30.11.04

ARTE QUE O POVO FAZ

Caros amigos, voltei. Agora que reencarnei por conta das satânicas artes macumbais de Doutor Fernando Bananeira, sou obrigado a trabalhar para prover de alimento o meu corpo. Outra das injunções a que estou sujeito, agora que retornei a este mundo, é tomar banho. Afinal, uma vez por semana faço questão de realizar minha higiene pessoal. Sou um cara limpo. Há ainda outras necessidades vitais, que também clamam por saciedade quando se é vivo, como dormir, o que tenho feito bastante, além de beber quando estou acordado.

Todo o processo de minha volta a este mundo foi filmado, e em breve lhes será revelado, após negociarmos o resgate das fitas com o canalha do Doutor Fernando.

Apesar de contrariado, voltei com um certo gosto. Conviver com os colegas é sempre prazeroso, e algumas comemorações já se realizaram em minha homenagem. Ontem mesmo o Pafúncio, um colega meu que reside na rua onde dou expediente, honrou-me com uma dose de Conhaque Presidente. Sua conversa, assim como seus trajes e sua arcada dentária - samba de uma nota só - são arte pura. Definitivamente, é bom voltar à Terra e deleitar-me com a arte que o povo faz.

Exibir as manifestações artísticas do povo, aliás, sempre foi o objetivo maior do Mundo Símio, este sítio dedicado à espontaneidade do bugio que habita o âmago de cada um de nós.

***

Uma das mais belas manifestações de arte popular de que tomei conhecimento nos últimos tempos veio de um ilustre confrade, que me relatou a importação de uma empregada por uma sua tia. Digo importação porque a boa capial fora buscada bem longe - sabe-se lá por meio de que forças mediúnicas - lá no interiorzão de Minas Gerais.

Jovem e desinformada das maravilhas da civilização, Rosicreide deslumbrou-se ao chegar à residência da patroa em São Paulo. Tanta riqueza e beleza foram impactantes para a moça da roça. O candeeiro lá do teto acendia sem ter que lhe atochar fogo, bastando um simples aperto de botão; a cozinha mais parecia uma nave espacial; na garagem, um carro-de-boi sem boi esperava o dono e trabalhava sem mugir.

Dirão que exagero e forço a simplicidade da moça. Verão no entanto que se enganam, e que na verdade douro a pílula da ignorância roceira.

Vou direto ao que interessa, portanto.

A simplória serviçal mineira, depois de desempenhar com mestria seus afazeres laborais, gostava de sentar-se à frente daquele aparelho chamado televisão para instruir-se com os programas de sua predileção.

Mas a patroa notou certa peculiaridade no comportamento da moça: todos os dias, sem exceção, ela somente se sentava para assistir à TV depois de assear-se com um bom banho, e após vestir a melhor roupa. Quando descobriu o batom, e seu efeito de embelezar as mulheres que o usam, passou também a só assistir TV untada de uma boa quantidade de vermelho nos lábios.

A curiosidade é uma fera, e logo sai da jaula. Assim, mal contendo-se, certo dia a patroa perguntou à sua empregada o porquê de ela ostentar tamanha elegância diante do aparelho de TV.

A resposta: ¿É porque eles tá todo bem vestido, dona. E eu não quero que eles me veja assim mulambenta.¿

Sim, a moça achava que a TV tinha duas mãos, e assim como ela via os atores lá do outro lado, estes, os atores, também tinham o privilégio de ver seus espectadores deste lado da milagrosa telinha.

***

Consentirei com aqueles que não me acreditam e debitam à minha burrice ou credulidade extrema a fé na história acima. Eu mesmo hesitei em acreditá-la. No entanto, a pessoa que me narrou o fato é confiabilíssima. E outros colegas presentes à ocasião, para meu terror, relataram experiência semelhante com algum parente ou conhecido. Aliás, os bons acontecimentos sempre se dão em presença de algum conhecido, nunca na nossa. É sempre algum primo que viu um fantasma, uma tia distante que morreu e levantou do caixão no velório, ou um chegado do Jesus que o viu sair da tumba e voar rumo ao céu. Nós mesmos, eu e você, nunca presenciamos nada que prestasse.

É por isso que relatarei mais outra experiência artística vivenciada por estranho, mas com selo de autenticidade garantido.

Outro colega presente ao boteco onde me foi narrada a efeméride acima, contou-me episódio semelhante, como que a afiançar que a ignorância é um poço sem fundo, e nunca devemos nos surpreender com a sua profundidade.

Imbuído dessas elevadas e didáticas intenções, relatou-me o amigo que uma sua parente (talvez uma tia, como no episódio acima), também contratara uma empregada jovem de algum sertão do bom Brasil.

No primeiro dia de trabalho, começou a se familiarizar por conta própria com os mecanismos de uma casa citadina e moderna.

Os mais afoitos já devem ter especulado: ela se surpreendeu com a televisão novamente, ou com a batedeira, ou com o microondas. Não, senhores. A coisa foi muito mais assombrosa.

Lá pelas tantas, a patroa ouve um grito de pavor. Corre para a fonte do barulho e chega ao banheiro do quarto. Ali, com o rosto transido pelo medo, a capial toma fôlego. Inquirida pela patroa sobre o que causara aquele desespero, a pobre moça apontou com o dedo, a certa distância, a válvula da privada.

Sim, ela apertou inadvertidamente a descarga. Em seguida, um acontecimento estonteante ocorreu: a água foi sugada por uma espécie de vazamento gigantesco, tal era a sua força. Em pouco tempo, um fluxo contínuo e sonoro de água começou a encher aquela ¿fossa privativa¿ que havia no banheiro do quarto. Com medo do que mais poderia advir de tão satânico aparato, a moça gritou. Gritou por medo do desconhecido.

De fato, ter uma fossa privativa no próprio quarto, e que faz barulho e produz o sumiço do conteúdo ali depositado, é luxo de se admirar. Na roça não tem disso não. Obra-se há gerações no mesmo buraco, e limpa-se ¿ se limpa-se ¿ do jeito que der. Lá, no fundo da fossa escura, está a matéria fecal a provar a sua realidade.

Na casa da cidade era tudo diferente: além de ter folhas enroladas num negócio que, depois se soube, chamava-se papel higiênico, o produto da obra sumia com um simples apertar de botão, passando a existir apenas na memória de seu autor, fantasmagoricamente.

Uma casa é coisa assombrosa, e só não vê quem, mal acostumado aos requintes da vida moderna, nunca obrou no mato.

O olhar puro e simples do povo, como o de um Adão recém saído do barro, consegue ver a arte das coisas. É por isso que amo o povo e sua sabedoria.


É preciso elegância para ver televisão


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29.11.04

ELE VOLTOU

Dom Gustavo já está entre nós.

Sob a presidência do renomado Doutor Fernando Bananeira, psicólogo, paranormal e poeta, além de dedicado estudidoso das artes da macumba e do espiritismo, os trabalhos para a ressurreição de nosso mais ilustre colaborador foram encerrados com êxito.

E mais: tanto o cerimonial quanto os primeiros momentos de readaptação de Dom Gustavo ao nosso mundo foram gravados em vídeo pela equipe de reportagem do Mundo Símio.

Sem dúvida, nossa intenção é exibir esse educativo documentário o quanto antes. Contudo, deixamos por ora de fazê-lo, eis que o Doutor Bananeira, num ato de discutível moralidade, apoderou-se de nossas imagens sem que tivéssemos percebido - e, neste momento, estamos a negociar com ele o preço do resgate.


Respeitáveis entidades do outro mundo foram convidadas a participar dos trabalhos de ressurreição de Dom Gustavo



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26.11.04

A GRAMA DO VIZINHO

Há um ditado - velho, como precisa ser todo e qualquer ditado - que diz que a grama do vizinho sempre está mais verdinha. Ou seja: um mindingo sempre está a cobiçar a esmola que é dada a outro, na convicção de que este, por fatal injustiça divina, recebeu o resto de comida melhor.

Jamais ouvi coisa tão estúpida na minha vida.

E olhe que, de coisas estúpidas que tenho ouvido por aí, minha lista é extensa (o que, posso garantir, não é patrimônio digno de dar inveja a ninguém).

A cada dia que passa, é cada vez mais raro que qualquer um, por pior que lhe seja a fome mindingal, admita estar passando por dificuldades de qualquer natureza, vindas de erros que o próprio mindingo - e mais ninguém - perpetrou contra si mesmo.

Muito pelo contrário.

O que mais tenho visto por aí é gente que se orgulha de tudo que faz, não obstante esteja pedindo esmola na esquina, dando um sorriso desdentado para conseguir um pedaço de pão embolorado.

Vejo gente que se orgulha do próprio método de conseguir as coisas - muita embora os resultados práticos demonstrem que o tão festejado método é tão eficaz quanto tentar converter uma samambaia ao cristianismo ortodoxo -, gente que se orgulha dos amigos que têm, das músicas que ouve e dos livro que lê - apesar de, com relação aos três casos, seu conhecimento sobre o objeto de orgulho ser tão profundo quanto uma piscininha de plástico de fundo de quintal. E se, por força das evidências, algo não vai bem e é impossível negar o fracasso, isso se justifica com a seguinte desculpa: não se trata de coisa importante. Naquilo que é importante, eu estou é muito bem; quem se preocupa com coisas que não têm importância é fútil ou retardado.

Há também o santo que se orgulha de ser humilde, mas, nesse caso, o delírio do orgulhoso é de constatação tão fácil que o tema nem merece ser levado a sério: experimente pisar nos pés descalços de um santo e, pode estar certo, ele vai se transformar no pior dos capetas. É tudo uma questão de conveniência.

Nossa grama sempre é melhor que a do vizinho, mesmo que ela esteja seca e cresça só num canto ou outro.

E digo mais: alegria de mindingo é ver um outro mindingo passando fome.

Meses atrás, comentei que fiz a bobagem de colocar meu nome numa lista de e-mail's que reunia uns viventes que se formaram na faculdade no mesmo ano em que lá me formei. É inacreditável: eu, que mal sei ler e escrever, que tenho a matemática como ciência tão oculta quanto a cabala e que, até há pouco, pensava que a tabela periódica era aquela misteriosíssima e imponderável tabela de que se valem as mulheres para, periodicamente, poderem praticar sexo sem os males da gravidez, consegui me formar numa universidade - e, pior de tudo, numa universidade pública. (Mesmo assim, o governo ainda quer botar mais gente pra dentro das faculdades. É por isso que esse país não vai pra frente).

Seja como for, o fato foi que acabei entrando na tal lista. E repito o que disse antes: nunca vi tanta gente de sucesso num mesmo lugar.

Houve uma senhora que, mesmo estando no cosmopolita município de Botucatu, garantiu ao povo que, de lá, comandava um escritório de advocacia em Milão; um sujeito que mandou exatas 33 fotos da vista de seu gabinete de trabalho, que dá de frente para um laguinho sujo na turística cidade de Palmas, onde exerce o difícil cargo de assessor de juiz, cargo cujo pré-requisito é gozar da confiança do colega juiz; um outro que prometeu dar um desconto especial para os colegas que se dessem à honra de adquirir um exemplar de seu empolgante livro chamado "Compra de Imóvel" (ou "Compra de Móvel", já não me lembro ao certo); e um doutrinador que convidou todos a se instruírem numa palestra que ele daria na Subseção Regional de Pinheiros da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (a qual, se não estou enganado, funciona numa casinha de dois cômodos em frente ao Fórum Regional de Pinheiros, um deles ocupado por uma máquina de xerox para o auxílio dos colegas que por lá militam nas artes forenses). Confesso que tive inveja - não tinha nenhuma história tão boa para contar.

A idéia do grupo era organizar um encontro para comemorar 10 anos de formatura. Como não tinha o que comemorar, abstive-me de qualquer manifestação. E daí passei apenas a assistir as divergências do grupo - ou, melhor dizendo, as divergência entre o grupo e o Comendador Gomes, também integrante daquela seleta casta de jurisconsultos.

Colocada em votação a escolha para o lugar em que se deveria dar a confraternização, já de início o Comendador Gomes - homem de pulso firme, que sempre toma as iniciativas para lidar com situações intrincadas - sugeriu uma boate.

De imediato, uns vinte colegas rechaçaram sua avançada tese, com o vigor típico dos obscurantistas. Houve uma moça que, pelo e-mail, escreveu: "Uuuuhhhh!". Foi a primeira vaia digital que vi em minha vida.

Porém, hábil negociador que é, o Comendador Gomes ofereceu uma alternativa intermediária: um bar qualquer, desde que houvesse chope à vontade e que fosse facultada a presença de senhoras profissionais do sexo.

Outra vez ele foi vaiado.

Flexível, o Comendador Gomes sugeriu então que as referidas profissionais poderiam atuar na festa, mas apenas se se portassem com a mais sóbria discrição, bebendo num canto do bar, segregadas das mesas dos colegas - e só chamadas quando necessária a presença.

Inexplicavelmente, ele foi ignorado.

Um fulano qualquer, de índole fascista, observou que a maioria dos colegas tinha filhos pequenos. Logo, era preciso pensar também no bem-estar dos pequerruchos.

O Comendador Gomes objetou, dizendo que a idéia era impraticável. E se, por hipótese, algum colega tivesse um filho que, por ter passado algum tempo nos institutos educacionais que se prestam a cuidar de menores problemáticos (vulgo FEBEM), não se enturmasse com os demais coleguinhas? E se tal moleque, ainda que não o fizesse por mal, mas apenas por costume, estuprasse alguma coleguinha menos afeita à dura realidade dos presídios?

Fiquei sabendo, depois, que alguns colegas acharam que o nosso estimado Comendador se prestava a fazer uma brincadeira de mau gosto. Preconceituosos: mal sabem eles, como eu sei, que, por um desses azares da vida, o Comendador Gomes tem um filho nessas condições (mas que, verdade seja dita, em breve deixará a internação, recuperado que está).

E outra vez ele foi ignorado.

Decidiu-se, à revelia do Comendador, fazer-se a festa numa chácara a ser alugada, com piscina, churrasqueira e monitores para as crianças. Não foi explicado se os monitores, tais como os policiais civis e militares que fazem bico como seguranças privados, davam ou não expediente na FEBEM - outra prova de preconceito contra o filho de nosso amigo.

Mesmo contrariado, o Comendador Gomes apareceu no festejo e, logo ao seu início, foi abordado pela colega que tinha organizado tão prestigioso evento. De cara amarrada, ela perguntou:

- Você é o tal do Gomes que mandou uns e-mail's escrachando com a nossa festa?

A situação era delicada.

A moça dava claros sinais de pretendia repreender o Comendador, passando-lhe um sermão em voz alta na frente de todos. E, pelo andar da carruagem, a pergunta tinha apenas um caráter formal: qualquer que fosse a resposta, o circo ia ser armado. A nobre classe dos advogados é reconhecida pela sua combatividade.

A organizadora da festa, porém, desconhecia a personalidade franca e humilde do nosso Comendador. Com cara de surpresa, ele perguntou:

- E-mail?

- É, uns e-mail´s bobos.

- Não.

- Você não mandou nenhum e-mail pro nosso grupo?

- Isso é impossível.

- Como assim, "impossível"? - ela perguntou, gesticulando nervosamente, tentando imitar, de forma sarcástica, o tom de surpresa do nosso amigo.

- É impossível porque eu ...

- Eu o quê?

- Eu...

- O quê? Fala logo.

- Eu...

- Fala!

- Eu não tenho computador... - balbuciou em voz baixa o Comendador, baixando em seguida a cabeça, como se estivesse a esconder a vergonha.

Houve uma pausa de constrangimento.

- Você não tem computador? - a moça não acreditava no que ouvia.

- Não... - e o Comendador Gomes, ainda de cabeça abaixada, levava a mão direita à testa, cobrindo os olhos, como se estivesse se preparando para esconder o choro que se aproximava.

- Ah... Tá bom...

- Não tenho computador ...

- Desculpe... É que...

A organizadora foi interrompida por um soluço de choro do Comendador.

- Não tenho computador... - ele repetiu, com voz de choro, a cabeça ainda abaixada.

- Não, tudo bem...

- Não tenho computador porque sou pobre.

- Não é nada isso...

- Saí ontem da clínica de desintoxicação.

- Desculpa, tá?

