bangue e disse "olha, você não fez o homem, o cara que mais entende de bangue-bangue..." e mostrou a cena [do filme do Mojica]. Porque eu quando fiz a cena, o mocinho, aliás, o bandido vai correndo e, claro, quando chega na porteira ele não consegue pular com o cavalo, e eu disse "traz aqui o melhor cara", e tinha que ser um cara acrobático, mas ele não pula [a porteira]. Então vai, desce do cavalo, abre a porteira e prossegue. A polícia vem atrás e então chega, desce... Então o Jô achava aquilo fantástico, mas é o natural: ninguém pula a porteira (risos). E eu falei, eu fiz aquilo que é, ele abriu a porteira e saía correndo... Aí ele começou a falar sempre da fita, a primeira fita de que ele falou foi a "Sina...".

MS: É demais. E mesmo no "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" tem um monte de coisas que, intuitivamente ou não, o senhor inovou no cinema da época...
MOJICA: A chamada "linguagem única" pelos americanos. Eles até me pediam se tinham que pagar alguma coisa, direitos autorais pra usar a minha linguagem, e eu falei "não, ela é pública, agora o problema é vocês conseguirem, né..." (risos). Essa linguagem é uma linguagem, porque na época eu cheguei a ganhar do Gustavo Dahl [cineasta] um livro - e ele também nega que me deu o livro - e eu dormi na casa dele, porque o Gláuber me pediu para fazer uma palestra para os discípulos dele. Porque o Cinema Novo não dava grana de jeito nenhum. Aí fui explicar que o cara podia passar a sua mensagem, mas o povo que paga não quer quebrar a cabeça, né? O povo que paga quer entrar e se divertir. Então eles tinham que fazer um visual. O Cacá Diegues foi o que mais seguiu o que eu falei nessa noite... E o Gustavo Dahl me deu esse livro. Mas o Luís Sérgio Person [também cineasta, pai da VJ Marina Person, da MTV], quando eu cheguei na Boca [do Lixo, reduto das putas e dos cineastas paulistas nas décadas passadas. Hoje, só das putas], pegou o livro e rasgou. Ele falou "não, você não deve nunca ler sobre cinema. Se tiver que fazer um livro, você faça o seu livro, porque essa linguagem é única e ela começou aqui".

MS: Ele achou que o senhor iria se contaminar com as coisas dos outros e tal...
MOJICA: É! Ele disse "você vai ficar contaminado, vai com o seu cinema, que esse é o cinema certo". E realmente, um cara fez um tal de "Morte" lá na Califórnia, eu fui ver uns trechos e... não tem jeito...

MS: Dizem que o Glauber gritava em cena aberta, sobre o senhor: "gênio! gênio !"...
MOJICA: É, "gênio". E tem coisa que, se você analisar... por exemplo... vocês estão na comunicação? [os repórteres do Mundo Símio esclarecem ao mestre que, na verdade, são uns mindingos desocupados; no entanto, é fato, Dom Gustavo formou-se em Direito na mesma turma do Crounel, filho do Mojica, apesar de nunca terem se encontrado por lá. Dom Gustavo informa ainda ao Mojica que ele próprio, Mojica, estivera no dia da formatura de Dom Gustavo e do Crounel. Esse fato na verdade foi relatado a Dom Gustavo pelos seus colegas posteriormente, visto que no dia da formatura, cheio de pinga na cabeça, Dom Gustavo não pôde notar a presença do Mojica na festa]. Foi nessa formatura aí que estava o Covas? [a pergunta é pertinente, porque o Crounel se formou em uma meia-dúzia de faculdades, e não só na de Direito]. Tem uma que o Cro diz que eu fiz ele passar vergonha, não sei qual delas foi, que eu vim correndo e subi no palco (risos). E o Cro falou "pai, que vergonha você me fez passar" (risos). E eu subi pra falar o que eu sentia... Em todas elas [as formaturas do filho Crounel] eu vou e acontece alguma coisa, mas não porque eu queria, né? Teve uma vez no casamento dele em que eu fui pra filmar... e o Goffredo da Silva Telles, que é o único filho da Lygia... E eu fui pra filmar o casamento do Cro, e até hoje ele não me perdoa, mas eu não tenho culpa. Eu estou lá vendo o casamento, e aí quando os dois se casam, eu fico esperando aquele negócio "e fiquem juntos até que a morte vos separe", e o padre não falou! E eu estou lá, e o padre não falou, pra mim o casamento não tinha sido concluído. Aí o padre foi indo pro fundo e eu fui atrás. E o Goffredo que estava filmando foi atrás. E aí eu peguei na batina do padre e disse: "só porque ele é meu filho, o senhor não acaba...". Pô, aí eu me envergonhei, porque eu me esqueci e o casal já ia saindo... e o padre fala assim "se quiser, eu mando voltar tudo!" (risos). Mas o Goffredo pegou toda essa parte, eu discutindo com o padre, e querendo que voltasse tudo... Porque eu falei: pô, a censura me persegue, agora até você, pô! Eu fiquei violento, né? Mas aí eu corri na frente e peguei ainda eles saindo [os noivos]. Acaba ficando até um folclore, dando a impressão de que eu fazia aquilo por querer e não, eu fazia aquilo que eu sentia. Como tinha aquela perseguição a tudo o que eu fazia, eu via tudo como uma represália e uma perseguição... mas vai fazendo pergunta aí. Vamo lá.

