![]() |
28.12.04
A MENTIRA
Mentir é coisa boa demais. Eu mesmo, pra falar verdade, sou mentiroso contumaz. Minto desde a hora em que acordo - dizendo para mim mesmo que o trabalho enobrece o homem - até a hora em que vou dormir (quando, em minhas orações, peço ao Pai do INRI que ajude não só a mim, mas a todos, inclusive a quem me sacaneou, e que me dê sabedoria - e não dinheiro). E eis aí, como alguém já disse antes, uma das poucas verdades que, com convicção, sou capaz de dizer. O resto, por mais verdadeiro que pareça ser, é apenas uma versão - uma realidade envernizada com pouco de interpretação (isto é, um eufemismo para a boa e simples mentira). E o que eu sou, senão as minhas próprias mentiras? Isso tudo é assunto velho, eu sei. Mentir pela sobrevivência. Sinto o peito apertado, a fala gaguejante, a vontade de dizer a uma mulher que a amo. Bato orgulhoso no mesmo peito, disfarço a gagueira com um suspiro de enfado e, de forma calculada, dou-lhe um beijo rápido, simulando um desinteresse quase fútil - e não me comprometo a nada, sequer a lhe telefonar num dia desses. Melhor assim - em tempos de veneração do orgulho próprio (nem que seja orgulho dos próprios defeitos, transformados pela versão do orgulhoso em qualidades incompreendidas), revelar-se passível de ser influenciado por outro ser humano é sinal da fraqueza que trará a certeza do desprezo. Terei alguma chance junto a ela, desde que me mantenha fiel às minhas mentiras. Fôssemos dizer o que pensamos a cada um de nossos pares, desde o trocador do ônibus, passando pelo vizinho, até o chefe ou o companheiro de trabalho, e já estaríamos mortos, ao menos para aquelas pessoas. Dizer a verdade é coisa que não raro acaba em confusão, briga e choradeira. Às vezes, acaba até em tiro de revólver. No Livro dos Espíritos, em que o senhor Alan Kardec compilou as respostas às perguntas que fez a quem foi desta pra uma melhor, está dito que a principal tragédia que acomete ao infeliz que teve o azar de morrer é perceber que, do lado de lá, perde-se o filtro colocado no pensamento pela linguagem. Ou seja: o fulano que virou defunto pensa - ou sente - alguma coisa e, imediatamente, a alma penada que lhe está ao lado fica sabendo de tudo. Como não se pode matar quem já está morto, o jeito é se acostumar a conviver com a verdade. E isso, revela o senhor Kardec, é pior do que qualquer coisa, pior do que qualquer revelação a ser descoberta sobre a eternidade, a existência, a razão da vida, a consequência de nossos erros, a divindade etc. etc. Vida de defunto não é moleza. Nem uma mentirinha deixam o pobre-diabo contar. O pior de tudo - e olhe que, nesse tema, dentre tantas desolações, é difícil escolher uma que seja a pior -, porém, descobri outro dia: nessa história, estamos em estado de danação que vem de tempos imemoriais. Porque nossos pais, os bons símios, são tão desgraçados quanto nós: já mentiam, os degenerados. Quem me contou tudo foi o Doutor Kórus Karas, empresário que capitaneia uma firma especializada em escavações, pelo mundo inteiro, na busca de petróleo, diamantes e vestígios arqueológicos da Atlântida, além de paleólogo, geólogo, ufólogo e fluente em nada menos do que 7 línguas - inclusive, acreditem-me, o turco (o que lhe dá incomensurável vantagem para negociar com os "brimos" da 25 de Março, vindo daí, acredito, a razão para a fortuna pessoal que ostenta hoje em dia). Todos esses predicados, sem sombra de dúvida, fariam do Doutor Kórus um dos mais respeitáveis expoentes de nossa República, e sua chegada ao Senado Federal seria mera questão de tempo, não fosse a sua teimosia masoquista em permanecer violentando sua natural inteligência lendo as coisas publicadas no Mundo Símio. Pois bem. Há coisa de um mês, o Doutor Kórus enviou-me, pelo e-mail, uma matéria publicada no Le Monde de 10 de novembro último, a respeito do velho hábito de mentir. Demorei-me em entender a lição de tão nobre amigo, dado que, diferentemente dele, não sei ler em francês. Precisei caçar pela internet uma tradução para o português - no que demorei alguns meses, já que tenho dificuldades de compreensão também com essa língua. A história é mais ou menos a seguinte. Os primatólogos (é isso mesmo, existem pessoas que se dizem "primatólogas") Andrew Whiten e Richard Byrne (os quais acredito serem ingleses, ou norte-americanos, ou australianos, ou sul-africanos, ou