- Gastei o dinheiro de minha mãe no crack.

- Olha, desculpa, eu não queria ofender...

- Já estou acostumado... - o Comendador esfregava os olhos.

- Tudo bem, tudo bem...

Como se vê, a moça não tinha a menor idéia do que falar: o desgraçado dizia que era viciado em pedra de crack, não tinha dinheiro, não tinha computador, e ela, para amenizar, dizia que estava tudo bem.

- Eu vou dar uma volta, tá? - ela se desculpou, como se estivesse se livrando de uma cantada.

Mas antes que ela se fosse, o Comendador ergueu a cabeça, pôs-lhe a mão num ombro e disse, olhando-lhe no fundo dos olhos:

- Desculpa ter vindo.

E um par de lágrimas caiu-lhe dos olhos, enquanto a moça dava as costas e saía correndo.

Minha grama, é claro, também é mais verdinha que a dos vizinhos.


Esta é a última foto que o Comendador Gomes tem do filho, tirada bem no dia em que o moleque foi mandado para a FEBEM, injustamente acusado de estuprar uma coleguinha


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25.11.04

REFLECTIONIS CORNEALIS

Aqui no inferno a coisa é boa. Além de muitas mulheres, calorzão e nada a fazer, há uma distância da Terra que nos faz refletir. E, pensando sobre a vida terrena, concluímos como Dom Paulo que muita coisa é previsível, e da maioria das histórias já podemos saber o fim antes que comecem. Não é presciência, é a constatação de que há enredos teimosos na vida, que insistem em se repetir por mais que deles já estejamos todos cansados.

A cornitude, por exemplo.

Duvido que algum de nossos leitores não tenha levado um bom corno até agora. Ter fé na própria ignorância, tenho que admitir, ajuda a não se julgar vítima de tal infâmia. De todo modo, àqueles que julgam realmente nunca ter recebido um chapéu de touro, já antecipo: esperem que o corno um dia virá. É fatal.

E se o corneamento não vier, por conta de uma paixão que não esmoreceu em trinta anos de coabitação, é porque, pior que corno, o leitor já virou um rematado devasso, um tarado monomaníaco - o que é pior que ser corno. Esta é outra lição que hauri da incomparável sabedoria de Dom Paulo.

A cornitude de uma forma ou de outra se cura, seja tomando umas canas, seja arrumando outra mulher, seja ainda corneando por vendeta. Em geral, depois de um tempo o caboco que ainda tem os chifres ardendo na cabeça tromba com a autora dos ditos cujos, e nota com terror e prazer que ela já embuchara três vezes do infeliz com quem o corneou, sujeito que hoje - ao contrário de você, corno - é obrigado a lhe pagar as contas. Tomar um corno, pelo menos até onde eu sei, não custa nada. Cornear, muitas vezes sai caro.

Mas me perco no emocionante tema da cornitude. O que eu queria era perguntar: qual é o leitor que, se não experimentou um chifre na própria testa, nunca conheceu um corno de verdade, um corno típico, daqueles que ostentam na fronte uma galhada digna de um alce, mas que sempre está ao lado da corneante, exibindo um sorriso de serenidade?

Falo daquele tipo de corno - o corno típico - que mais se assemelha à vítima da velha brincadeira de criança, consistente em colar um rabo de papel num sujeito distraído que, inconsciente da peça, sai por aí andando calmamente, sem notar que lhe adorna um rabo de papel atado à bunda. Essa vítima da troça infantil é como o corno típico: todos sabem daquilo que ele não sabe.

O corno típico é visível a olho nu.

Se tivermos um mínimo de capacidade de analisar os fatos recorrentes da experiência, como eu dizia, poderemos facilmente antecipar o fim das histórias que têm como protagonista um corno típico. Aquele sujeito de galhada farta e largo sorriso infantil, inconsciente do rabo de papel que lhe pregaram, um dia será confrontado com a verdade. Se não presenciar fisicamente o ato corneal, surpreendendo o Ricardão com seu robe de chambre às três da tarde em sua casa, fatalmente haverá o dia em que um amigo mais revoltado (e mais tolo) lhe jogará na cara a triste realidade: "Tu é corno, João! A sua mulher já deu pra um pelotão!"

Contrariado, mas por dever de ofício, e em prol das tradições que a sociedade teima em manter, o corno terá que tirar satisfações. Não com o sujeito que teima em enfiar suas partes pudendas nas partes pudendas da sua devotada esposa. Essa seria a atitude do corno raivoso, outra sub-espécie, bem menos previsível (sabe-se que fará merda, mas não se sabe qual merda fará). E aqui falamos de previsibilidade, de modo que o corno típico, previsivelmente, irá ter com a sua esposa e não com o Ricardão. Pedirá para falar com a esposa suspeita com olhos marejados, agarrado a um fio de esperança na validade do antigo pacto de amor e fidelidade eternos, feitos à frente de um sujeito de batina.

A esposa traidora, à falta de outra saída, usará da estratégia dos culpados pegos em flagrante, e ao invés de pedir desculpas, acusará o corno. O ataque é única defesa dos perdidos. Primeiro dirá que é ele - sim, ele, o sujeito que teve seu robe de chambre usado por um desconhecido - o culpado de toda essa situação embaraçosa: o desgraçado, sob a desculpa de ter que trabalhar para pagar as bolsas Louis Vitton e as aulas do personal trainner da esposa, não lhe dá atenção. Carente, a consorte bem que teria sucumbido às investidas de alguém mais atencioso e galante. Mas não, ela não traiu, pelo imenso respeito que tem pelo marido - apesar das evidentes falhas deste na prestação dos deveres conjugais.

- Quem foi que proferiu as palavras caluniosas contra a minha pessoa? O José, seu amigo de infância? Ah, eu bem que deveria ter percebido a trama desse vagabundo... Pois saiba que foi ele, o José, aquele filho da puta, que deu em cima de mim, percebendo que eu estava carente. Mas mesmo carente, o amor e respeito que tenho por você, João, me impediram de cair em tentação. Mas esse José, João, não é seu amigo. Ele quis me comer, e como não conseguiu, inventou essas mentiras para se vingar da minha devoção a você. É claro que ele vai negar, cabra safado que é. Mas agora você tem que escolher: ou ele ou eu. Se for ficar comigo, nunca mais vai poder falar com esse cafajeste!

Logicamente, o corno típico aceitará essas boas e ponderosas razões e virará a cara para o inocente amigo, a fim de continuar (corno) com a sua injustiçada esposa.

O corno típico é antes de mais nada um homem de fé.

Mas não param aí os acontecimentos previsíveis dessa tão velha e repetida história. A semente da desconfiança na esposa, assim como a suspeita da própria incompetência, estão lançadas. Após alguns dias de depressão por conta do infeliz incidente, período no qual o corno se culpará pelo galho que, segundo sua esposa, nem chegou a sofrer por bondade dela, ele tentará seguir normalmente com a vida. Mas não conseguirá.

A esposa, satisfeita com a facilidade com que se deixa domar um corno típico, vai perder a linha. Até pro porteiro do prédio vai dar. Se bobear, dá até pro José. Este, ferido e perplexo diante da conduta do amigo a quem quis ajudar, vai querer é mais que o colega se fôda, e se tiver oportunidade dará mesmo em cima da mulher do cabra, só por vingança.

Nas rodas, o corno será conhecido como corno, e a falação sobre a sua cornitude será sempre o tema da vez. Até porque todo o mundo gosta de uma história de corno, de preferência quando não se é o protagonista. Zombar da cornitude alheia entre copos de chopp faz a dor do próprio chifre estancar.

Mais um ano de "vitae corneae", como diria Doutor Milton, e o marido traído, já magro e paranóico por conta das dúvidas, e esmagado pela vontade de confiar na mulher, não resiste e passa mal. A essa altura, a mulher já transformara a vida secundária em principal, e resolve ela própria pedir a separação. A culpa de tudo isso, naturalmente, recairá sobre o corno, que além de feio, barrigudo, impotente e desconfiado, não dava atenção à esposa.

Todo mês, 40% do salário lhe será tascado, para ser sabiamente empregado em bolsas Louis Vitton. E se deixar de pagar essa pensão, entrará em cana pra largar mão de ser vagabundo.

É dura, a vida de um corno típico. Mal o vemos desposar uma donzela, e já vislumbramos o final da história.


O corno é sempre o último a descobrir o que fazem nas suas costas


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24.11.04

O CACHORRO DE PORTUGAL

Toquinho era um grande filho da puta.

Peludo e elétrico como todo pequinês que se preze, o minúsculo cachorro, por conta dos olhos saltados e da arcada dentária inferior muito mais avantajada do que a superior, tinha a cara do demônio. Um demônio raivoso, que rangia os dentes pontiagudos que ameaçavam sair-lhe pela boca.

De pura maldade, Toquinho, que pertencia a uma tia, irmã de meu pai, avançava diretamente sobre minha pessoa, não importasse onde ele estivesse. Tampouco importava quantos outros estivessem ao meu lado, fossem eles quem fossem, crianças, adultos, velhos ou almas penadas: o desgraçado do cachorro tinha predileção por me atacar, correndo feito doido, já mirando seu queixo espetado bem na direção do meu olho. Traidor, ele avançava em silêncio.

É fato que, em face de tão nefasta presença, jamais estive na casa da tal tia sem estar acompanhado de algum adulto, o qual, num ato heróico, sempre conseguia (com dificuldade, é verdade) agarrar o sádico cachorro antes que ele conseguisse me matar. Embora tivesse 4 ou 5 anos de idade, a presença adulta por lá se justificava apenas em função do maldito Toquinho. Poderia eu, muito bem, aparecer sozinho na casa da tia, quem sabe até dirigindo o carro de meu pai. Mas com o Toquinho por lá, minha vida corria seríssimo perigo. Os outros estavam lá para minha segurança, nada mais lhes justificava a função.

Lembro-me do olhar do maldito: não era apenas um olhar de um cão com ira doentia; era o olhar de alguém que sentia prazer em sentir raiva. Ele queria me ver morto, não porque eu lhe tivesse feito algum mal, mas apenas para se divertir. Toquinho foi o sujeito mais filho da puta que conheci em toda a minha vida. Com toda a certeza, deve ter feito trabalho voluntário no DOI-CODI nos piores tempos da ditadura.

Como visto, desde cedo tive problemas com os cachorros. E o pior é que nunca lhes fiz mal: era tortura gratuita.

Dizem alguns que os macacos, ao sentirem medo, exalam um cheiro específico, que só é percebido pelos cães. O cheiro, prosseguem os sedizentes especialistas, provoca medo no próprio cachorro, que, por sua vez, sente-se compelido a atacar o pobre símio, que nunca lhe fez mal algum. Algo como uma pena de morte preventiva.

Acho isso uma baita de uma mentira. Os cachorros, em minha opinião vinda de muitos anos de estudo e reflexão, possuem uma certa inteligência maligna. Fingem-se de estúpidos e simulam devoção a quem lhes dá casa e comida, apenas porque, assim fazendo, podem viver sem trabalhar, às expensas do trouxa que lhes paga as contas. Alguns apresentam-se dóceis às visitas, apenas para angariar a simpatia do dono, deixando-o orgulhoso; outros, mais desavergonhados, sequer se dão a esse trabalho: avançam sobre quem, por não pagar-lhes a ração, não lhes tem nenhuma utilidade. "Coitadinho. Ele não está acostumado com gente estranha". Balela. Conheço muito cachorro que, para ganhar um prato de comida, lambe as botas de gente com hábitos não só estranhos, mas bizarros. São todos uns venais.

Porém, quando vêem que alguém, ainda que de forma involuntária, se apercebeu da tramóia que pregam, o objetivo passa ser um só: destruir o potencial delator.

E digo mais: nem sempre a tal destruição é física, como, por comodidade, costumam tentar fazer os cachorros maiores (com os quais há tempos não tenho nenhum tipo de contato, dado que, sendo um homem atento, sempre que posso atravesso a rua ao ver um deles). A destruição também pode ser psicológica.

Há pouquíssimo tempo, fui vítima de um ataque psicológico desses.

Tudo culpa de um cachorro - cuja raça me é desconhecida, mas de tamanho não muito maior ao do Toquinho - que, sabendo da probabilidade de sua derrota num embate físico, utiliza-se de um expediente covarde para me inviabilizar a presença no apartamento em que ele reside - e que, de uns tempos pra cá, tenho teimado em frequentar, por razões de cunho pessoal.

Vendo minha indesejada figura em seu lar, o vagabundo simula ataques de loucura. Exatamente: ataques de loucura.

O desgraçado, apenas e tão-somente quando me faço presente, corre para a cozinha e, numa cena digna de envergonhar o mais espalhafatoso hóspede de um manicômio judiciário, lambe a porta do cômodo, de um lado a outro, sem parar e sem tirar a língua. Vejam bem: não é só uma lambidinha. Ele corre, num frenesi doido, por horas se necessário, com a língua grudada a porta, indo e voltando, a ponto da baba fedorenta encharcar-lhe as barbas e as patas da frente. Um possesso.
A cena é assustadora, até mesmo eu sou obrigado a admitir. Por ser evidente a minha responsabilidade a respeito da perda da lucidez de tão ponderado animal, transformei-me, por óbvio, em persona non grata por aquelas bandas. Um golpe de mestre: o cachorro me tira do circuito com elegância e, de lambuja, ainda se faz de vítima. Estou certo de que esse canalha, à noite, dorme com um sorriso de maldade estampado na cara, roendo um toco de osso, trêmulo de satisfação.

Muitos podem não pensar como eu, mas uma coisa é certa: não estou sozinho na minha denúncia. A comunidade científica está ao meu lado.

Quem o diz é uma renomada publicação internacional, intitulada "Dog Facts", editada pela Quantum Book, de Londres, e da lavra da, acredito, cientista Joan Palmer, moça que vai revolucionar tudo que conhecemos sobre os malditos cachorros.

O exemplar a que tive acesso - presente de um amigo, também estudioso do assunto, e que fez questão de me apontar os principais tópicos da obra - se trata de uma edição portuguesa, da Editorial Estampa, de Lisboa, de 1997. O título que os lisboetas arranjaram é "Guia do Cão", que se encontra à venda em nossas melhores livrarias. A quem desejar maiores informações, peço o obséquio de enviar um e-mail para o nosso endereço eletrônico, aos cuidados do Doutor Milton.

Pois bem. Após uma superficial análise sobre o histórico do relacionamento entre macacos e cães, o livro aborda as principais características das mais conhecidas raças desses últimos.

Contudo, o que chamou a atenção daquele colega (e daí a razão dele ter me presenteado) foram os comentários sobre o cãozinho da raça conhecida como Weimaraner. Na página 134, como eu próprio pude constatar, há um quadro que serve como resumo das particularidades do nosso amigo. No tópico "caráter", está dito que se trata de um sujeito de "Bom temperamento e vigor. É excelente em obediência e agilidade". No aspecto "exercício", observou-se que estamos diante de um "cão exuberante que precisa de muito exercício e um escape para a sua viva inteligência". Para manter sua "beleza", é necessário "Escová-lo diariamente". E sua "longevidade" costuma ser, "em média, boa".

Ele, contudo, tem um grave "defeito": segundo nos afiançaram nossos queridos tradutores portugueses, existe a concreta "Possibilidade de o cão ser mais inteligente do que o dono, daí resultando problemas".

Bote problema nisso.

Não sei se, dada a origem da tradução, ao tratar de tão delicado problema, o livro se referiu aos donos de todas as nacionalidades ou apenas aos provenientes da terrinha.

De qualquer modo, ser um cachorro mais inteligente do que o próprio dono, de fato, é um grave defeito, e os problemas dali advindos - em especial, os de relacionamento - podem ser irreversíveis. Não sei se os canis fazem essa advertência aos compradores do Weimaraner, mas deveriam, sem dúvida, fazer: "Cuidado: existe o risco deste cachorro pode ser mais inteligente do que o dono". Deve ser fogo ter esse problema: não gostaria, por exemplo, de me ver castrado a mando de um cachorro.

Do jeito que as coisas andam, não será difícil se deparar com uma corrida em massa rumo às lojas de cães, todos buscando um Weimaraner, que, mais inteligente do que o dono, aceitará, com prazer, o encargo de ser o responsável por nossas decisões mais importantes. Mas daí eu me pergunto: e quem é que me garante que as decisões do Weimaraner não serão melhores do que aquelas que temos tomado, supondo, orgulhosamente, serem as nossas?