MS: Pegando esse gancho do padre, o senhor está saindo candidato pelo PTC, Partido Trabalhista Cristão. Não tem nenhum problema o senhor ser o Zé do Caixão num partido cristão? O pessoal leva numa boa isso aí?
MOJICA: Não... eu estou até sendo apoiado por muitos, como se diz... por muitos crentes... tem muito crente que falou "o meu voto é teu". Não tem nada que ver. Porque esses são os mais inteligentes, que sabem que o Zé do Caixão é um personagem. Eu sou pai. Tenho sete filhos, dez netos... eu sou um cara humano, normal como qualquer outro...

MS: Mas deve haver uns que acham que o senhor é o diabo...
MOJICA: É, tem aqueles que são mais evoluídos, que conversam numa boa comigo, que aceitam trocar idéia. Eu tive até um pastor para quem eu fui dar entrevista, eu dei a entrevista e o pastor falou assim "olha, se tiver uma pontinha pra mim..." [o pastor pediu para participar de um filme do Mojica. Seria o tal "RR Soares", segundo disse uma das assessoras do Mojica, o que foi confirmado por ele]. Ele falou "eu sou seu fã" e isso e aquilo. Eu tenho uma filha que é evangélica. E ela se casou, numa igreja evangélica, e lá também tinha um pastor e ele falou "se o senhor soubesse, eu estou emocionado". Ora, eu acho que eles também têm direito. Eles têm que fazer aquilo tudo, mas eu acho que eles também tem direito...

MS: O senhor vê: o Christopher Lee [famoso ator de filmes de horror] que é um vampiro se assustou com o senhor, já o pastor não...
MOJICA: Ah, o problema do Christopher foi muito feio. O Cro esteve com o cara lá, que era o dono da revista ¿"L'écran Fantastique", que ainda tem, e até saiu uma reportagem minha recentemente, e aí o Christopher estava sentado e... tudo bem, foi um golpe publicitário que eu havia feito na minha entrevista, como se diz... entrevista pra todos ali ... ["coletiva", diz alguém] e o Christopher estava na coletiva dele. E o cara que estava lá [na coletiva do Christopher Lee], que era meu empresário e era jornalista também, falou "Mojica, tem um lugar lá vago, faça e aconteça de capa e cartola e senta do lado do homem". E aí eu entrei, mas não sabia que o homem iria se assustar (risos)...

MS: A unha de verdade, coisa e tal...
MOJICA: Aí eu entrei e tal, e ele me cumprimentou. Aí ele começa a falar, mas olhando as minhas unhas. Daí ele perguntou em inglês, para um francês, o que era isso. E aí o cara explicou pra ele quem eu era. Aí ele falou sobre as unhas, que estavam todas enroladas. E aí, quando ele falou que as unhas eram de verdade, o homem ficou meio apavorado. Ele bateu umas fotos lá, mas ele ficou... depois ele confessou que ele ficou [apavorado]. Depois ele falou que se eu precisasse dele e coisa e tal... mas ele até ele voltar ao normal... porque ele nunca tinha visto isso. E ele fez uma das besteiras dele...