irlandeses, pois a matéria do jornal francês, em tempos de globalização, julga desnecessário indicar-lhes o país de origem), após muitos anos de estudo e reflexão, anotaram peculiares tipos de comportamento dos símios. Um deles é dos babuínos mais jovens. Alguns deles, ao verem algum colega mais esforçado cavando o solo na busca de um tubérculo que lhe servirá de alimento, ficam ali por perto como quem não quer nada e, quando o outro está prestes a desenterrar a comida, emitem um grunhido idêntico ao que usam quando estão sendo atacados. Conclusão: a mãe do vagabundo, como toda boa mãe que se preze, sai correndo de onde estava e, acreditando fielmente na palavra do filho mentiroso, enxota dali o símio trabalhador na base da porrada - enquanto o macaco mau-caráter, com um risinho de escárnio na cara, tira a iguaria da toca e sai lépido da cena do crime para roê-la escondido num canto qualquer, piscando os olhinhos brilhantes - típicos de quem sabe muito bem a maldade que cometeu. Na peleja pela sobrevivência, o mundo é dos espertos - ou, em outras palavras, dos que se adaptam melhor, segundo ensinam as regras do darwinismo. Alguma dúvida sobre a nossa procedência e o estado de coisas que se vêem por aí, inclusive na frente do espelho? Sinceramente, entre Kardec e Darwin, prefiro ficar com o primeiro. É a esperança de que nossa danação não seja eterna.
É preciso habilidade e experiência para controlar as verdades que às vezes teimam em sair pela própria boca | 27.12.04
A DESCULPA É NOSSA
Todo mundo merece um descanso. Inclusive quem já morreu. Nas próximas duas semanas, é muito provável que Dom Gustavo não esteja entre nós. Não que ele tenha morrido outra vez. Nada disso. Apesar de não merecer, nosso mais ilustre cronista (na verdade, o nosso único) entrou de férias. Estava cansado de não sei de quê. Especulo que seja de trabalhar. Seja como for, Dom Gustavo, que, como eu, vive de enganar os outros (atividade cada vez mais difícil neste nosso mundo tão competitivo), houve por bem em ir descansar. Neste exato momento, ele está num barraco de chão de terra batida, localizado num sítio abandonado, sem luz elétrica e sem água encanada, mas com televisão a pilha. A vantagem disso tudo, segundo ele me confidenciou, é que, por esses tempos, nosso amigo não vai ter contato direto com qualquer vivente da espécie humana. Eis a avant-première do seu ideal de vida, que ele espera concretizar no dia em que se aposentar. Para a desgraça absoluta de nossos 5 pacientes leitores, sobramos eu e o Doutor Milton. Vamos de ter nos virar. Em nossa contabilidade mais otimista, se, ao cabo dessas próximas duas semanas, conseguirmos manter 2 leitores, poderemos soltar rojões. Será mais um milagre do INRI. Aos outros nossos 3 leitores pedimos sinceras desculpas, na esperança de que, quando do retorno de Dom Gustavo, eles também reapareçam por aqui. Duvido de que se arrependam. O mês de janeiro está aí e, com ele, aparecerá um novo Mundo Símio, bem pior do que atual, com colunistas especiais, vídeos inacreditáveis e formato bem diferente. Até o Doutor Fernando Pitangueira (ou Goiabeira, nunca me lembro do nome desse puto), praticante das artes do baixo espiritismo, se impressionou ao ver a primeira imagem do nosso projeto - e, de tão assombrado, pensou até em largar a psicologia diante de sua absoluta descrença na possibilidade de melhora do ser humano. Aliás, confesso que eu mesmo tive medo - principalmente quando me dei conta da própria insanidade, manifestada no tresloucado ato de tomar um dinheiro no banco para finalizar o tal do projeto. Sou um otimista compulsivo: acreditei que nossa obra iria render mais do que os juros que o bondoso banco está a me cobrar. Agora, precisando pagar a primeira das 74 prestações do empréstimo, vi que, de fato, minha boa mãe era quem estava com a razão: desde pequenino ele me dizia: "Meu filho, cuidado, tu é muito símio, vê se larga de estudar e vai logo arrumar um serviço de pedreiro". Instinto de mãe não falha. Infelizmente, a bobagem já está feita. Como desculpa que arranjamos para nós mesmos, esperamos pelo menos ter de volta os nossos 5 leitores de sempre em meados de janeiro - uma vez que, se não temos avalistas para nos evitar a falência civil, que ao menos tenhamos testemunhas da nossa falência mental. Podem acreditar em mim: como sempre dizemos, só prometemos aquilo que já está cumprido.