De qualquer modo, um fato é certo: eu, que nunca me dei com os caninos, me estrepei. Minha desgraça completa passou a ser uma questão de tempo, não tenho mais adultos que possam me defender.

Lá do inferno, o Toquinho afia um canivete, esperando a hora de me arrancar o olho, ansioso pra terminar o serviço.


Este bom português sentiu-se atordoado depois de conversar com seu Weimaraner


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23.11.04

DIABO DA FONSECA E O CASAMENTO

Lamento ter de fazer a constatação, mas, para minha total e absoluta desgraça, sou um ser organicamente monogâmico.

Ao contrário do que muitos dizem por aí, não se trata de uma questão filosófica, ou de experiência, ou de santidade. Nada disso: em termos intelectuais, estou mais do que convencido de que a monogamia é coisa bizarra, sem sentido e contra a própria natureza. O diabo é que, na prática, por mais que me esforce, não consigo agir conforme meus ideais. Uma tristeza.

Nos distantes tempos em que tomei contato com a questão, fracassei acintosamente. Ainda que me fosse dada a oportunidade de beber água de duas fontes diferentes, sempre acabava comparando um tipo de água à outra e, mesmo a contragosto, no tribunal de minhas preferências uma delas acabava vencendo. Ou seja: tomando águas diferentes, transformava-se em doloroso martírio beber aquela que, a meu julgamento, era de qualidade inferior. E, para minha vergonha, de imediato passava a ser o mais devotado dos mortais à água de melhor qualidade. Confesso que pequei: fui fiel, mesmo quando podia não sê-lo - e mesmo quando a parte contrária pouco ligava para minha fidelidade.

É um problema biológico, sou assim com tudo.

A leitura, por exemplo. Leio pouco, sou semi-anafalbeto, insisto em escrever por aqui apenas porque prometi a Dom Gustavo, antes dele falecer. Não é de bom agouro quebrar promessa feita a defunto.

Porém, se topo com um autor por quem pego gosto, passo a ler tudo quanto é papel em que o desgramado deixou a sua marca. Devoto-lhe, assim, a mais sincera e desinteressada das fidalidades. É o que está acontecendo com o Nelson Rodrigues.

De uns três meses pra cá, já li quatro coletâneas de crônicas do desalmado. E agora, para me empanturrar de vez, resolvi ler-lhe as peças de teatro. É sobre isso que eu gostaria de falar.

Cada um fala daquilo que sua mente é capaz de alcançar. A Alma de Dom Gustavo, lá do outro mundo, nos ensina a respeito das obras da Grécia clássica. Eu, na mais desavergonhada ignorância, vou buscar alguma explicação na lição do Diabo da Fonseca.

O Diabo da Fonseca, tão cafejeste que, no teatro, precisou ser interpretado pelo Jece Valadão em pessoa, dá a honra de sua aparição na peça "Viúva, Porém Honesta". Num dado momento, lhe é perguntado qual o segredo de um casamento feliz.

- O problema de todo casamento é o banheiro - explica o diabo.

Sim senhores, o banheiro.

Diz o diabo que, na rotina dos anos da convivência comum, tudo é permitido. Toda regra pode ser quebrada, todo mito pode ser desfeito, todo encanto pode ser triturado aos poucos ou de uma só vez. Homem e mulher podem dividir a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama; podem contar mentiras e até mesmo (pasme-se) contar as verdades. Podem peidar, escarrar, arrotar, cortar a unha um na frente do outro, tudo.

Porém, se num momento de aperto, um dos cônjuges, ungido pela necessidade, se depara com a porta do banheiro trancada, dá três batidas na madeira e, lá de dentro, o outro informa "Tem gente!", aí não haverá mais salvação. Não há amor que sobreviva a esse tipo de incidente. É o fim.

Não há amor na intromissão de um no sacrossanto momento de barrear de outro. Assim como não há amor quando o cagante, humilde, para justificar o direito de levar a bom efeito o ato de obrar, precisa lembrar ao ser amado que ele, mesmo naquele momento, também é "gente" - por mais surpreendente que isso possa parecer a quem bate na porta. "Tem gente" - eis aí o grito do amor morto de inanição.

Por isso, ensina o Diabo da Fonseca, o negócio é jamais dividir o banheiro. O casal pode sem problema algum conviver debaixo do mesmo teto, mas o banheiro tem de ser separado. Mesmo banheiro, que o alerta nunca seja esquecido, jamais.

Fiquei sabendo, dia desses, de uma verdadeira aberração: um casal, de 30 ininterruptos anos de casamento, que ainda pratica sexo entre si. Quem me relatou tamanha barbaridade foi uma pessoa insuspeita: a própria filha do casal. Assustado, observei à moça que somente um tarado irremediavelmente devasso é capaz de cometer tal atrocidade. Fazendo cara de surpresa, disse-me a testemunha que sempre achou o pai um sujeito pacato e de aparência de casta normalidade.

- Um tarado - repeti. - Esse degenerado deveria ser preso, para o bem da sociedade. Tenho pena de sua mãe, tantos anos sofrendo das mãos desse animal.

Tão aterrorizado fiquei com aquela revelação que não pude evitar: levei o tema ao debate junto a dois amigos, um casado há 10 anos, outro há 20 e poucos.

De cara, descobri que o Diabo da Fonseca tinha razão.

Disse-me o casado há 10 anos:

- Talvez isso seja possível - refletiu seriamente, coçando o queixo. - Afora, é claro, a hipótese do camarada ser pura e simplesmente um tarado, acredito que, com alguma dose de sorte, é possível, sim, praticar sexo com a mesma mulher durante 30 anos.

- Como? - eu quis saber, atônito.

- O segredo é o banheiro - e daí ele me piscou um olho. - Na minha casa, por exemplo, que só tem um banheiro: quando minha mulher foi morar lá, deixamos uma regra clara, desde o início: é proibido entrar no banheiro logo em seguida depois do outro. Tem de esperar no mínimo 15 minutos. Nem um segundo a menos, é o que eu sempre digo.

- Sacanagem! - protestou o terceiro debatedor, casado há 20 e poucos anos. - E se eu quiser dar uma cagada antes dos quinze minutos depois da minha mulher sair? Como é que eu faço, hein? Hein? - ele provocava, nervoso, achando que tinha colocado por água abaixo a estratégia do outro.

- Meu amigo, aí é uma questão de opção. Eu tenho certeza de que, se eu quebrar a regra e sentir o cheiro da merda da minha mulher, por mais que eu goste dela, ela vai perder um pouquinho de espaço no meu coração. Como eu não quero que isso aconteça por enquanto, prefiro então segurar a vontade de cagar. Sei lá, porra, é como não peidar na cama com ela ao lado.

- O quê?!? Você não peida na sua própria cama?!?

À luz de tão severa indignação, achei que não estava à altura da complexidade do debate. Passei a ser mero expectador.

- Não - confirmou o casado há dez anos, com tranquilidade.

- Absurdo! E como é que você faz? Toma remédio pra não peidar?

- Não. Me levanto e vou ao banheiro.

- VERGONHA! - berrou. - Um homem tem o direito de peidar na própria cama.

- Pois é, mas eu não peido. Também não mijo de porta aberta.

- Eu mijo de porta aberta! - replicou o de 20 e tantos felizes anos de casamento.

- Eu também - arrisquei eu, mesmo não sendo casado.

- Meu pai e minha mãe foram casados 60 anos, sabia?!? - o de 20 anos se empolgava na cólera, quiçá incentivado pela minha observação. - E sabe onde eles mijavam à noite? No urinol!

Urinol, que eu saiba, é nada mais, nada menos do que um penico de lata. É preciso muito amor no coração pra ver a mulher se agachar no chão e fazer aquele barulhinho.

- E eles ainda transavam? - perguntei.

- E eu vou saber, porra?

Ninguém sabe. Nem os dois que dividam o mesmo urinol, absolutamente monogâmicos, não sei se um ao outro, não sei se os dois com relação ao peniquinho de lata.



Este respeitável senhor provou ao povo que não era um tarado


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19.11.04

CLÁSSICO É CLÁSSICO E VICE-VERSA

Dando continuidade à série iniciada pelo comentário ao "Eutífron" - série que bem poderia ser chamada "Clássicos Comentados por Bezerra da Silva", porque esse é o espírito -, introduzo hoje os leitores no maravilhoso mundo de Luciano de Samósata.

O texto escolhido para ser comentado é também um diálogo, a exemplo do Eutífron do mano Platão. Foi extraído do classicaço "Diálogos dos Mortos", em que o Luciano sacaneia a tudo e a todos pela voz de seu personagem Menipo - sujeito daqueles que não se sabe se é mais história ou mais ficção, e de cujo nome deriva a categoria literária denominada "sátira menipéia". Menipo, além de cínico (da escola cínica), é também um puta dum cínico na acepção corrente do termo, um Pedro Malasartes mais esculachado e inteligente.

Mas não pensem os leitores que quero instruir o povo, arrotando erudição. Além de burro e preguiçoso, não tenho a pretensão de deixar de ser símio um dia, e nessa condição de desiludido com a própria ignorância nunca ousaria ensinar nada a ninguém. E principalmente agora, depois de morto. Na realidade, é justamente pela similitude do texto comentado com minha condição atual que escrevinho estas linhas.

***

Invocando alguém muito mais sábio e habilitado do que eu, deixo aos cuidados de Manuel Bandeira definir, em soneto, as características do bom Menipo e de seu espírito quando foi ao encontro do barqueiro último:

"Menipo, o zombeteiro, o Cínico vadio,
Ia fazer, enfim, a última viagem.
Mas ia sem temor, calmo, atento à paisagem
Que se desenrolava à beira do atro rio.

E chasqueava a sorrir sobre o Estige sombrio.
Nem cuidava em trazer o óbolo da passagem!
Em face de Caronte, a pavorosa imagem
Do barqueiro da Morte olhava em desafio.

Outros erguiam no ar suplicente as palmas.
Ele, avesso ao terror daquelas pobres almas,
Antes afigurava um deus sereno e forte.

Em seu lábio cansado um sorriso luzia.
E era o sorriso eterno e sutil da ironia
Que triunfava da vida e triunfava da morte."

O soneto é velho, de 1907. Mas tudo bem: o Luciano escreveu as aventuras de Menipo no reino da morte há quase dois mil anos... Mas vamos ao que interessa, porque é ora de apresentar o diálogo de hoje, intitulado "Caronte, Menipo e Hermes".

***

Como sói acontecer no livro, o título do diálogo é uma alusão aos seus personagens. Caronte é o famigerado barqueiro que, antigamente, levava à terra do capeta as almas de quem tivera a infelicidade de morrer. Na definição do brilhante tradutor - Henrique G. Muracho (como não sei ler grego, tenho pra mim que qualquer cabra que consiga entender tal língua é um sujeito brilhante, até porque eu nunca poderia questionar a sua tradução, de modo que é melhor presumir a genialidade do tradutor, do que presumi-lo burro e eu mais ainda) -, Caronte "é uma divindade infernal. É representado como um velho barbudo, vestido em farrapos".

Portanto, não erraríamos se classificássemos Caronte como um legítimo representante da classe mindingal, um sujeito que, à falta de ocupação melhor, cuidava de atravessar as almas deste para o outro mundo, passando pelo Aqueronte, o rio que, como sabemos, contorna aquela aprazível ilha que é o Hades. Como bom mindingo, Caronte exigia um óbolo - uma moedinha - da alma desgraçada que, além de ser obrigada a ir para o inferno, tinha ainda que pagar por isso (é algo como os nossos impostos modernos). Só não se sabe em que tipo de boteco ou puteiro o nosso bom Caronte gastava a féria acumulada em seu cofrinho.

O Hermes, outro colega de diálogo do Menipo, é uma "divindade polivalente", ainda na palavra do tradutor. Nos "Diálogos dos Mortos" - afiança-nos o helenista - Hermes trampa de "acompanhante (condutor) das almas". É o office-boy de Zeus, em suma.

Menipo é o herói sacana da estória, que tira um sarro da cara de todo o mundo. Vamos ao que interessa.

Diz o Caronte ao receber das mãos do Hermes o nosso querido Menipo, depois que este bateu as botas, e já dando mostra de sua impaciência mindingal: "Vamos, velhaco, paga a passagem". Menipo, que também fôra mindingo em vida (tanto que foi chegado do velho Diógenes, o fundador da escola cínica que tinha o, convenhamos, pouco suntuoso hábito de morar num tonel), recusa-se a pagar para se foder, e se sai com esta ao Caronte, que já pensava em tirar à força uns cobres do insubmisso morto: "Não poderias tirar de quem não tem..."

Como se vê, já no início do trajeto rolou uma treta tipicamente mindingal, com um pedindo uma moeda e o outro, mais mindingo ainda, dizendo que não dá nada porque não tem nada.

Já puto com aquela mindingância maior que a sua, Caronte se espanta e apostrofa: "E há alguém que não tem um óbolo!?" E o Menipo: "Se há um outro eu não sei. Eu não tenho". A cara-de-pau, ousadia e tranqüilidade do viajante mindingo fez Caronte querer sair no braço com o cara - método eficiente, aliás, pelo qual comumente se encerram as pelejas entre os nobres seres da rua: "Por Plutão, seu safado, vou te torcer o pescoço, se não pagares". Menipo também é chegado numa boa treta, e responde: "E eu, com este porrete, vou te dar uma porretada e rachar a cabeça".

É bela a lide mindingal.

Como estratagema para tirar uma grana do folgado, Caronte recorre ao Recurso Extraordinário dos mindingos: a pena. Com cara deslavada, Caronte apela para o efeito teatral de uma boa choramingada: "Então foi por nada que eu te fiz atravessar?"

Menipo, que também era versado nas mutretas do povo pedinte, não se comoveu nem um pouco. Bem ao contrário, como sempre quis passar o ônus do pagamento para um outro otário: "O Hermes aqui presente que pague a passagem. Foi ele que me entregou a ti".

Fica claro que mindingo que é mindingo só conjuga o verba ganhar, nunca o verbo pagar. Mas o Hermes, que estava ali na mera condição de office-boy de Zeus, ou seja, um quase-mindingo celestial, também se emputece e resolve tirar o cu da reta: "Por Zeus... Belo negócio é o meu... se ainda eu tenho que pagar pelos mortos..."

Pagar para trampar!? Nem fodendo! - esse foi, na verdade, o desabafo do pobre Hermes.

***

Caronte, o velho mindingão, resolve então apelar para a encheção de saco pura e simples, como meio de pressão sobre o passageiro renitente: "Não me afastarei de ti". Menipo também é outro inflexível: "Se é por isso, amarra o teu barco e fica aí. Contudo, como eu poderia pagar se não tenho?"

E a encheção de saco recíproca continua, um mindingo querendo levar vantagem em cima do outro. Caronte pergunta a Menipo se ele não sabia que deveria portar um óbolo para a travessia, ao que este redargui, com perspicácia: "Saber eu sabia, mas não tinha. E por isso, então, era preciso não morrer?" O homem é bom na sua arte, convenhamos. Mas Caronte não se faz de rogado, e apela para os brios mindigais de Menipo: "Tu serás o único a contar vantagem de ter navegado de graça?"

Mas Menipo mostra que sabe barganhar, e ao invés de pagar algo ao Caronte, resolve é cobrar dele pelos serviços braçais que diz ter-lhe prestado: "De graça não, meu caro. Porque eu empurrei o barco e peguei do remo... e era o único entre todos os passageiros que não chorava."

De fato, como disse o Mané da Flâmula (Manuel Bandeira, para os chegados), Menipo triunfou da vida e agora triunfava da morte.

Mas o desgramado do Caronte dá a derradeira mostra de que mindingo não quer ajuda ou favor, quer mesmo é grana, e em espécie: "Isso aí não vale nada [os favores do Menipo]. É preciso que me dês o óbolo. Não pode ser de outra forma." Imagino que cheque então, nem pensar.

"Então leva-me de volta para a vida". Pow!, plaft!, tóin! - esse é o nosso Menipo velho de guerra! Agora se revela todo o seu senso de oportunidade: não quer me levar para o reino dos mortos de graça? Beleza, então me leva de volta para a vida - eis o seu astuto raciocínio. De fato, ficar no meio do caminho entre a morte e a vida não seria possível.