MS: Mas o senhor salvou-o, porque ele tinha falado que não gostava de filme de terror...
MOJICA: Porra! Eu logo me apresentei depois dele. Segurei a barra dele. Pô, o cara vai num festival de terror; meia-noite, aquilo está explodindo de gente; o cara fala que não gosta de terror? Essa eu não esperava. O cara tem esse tamanho, é alto pra caceta... e começou a fazer esses personagens. Pô, e todo mundo lá em cima, e eu acabei me saindo bem, e com a minha força segurei a barra. Pus ele como um ator, como um puta de um cara pra representar, falei sobre o Bela Lugosi, e depois falei sobre ele... e aí começou o tradutor, que era um crítico internacional, traduzindo o meu espanhol - porque em espanhol eu me dava bem - e aí foi traduzindo, mas o pessoal jogou cachorro-quente, coca-cola...

(Não percam a próxima parte da entrevista. Nela, entre outras tantas revelações e histórias curiosas, o Mojica nos diz o que acha da evolução da humanidade)


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4.10.04

!!!EXCLUSIVO: FINALMENTE A SATÂNICA ENTREVISTA COM ZÉ DO CAIXÃO!!!



Clique aqui e ouça a merecida maldição lançada pelo mestre aos editores do Mundo Símio

Antes de mais nada, é preciso agradecer o apoio que nossos fiéis leitores deram à candidatura do mestre Mojica. Infelizmente, ao que tudo indica não foi dessa vez que botamos o nosso representante naquele inferno que é a Câmara Municipal de São Paulo. Mas o Mundo Símio agradece, em nome do Mojica, o apoio recebido de nossos fiéis cinco leitores.

Mas vamos ao que interessa: a entrevista com o filho do capeta, com o anti-cristo, com o belzebu brasileiro... Zé do Caixão!!!

José Mojica Marins, o cineasta por trás do lendário personagem, sempre foi um herói para os editores do Mundo Símio. Quem não se lembra da imagem da própria mãe ralhando e dizendo "menino, vê se vai cortar as unhas, senão vai ficar igual ao Zé do Caixão!". O temor que inspirava o personagem maldito conduzia os meninos ao caminho da limpeza.

Acalentando desde sempre o sonho de entrevistar o Mojica, nosso mestre, começamos a entabular negociações com o filho do próprio, Crounel Marins, que por puro acaso se formara com Dom Gustavo na faculdade de direito. Nunca se haviam trombado nos bancos escolares, mas mesmo assim o Crounel gentilmente intercedeu para que a entrevista com seu pai se realizasse.

Assim, na segunda-feira passada Dom Paulo e Dom Gustavo - acompanhados pela inestimável bondade de Dr. Fernando Goiabeira, nosso fotógrafo, cinegrafista e parapsicólogo - rumaram emocionados para o gabinete do mestre José Mojica Marins.

A emoção era tanta que, no afã de logo chegar, Dom Gustavo porrou o carro na traseira de um infeliz que, por puro azar, ousara trafegar à sua frente. Se o Inri desde cedo fez milagres, o Zé do Caixão na primeira hora já lançava maldições.

O escritório do mestre fica no centrão de São Paulo, bairro de Santa Cecília. A rua erma, escura e vazia era lugar mais do que apropriado para a labuta do Mojica. À hora marcada - perto da meia-noite - encarnamos no prédio do mestre.


Esse Mojica sabe mesmo das coisas...

Fomos gentilmente recebidos pelo Mojica e por suas assessoras. Notem na foto acima que uma delas realmente vestiu a nossa camisa, assim como, em troca, vestimos depois a camisa do candidato Mojica (foto abaixo).


O Mundo Símio entrou de cabeça na campanha do Mojica

No entanto, diante da burrice e pouca erudição que logo demonstraram os repórteres do Mundo Símio, o Mojica lançou sobre nós uma terrível - e justa - maldição (ouça clicando lá em cima). Como a ignorância e descompostura dos repórteres era muito grande, o Mojica exasperou-se ainda mais, e, num passe de mágica, encarnou seu alter-ego Zé do Caixão. Como que para expiar os pecados do mundo, Zé do Caixão resolveu sacrificar um de nós, escolhendo para tal mister Dom Gustavo, que era quem estava mais próximo. Veja na foto abaixo o momento em que Dom Gustavo, já padecendo as dores da gangrena e da asfixia, dá seus últimos suspiros nas mãos do Zé.


Mojica se enfurece: lá se foi Dom Gustavo falar ao vivo com o tinhoso...

Purificado o ambiente, Mojica voltou ao normal e graciosamente respondeu às nossas perguntas. Notem, pela erudição da primeira, o porquê de o mestre ter se enfurecido e nos amaldiçoado.