Espantado com a presença de Dom Gustavo, o pacato povo do campo logo foi procurá-lo para se instruir em sua doutrina | 23.12.04
UM SINAL DOS CÉUS
Recebi anteontem um sinal vindo diretamente dos céus, e dirigido especificamente a mim. Alguns provavelmente duvidarão que eu seja merecedor de tão elevada deferência dos deuses. Talvez o gerente de meu banco tenha de fato motivos para duvidar de minha palavra. Mas não o leitor do Mundo Símio, porque para nós aqui da redação é leitor do Mundo Símio na terra e INRI no céu. Por isso afirmo e repito: os céus dirigiram a mim um sinal, que, pelo que pude traduzir da misteriosa e cifrada mensagem celestial, indicou-me a natureza de meu futuro. E meu futuro será um futuro de merda, pelo jeito. Afinal, o sinal dos céus consistiu no seguinte, em resumo: um passarinho desgarrado, perto da meia-noite, entrou pela estreitíssima janela do meu banheiro; sem dizer palavra, olhou-me firmemente, obrou pesado e foi embora. Perplexo diante desse primeiro contato com as forças do cosmos - e sobretudo sendo esse contato feito por intermédio de um Hermes, por assim dizer, pouco higiênico - até agora tento digerir o prognóstico pouco alvissareiro. *** "Um urubu pousou em minha sorte" - teria dito o Augusto dos Anjos. Eu, menos sábio e delicado, apenas constatei a realidade dos fatos com a crueza com que ela se mostrou: "estou fodido!" - disse comigo. Na ocasião do fato agourento estava eu escovando os dentes, após aspirar o meu remédio para asma. Enquanto higienizava meus dentes carcomidos, pensava: "o médico disse que é possível em breve curar-me completamente dessa porra de asma, o ano que vem promete!". Também olhava com medo e esperança as entradas que penetravam em meu coro cabeludo. "Caralho, já sou feio cabeludo, imagina careca!" - essa era a expressão do medo. No entanto, para minha felicidade, meu médico também me prometera cura para a calvície, por conta de uns remédios milagrosos que ele próprio se dignou a vender-me, por módica quantia. "O único problema é que por volta de uns 5% ficam brochas - mas isso não há de acontecer com você não, meu rapaz, se Deus quiser!". Um médico invocar Deus como garantia dos efeitos colaterais de seu medicamento não me pareceu muito pertinente, mas a fé na ciência me animava: "careca eu não fico! Careca eu não fico!" Diante da possibilidade de receber algum dinheiro de um colega que há anos me deve, pensei ainda: "ano que vem irei beber várias pingas!". No auge da empolgação, lembrei-me: "quarta-feira começa o verão, ou seja, mais uns quinze minutos desta terça e já começará a melhor época do ano!" Foi então que, enquanto eu exibia um sorriso espumoso de esperança, a maldita andorinha desgarrada entrou feito um raio dentro do meu exíguo banheiro. Completamente assustado com aquela "coisa voadora" que girava nervosamente sobre minha cabeça, quase enfartei. Provavelmente mais uma falha que possuo em meu organismo: diante de um perigo, o gene de macaco que deveria me induzir à luta com o tigre ameaçador, induz-me ao enfarte puro e simples. Meu gene provavelmente quer que eu capitule diante de qualquer ameaça, talvez para dar uma vitória de pirro à fera ameaçadora. Trata-se, convenhamos, de uma vingança pouco honrosa essa do meu gene. Refeito da taquicardia, fui conferir qual era a natureza do ser alado. "Uma porra de mariposa gigante" - cogitei. Quando a mariposa pousou sobre o meu box, constatei com perplexidade e horror: é um puto dum passarinho! Diz-se que uma andorinha só não faz verão. Faz sim, lá em casa. E um verão de merda, convenhamos. O bicho, que meus parcos conhecimentos de taxonomia classificaram como sendo uma andorinha adolescente, arfava feito um maratonista de olimpíada. "Como vou espantar esse filho-da-puta?" - pensei intimamente. Apago as luzes, fecho a porta, e logo o bicho verá as luzes da rua e sairá. Nessa esperança depositei a minha fé e saí do banheiro. *** Enquanto comia alguma coisa - afinal, esqueci-me de comer antes de escovar os dentes - tive a certeza de minha sabedoria. É com um fiapo de esperança que nos atamos aos nossos sonhos. "O futuro será grandioso, e o estratagema que bolei para afastar a puta da andorinha só comprovará a minha astúcia e capacidade intelectual". Assim eu me consolava, mas