***

Caronte, vendo que tomou uma puta invertida do mindingo-mór que era o Menipo, apela para o nome de um dotô: "Engraçadinho... para que, por causa disso, eu leve uma surra de Éaco?"

Este último, segundo tradutor, era um cabra influente lá no Hades, e conseguira uma nomeação do Cão para o cargo de chefe-de-gabinete de uns juízes federais lá do inferno. É o que nos diz o tradutor, em quem confio cegamente, afinal ele sabe grego, e quem sabe grego deve saber de tudo: "Depois de morrer [o tal do Éaco], por causa de sua correção e espírito de justiça, ele se torna auxiliar de Minos e Radamanto no tribunal de Hades, onde julga sobretudo os mortos da Europa".

Como se vê, até no inferno existe burocracia e política. Até mesmo regras de organização judiciária e competência territorial existem, como nos informa o preclaro tradutor, tanto que o Éaco só atua nos processos que envolvem como parte "os mortos da Europa".

Mas Menipo é foda, é malandro durão e não arrega. Diz apenas ao cobrador Caronte, com todas as letras: "Então não enche".

Caronte, vendo que dinheiro não sairia dali, desiste e resolve pedir apenas um prato de comida ou algo que o valha, como todo mindingo vencido: "Deixa ver o que tens na sacola."

A resposta de Menipo é surpreendente: "Tremoços". E ainda pergunta ao velho mindingo curioso: "Estás servido?"

Aí o bicho pega feio e Caronte desabafa para Hermes, o contínuo de Zeus: "Hermes, de onde tu nos trouxeste esse cão? Que coisas ele dizia durante a travessia... ele ria e zombava de todos os passageiros. Enquanto os outros gemiam, ele era o único que cantava."

O Hermes, num lampejo de lucidez, proclama toda a radiante e inquestionável verdade: "Não sabes, Caronte, que tipo de homem tu tiveste como passageiro? É alguém absolutamente livre. De nada se preocupa. Esse homem é Menipo."

Caronte para Menipo: "Ah, se eu te pegar um dia..."
Menipo para Caronte: "Se me pegares? Duas vezes não me pegarias..."

É por isso que Menipo é meu herói. E é por isso que minha meta de iluminação interior é algum dia chegar a ser um mindingo, um mindingo tão livre, sereno e sacana quanto o Menipo - ou Buda.


O Menipo é foda


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18.11.04

BOA SAÚDE

No início, parecia uma brincadeira, daquelas brincadeiras de moleque, de uma inteligência surpreendente e que, de um jeito todo caprichado, se volta para o mal, mas sempre com uma pitada de ironia.

Era abrir a braguilha da calça, se encostar junto à privada, dar uma boa mijada, fechar o zíper, acertar o cinto, dar a descarga, lavar as mãos e pronto: à beira da porta do banheiro vinha de novo a vontade de mijar. E daí ia eu pra privada mijar de novo, desta vez em volume muito menor.

Irritante como ela só, a vontade seguia todo um ritual: ela só aparecia depois de lavar as mãos e aproximá-las na maçaneta da porta. Nunca antes disso. E digo mais: era uma vontade com inteligência própria. Fiz, para fins puramente experimentais, o teste de não lavar as mãos e não dar a descarga. Só de pura maldade, a vontade aparecia em exatos 10 segundos após eu deixar o banheiro.

Comparei-a a uma brincadeira de moleque, mas, pra falar a verdade, creio que tudo isso devia ser maldição de algum espírito: o espírito do mijo.

Preocupado, comentei o assunto com um amigo meu, sujeito que gosta de estudar as coisas do outro mundo, versado em tudo quanto é história de ocultismo, comunicação dos espíritos e coisas que tais. "Deve ser a próstata", ele comentou, distraído.

A próstata? Então era câncer na certa.

Marquei para o dia seguinte uma consulta com um amigo médico, mas antes, no mesmo dia, tomei a precaução de me instruir sobre minha doença através da internet. Entre as formas de tratamento, optei pela cirurgia pura e simples.

- Tenho câncer na próstata. Quero ser operado, de preferência neste final de semana. As coisas estão meio paradas no trabalho, creio que Deus escolheu uma hora adequada para me foder. Ainda bem que descobri agora.

Meu amigo riu e perguntou como é que eu havia chegado àquela conclusão. Ao ouvir que me instruí pela internet, ele deu o diagnóstico: "Rapaz, tu é um baita de um símio. Se eu não fosse seu amigo, fazia um exame de toque no seu rabo, só pra você largar de ser besta".

Sentindo-me o mais canceroso dos mortais, fui ao laboratório indicado pelo sábio médico e, uma semana depois, com o resultado dos exames que ele solicitou, vi que o prudente doutor tinha dupla razão: além de eu ser um baita símio, não tinha câncer na próstata. Tinha, segundo a ciência, uma infecção não sei onde.

Durante uma semana, tomei um remédio que deixou meu mijo com uma cor alaranjada que, de tão fosforescente, brilhava no escuro, a ponto de tornar dispensável acender a luz do banheiro. Era mijo artístico.

Hoje, sinto-me bem melhor.

É verdade que, volta e meia, a vontadezinha de mijar depois de lavar as mãos aparece, só para dar um alô. Meu amigo médico insiste em dizer que isso nada tem a ver com o câncer: "Isso tem a ver com a alimentação, com a quantidade de bebida que você ingeriu, com o que você bebeu, essas coisas. Você não tem mais vinte anos, essas coisas podem acontecer, mas não tem nada de mais. Câncer na próstata você não tem, sua próstata está funcionando bem. Já sobre o seu cérebro, não posso dizer o mesmo. Posso lhe indicar um psiquiatra, que, aliás, no seu caso cairia bem".

Sei não, continuo achando que isso obra de algum espírito maligno. Pensei em pedir que o meu amigo médico me recomendasse algum padre de sua confiança, mas lembrei-me que, sendo ele judeu, no máximo ele me indicaria algum rabino. Nunca vi filme de rabino fazendo exorcismo, achei melhor não perguntar mais nada.

***
Bem mais frequente - e incômoda - do que a maldição do espírito do mijo é uma dor na parte de trás da cabeça que, com precisão britânica, vem me visitar uma vez a cada mês. Essa é das brabas.

Ela começa com um leve incômodo próximo à nuca, que vai subindo pela cabeça até chegar próximo às orelhas. No ápice, a sensação é de que me martelaram alguns pregos grossos por sobre o crânio.

Consultei mais de um especialista, todos eles unânimes: a dor é fruto de uma tensão muscular nos músculos das costas, o que acontece quando passo muitas horas sentado diante do computador. Os músculos se contraem, ficam repuxados e daí o incômodo na região da nuca. É como se eles estivessem se encolhendo, puxando a nuca para trás.

"Você está trabalhando demais", disseram os doutores.

Mentira.

Estou cada vez mais vagabundo. Nunca trabalhei tão pouco em toda a minha vida.

Tomei remédio, fiz acupuntura, RPG, ginástica, o diabo a quatro. De pouco adiantou: minha situação, hoje, se assemelha à menstruação, com a vantagem de que dura apenas uns dois dias: uma vez por mês a dor aparece, não há como evitar. Então o negócio é se acostumar com ela. Difícil é explicar isso aos colegas, que põem as minhas ausências na conta de minha vagabundagem.

Antigamente, tinha hábitos alimentares pouco convencionais: durante a semana, fazia apenas uma refeição, a do jantar, consistente em 10 ou 11 pacotes de batatas fritas da marca Croquer; aos domingos, comia algo entre 18 a 20 pedaços de pizza. Também apenas no jantar, pois tenho vocação para ser frugal.

De qualquer modo, o fato é que jamais senti azia, queimação, mal-estar ou algo que o valha. Hoje, mantenho os mesmos hábitos alimentares, mas tenho todas essas coisas. Incrível: é a primeira vez que isso me acontece em 8 anos. Outro problema com que sou forçado a conviver.

Problemas sexuais, estes eu não tenho. Ou melhor dizendo: não posso afirmar que os tenho. Como não pratico sexo há mais de 5 involuntários anos, por enquanto não tenho razões para não me considerar sadio. E não se fala mais nisso.

De todos os males que me assolaram nesses últimos tempos, o único que, de fato, desapareceu, foi uma dor de dente que, a despeito de minhas reiteradas idas ao dentista, insistia em dar o ar de sua graça, especialmente nas segundas-feiras. Goste eu ou não, o INRI curou a dor de dente. Nem eu acredito, mas fazer o quê? Quando encontrei o Mestre, meu dente estava doendo pra valer; ao deixá-lo, a dor sumiu e nunca mais voltou. O finado Dom Gustavo, que o Pai do INRI o tenha, é testemunha da minha estupefação. Minha triste conclusão é que, pra me curar de alguma coisa, só conversando com o próprio Jesus Cristo em pessoa. Menos do que isso não adianta.

Acumulei todas essas dores com passar da idade, irremediáveis, dores e idade. E, pior do que se incomodar em conviver com as dores, é não saber se a dificuldade, no fundo, é o incômodo de conviver comigo mesmo, já que não existo mais sem elas. Eis aí a grande molecagem, mais maligna do que a traquinagem de qualquer espírito que brinca de me fazer mijar de novo, mesmo após ter lavado as mãos.



A vida no campo deve ser mais saudável


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17.11.04

O INFERNO

Disse algum doutor afamado que o inferno são os outros - ou então o "outro", a contraposição do "eu", como diria, em psicologuês, o Doutor Fernando Bananeira, ou Goiabeira, sei lá, nunca me lembro do nome desse infeliz.

Ele não deixa de ter boa dose de razão - "ele", o autor da frase, não o Doutor Goiabeira, ou Bananeira, sei lá que raio de árvore serve de nome a esse cara. Para fins de demonstração do acerto da tese, basta, por exemplo, dividir uma sala com qualquer outro na já suficientemente árdua e pesarosa jornada laboral.

As ligações particulares feitas pelo outro, as conversas dele sobre o próprio trabalho, os hábitos manuais, a hora de sair, a hora de ir embora, o lanchinho fedorento do meio da tarde ou do início da manhã, as conversas repetidas, as mais ainda repetidas preocupações com sua vida vulgar e superficial, os medonhos tiques nervosos, tudo, absolutamente tudo que vem do desgraçado, com o passar do tempo, parece ter chegado diretamente do inferno sob encomenda despachada pelo próprio Belzebu. Aliás, a própria figura do companheiro se assemelha à do Tinhoso.

Eu mesmo, há coisa de alguns anos, dividi uma sala com um outro, por quem, até então, nutria imparcial e decoroso respeito. Digo "até então" porque não aguentei ouvir por duas, três e às vezes até quatro vezes ao dia o desalmado falar ao telefone com a própria mãe, sempre a respeito do mesmo assunto: ajudar a encontrar um apartamento para o irmão morar de aluguel. Até hoje não sei que tipo de incapacidade mental acometia ao tal irmão, que precisava de outros dois para tagarelar o dia inteiro a respeito da procura de sua nova moradia.

A coisa até que não seria tão difícil se a enrolação do aluguel não perdurasse por exatos dois meses. Nunca perguntei nada ao colega, mas creio que o irmão era um vagabundo que estava morando de favor na casa da mãe, a qual, por sua vez, não via a hora de se livrar do encosto em forma de filho. E, para tal tarefa, contava apenas com a, convenhamos, pouco prática ajuda do outro filho, um verdadeiro mestre na arte de tranformar as coisas simples em tramas rocambolescas que só se desenrolam no infinito. À época, o maldito tilintar do telefone dava-me queimação no estômago.

Confesso, contudo, que gostei quando, também pelo telefone, testemunhei a namorada do outro lhe relatar uma traição praticada na noite anterior. Passarei a enternidade no inferno, a cada dia que passa estou mais certo disto.

Há casos especiais, porém, que nem um santo encarnado aguentaria. O Nhônho, por exemplo - um gordinho dentuço, absolutamente redondo, portador de um belo cavanhaque de cor indefinida e que dividia uma sala de trabalho enorme com mais uns 4 ou 5 colegas.

Desconheço a origem de seu apelido. Mas ele condiz com o seu pouco elogiável hábito de, repentinamente, sugar com força pelo céu da boca o muco de suas narinas e, de um golpe só, mascar o catarro como quem masca chiclete de forma barulhenta.

O pior era que, provavelmente em virtude de sua pouca convivência social, o Nhônho sequer se dava conta do crime que perpetrava contra a raça humana. No princípio, todos ficavam constragidos e abaixavam a cabeça, fingindo não ouvir-lhe a sinfonia de chiclete, que ele saboreava com tranquilidade. Talvez fosse apenas um caso de loucura passageira.

Depois, por puro desespero, alguns passaram a lhe encarar, em silêncio, com a cara brava, na esperança de que o rapaz se tocasse. Mas que nada: num primeiro momento com ar perplexo, o Nhôho, percebendo que algum outro lhe encarava, logo em seguida devolvia o olhar de ódio, mascando enfurecido como nunca - e achando que aquilo era mera provocação por conta da competitividade no ambiente trabalho do mundo moderno. Era provocação psicológica dos adversários - devia ser o que ele imaginava. Nunca lhe passou pela cabeça que mascar o catarro pudesse chamar a atenção alheia.

Por conta dessa absoluta naturalidade, deduzo que o costume devia ser não só do Nhônho, mas de todos os seus parentes, inclusive na hora das refeições. Um verdadeiro inferno, como se vê.

Iniciei esse texto imaginando que, ao final, iria concluir que o inferno não são os outros e sim nós mesmos, mas, falando com sinceridade, quando me lembro do Nhônho, acredito ser impossível sustentar tal tese. E criei um problema para mim mesmo: não estou conseguindo me explicar.

Não é menos verdade, de outro lado, que o excesso de polidez por vezes não é menos constrangedor. Conheço um sujeito que, ao ir para qualquer lugar numa reunião de trabalho, cumprimenta, com artificial intimidade, todos os que lhe passam pela frente, do porteiro ao presidente da empresa, além de fazer questão de dar dois beijinhos babados em todas as mulheres que encontra, imaginado que com isso colhe a simpatia de todos. É o espantalho das secretárias.

O diabo é que, se fazer coisas que incomodam os outros é ruim, evitar fazê-las pode ser pior, já que é impossível, de antemão, julgar apenas com a própria realidade o que é ou não incômodo a terceiros.

Confundi-me de novo, não chego a lugar nenhum, muito menos a alguma conclusão.

Tudo culpa minha: nestes últimos dias, fiquei enroscado numa situação em que, para não incomodar o "outro", estou evitando, com força bestial, dizer o que ando pensando - embora o que tenha a dizer não me pareça necessariamente ruim. E não sei expressar se o que tenho é receio do que o "outro" vai pensar ou receio do que eu próprio vou pensar de mim.


Me parece evidente que este sujeito não precisa dizer que está precisando de uma esmolinha


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16.11.04

A RESSURREIÇÃO DE DOM GUSTAVO

Sim, senhores.

Como já dito antes, a contratação do Doutor Fernando Bananeira, psicólogo, simiólogo, vidente e paranormal, para fazer parte integrante dos quadros do Mundo Símio, não foi sem razão.

Após ter estudado a fundo as lições da umbanda, da quiromancia, do espiritismo e do catecismo do Papa, nosso bom doutor finalmente se sente apto a presidir o complexo ritual de magia negra que se prestará a trazer nosso finado Dom Gustavo de volta a este planeta. Será um espetáculo assombroso.

É fato que ainda não perguntamos a Dom Gustavo se ele concorda em voltar para cá, mas tal detalhe, segundo nos afiançou o nosso velho e bom Bananeira, é dispensável."O defunto reencarna querendo ou não", explicou o doutor.

Sendo assim, tomei a iniciativa de mandar o Doutor Bananeira seguir em frente. Não tenho medo de magia negra. Tenho medo, isto sim, da lista negra do SERASA e do SPC, nas quais estamos cadastrados como devedores irremediavelmente inadimplentes. Logo, nada mais salutar do que trazer nosso mais ilustre sócio para pelo menos ajudar a saldar as dívidas que ele deixou.