ENTREVISTA - PARTE 1: SAPO-BOI MUTANTE, CENSURA, DOIS TIPOS DE LOUCURA E FINIS HOMINIS


MS: O que são esses diversos sapos lá em cima [o repórter inculto do Mundo Símio, tentando dissimular sua ignorância, resolve perguntar sobre a coleção de sapos verdes que adorna as paredes do gabinete do Mojica]
MOJICA: O problema do sapo é o seguinte...

MS: Vamos então começar pelo problema do sapo (risos)...
MOJICA: Vamos começar com o sapo. Sapo é um negócio que eu sei que ela tem medo, não pode ver [refere-se à sua assessora e pau-para-toda-obra Neide, uma jovem morena gótica, sorridente e prestativa que nos recebeu muito bem]. Mas eu escrevi há mais de vinte anos - acho que é o roteiro mais demorado da minha vida -, levei três anos escrevendo "Os Sapos". Na época estava vivo Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira (que morreu há pouco tempo, se suicidou, eu fiquei muito chateado, dentro da casa ele deixou um quadro com a minha foto dentro, é um cara que me deu força...). Mas nesse "Os Sapos" a gente foi em Marília, eu arrumei tudo lá, com os caras colecionando e criando sapo pra todo lado. Porque na pesquisa minha, nos três anos, veio muita gente e a gente descobriu que estava tendo muito tráfico aqui, e o pessoal estava matando sapo e mandando principalmente para a França, onde eles estavam fazendo bolsa, cinto, e estava tendo um problema meio grave no final dos anos setenta. Estava começando em muitos lugares a invasão de mosca, de mosquito, e isso começou a me dar uma inspiração. E aí, baseado nisso, nesse negócio todo, eu criei uma estória que é uma puta duma estória, quem quis comprar várias vezes foi o Barretão. Porque há uma invasão de sapos fantástica. Há um sapo mutante, e esse sapo, na realidade ele passa a ter uma coordenação com todos os outros. E se a gente analisar os sapos, você tem o sapo da terra, o sapo do ar e o sapo do mar. Seria o exército, a marinha e a aeronáutica... Então, como começam várias fábricas numa cidade de sapos a oferecer "x" por cada sapo, para matar... então esse sapo começa com uma espécie de uma telepatia... e tem um cientista que começa a criar ele, e ele começa a emanar ondas, e daí vem perereca, vem... tudo quanto é da família dos sapos começa a vir. E então na cidade há uma invasão fantástica. E esse sapo põe o cara que é prefeito da cidade para ir falar com o sapo - e realmente tudo por telepatia, né - mas o povo da cidade tá doido. Porque é um puta de um sapo-boi deste tamanho... aí o povo da cidade vê o troço e não adianta: vai, atira pedra e mata o sapo...

MS: (Risos)
MOJICA: Aí é um tal de sapo invadir pra todo lado... Mas ficou um troço muuuito legal.

MS: O próprio Prefeito de Marília queria criar os sapos, não é?
MOJICA: Foi. Aí comecei a encher de sapo pra todo canto. E eu ia fazer na época um negócio fantástico. Eu tinha até uns produtores que entraram, e era ditadura ainda...

MS: O Senhor foi muito censurado...
MOJICA: Eu tenho até aquele cartão, das décadas do Zé do Caixão... [Mojica pede à sua assessora que pegue o referido cartão]

MS: O Senhor foi o mais censurado do Brasil, não é, segundo dizem...
MOJICA: Porra! Os caras - antes mesmo de começar a fita eu já sabia! - eles vinham me falar o que estava acontecendo... [refere-se à censura prévia que seus filmes sofriam na época do regime militar]. Aí eu ficava numa situação difícil. Eu cheguei até a ser preso, eles inventaram mil estórias para parecer que não era por causa da fita, mas eu fui preso por causa da fita...

MS: Segundo a sua biografia, parece que teve um cara que inventou uma história acusando o senhor, e por isso o senhor foi preso, mas na saída o senhor conseguiu já promover o Finis Hominis [filme genial roteirizado, dirigido e estrelado pelo Mojica, relançado há pouco tempo]. Era o Finis Hominis que estava sendo lançado na época, não?
MOJICA: É.... Realmente o Finis... na época o Leon Cakoff disse que estava adiantado uns trinta a cinqüenta anos no tempo...

MS: Realmente esse era um tema que nós gostaríamos de abordar...
MOJICA: Aqui estão as cinco décadas de Zé [Mojica mostra os cartões trazidos pela sua assessora]: anos sessenta, a época da tortura; aí vêm os anos setenta, época dos hippies e das drogas; depois, vêm as "Diretas-já!" nos anos oitenta; noventa, eu estouro realmente nos Estados Unidos; e anos dois mil, começa dois mil e um com a explosão das duas torres, né...