já antevia que meus sonhos de prosperidade se esboroariam no céu, e tudo por conta de um reles e malsinado passarinho sem noção. Após a última mordida de pizza velha, levantei-me, bati no peito e cantei, só por garantia, o refrão do Paulo Vanzolini: "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!". Fui então conferir se meu plano dera certo. Tudo indicava que a andorinha já teria se ligado e voado para a rua, que é o se lugar de direito, e não a propriedade privada de um honesto cidadão como eu. Ao abrir a porta, com cuidado, e acender a luz, pude então constatar: a andorinha estava lá, sentada e obediente como um soldado de batalhão. Tivesse uma mãozinha e ela bateria continência quando me viu. Filha da puta. Tornei a fechar a porta e quase chorei de raiva. Afinal, já chegava a hora habitual de eu esvaziar os intestinos, e as pontadas no bucho já sinalizavam a carga pesada que viria. Filha da puta de uma andorinha, mil vezes filha da puta. *** Um homem de verdade nunca esmorece diante do perigo. Estufa o peito e o enfrenta - principalmente quando não dá para fugir. Comecei a traçar estratégias de guerra. "Pego um saco do Pão de Açúcar e faço uma espécie de rede; pego o bicho e jogo de volta aos ares de onde veio, rarará!". O plano foi abortado pela falta de saco. "Pego uma espingarda de chumbinho e mato esse puto! Mato-lhe, desgraçado!" - esta tentativa nem foi adiante, porque também me faltava espingarda que viabilizasse a genial estratégia. Após meia hora de severas reflexões, agi como pude diante das circunstâncias. Feito o "cornolho" do Beavis, meti uma toalha na cabeça, para evitar que o malicioso e desalmado passarinho me bicasse os olhos e cegasse de forma desleal. Com uma mão, prendia o pano firmemente na cabeça e nos ombros. Parecia uma Nossa Senhora improvisada. Com a mão direita, feito um Quixote, ostentava uma lança feita de vassoura velha. Com alguns dedos da outra mão, ainda, levava uma tampa de isopor à guisa de escudo. Devidamente paramentado para a sangrenta guerra que seria travada, tomei coragem e abri a porta do banheiro. Ao me ver, o bicho deve realmente ter se apavorado. Tanto que ameaçou se suicidar, feito um piloto kamicaze. Sem motivo e tampouco lógica, o ser alado pôs-se a voar freneticamente, batendo a cabeça na parede e as asas por todos os lados. "Aprendeste a não mexer comigo, hein bichinho?". Eu começava a ficar malvado - e gostava disso. Um vôo kamicaze, uma parada arfante para tomar fôlego. Outro vôo, outra parada. Após vários expedientes desleais como esse, o bicho começou a ganhar moral. De fato a criaturinha era astuta: apiedado, reduzi meus ataques. "É capaz desse puto morrer de ataque cardíaco, e aí ficarei com pena do bastardo" - refleti confuso. O objetivo, na verdade, era induzir a andorinha a sair pela pequena janela circular do banheiro, mas não havia meio de o bicho se tocar do mal negócio que era ficar por ali. No entanto, após mais de uma hora de combate, o bicho simplesmente saiu do poleiro em que havia se tornado o meu chuveiro e, com convicção, voou sem nenhum problema janela afora. Escafedeu-se quando quis, como que para ofender-me pelo seu desprezo. Eu provavelmente fora objeto de esporte para ele, ou, o que é mais provável, servi de cobaia para alguma experiência antropológica passarinhesca. Como em todo fim de batalha, passei a contabilizar as perdas: uma tampa de isopor quebrada, um vidro de Listerine espatifado, uns Hematomas e... e.... uma cagada de passarinho em cima do box. Uma cagada caprichada para um bichinho daquele tamanho, estava claro. A merda, ainda fresca, tinha consistência pastosa, e ostentava uma bela tonalidade branco-esverdeada. Ainda hipnotizado pela bela merda que o passarinho me deixara como lembrança de sua passagem, dou-me conta de minha desgraça: terei que limpar essa gosma. Tomei coragem novamente e, munido de toneladas de álcool e papel higiênico, limpei tomo o banheiro, só por precaução. No dia seguinte, ao comentar com um amigo a efeméride - que, conforme o meu balanço, talvez estivesse a anunciar-me um futuro sombrio - o confrade advertiu: "e cuidado com andorinha, que pode dar um piolho dos infernos". Tive então a certeza atroz: uma andorinha cagou em minha sorte. Bom ano novo - pra vocês.