Para que o povo não nos chame mais uma vez de mentirosos, iremos gravar em vídeo a cerimônia, ao cabo da qual, esperamos, Dom Gustavo se fará presente, em carne e osso, de preferência com algum dinheiro no bolso. É a minha última esperança.

Mas isso não há de ser nada: após a chegada de Dom Gustavo, outras novidades - estas muito piores - virão. É ver para crer.



A cerimônia de ressurreição será iniciada junto ao túmulo de Dom Gustavo


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12.11.04

EUTÍFRON (ou DO CAÔ QUE O SÓCRATES TENTOU PASSAR NUM CRENTE)

Como é de geral sabença, Sócrates - o filósofo grego, e não o ex-boleiro corintiano - rodou na mão da polícia. A treta foi da grossa e o resultado, como também se sabe, foi que o ilustre pensador acabou comendo capim pela raiz.

Mas todo malandro tenta aliviar a sua barra quando o flagrante é pesado e o xilindró se avizinha. Foi por isso que o Sócrates tentou se defender em Juízo, acusando os cagüetes que o acusavam. Sábio que era o filósofo, sabia que a melhor defesa nesses casos é o ataque. E assim foi feito segundo a Apologia de Sócrates, escrita posteriormente pelo seu chegado discípulo e aprendiz de malandro, o não menos afamado Platão.

E o motivo da treta, segundo corria à boca miúda lá em Atenas, é que Sócrates estaria pervertendo a juventude. Não é claro até hoje o que se queria dizer com isso. O próprio Sócrates escafedeu-se deste mundo sem ter muita certeza do "sete um" que passaram nele. Algumas línguas viperinas aduzem que a tal perversão teria a ver com o costume pouco elogíavel do mestre em, digamos, degustar uns moços. A mim não convence o argumento, porque o costume de apreciar uns efebos era generalizado naquele lugar e naquele tempo, de modo que a prática viadal, hoje tão abominável, ali era considerada ortodoxa e longe de gerar qualquer tipo de processo criminal.

Acho, em suma, que o problema do Sócrates foi mesmo de ordem político-religiosa, por conta de ele ter mexido no vespeiro das crenças do povo ignaro. E o povo foi, é e sempre será ignaro, em qualquer lugar. Só um feto anencefálico para pensar que a cada esquina de Atenas se trombava com um filósofo. Mexer com as ilusões daquele ou deste povo sempre deu e dará motivo para perseguição. O nosso ministro Marco Aurélio de Mello está aí pra não me deixar mentir. A inteligência sempre foi um corpo estranho no tecido social, cujo sistema imunológico fatalmente acaba por cercá-la, fagocitá-la e excretá-la como uma excrescência. Com Sócrates não foi diferente. Seu azar foi ser esperto demais.

Mas fato é que os meganhas de Atenas souberam mesmo enquadrar o malandro.

Tanto que, ao encontrar Eutífron - um papa-hóstias metido a vidente e, naturalmente, tido em muito boa conta pelo povo por sua piedade e sabedoria - lá no foro onde ia se informar acerca do sujeito que o cagüetara para os hómi, Sócrates reconheceu com o cu na mão a gravidade da peleja: "O assunto que me traz aqui, Eutífron, não é aquele que os atenienses chamam um juízo, mas uma pública ação criminal..."

"Tô ameaçado de ir pro xilindró - a treta é da grossa rapá!" - é o que na verdade quis dizer o patrono da filosofia ocidental.

O tal carola, Eutífron, foi até lá por conta de negócio cabeludo também: com pruridos de consciência, queria acusar o pai de assassinato. Sócrates, que nunca foi otário, logo convenceu o coroinha de que o pai dele não era cabra mal não, só por ter deixado um empregado num buraco até morrer de fome. "Pai é pai, e o resto que se fôda rapá!" - foi essa mais ou menos a lição de Sócrates ao angustiado sujeito.

***

É verdade que Sócrates tinha certos privilégios divinos que, aos olhos do povo ignaro, faziam-no um tanto doido. Tanto que a patuléia começou a fazer troça dele, só porque afirmara receber de vez em quando a voz de um "daimon" (um espírito, pra resumir) no seu sistema neuronial. O povo não tolera tais privilégios, e está aí o INRI - este injustiçado - para comprovar tal tese.

Mas como todo bom malandro, na hora do aperto é a astúcia e a lucidez que falam mais alto. Assim, vendo que a coisa estava feia pro seu lado por conta de umas tretas religiosas, cuidou logo o Sócrates de tentar bandear para a sua defesa o crente Eutífron.

A manha é clara. Após Eutífron afirmar que conhecia "com exatidão" o que se passava nos orbes celestes, disse Sócrates astuciosamente: "Compreenderás, portanto, estimado Eutífron, quão vantajoso para mim é tornar-me teu discípulo, inclusive antes da ação judicial de Meleto, uma vez que isso me permitirá desafiá-lo neste campo e dizer-lhe que, quanto a mim, o empenho foi grande, de há muito, para conhecer as coisas divinas e que agora, como afirma que improviso levianamente e que aporto inovações em tal sentido, precisei fazer-me teu discípulo".

Pois é, meus caros. Na hora do aperto neguinho se converte em qualquer coisa pra tirar a própria rosca da reta.

Depois de puxar o saco do mané, com vistas a passar por cordeirinho de deus e assim se livrar da acusação, Sócrates se dá conta da roubada: o tal do Eutífron era um tremendo otário, e mais queimaria o filme do que aliviaria a sua barra. Já antevendo a burrice do cara, sondou-lhe Sócrates: "Explica-me, então, o que entendes por piedoso e ímpio".

No afã de livrar-se da cana, vê-se que o mestre obrou em erro. Nunca se deve deixar um Zé Mané se empolgar com as próprias mentiras. Assim, depois de contar um monte de lorotas, o pretenso exegeta dos céus se empolga, e arremata dizendo ao Sócrates que estava "disposto a contar-te, se não te incomodas, muitas outras coisas sobre os deuses que, apenas ao ouvi-las, ficarás cheio de admiração".

Já puto com a conversa fiada, que certamente não lhe renderia nada, mas ainda esperançoso que o otário dissesse algo de proveitoso, Sócrates foi mandando o sabichão baixar a bola: "Não o duvido, mas é claro que deverás deixar tudo isto para uma ocasião de maior ócio". Meu saco tem limite de capacidade, é o que quis dizer o mestre, e continuou, já dando um toque de que o falastrão dizia merda: "Voltemos agora ao assunto anterior e tanta responder-me com maior clareza. Pois, quando eu te perguntava, caro amigo, em que consiste a piedade, não me mostraste claramente, limitando-te a dizer que realizas um ato piedoso ao acusar teu pai de homicídio".

***

E assim, entre tropeços do piedoso Eutífron, prossegue o diálogo platônico que levou justamente o seu nome, e o consagrou na história universal da infâmia.

A certa altura, vendo que o caboco não falava coisa com coisa, Sócrates sutilmente dá uma esculachada no otário: "E dizendo isto, poderás admirar-te de que tuas afirmações te pareçam pouco estáveis e que girem daqui para ali? Atrever-te-ás a comparar-me a Dédalo e me farás responsável por essa falta de estabilidade, quando és muito mais destro que Dédalo, uma vez que consegues fazer estas razões girarem em círculo? Ou por acaso não percebes que o nosso raciocínio gira sobre nós mesmos e torna novamente ao mesmo lugar?"

O mané deve ter achado que Sócrates o elogiava, quando na verdade estava tirando um pêlo da conversa fiada do cabra.

Por fim, após destruir todas as frágeis certezas do sabichão da religião, Sócrates dá uma intimada: "Mas vejo agora que acreditas saber firmemente o que é piedoso e o que não é, dize-me portanto, querido Eutífron, e não me escondas o que pensas a esses respeito."

Eutífron, fugindo definitivamente da raia diante dessa intimada, até se esquece do assunto que o trouxera até a Corte, e põe sebo nas canelas: "Deixa para outra ocasião, Sócrates, porque tenho pressa e é tempo de pôr-me a caminho".

Sócrates, um tanto desapontado pelo otário não ter lhe servido para nada, despede-se dele, mas não sem antes dar uma sacaneada: "O que vais fazer, meu bom amigo? Vais deixando por terra a grande esperança que tinha de aprender de ti o que é piedoso e o que não é. Pois pensava livrar-me da acusação de Meleto, fazendo-o ver que, instruído por Eutífron nas coisas divinas, não me aventurava a improvisar e a inovar por ignorância nestas matérias e formulava o propósito de levar, daqui para diante, uma vida melhor".

Uns querem que Sócrates tenha afirmado o quão ignorantes somos todos diante do infinito e das coisas divinas, de modo que quem se julga sabedor de alguma coisa a esse respeito, engana-se. Outros reconhecem nessa frustração pela fuga de Eutífron um sinal de viadagem explícita, tendo que o Sócrates simplesmente xavecara o bom Eutífron, que, mesmo mané, teve pena do próprio rabo e fugiu. Eu tenho para mim que o diálogo simplesmente quis dizer o seguinte: malandro é malandro, e mané é mané. É por isso que ao invés de ler Platão, prefiro ouvir Bezerra da Silva. O negócio é ir direto na fonte da sabedoria.


Ler Platão ou tomar uma ao som de Bezerra da Silva, eis a questão.


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11.11.04

O COMENDADOR GOMES RESPONDE: A FORMA CERTA E ADEQUADA DE SE COMEMORAR O 15 DE NOVEMBRO.

A internet é fenomenal.

Através dela, como todo mundo diz por aí, podemos contactar gente pelo mundo inteiro - e, como é o caso de Dom Gustavo, até mesmo com os mortos. Pode-se, ainda, falar com quem, apesar de próximo, por uma ou outra razão, não pode no momento nos atender.

É o caso do Comendador Gomes.

A este homem, conhecido meu de há mais de dez anos, não posso sequer chamar de amigo, dado que amizade pressupõe igualdade entre dois ou mais colegas. Nada disso: sou discípulo do douto comendador, inspiro-me em suas palavras, tento praticar sua filosofia. Em resumo: não estou à altura de sua amizade.

É certo, de outro lado, que, há alguns meses, propus, pelo e-mail, um encontro com o admirável comendador, de modo a me instruir em suas artes. Não perdi por esperar: a própria resposta do santo homem, por si só, já era também uma lição. Eis o que ele me escreveu, lição que até hoje guardo num pedaço de papel que trago junto à minha carteira:

"Caro Paulo:
A internet veio justamente para evitar contato físico com certo tipo de pessoas. Creio que é o nosso caso - ou melhor: o seu caso.
Por favor, em havendo necessidade de me perguntar alguma coisa, faça-o através do e-mail. Tenho andado um pouco doente e meu médico alertou que determinados tipos de vírus que saem da boca putrefata de alguns me causam dor junto à cabeça.
Grande abraço".

Foi o que eu fiz. Não sei se já disse isso antes, mas, sempre que quero saber a respeito da origem de algum feriado, bem como o modo certo de sobre ele se refletir, pergunto ao Comendador Gomes.

Ontem, perguntei a respeito do feriado de 15 de Novembro que se avizinha. Vejam o que ele me respondeu:

"Não tenho a tempo perder. Veja se arruma algum trabalho e pare de me aborrecer".

Em réplica, ponderei ao mestre que tencionava publicar sua resposta aqui, no Mundo Símio. Eis o que ele me disse, sempre pelo e-mail:

"E o que é que eu ganho com isso?".

Prometi a ele dividir os lucros do Mundo Símio do mês de novembro com ele.

O dinheiro sempre foi a fraqueza do comendador. Num rompante de iluminação - e mesmo sem saber que nosso lucro, em verdade, é negativo (se é que existe essa expressão) -, o mestre, em menos de 3 minutos, me enviou a resposta que abaixo transcrevo integralmente. Aprender, apesar de difícil, sempre é bom.


"Como qualquer um sabe, a civilização como conhecemos hoje, começou na antiga Símia, região próxima à Mesopotâmia, onde, segundo estudiosos do simianismo, provavelmente um macaco caiu de cima de uma árvore, comeu um rato morto que estava no chão, gostou do gosto e passou a se alimentar habitualmente desta fina iguaria. Não se sabe ao certo se a presença deste rato morto no chão, bem ali ao lado do macaco, foi um milagre do Pai do INRI ou se foi uma simples coincidência lamarckiana, mas o fato foi que, a partir daí, o símio passou a consumir uma quantidade muito maior de proteínas, fazendo com que o seu cérebro crescesse e o tornasse apto a fazer merdas maiores e muito mais elaboradas do que as que ele fazia antes. Assim, se antes ele mijava e cagava de cima das árvores na cabeça dos outros bichos, a partir de então ele, pelo fato de viver no chão e comer os ratos que ali morriam, passou a poder também esfregar merda nos outros bichos e nos outros símios. Ou seja, começou aí uma interação maior e mais efetiva do símio com a natureza e com seus semelhantes. Saiba, pois, que foi por causa de um rato morto que a sociedade símia se desenvolveu até o que é hoje (já ouvi falar que os símios que se recusaram a comer os ratos mortos e continuaram a viver em cima das árvores comendo mato deram origem a um outro ramo da evolução símia, tornando-se uma estirpe menos evoluída, hoje conhecida como vegetariana, mas isto é outro assunto).

E daí, o que esta porcaria tem a ver com a forma de se comemorar o feriado?

Tudo e nada, ao mesmo tempo. Só me lembrei do rato morto, porque tendo sido o início da escalada evolutiva da raça símia, foi também o marco inicial da sociedade símia e, com ela, de todos os seus rituais e comemorações.

Pois então, aos nossos colonizadores portugueses, que teriam sido os inventores dos feriados como hoje são conhecidos, é creditada a criação de um ritual no mínimo exótico para comemoração das inúmeras datas santas e cívicas celebradas além-mar.

Conta-se que há uma tradição lusitana muito antiga, que manda que se comemore os feriados com algum ato que, de alguma forma, lembre o motivo pelo qual a data é digna de comemoração.

Algo mais ou menos assim: enforcar-se no Tiradentes, ser crucificado na Páscoa, fazer como Momo e, sob a proteção de Baco, embebedar-se no Carnaval etc.
Sendo uma prática bastante difundida entre os nossos patrícios, não tardou a ser também adotada pelos brazucas, principalmente aqueles que vivem nas desenvolvidas regiões norte e nordeste do Bananal. Quem não se lembra das reportagens que sempre passam na TV na páscoa, mostrando gabirus tentando reproduzir as cenas chocantes do INRI rodando na mão dos romanos. E como os símios reproduzem a Paixão do INRI? Se espetando na cruz, é claro!

Como em 15 de novembro se comemora a proclamação da República (além da beleza e distinção da barba do Marechal Deodoro da Fonseca, como já tive oportunidade de demonstrar em artigo que recente que publiquei não me lembro mais onde), é de se manter a tradição símio-lusitana de vivenciar o feriado.

Ora, a lógica manda que em 15 de novembro... se proclame uma República, é claro.

Té certo que o bicho deve pegar, porque não é qualquer símio que consegue fundar aí uma República do nada, de uma hora para outra. Até porque a burocracia envolvida deve ser brutal. CNPJ, inscrição no INSS, registro de imóveis, constituição e o escambau.

Aliás, a galera lá na Palestina está tentando criar um país há anos e só leva porrada.

Portanto, tomar a coisa ao pé da letra não é das melhores idéias. Eu diria que criar uma república de estudantes como ato simbólico também não é uma idéia digna de um símio letrado. É infame demais.

Mas então o que fazer?

Para conseguir forma muito mais elegante e efetiva de manter a tradição e ao mesmo tempo se divertir com seus amiguinhos, dou uma sugestão.

É assim: em 15 de novembro, crie um país virtual!!, uma República de preferência. Ou melhor, crie uma monarquia virtual e depois proclame a República!!
Funciona assim: encontre um amigo tão ou mais símio do que você e proponha a criação de uma micro-nação (este é o nome técnico, pode procurar no Google); crie um nome e uma história para a sua nação de mentirinha e um cargo importante para você e seu amiguinho símio (você não vai querer ser zémané também no mundo virtual, vai?); depois, encontre outros babacas que sejam símios o suficiente para serem seus súditos, ou seja, serão necessários vários sub-símios para serem professores, funcionários públicos, embaixadores, faxineiros entre outros cargos menos importantes (em suma, você vai precisar de caras que sejam tão zémanés, mas tão zémanés, que aceitarão na boa serem súditos virtuais, de um país virtual).