MS: Essa é a verdadeira história de terror, que ninguém poderia imaginar...
MOJICA: Nos quarenta anos do Zé eu passei, queira ou não, por fases bonitas e por fases tristes demais.

MS: Mas o Finis Hominis [o repórter do Mundo Símio insiste neste filme, do qual é fã] que a gente acha que é emblemático da filmografia do senhor, porque... [o outro editor, também fã do filme, igualmente se empolga e emenda um aparte] porque o Finis Hominis é louco, não é - apesar de o conceito de loucura ser muito relativo - ele vai indo e vai fazendo sucesso, não é...
MOJICA: [interrompendo os atabalhoados repórteres do Mundo Símio, que comiam as palavras e as idéias na sua empolgação] Tem dois tipos de louco, que eu tenho na minha criação. Zé do Caixão, é um louco consciente. E o Finis, um louco inconsciente. E pela primeira vez - independentemente do exterior, onde o pessoal gosta, e eu já declarei que considero uma das melhores fitas minhas; sempre me perguntam de todas as obras que eu fiz, qual eu considero a melhor, e essa eu considero a melhor obra - e me surpreendi no sábado, em pleno grupo de roqueiros pra todo canto [Mojica havia ido apresentar o Sepulfest, festival promovido pelo Sepultura, onde aproveitou para divulgar a sua candidatura], e o cara chegou pra mim e falou "olha, o senhor tem o meu voto e de todos os meus amigos, porque ontem, por coincidência, eu vi Finis Hominis". Foi a vez que eu vi a pessoa falar... e falou "eu sonhei a noite toda, e hoje vou sonhar de novo outra vez, tenho certeza, e eu não sabia que a sua capacidade chegava a esse ponto..." E, lógico, ele havia comprado a caixa agora [caixa com as fitas antes lançadas em vídeo, agora em DVD, com muitos extras] e vai ver os extras, e eu falei "você vai se divertir demais com os extras". Então tem a obra "Quando os Deuses Adormecem"...

MS: Que é uma continuação do Finis Hominis, não é?
MOJICA: Sim, é uma continuação, que já está a caminho da destruição na Cinemateca... Então eu estou vendo com o meu filho como a gente faz para recuperar a cópia, porque o filme realmente, em todo lugar do mundo, estão aceitando numa boa.

MS: Mas o pessoal é muito preconceituoso, eles falam de Zé do Caixão mas não sabem tudo o que o senhor já fez.
MOJICA: Não sabe! E eu já fiz filme de todo tipo, de bangue-bangue - nossa, eu fiz bangue-bangue demais! - "D'Gajão Mata para Vingar", fiz fita de máfia, musical, comédia, pornô!

MS: Porque nessa época o senhor foi muito censurado, ninguém apoiava, e teve até que fazer pornô, não é?
MOJICA: Pois é! O pessoal dizia que eu tinha parado de fazer terror, mas - porra! - eu tinha que parar o terror porque... se era revista em quadrinho, eles vinham e tiravam das bancas; peça de teatro a polícia vinha, fechava, e eu me via numa situação difícil; programa de rádio, televisão, saia do ar assim - tcháqui! - o cara estava assistindo e - tchum! - [Mojica faz uma onomatopéia imitando o som de um programa saindo do ar] saía do ar e eles não queriam dar satisfação, eles não queriam dar satisfação ao povo...

MS: E pro senhor também era economicamente difícil...
MOJICA: Pooorra! É como diz o meu filho, eu não sei se vocês chegaram a ver o "Maldito"... [o repórter do Mundo Símio se confunde e pensa que o mestre referia-se à sua biografia, magnificamente escrita pelos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti, quando na verdade o Mojica referia-se ao documentário homônimo, também sobre a sua vida e obra, laureado no festival internacional de Sundance] Não, o filme. Lá o Cro [seu filho, Crounel, colega de turma de Dom Gustavo, sem o qual esta entrevista provavelmente não teria se realizado] chega a falar que, pô, era um troço que não tinha base, os caras dizerem que eu tinha uma "camuflagem política", e eu não entendia, como não entendo, porra nenhuma de política! Eu entendo que eu vou chegar lá, vou promover a cultura e tal. Mas os caras misturam coisa com coisa...