O azar me pôs diante de um pássaro | 22.12.04
LEMBRANÇAS DA MISSA NEGRA
Não sei se sou injusto, ou se sou apenas ignorante, ou se sou uma mistura das duas coisas - hipótese, esta última, a mais provável. O fato foi que, ontem, divaguei a esmo sobre um assunto mais do que batido: as reflexões natalinas (ou, como diria o Doutor Milton, "reflectio natalis"). E mesmo diante de tema tão sem graça, acabei perpetrando uma condenável heresia: me esqueci de falar a respeito da única gama de pessoas que, de forma sincera e desinteressada, ama o Natal e todos os nobres sentidos que a data inspira: os fetichistas. Exatamente, os fetichistas. Eis o que há de mais puro e fraterno nessa época do ano. Assim como no Carnaval há os sujeitos barbudos e com filho pra criar que saem às ruas fantasiados de mulher - fantasia cujo significado, convenhamos, não demanda nenhum Freud para explicar -, o Natal também revela as taras ocultas de alguns. Há quem goste de se vestir de Papai Noel, quem faça as vezes de animador de auditório para festas de amigo secreto e quem se mete a cozinheiro amador para alimentar o batalhão de conhecidos e parentes. Não obstante respeite todos esses papéis, minha preferência pessoal, de longe, vai para os que, antes da ceia, fazem as vezes de sacerdote, concitando os parentes a orar e refletir em nome do INRI. Sempre gostei de quem reúne o povo para dar alguma lição espiritual, seja ela qual for. Aliás, em verdade vos digo: tivesse eu um pouco mais de juízo e iria ser padre, só para ter o prazer de dar minha opinião sobre a vida dos outros no sermão de domingo, avalizado sempre pelas lições de Jesus. Deus, porém, é sábio: fosse-me dada tal honraria e, para o menor pecadilho, minha sentença mais branda seria quinhentas ave-marias e três mil e oitocentos pais-nossos - e isso num dia em que eu estivesse de bom humor. Minha justificativa ao bispo seria simples: não importa que o vagabundo fique quatro dias rezendo sem parar para pagar a penitência; enquanto reza o desgraçado não está fazendo besteira por aí, o que já é uma grande vantagem para todos, inclusive para o próprio pecador. Meu sonho é ser o papa. Mas quem mereceria o título papal, de verdade, é uma tia minha, que me dá a alegria infinita de, no Natal, vê-la celebrar uma missa de peculiar liturgia, tradicionalmente rezada antes da ceia. Ela fundou a própria religião. Senhora das mais respeitáveis, esposa dedicada, mãe de filhos com diploma universitário, avó responsável, mulher atuante em trabalhos sociais junto à comunidade carente, profissional respeitada entre seus pares, pessoa carinhosa, de inteligência viva e rápido poder de compreensão, escritora (de verdade) de sensibilidade, tudo, absolutamente tudo que vem da boa tia me faz sentir um cachorro por trazer sua figura para qualquer lembrança que venha de minha pessoa. Eis a vantagem de se ter exatamente 5 leitores: a chance da tal tia saber que lhe conspurquei a honra é nula. Logo, não estou nem aí. Que o Pai do INRI tenha piedade da minha alma. Todos os seus predicados - e muitos outros de que não falei - são absolutamente verdadeiros. Mas isso vale só para 364 dias do ano - ou 365 dias dos anos bissextos. Na noite de Natal, ela se tranforma. Não acredito em possessão, mas, quando vejo a boa mulher tranfigurada às onze horas da noite do dia 24 de dezembro, revejo minha crença. Só pode ser encosto. Nessa hora, ela chama todos os parentes em volta da mesa onde será servida a ceia e manda apagar as luzes, não sem antes, com voz de preto velho, ordenar que todo mundo fique em silêncio. Como todos lhe têm mais do que justificada afeição, desde os mais velhos até as crianças, não há quem não lhe obedeça as ordens, alguns com paciência, outros por puro medo - como é o meu caso. Apagadas as luzes, ela, com capricho, acende algumas velas pretas, colocadas estrategicamente nos cantos da sala de jantar. Disse eu que a tia convoca todos os parentes, mas desconfio de que, em silêncio, enquanto, de terço na mão, vai acendendo as velas, ela também