Pronto, está fundada sua nação. O próximo passo é, evidentemente, proclamar a República.

O legal é que você tem total liberdade para criar histórias de insurreições, tramas, traições, o escambau. Fica muito mais divertido.

Se você estiver me achando maluco, pensando que é impossível fazer tudo isso, saibam que há um editor desta merda de blog (cujo nome não divulgarei para evitar constrangimento ainda maior para o coitado) que andou cruzando com uma símia até que bonitinha. Era limpinha, tinha todos os dedos da mão, comeu arroz, feijão e danoninho na infância. Até se formou em universidade pública.

Pois então, um belo dia, aquele símio de merda, que estava seco por uma bimbadinha, pensou que era mais do que natural executar o ato carnal com a símia que ele já estava até pensando em passar a chamar de namorada (para seu eterno arrependimento). Comunicou por telefone sua legítima (em todos os sentidos) vontade, mas ouviu da símia que naquele dia seria impossível porque haveria eleição e ela tinha que votar. "Em março?", ele ainda teve a presença de espírito de perguntar, torcendo intimamente para que a eleição fosse para síndico do prédio ou algo parecido (apesar da menina morar mesmo num sobrado).

Foi então que o coitado descobriu que a menina não só era símia o suficiente para participar de um país virtual, cujo nome sinceramente meu cérebro bloqueou, mas ainda tinha coragem de ser uma simples vassala. Sim, senhores, a desgraçada não tinha nenhum cargo importante, nem mesmo secretária de ministro, assessora parlamentar, ou qualquer merda que possibilitasse aposentadoria integral ou acesso a falcatruas!

E o pior é que o coitado do macaco de merda ainda continuou namorando a sagüizinha e só terminou no dia em que ela o convidou para participar de uma "flash mob"!! Mas esta é outra história.

Vejam então, que é perfeitamente possível criar um país de mentirinha e proclamar sua própria república neste 15/11 vindouro. É capaz até de passar no Jornal Hoje!!

Tá duvidando? Então olha aqui, ó: http://www.andorraimperial.com.br/ver2004/index.asp. Ou aqui: http://www.reuniao.org/home800.html. Ou aqui: http://geocities.yahoo.com.br/camposbastos/. Ou ainda: http://directory.google.com/Top/World/Portugu%C3%AAs/Sociedade/Controv%C3%A9rsia_e_Debate/Microna%C3%A7%C3%B5es/ .

Pronto, você já está preparado para comemorar o 15 de novembro como se deve. Portanto, nada de ir à praia ou ficar enchendo a cara, símio de merda.

C'est ça, é o que eu sempre digo."


Este aí diz que já comemorou o feriado há uns 4 anos, junto com o Jorge Busha.


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10.11.04

A PIROCA DO ÍNDIO

Ser velho, às vezes, pode ser de alguma vantagem.

Um velho, querendo ou não, torna-se profeta, não por vontade própria, nem por mérito, nem por sensibilidade, nem por inteligência, nem por qualquer poder paranormal, mas pelo simples fato de que, tendo armazenado mais coisas na memória devido ao simples decorrer do tempo, ele pode antecipar o final de uma história, repetida tantas vezes - e vem daí, creio, a imagem estigmatizada de que se vale todo e qualquer romance em que se faz menção a um profeta: não há profeta que não tenha barbas brancas, face enrugada e ar cansado, beirando ao tédio, para lhe avalizar as palavras.

Um velho sem memória, portanto, é um velho inútil - e o grau de sua utilidade se mede conforme a capacidade de manter guardados os fatos que viu, independentemente da interpretação ou da opinião pessoal.

Agora, se a profecia é ruim ou é boa (inclusive para o próprio profeta), isso é outra história: ser velho pode ser de alguma vantagem, como dito, mas nem sempre o é.

No meu caso, uma dessas vantagens de ser velho foi ter visto o Paulo Silvino, já há muito tempo, num quadro desses programas humorísticos da Globo, interpretando um índio que, com aqueles olhos esbugalhados de louco furioso do comediante, cantava uma musiquinha que repetia: "A piroca do índio" não sei o que, "A piroca do índio" não sei o que lá.

Na verdade, a intenção da musiquinha era aproveitar a semelhança fonética da "piroca" silvícola com a palavra "piroga", que nada mais é do que aquela canoa indígena cavada num troco de árvore.

Parece-me que num humorístico mais recente da Globo, o próprio Silvino apareceu outra vez vestido de índio, não sei se também falando da piroca dele. A expressão de doido do ator, com aquele olhar esbugalhado de perplexidade e, ao mesmo tempo, de quem está prestes a fazer alguma loucura - loucura séria, das brabas, loucura de louco mesmo -, até hoje me impressiona. E tamanhas são as barbaridades que me aparecem pela frente (algumas das quais eu próprio acabo envolvido), que me vejo, senão fisicamente, no mínimo mentalmente com aquela expressão de horror do olhar esbugalhado do Paulo Silvino. Minto, aliás: pensando bem, não tenho o menor jeito para as artes cênicas; meu olhar reflete exatamente o meu pensamento - o que me cria a embaraçosa necessidade de, enquanto vou tendo essas assombrosas revelações, ter de responder à cada vez mais rotineira pergunta vinda dos meus interlocutores, espantados que ficam com o meu espanto: "O que é que você tem? Tá passando mal?".

Estou passando mal. E olhe que não é de hoje, é coisa pra lá de antiga.

Lembrei da piroca do Silvino por conta de uma matéria que vi na "Veja" desta semana, a história da universitária que virou mulher do cacique.

A história é mais ou menos assim: uma bela moça, dos seus vinte e poucos anos, não por acaso estudante de artes cênicas na Universidade Federal de Minas Gerais, típica menina da classe média de Belo Horizonte, com pai dono de empresa de exportação e mãe dona de uma loja de roupas pra homem branco, participou, certa feita, de um encontro organizado pela própria faculdade a respeito de "musicologia étnica" - seja lá o que signifique isso.

Do tal encontro, participou o índio Katoki, cacique de uma tribo localizada no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. E ali nasceu um grande amor.

A moça, num primeiro momento, conseguiu uma "autorização" de dois meses para ir ver a piroca do índio lá no Mato Grosso. Depois do estágio, descolou um emprego (remunerado pela prefeitura de uma cidade próxima) de professora infantil na tribo do sortudo cacique e se mandou pra lá de mala e cuia, não sem antes terminar o "namoro de dois anos com um músico" mineiro. E lá está ela, há quase quatro anos, segundo a matéria. Vá gostar assim de música assim lá na casa do cacete - ou, melhor dizendo, na casa da piroca.

Diz a garota que o namoro, casamento, ou seja lá o que for com o cacique Katoki é pura maldade do povo. "Ele é como um irmão pra mim", explica. Contudo, perguntado pela reportagem sobre se teria contraído núpcias com a moça, o nosso prestigiado cacique foi curto e grosso: "Sim". Mais claro impossível.

Eis aí uma vantagem dos índios sobre nós, macacos. Estivesse a honrada estudante a falar de sua "relação" com o cacique numa mesa de bar de calçada e, certamente, suas definições passariam pelas mais complexas e imprecisas expressões gramaticais para descrever o elo que, desde bem antes da aparição da tribo do doutor cacique, justifica o contato entre um homem e uma mulher. "Estamos ficando" seria uma boa resposta; "Estamos saindo", outra; "A gente tem um lance" também seria uma (in)definição possível de ser usada.

Com o senhor cacique a coisa é bem diferente: do alto da milenar sabedoria das gentes indígenas, ao ser perguntado se estava passando a linguiça na farinheira da estudante, ele diz um alto e sonoro "Sim". Pronto, tá explicado: a moça foi mesmo navegar na piroca do índio.

É amor sincero.

Quatro anos pelejando ao lado do, convenhamos, pouco sofisticado povo índio não deve ser moleza. E quatro anos navegando na mesma piroca, seja ela do índio ou não, é atitude que também não é de se jogar fora. Até fome a moça passou, quando faltou peixe e a colheita foi ruim: "Cheguei a perder 10 quilos em um mês e meio", confessa a garota, de nome Andreia.

Isso tudo sem falar dos comentários pouco edificantes que até hoje devem estar fazendo os parentes e os colegas.

- Você viu o que aconteceu com aquela moça, filha daquela senhora que mora no 301? - pergunta uma vizinha à outra.

- Não. O que foi?

- Largou a faculdade e a família, só pra ir sentar na piroca de um índio, lá no Mato Grosso.

- Que desgraça...

- Pois é.

- ... pra família do índio.

- Hein?

- Essa moça não deve prestar: é sem dúvida uma vagabunda. O índio fez mau casamento.

A inveja é coisa triste. E nada causa mais inveja do que um amor sincero.

É amor sincero, mas tem hora para acabar.

Daqui a 3 anos, a Andreia já avisou que vai largar piroca do índio para ir estudar antropologia em São Paulo (se é que há algo para essa moça aprender nessa matéria), além de publicar dois livros sobre a sua experiência com a piroca do doutor cacique. Podem anotar: vai vender feito pastel na feira.

Alguém dirá que o amor, de verdade, não tem hora pra acabar. E eis aí a maior lição de antropologia que a nossa prezada Andreia nos dá: tem hora - e hora certa - pra acabar, sim senhor.

Num dado momento da vida, nossa estudante houve por bem em se acomodar sobre a piroca do índio Katoki - e nessa piroca ela vai se arrastar, até o momento em que, por tédio ou por ver outras águas mais interessantes, ela se lançará sobre outra piroca, que a levará na direção que mais lhe atrair. E o amor por essa nova piroca será tão sincero quanto o amor pela piroca do nosso querido doutor índio, e assim sucessivamente. A mesma paixão avassaladora que fez a jovem Andreia se mudar para a tribo do cacique a fará abandoná-lo, com o mesmo furor e desprendimento infinitos.

Um amor sincero é leal, eterno e imbatível. Até que uma outra piroga chegue. Mudam as pessoas - sejam elas homens, mulheres, transformistas ou pessoas de sexo indenfinido pela ciência -, não muda o amor que há em satisfazer os desejos trazidos com novas pirogas.

Vejemos, por exemplo, o caso da ex-senhora do Senador Suplicímio, típico exemplo do fenômeno do vai-e-vem das pirogas.

Desde que ela perdeu as eleissímias, não há quem não se canse de tentar explicar o porquê de sua derrota. Eu, porém, digo uma coisa: sei exatamente a razão da derrota da nobre senhora: justiça divina.

Sei que o argumento surpreende, em especial porque, como todos sabemos, o Pai do INRI é um tanto atabalhoado com as coisas terrenas - e basta ter olhos para ver que, quando o assunto é fazer justiça, seus critérios de punição e premiação são, por assim dizer, de duvidosa razoabilidade. Algumas vezes, no entanto, ele acerta.

Na famosa entrevista que a atual namorada do Senador Suplicímio concedeu à mesma Veja (edição de 27 de outubro último), ela disse, com todas as letras, ter ficado fula da vida ao ver a nossa serena prefeita mandar o Senador Suplicímio "calar a boca num evento público", mesmo depois deles estarem separados. Esse pequeno lapso, porém, deveria ser relativizado, porque, segundo a namorada do Senador, a gentil prefeita já estava "acostumada", há muitos anos, a mandar o marido calar a boca.

Em remate: a ex-mulher do Senador Suplicímio cuspia na piroga em que navegava.

Pergunto: alguém acha bonito quando um marido, de forma truculenta, manda a mulher calar a boca na frente de um monte de gente? No meu prédio, um cabra que fizesse isso não teria o meu voto nem para suplente de conselheiro fiscal do condomínio. Se o camarada não tem paciência com a mulher que, de forma involuntária, lhe aspira os gases menos nobres expelidos por debaixo do cobertor, ele não presta pra checar o recolhimento do FGTS do porteiro e nem para fazer um orçamento de pintura da guarita. Não dá pra separar uma coisa da outra.

É claro que não foi por isso que se deixou de votar na ex-mulher do Senador Suplicímio - certas ou erradas, outras foram as razões que o sábio povo escolheu para defenestrar a simpática prefeita. Pois é justamente daí que me veio a conclusão: operou-se a justiça divina. E tão raramente ela vem que não nos é dado o direito de ignorar esse milagre.

Especulo que o Pai do INRI pode até, quem sabe, até, repito, perdoar que um marido, em público ou em particular, mande a esposa calar a boca - ou vice-versa. Mas perdoar aquele que cerceia a livre manifestação artística, ah, esse ele não perdoa nem pode perdoar.

Como supor que o Senador Suplicímio, no debate das eleissímias para a Prefeitura de São Paulo, em 1985, fosse impedido de brincar, ao vivo na TV, com um coelhinho e uma tartaruguinha de pelúcia? Como imaginar a possibilidade de que o Senador Suplicímio não ornasse sua esbelta cabeça com louros para, tal e qual um Calígula dos tempos modernos, cantar "Blowin' in the Wind" na Câmara Municipal? Como cercear o direito do Senador Suplicímio de, numa praça pública, discursar, com fervor raivoso, a favor do Dia do Saci, abraçado a um surrado boneco de pano sem perna que fazia as vezes do homenageado, como eu e Dom Gustavo pudemos testemunhar? Como seria o Senado Federal sem a alegria propiciada pelos discursos do nosso mais artístico senador? Como conceber o sentido da vida sem as manifestações do Senador Suplicímio?

E, agora, vem a ex-senhora do Senador Suplicímio e, assim, sem mais nem menos, lhe manda calar a boca, como quem pensa que se pode assassinar a arte com uma punhalada? Tenha santa paciência.

E mais: quantas lições de arte, a mais pura arte, foram deixadas ao léu, apenas e tão-somente porque alguém menos esclarecido houve por bem em mandar o artista calar a boca? Quem cospe na piroga em que navega não fica impune.

Que a ex-senhora do Senador Suplicímio aguarde, a derrota nas eleissímias foi só o começo: ela ainda tem um argentino para aguentar dentro da própria casa.


Sou capaz de profetizar que este rapaz irá fazer alguma besteira


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8.11.04

VOYEURISMO ALIMENTAR

Comendador Gomes, nosso dileto camarada e filósofo avant-garde, faz curiosa observação: é cada vez maior o número de pessoas que não comem, embora gostem de saborear com os olhos a comida da vitrine, do cartaz ou mesmo do vizinho. São os voyeurs alimentares.

A delicada moça com quem você saiu e, ao questionamento do garçom sobre o prato desejado, respondeu simplesmente "uma saladinha", esta é uma clássica voyeur alimentar. Pode ter certeza que ela esquadrinhou cada caloria de todos os pratos do cardápio, salivando a cada garfada imaginária nos galetos, picanhas e lasanhas do menu. Mas, como todo voyeur que se preza, nem sequer pode conceber a idéia de tocar seu objeto do desejo. Para sofrer, pune-se com a famigerada "saladinha", a vitoriosa no quesito "sem graça e sem caloria".

O voyeur alimentar, como se vê, é antes de tudo um masoquista.

E há depravados de todas as espécies, nesse particular gênero da arte do masoquismo. Há, como visto, os sofredores da saladinha. Mas há também casos mais graves, como o dos anoréxicos, que são obcecados por comida, só que pelo avesso: pensam diariamente em comida, mais propriamente na forma de evitá-la. Complicados expedientes mentais e comportamentais são desenvolvidos para fugir do objeto de sua tara. Uns simulam comer e cospem de lado o alimento. Outros deixam restos de comida pelo quarto, para os pais pensarem que está se alimentando. E outros, por fim, se trancam e simplesmente ficam reféns de sua obsessão alimentar, delirando com terríveis lasanhas voadoras.

Há ainda os bulímicos, aquelas pessoas que têm o pouco recomendável hábito de comer feito uns porcos e depois meter o dedão na goela, para devolver o bolo alimentar ao vaso sanitário de um modo, digamos, um tanto prematuro. Esses, como se nota, são uns exclusivistas: preferem usar para todas as finalidades apenas a parte inicial do tubo digestivo, relegando a parte final, talvez, para práticas menos ortodoxas. Esses adeptos da bulimia fazem reviver o sadio uso do vomitório romano, aquele receptáculo para onde, no meio de um festim, dirige-se o sujeito saciado para vomitar e assim conseguir voltar à farra gastronômica. Vomitar é reviver, diria eu poeticamente.