MS: No "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" eles cortaram, lhe obrigaram a mudar o final! O Zé do Caixão tinha que se regenerar, dizer "Eu acredito! Eu acredito!"... (risos)
MOJICA: Eles me obrigaram! Eles me obrigaram a mudar o final e a dizer "pô, eu acredito... a cruz vale..." Porra, o cara era um ateu! Mas tive que mudar, e ainda assim "O Estranho Mundo..." é o único filme no mundo que tem dois finais: tem um final normal, e aí tem um final que eu peguei lá numa fita do Omar Shariff (risos), lá dum amigo que eu tenho... lá do Egito... e eu pergunto "você tem aí alguma explosão?", e ele diz "tenho lá numa fita". E daí eu peguei a explosão, e pus lá na casa do Oaxiac Odez [nome que nada mais é que Zé do Caixão ao contrário], porque eu tava lá com um problema de contrato, e tive que inverter... E daí entra aquela explosão, e umas palavras da Santa Bíblia (risos)... E então você tem o final real e aí vem o outro final - peim! - cheio de coisa... E os caras perguntam "por que dois finais", e... acabou, foi coincidência na verdade (risos)...

MS: Mas o senhor teve muito jogo de cintura, porque lendo o livro ["Maldito", a biografia do Mojica] a gente fica sabendo que o senhor pegou o Delegado Fleury [o lendário e temido delegado da época da ditadura] que o perseguia, e todos os meganhas dele e pôs no filme, atuando!
MOJICA: Todos eles! O Fleury, e tal... pô, a gente falava pra eles "esse cara aqui vai fazer papel de cafetão" e - pô! - os caras pegavam e batiam de verdade no cara, quebravam a costela do cara... (risos) e eu falava "porra, mas não pode!". E eles falavam "mas ele é ator"... E eu "pô, ele é ator mas não está acostumado a apanhar de verdade!" Porra, esse cara abandonou, ele tinha até pesadelo só de pensar...

MS: Nos parece que o senhor sempre foi o tipo do cara que sempre se virou sozinho, desde lá do galinheiro [onde o mestre começou a filmar, quando pequeno] até chamando o pessoal, comprando a máquina, fazendo a escola - enfim, o senhor foi sempre uma pessoa que se empresariou. Quando o senhor teve esses problemas de fecharem teatro, de tirarem gibis das bancas [alguns dos problemas que o Mojica sofreu na época da ditadura], o senhor teve perdas econômicas...
MOJICA: Pô, é como diz o Cro, se eu não tivesse tido esses problemas eu poderia ter sido um Sílvio Santos do cinema, o cinema não acabava assim...

MS: Nos anos setenta o senhor for muito popular de fato, tinha muitos produtos...
MOJICA: Tinha tudo que era produto: era marcha de carnaval, produtos pra unha... Era uma época em que... hoje eles vendem de tudo... ["licenciamento", diz o repórter do Mundo Símio] ...isso, mas eu já vinha com isso fazia tempo: era Marafo [houve uma cachaça com o nome "Zé do Caixão"] para fazer macumba, defumador para o cara sair do azar...

MS: O Crounel inclusive já chamou o senhor para fazer umas palestras com ele, não é, sobre as suas iniciativas [o filho do Mojica, que é mestre em administração e palestrante, certa vez chamou o pai para falar de sua imensa capacidade empreendedora]
MOJICA: Fiz, fiz. Eu me encarregava da parte prática de dar a aula pro pessoal, pros empresários. Porque eu dou aula pra detetive também...

(Aguardem, na próxima parte, a estarrecedora revelação que o mestre nos fará a propósito dessas singelas "aulas de detetive", que deram muito pano pra manga. Seqüestro e morte de verdade os aguardam, praticamente. Não percam.)



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1.10.04


ZÉ DO CAIXÃO SAÚDA O MUNDO SÍMIO

Clique aqui e ouça a carinhosa saudação do mestre ao Mundo Símio.

E não se esqueça: estamos na reta final da eleição. Agora DEPENDERÁ DO ESFORÇO DE CADA SÍMIO - SIM, DE CADA UM DE VOCÊS - A ELEIÇÃO DO MOJICA. ANOTEM O NÚMERO DELE (36.013) E INDIQUEM AOS CONHECIDOS. Se fizerem isso e o Mojica for eleito, ele será o nosso honesto representante na diabólica Câmara Municipal de São Paulo.

E se você ainda não sabe por que votar no Mojica, veja nos dois posts abaixo diversas razões para isso.


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