Outros voyeurs de todo tipo se vêem em churrascos e festas em geral. No almoço de família há sempre aquele chato que não come isso ou aquilo, mas que traz em si a inveja por quem degusta a tal comida que ele abomina. Nos churrascos, em especial, sempre algum degenerado surpreende o denodado anfitrião com um simples e grosso "não como carne", obrigando o gentil dono da casa a providenciar uns sanduíches de pão com vinagrete para o estraga-prazeres. Mas este também não consegue dissimular por muito tempo que está a comer com os olhos as picanhas e lingüiças da grelha, as quais não tem coragem de provar, muitas vezes por dó dos pobres bichinhos postos no espeto.

Mas há os simples tarados alimentares. Dom Paulo, por exemplo. Nosso mais ilustrado e sábio redator é tarado por batata frita. Não é que ele, como você, caro leitor, goste de vez ou outra saborear um - ou quem sabe dois - saquinhos de ruflles sabor tinta suvinil. Dom Paulo é um esteta e um refinado, um artista da gastronomia.

Ele nutre o conspícuo hábito de simplesmente não comer, como os viventes ordinários, café da manhã, almoço e janta. De manhã ele ora e jejua com seu terço muçulmano, demostrando a firmeza de seu caráter. Na hora do almoço, é 100% voyeur: enquanto os colegas mais limitados, como eu, sentem a pressão da fome no estômago e pagam um caro dinheiro por um P.F. (rectius: Prato Feito) de arroz-feijão e ovo frito, nosso iluminado Dom Paulo simplesmente nos observa com impávido orgulho. Sabe que somos fracos, e por nossas almas pusilânimes se apieda.

No entanto, quando chega a hora da ceia, Dom Paulo põe o seu babador de seda chinesa e vai à obra, à atividade de legítimo gastrônomo que é. Então devora dez ou doze sacos da pura batata frita industrializada, enquanto se instrui com a televisão. Mas, notem bem, não é qualquer ruflles que ele degusta não. Tem que ser da rara e procurada marca "Croquer", que pelo nome já se faz conhecer em matéria de sofisticação.

Após o refinado ágape, e já devidamente saciado, Dom Paulo concede-se o repouso do sono, não sem antes debicar mais uma dose de nicotina e café puro. Estes dois, aliás, são os únicos alimentos de sua monástica vida diurna.

Assim vive nosso querido Dom Paulo, que recentemente fez um check-up e quase enfartou diante da terrível constatação: está na mais perfeita saúde. "Nunca pensei que os hábitos da boa mesa fizessem bem à saúde" - comentou comigo logo após o diagnóstico de seu perfeito estado físico, enquanto acendia novo Marlboro com a bituca acesa do anterior, um tanto surpreso por congregar os hábitos do prazer e da saúde num só corpo.

Entre tanta estranheza alimentar que há no mundo, sinto-me eu próprio estranho, num sentimento semelhante ao do protagonista do conto "O Alienista", do Machadão. Se todo o mundo é meio estranho, estranho sou eu por me achar normal. Faço as três refeições, como carnes, massas e verduras - até fruta eu como. Tendo hábitos assim tão dissonantes do homem médio, provavelmente vou morrer em breve de pancreatite, úlcera ou câncer de estômago - isso se a asma não me matar antes. Certos estão os voyeurs alimentares.

Post Scriptum: o texto de Dom Gustavo acima publicado foi psicografado pelo Dr. Fernando Bananeira nesta data.


Dom Paulo, trajando elegante robe-de-chambre, bebendo água Perrier e exibindo com estilo seu novo cachimbo, mostra por que é tido como um irremissível bon vivant


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5.11.04

O VERDADEIRO FERIADO

No dia 25 de dezembro, comemora-se o nascimento do Jesus - ou, melhor dizendo, comemora-se o dia em que o INRI encarnou por estas paragens na condição de Jesus.

Logo em seguida, comemora-se o Ano Novo - como se fosse possível antever que o ano que se inicia será melhor do que aquele que se findou, ou como se uma modesta mudança na grafia de um número pudesse alterar, explicar, melhorar, piorar ou sugerir qualquer coisa.

O negócio, como se vê, é comemorar - de preferência, é claro, com um bom feriado para matar o serviço.

Homenageamos o pedaço de toco de madeira que se convencionou chamar de Nossa Senhora de Aparecida, prestamos continência à República do Marechal Deodoro (cujo maior feito, sem dúvida, foi exibir para a posteridade a mais refinada das barbas que o homem já viu na face da Terra), damos vivas por termos conseguido nos livrar do domínio dos portugueses (povo tido e reconhecido mundialmente por sua notória inteligência e senso prático, não por acaso o que por mais tempo se aventurou a tentar fundar por aqui algo similar a um governo) e até nos orgulhamos do dia do aniversário de nossa cidade (a cada dia que passa, mais bonita, mais agradável, mais limpa, mais solidária e menos violenta).

É fato que, na Páscoa, lembramo-nos do dia em que o INRI, quando se chamava Jesus, foi dessa pra uma melhor, depois de ter apanhado como gente grande dos soldados romanos. Contudo, é preciso rememorar que no terceiro dia ele se deu bem; ressuscitou, saiu do túmulo e, antes de subir aos céus, teve ainda a pachorra de ir dar uma palavrinha com os apóstolos. Sendo assim, a morte do INRI serve apenas para reforçar a glória de sua vitoriosa ressurreição. Eis aí, literalmente, alguém que levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Motivo de comemoração, portanto - e mais do que justo.

Tiradentes, poder-se-ia dizer, seria exceção à regra. Prenderam o pobre dentista, deixaram-no enjaulado num porão sujo até ele ficar parecendo um mindingo e, para piorar de vez, enforcaram o infeliz e, depois de cortado em pedaços, espalharam o seu corpo pela rua. Virou comida de cachorro, o pobre-diabo.

Observo que, no entanto, ninguém homenageia exatamente a morte do bom e velho Tiradentes. Fosse assim e, como diz o Comendador Gomes, filósofo contemporâneo em cujas lições tenho por hábito me instruir, a maneira certa de se comemorar o feriado seria se enforcar no 21 de Abril - coisa que, afora um ou outro suicida mais excêntrico, quase ninguém faz. O que se comemora é o gesto simbólico e libertário do sujeito que arrancava os dentes alheios sem anestesia: desafiou a Coroa Portuguesa e, com o perdão da expressão, tomou no ânus. Não creio que o homem tenha sido um exemplo de sucesso a ser admirado, mas, enfim, fazer o quê? O povo gosta dele e, pelo menos, valeu a intenção. O importante é competir. Felicitemos, então, a boa intenção do velho Tiradentes. No mínimo, lhe devemos mais um feriado.

Acontecimento que me é bem mais difícil de entender é o tal do feriado do Dia de Finados, esse aí da última terça-feira.

Pergunto: comemoramos o quê?

Num esforço de lógica, penso que, se comemoramos a morte de alguém, é porque não gostávamos do desgraçado - e damos uma festa, digna de arrumar mais um dia inútil na folhinha, só pra curtir com a cara do defunto. Eis aí um feriado politicamente incorreto.

Vão dizer, é claro, que este feriado (à exceção de todos os demais) não foi feito pra comemorar nada: trata-se de um dia para refletir sobre a morte, para lembrar com carinho dos amigos e familiares que já se foram - para onde, só Dom Gustavo, INRI Cristo e o Símio Xavier podem nos dizer. Verdadeira essa hipótese, é impressionante o número de pessoas que preferem fazer essas profundas meditações espirituais no litoral, a ponto do Serrassímio precisar implorar aos eleitores para não viajarem em tal data - e, aproveitando que vão ficar em São Paulo mesmo, fazerem a gentileza de votar nele.

Sei não.

Talvez a minha ignorância sobre o tema venha de minha parca experiência com a morte. Penso sobre o assunto e me recordo do meu avô paterno que morreu de morte natural, do meu avô materno que morreu de acidente de carro, de um tio de quem eu gostava e que morreu de hepatite, de um outro tio, de dois metros de altura e forte como um búfalo de faroeste, que morreu aos cinquenta e poucos de um ataque cardíaco fulminante, de um senhor, amigo do meu pai e que depois ficou meu amigo também, que morreu de umas vinte doenças agravadas pela velhice dos seus mais de oitenta anos, de uma tia que, embora jovem, morreu ao dar à luz, de um estimadíssimo amigo que, há coisa de uns quinze anos atrás, resolveu se matar, e até mesmo da minha avó paterna que morreu antes de eu nascer. Querem saber da verdade? São raríssimos os dias em que não penso nesses caras. Velo meus mortos todos os dias.

Por essas e outras, penso que fazer um feriado com tal objetivo me parece, digamos, contraproducente. Além do mais, quem é que me garante que lá no Além também é feriado? Deus me livre, mas, se por alguma fatalidade, eu algum dia tiver o azar de morrer, se essa desgraça vier a me acontecer, lembrem-se das palavras do General Figueiredo e, por favor, me esqueçam. Vivo, já aporrinho o suficiente a paciência alheia.

O inquestionável é que sou ruim pra valer nesse negócio de morte. Sequer tenho a diplomacia necessária para lidar com os mais chegados do finado. Pior do que eu, só o Nelson Rodrigues, que, ao saber pelo telefone da morte de um fulano com quem ele tinha falado no dia anterior, não conseguiu deixar de escarrar junto ao interlocutor uma indignada frase de horror: "Morreu como, se estava vivo?!?".

De tanta misericórdia pelo pesar do momento, em certa ocasião escapou-me pela boca um "parabéns", que dei a uma chorosa sobrinha do defunto; outra vez, no velório de uma velhinha, encontrei-lhe o filho e fiz a indecorosa pergunta: "Como vai, tudo bem?"; e, após o enterro de um tio meu, na saída do cemitério, o filho dele, meu primo, por não ter o que falar, perguntou-me onde eu estava morando, e eu, para dar uma de humilde, informei que tinha comprado um apartamento, não sem antes advertir: "Dei sorte no preço: negócio de pai para filho".

E olhem que da maior tragédia escapei por pouco: em meu primeiro velório, tive de me segurar para não sair perguntando por entre os presentes o porquê do falecido se encontrar com algodão dentro das narinas, se os chumacinhos não estariam lá por culpa de algum relapso enfermeiro do hospital. Por iniciativa própria, quase arranquei o algodão do nariz do morto, imaginando estar praticando um ato de bondade e compaixão.

Sou ruim de diplomacia obituária, é preciso admitir. Por mim, se isso não soasse ofensivo, em velórios, enterros, missas de sétimo dia e sabe lá Deus mais o que, diria apenas o seguinte: "Nada a declarar".

Acredito, porém, que, apesar de nada haver declarado, seria mal interpretado - o que, ademais, parece ser o meu destino, não por falha de quem interpreta, mas de quem, mesmo não dizendo nada, acaba, por pura falta de jeito, passando uma sensação de um inútil desconforto. Como um feriado de Finados.


Estes caras entenderam bem o espírito dos feriados mais importantes




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4.11.04

REFLEXÕES SOBRE UM LADA

Um Lada tem muito a nos ensinar. Sim, refiro-me àqueles carros feitos na antiga União Soviética, que ao que parece lá mesmo nem rodam hoje. Mas aqui na visionária "Terra Mindicalis" - que é o nome romano do Brasil, segundo me afiançou Doutor Milton - ainda se vêem alguns exemplares dessa diferente condução. E quem vê um desses simplórios carros trafegando por nossas não menos simplórias ruas mal se dá conta do quanto tal automóvel pode nos ensinar.

É verdade que o danado é, digamos, pouco privilegiado em termos estéticos. Aliás, afora o meu pai, que é uma pessoa de gosto um tanto peculiar - tanto que gosta de mim - não conheço nenhuma pessoa que aprecie um bom Lada. Digamos a verdade ululante: trata-se de um carro feio pra caralho - a menos que você tenha um estranho gosto por caixotes motorizados.

As cores minimalistas (vermelho, tradicional cor do comunismo, ou branco, cor da não menos gloriosa Sibéria) são as únicas nas quais se encontram os Ladas. O "estilo" desses carros, por assim dizer, remete-nos àquele "Mundo Bizarro" do desenho animado, em que só havia sósias dos viventes deste mundo, só que todos quadrados e estranhos. Os pneus, parecem de trator; os bancos, feitos do puro plástico preto, são perfeitos para o clima tropical; as linhas pouco curvilíneas lembram mais o quadril do Maguila do que as nuances de uma Gisele Bundchen; os acessórios... que acessórios?

Um Lada, não há como discordar, só serve para afugentar os outros motoristas - afinal, ninguém vai se atrever a chegar perto do proprietário de um Lada no trânsito. Ele não tem nada a perder. Vejam, a propósito, com que invejável serenidade anda o dono de um Lada no caótico trânsito de São Paulo.

O grande e único atrativo de um Lada, convenhamos, é o preço. Aí reside toda a sua beleza. E quem compra um Lada gosta mesmo da coisa: fica parceiro do bichão por toda a vida.

***

Mas, dizia eu, um Lada é um filósofo com pneus. Tem muito a nos ensinar. Vejam o que até eu, que sou burro e preguiçoso, pude extrair de uma simples troca de olhares com um Samara, aquele modelo que parece uma caixa de maçãs vermelha com rodinhas.

Pensei comigo: quem, mesmo na antiga URSS, compraria uma merda dessas? Logo percebi que a burrice me traía: não devia haver outras opções naquela bela nação comunista. "Quer um carro, camarada?" - diz o vendedor, ou melhor, o funcionário incumbido pelo Estado da venda dos carros ao povo. "Temos de todos os tipos: Samara e Niva. Pode escolher livremente um do seu gosto..." De fato, o russo só comprava Lada por falta de opção.

E o Poder Central, que é o dono de tudo nos países comunistas, além de ser proverbialmente composto de gente de mau gosto, de fato não precisava queimar a moleira para bolar uns carros bonitinhos. Pra quê? Pra competir com quem? Todo o mundo vai comprar Lada mesmo. Dado o cinismo próprio dos ditadores - eu, ao menos, se fosse ditador com certeza seria cínico - penso mesmo que algum burocrata soviético deve ter chegado a afirmar: "Nosso povo mujique gosta mesmo de nossos carros! Tanto que eles só compram Lada, pode ver, Camarada, rororororo..." Na antiga URSS, Tostines não venderia mais pelo fato de ser fresquinho, podem ter certeza.

É o óbvio, mas como estamos nos clichês, digo porque relembrar é viver: como não havia a competição típica do mercado, não havia um produto decente. Nos países capitalistas, se o seu produto é ruim, você está fodido. Se outro é tão bom quanto o seu mas é mais barato, idem. Só em países sem liberdades é possível vender caro coisas ruins.

E repito que relembrar é viver, e o último que sair que apague a luz: o bondoso sistema capitalista, queiram ou não, favorece a diversidade. Não por acaso, como na natureza, sobrevive o mais apto.

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Mas fiquem frios que não discorrerei sobre a origem das espécies, nem sobre a economia evolutiva e tampouco sobre o darwinismo social. Eis o meu ponto, simples e bruto como as minhas idéias: o homem é um filha-da-puta que quer mais é que o outro se lasque. Se possível, fura os olhos do vizinho pra comer a mulher dele e dar um rolê no seu Mustang conversível. O homem, volto a repetir, se deixarem fode com o outro pra se beneficiar, ou mesmo pelo puro prazer de ver o oco alheio.

Vejam as crianças: são nosso estado natural, o bom selvagem que mora em cada um de nós. E a criança, como todo bom selvagem que se preze, é selvagem. Quer mesmo é foder com o próximo e levar alguma vantagem. O adulto também, e, diria eu, da mesma forma o capitalista. Se eu for o mais apto, sobrevivo e o outro que se foda. O capitalista é a criança, é o bom selvagem, e capitalismo selvagem não passa de uma redundância.

Mas eis que surge um bom regime para tolher esse instinto natural de competição, um regime justo onde ninguém é excluído, a solidariedade grassa e todos os bens são distribuídos entre cada qual. Surge, pois, o santo comunismo. Aliás, nada mais natural que os líderes comunistas banirem a religião. Religião pra que? O comunismo já é a religião.

Só que não é fácil refrear uma tendência natural. Ainda mais - filosofo eu com sutileza e erudição - a tendência humana a foder com o próximo.

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É por isso, lhes revelo, que o bondoso sistema comunista não deu e nunca dará certo: não há como colocar uma bota ortopédica nos desejos humanos. Segure a vontade de consumir, por exemplo, e ela ou ficará escondida, mas viva, ou simplesmente andará na rua com nome diferente. "Todos são iguais, e nenhum camarada montará nas costas do outro!" - sentencia Dom Stalin, o piedoso.

Pois é. Não me parece que os burocratas, ao contrário do povo, vivessem como monges. Os patrões só mudaram de nome. Agora se chamavam "funcionários".

Os mujiques - o povo - continuavam na merda. Mas querem melhorar de vida, naturalmente. Tenho certeza que o Sr. Ivan, profissão torneiro mecânico, sonhava com o dia em que exibiria ao seu vizinho, Sr. Dimitri, a calefação nova, ou a garrafa de vodka que só os bacanas - os funcionários - tomavam nas suas festanças. O Sr. Ivan até devia dar uma rezadinha escondido, a algum santo ortodoxo, pedindo uma vida de nababo - mesmo que os seus azarados confrades não pudessem acompanhá-lo na ascensão social. O vontade de ser melhor que o vizinho continuava viva, é isso o que quero dizer, mesmo sob a mão de ferro do regime.

Mas a questão fundamental, que explica a queda do comunismo é a seguinte: sendo um sistema antinatural, só se sustentaria à força. É simples assim. Mas eis que a porca torce o rabo, e o santo regime da solidariedade, do tudo para todos, precisa matar um caralhão de gente para se manter nos tamancos. Exílios na Sibéria, fuzilamentos, genocídios. Vá ter solidariedade assim lá na casa do capeta.

E taí o nosso bondoso Fidel, que não me deixa mentir: seu regime comunista é tão bom que tem que ameaçar de fuzilamento os desalmados que desejam mudar de vida lá na Flórida.

Se o capitalismo exclui, o comunismo mata. Fodido por fodido, prefiro ter a possibilidade de melhorar de vida, do que a certeza de que irei me foder em vida. Prefiro um sistema evolutivo e não solidário do que uma solidariedade onde padecerei ainda mais. Muito para poucos é melhor do que nada para todos. Deixe o pessoal à solta, livre para um tentar superar o outro, que nessa todo o mundo em algum momento vai tirar uma lasquinha. Se deixarmos o rebanhão acostumado a comer na mão do pastor, uma hora a cajadada come solta na cabeça. Variedade, competição e seleção contra monotonia, apatia e equalização.

Como vocês podem ver, eu odeio Lada. Um Lada nunca seria possível num país capitalista (o nosso país é pré-capitalista, de modo que isto aqui não serve como exemplo). E uma Maseratti nunca seria possível - nem sequer seria desenvolvida - num país comunista. Eu gostaria de ter uma Maseratti, como todo o mundo (comunista ou não). Quem não tem nada, vira comunista para ter; quem tem, vira capitalista para manter. Esquerda ou direita é uma função do extrato bancário. É por isso que ouso dizer: é por razões estritamente capitalistas que os mujiques resolvem virar comunistas, ou seja, para melhorar de vida.

***

Ninguém gosta de Lada. Só finge gostar da coisa quem não tem condição de ter coisa melhor. Esse é meu ponto, essa é a verdade que não quer calar. Pelos mesmos motivos, um sem-terra é comunista até conseguir a terra - quando a obtém ou vira um radical defensor da propriedade privada, ou simplesmente passa nos cobres a roça. Um revolucionário sem ocupação, ao conquistar o poder se torna o maior defensor do próprio cargo, e ai de quem ameaçar tirar-lhe o osso.

Afirmo e repito: é só por razões capitalistas que alguém vira comunista. Alguém dirá que o Marx previu que, no fim, o regime socialista ideal e o regime capitalista perfeito seriam a mesma coisa. Tudo para todos. Mas não é isso o que digo: digo que só vira comunista quem quer ter, mais e melhor, e que se fodam os demais. Aliás, como provou a dura realidade histórica, o comunismo implantado só foi bom mesmo para os restritos dirigentes. O símio Alpha sempre pôs no rabo dos símios de Beta a Ômega.

Não dá pra forçar a natureza: todo bugio quer ser Alpha e transar com todas as macacas, e a generosidade não é senão um afago no próprio orgulho, quando um Alpha exerce seu poder concedendo que um Beta coma uma do seu harém. Essa possibilidade de concorrer a Alpha só existe no capitalismo. No comunismo todo o povo é condenado a ser Ômega. É por isso que adoro o capitalismo: só nele posso ser Alpha, exibindo minha Maseratti à vista de todo o povo, e outorgando o uso de uma ou outra de minhas mulheres a um Ômega amigo, por pura e genuína solidariedade.

O comunista que disser que acha o Lada belo não passa de um mentiroso, de um Ômega broxa e recalcado.


Quem disse que um Lada não serve pra nada? Serve até como tijolo!


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3.11.04

DITASSÍMIA

Diz-se por aí que há males que vêm para o bem. Eu, do meu lado, costumo dizer que há males que vêm para foder tudo.

É o caso, por exemplo, de se ter apenas 5 leitores.

Não que mereçamos mais que isso. Muito pelo contrário: símios do jeito que somos, merecíamos mesmo era ter um número negativo de leitores. Aliás, só posso atribuir esse impensável sucesso a um autêntico milagre do INRI, gostemos ou não de aceitar este fato.

Mas o diabo é que, tendo 5 leitores, cheguei a imaginar que jamais seria cobrado por qualquer besteira que eu pudesse ter dito, por mais besta que ela fosse. E isso porque, embora as bobagens sejam múltiplas e variadas, o número, digamos, intimista de colegas que vêm a este espaço acaba por transformar o nosso convívio mais numa relação de amizade do que qualquer outra coisa.

É claro que o sujeito que se identifica por Frei Paulo - e que nos chama todo santo dia de filhas das putas - é uma exceção. Mas juro que, apesar de não conhecer o tal, não deixo de dar-lhe uma certa razão: afinal de contas, nunca revelamos qual seria a nossa reação caso o Barba pintasse a nossa mãe pelada.

Pois é, só que a lógica dos outros nunca é igual à nossa. E não é que, na última sexta-feira, recebi um e-mail de um leitor (e amigo) reclamando do último comentário que fiz sobre as eleissímias? "Do jeito que você falou, parece até que o melhor seria voltar à ditadura", denunciou o colega. Desconfio de que ele seja o Frei Paulo.

Seja como for, creio que é de bom alvitre deixar clara essa história, de uma vez por todas, para que não haja mais dúvidas e mal-entendidos: sou totalmente favorável à ditadura.

Sou favorável à ditadura, mas desde que obedecidas algumas medidas de bom senso e razoabilidade. Exemplo: creio que o papel de supremos, absolutos e eternos ditadores da Nação deva ser meu e de Dom Gustavo (ainda que ele já não esteja mais entre nós, nesta vida terrena). E, em caso de divergência entre a minha opinião e a dele, deverá prevalecer a minha. Eis um ponto inegociável do meu regime. Quanto o resto, podemos até negociar, desde que a negociação seja vantajosa para nós - até porque, mesmo sendo ditadores, temos alma de democratas.

Admito, no máximo, um conselho de caráter meramente consultivo, que seria composto pelos 5 leitores do Mundo Símio. Pronto: tá aí a solução pro Brasil.

Se eu fosse eu ditador, com poderes de vida e morte sobre cada pedaço de grama que nascesse sobre esta terra degraçada, a situação de todos seria muito melhor. Eu próprio me encarregaria de instruir o povo, dizer o que é melhor para ele, dizer o que não lhe é bom. E, como esta difícil tarefa, de dizer o que é bom para o povo e o que não é, pertenceria a mim, quem discordasse seria condenado pela prática crime hediondo e imediatamente morto a pedradas, ao vivo num programa do Sílvio Santos - cujo prêmio ao atirador da pedrada de misericórdia seria de 10 reais. Garanto que candidato a apedrejador não iria faltar.

Após profundo exame de consciência, concluí que minha idéia não está nem um pouco errada. Como eu sei o que é melhor para o povo, não é justo que o povo, que não sabe o que é melhor para ele, queira usurpar de suas funções. Pedrada nos vagabundos - seria este o meu lema, que, aliás, poderia ser aproveitado como título do próprio programa do Sílvio.

Duvido que só eu pense assim.

A revista Carta Capital desta semana trouxe uma matéria muito instrutiva a respeito do assunto.

No Congresso Nacional - que, neste momento, discute um importante projeto de lei, de autoria de um tal de Pastor Ribeiro e referente à proibição de se emprestar aos cachorros e aos gatinhos os nomes com que normalmente se batizam as pessoas (tais como Onaireves, Um, Dois, Três de Oliveira Quatro, Selesócrates e Sacha) -, há um deputado chamado Orlando Fantazzini, proveniente do aprazível município de Guarulhos.

Para conduzir a instrução do povo, o eminente deputado quer conferir a um tal de "Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana" (composto, inclusive, por membros das, ao menos para mim, misteriosas "entidades da sociedade civil") a prerrogativa de, em conjunto com o Ministério da Justiça, "decidir a qual horário e a qual faixa etária cada atração se destina". O objetivo, ao que parece, é livrar a população brasileira das grandes chagas nacionais: o Marcelo Rezende, o Datena, o Gil Gomes, o Ratinho, o Gugu, o Fausto Silva, a Márcia e, é claro, o subversivo João Krébi - que, de fato, afronta nossas instituições quando mostra, na televisão, que somos uma nação de cornos (no sentido mais literal possível do termo).

É discussão, como se diz lá em São Simião, minha terra natal, pra mais de metro. Por trás disso, dizem Denis Munhoz, presidente da Record, e Marcelo Parada, vice-presidente da Bandeirantes, há uma tentativa de delegar a terceiros o controle da programação, isto é, o que pode ou não pode ser visto. E mais: ao que consta, o nosso bom Fantazzini, na qualidade de excelentíssimo deputado federal, é chegado a mandar umas cartinhas, em papel timbrado da Câmara, aos anunciantes dos programas dos quais ele não gosta, "sugerindo" que anunciem num "programa decente", segundo explica o próprio Orlando, furioso.

Mas nem foi isso o que me mais me chamou a atenção.

O Doutor Orlando, para explicar sua guerra santa, diz que "A liberdade de expressão não é só das emissoras de tevê. O cidadão também tem direito. Eu não posso dizer que o programa é uma porcaria?".

Eis aí um homem sábio, pois, afora um ou outro detalhe, penso da mesma maneira.

Quando eu for ditador, na condição de ser sobrenatural que recebe, através do sistema neuronial, os pensamentos do "cidadão", invocarei meu direito divino de dizer o que o povo pensa. Alguém haverá de dizer que, ao se referir à expressão "cidadão", o furioso Orlando quis se referir a ele mesmo - e a não ao cidadão comum que, de maneira inconsciente, lhe transmite os pensamentos num processo de miraculosa telepatia. Com o perdão da expressão: cidadão, o cacete! Um cidadão não tem imunidade parlamentar para ser processado quando fala bobagem, nem manda carta impressa em papel do Congresso. Tampouco recebe passagem aérea do Estado para visitar as "bases". A diferença entre cidadão e deputado, em linhas gerais, é que um paga impostos e o outro os recebe. Portanto, se o furioso Doutor Orlando quiser se arvorar na qualidade de singelo "cidadão", o mínimo a fazer seria renunciar ao seu mandato de autoridade (que certamente ele deve invocar ao ser parado pelo guarda rodoviário na estrada) e vir para o lado de cá, pra ver como é gostoso ser cidadão. Sendo assim, entre as duas interpretações possíveis, fico com a idéia de que o nobre parlamentar recebe os pensamentos dos eleitores, assim como o Símio Xavier recebe as mensagens dos desencarnados - e, a cada linha que leio, mais admiro esse paranormal parlamentar. Veja-se, por exemplo, a aula de Direito Constitucional dada de lambuja pelo Professor Orlando.

"O que é baixaria?", ele pergunta. E eu, bestificado pela sabedoria do homem, tento acompanhar-lhe a revelação: sim, Mestre, o que é baixaria? Eis uma questão que me atormenta, desde pequenino: o que é a baixaria? Pelo amor do Pai do INRI, me alumie.

A baixaria, explica o nosso alumiado, "É a programação que sistematicamente afronte dispositivos da Constituição, da lei ordinária e das convenções internacionais". Afe Maria!

Sei que não sou digno de fazê-lo, mas não consegui censurar a pergunta: e se a programação afrontar alguma lei complementar, é ou não baixaria? E se afrontar uma medida provisória? E outra: para a tipificação da baixiaria, as convenções internacionais violadas precisam ser aquelas das quais o Brasil é signatário, ou podem ser quaisquer outras convenções, assinadas, por exemplo, entre o Iraque e o Gabão? Porém, tal como se estivesse a receber em seu próprio cérebro os meus pensamentos de cidadão, o Mestre esclareceu:

"O artigo 1º da Constituição diz que a República tem por princípio a dignidade da pessoa humana". Até aí, constato eu, nada de mais nem de menos. Mas acompanhem só a extensão do raciocínio do Professor: "Então, você degradar a imagem do ser humano é uma afronta". É verdade, sou obrigado a concordar. E daí ele dá o desfecho final: "Usar a mulher como mero objeto sexual desrespeita a Convenção Internacional dos Direitos da Mulher. E assim por diante. Todos os nossos critérios são objetivos. Não entramos em critérios subjetivos". Oh! Soberbo!

Como se vê, para o Professor Orlando, interpretar a Constituição de maneira objetiva é muito simples. O que eu não entendi é se o Mestre quis dizer que é muito simples para todo mundo ou se é muito simples apenas para ele.

Se a primeira hipótese for correta, é inacreditável que até hoje todos os ministros da mais que centenária história do Supremo Tribunal Federal não tenham se dado conta disso. Bando de ignaros: é só analisar o fato, ler a norma e pronto: objetivamente, está dada a resposta do que é lícito ou ilícito. Basta conhecer o vernáculo. É certo que, outro dia, o preclaro Ministro Marco Aurélio chamou para o pau puro e simples o proeminente Ministro Joaquim Barbosa, por conta de uma, agora inexplicável, divergência de interpretação da Constituição. Só posso debitar esse lamentável incidente ao desconhecimento das lições do Professor Orlando. Que tentem se instruir, daqui pra frente.

Creio, porém, que a hipótese mais correta é a segunda. E é fácil explicar o porquê.

Se o Mestre Orlando consegue, com facilidade, concentrar em si o pensamento dos cidadãos do País, não lhe será menos fácil que, por um processo de transmutação molecular, ele se transforme ... na própria Constituição, que nada mais é do que um reles livrinho de capa verde. Ou seja: o Professor Orlando não interpreta a Constituição, ele é a própria Constituição!

Eis aí o meu projeto de poder, magnificamente verbalizado pelo Professor Orlando. Talvez, quem sabe, eu até o chame para participar do conselho consultivo do governo meu e de Dom Gustavo. Ler a Constituição é sempre um saco - mesmo que, nesse caso ideal, ela tenha sido escrita por mim mesmo. Nessas horas, seria mais prático e menos cansativo ir direto perguntar ao Professor Orlando o que está dito no livrinho.

Digo e repito: sou totalmente favorável à doutrina do estimado parlamentar, mas desde que levada a cabo pela minha pessoa. E aceito esse tormentoso encargo apenas por uma razão, de caráter humanitário: confiando no meu elevado critério de prudência e moderação, evitarei abusos, os quais inexoravelmente seriam perpetrados, se outros estivessem em meu lugar - lapso, por exemplo, em que incorreu a ciosa técnica de censura, Doutora Jacira Oliveira, que, nos distantes anos sessenta, ao analisar o "À Meia-Noite Encarnarei no Teu Cadáver", houve por bem em "sugerir", literalmente, "a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte", como contam André Barcinski e Ivan Finotti, na biografia que fizeram sobre o nosso velho Mojica, intitulada "Maldito". É mais ou menos o que o Professor Orlando quer fazer com o João Krébi.

Há males que vêm para foder tudo.



Confesso que a idéia de me transformar em supremo ditador me parece razoável


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