invoca os parentes falecidos - os quais, tal como os vivos, também se fazem presentes em espírito, por puro pavor das consequências de eventual desobediência. O ritual é de meter medo até em defunto. Depois disso, falando em voz baixa coisas ininteligíveis, ela entrega para cada um dos presentes uma xerox de uma página com o roteiro daquilo que vai ser a missa. Sem pedir nada a ninguém, a outrora respeitável senhora tira de uma sacola três chapéuzinhos de cartolina, enfeitados com uma estrela pintada bem no meio da testa, os quais são entregues cada um a alguma criança, escolhida de acordo com o seu místico arbítrio. No último Natal, a criança mais nova tinha quinze anos. Esses três desafortunados participarão do ritual. No roteiro (que me parece uma mistura de celebração do Natal com o Dia de Finados), há algumas frases precedidas da inscrição "Crianças". Nesses momentos, os desgraçados devem entrar em cena. A coisa funciona mais ou menos assim: Tia (muito séria, ainda de terço na mão) - Hoje, estamos aqui para comemorar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. E estamos aqui também para lembrar de todas as pessoas que nos deixaram, mas que estão presentes aqui mesmo depois da morte. Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Tia (sombria) - Naqueles tempos, os três Reis Magos caminhavam perdidos pelo deserto, com fome e sede. Crianças - Louvado seja Deus! Tia - Eles estavam próximos da morte. Crianças - Glória a vós, Senhor! Tia - Mas, de repente, Baltazar, Ezequiel e Malaquias viram uma imagem muito estranha próxima de uma árvore. Era uma imagem de luz, que parecia uma pessoa feita de fogo. Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Tia - Era a imagem do vovô. Cabe aqui um parêntese: o pai de minha tia, que era meu avô (estranhamente chamada de "vovô" pela própria filha, por razões que me são insondáveis), já morreu há uns 15 anos. Nunca soube de seu passado bíblico. Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Tia (com uma voz raivosa fora do contexto) - E O VOVÔ, DIRIGINDO-SE PARA OS REIS MAGOS, FALOU: "IDE E SALVAI O MENINO JESUS!!!". Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Tia - Os Reis Magos obedeceram o vovô e saíram procurando pelo Menino Jesus, até que ouviram o mugido de uma vaquinha. E Ezequiel disse para Malaquias: "Ouça, Malaquias: o Menino Jesus deve estar perto". E então, seguindo o som do mugido da vaquinha, eles encontraram, perto de uma manjedoura, a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus, deitado numa caminha feita de palha. Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Neste momento, minha tia pára a leitura e, com os olhos virados, acende um charuto - justo ela, que nos outros dias do ano diz não suportar nem cheiro de cigarro. Tia (depois de uma baforada) - Vendo aquela pobreza, a pobreza do Menino Jesus, os Reis Magos disseram: "Viemos te salvar, Menino Jesus. Foi um espírito de fogo, muito bonito, quem nos mandou". E o Menino Jesus, levantando-se da caminha de palha, subiu aos céus e disse: "Obrigado. Agora estou salvo". Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Tia - E então, os Reis Magos, sabendo que o maldoso Rei Caifás procurava pelo Menino Jesus para arrancar a cabeça do Filho de Deus, levaram todos para o seu castelo, para que o mundo fosse salvo. Crianças - Aleluia, aleluia, aleluia! Todos - Aleluia, aleluia, aleluia! Encerrada a exposição argumentativa, a tia passa então à parte lúdica da missa que ela inventou. Sozinha, ela entoa uma música que tem só uma frase, cantada num ritmo lento, quase fúnebre: "Ehhhh... Nossa Senhora! Ehhhh... Nossa Senhora! Ehhhh... Nossa Senhora!". A boa mulher, enquanto canta, balança o terço numa mão e o charuto aceso na outra. Tendo demonstrado seus dotes vocais, ela faz outra invocação: - Agora, vamos ouvir uma música em silêncio - explica a tia, enquanto todos, obedientes, permanecem no mais absoluto silêncio. Ela liga um gravador e os demais, como prometido, ouvem uma música do rei Roberto, chamada "Caminhoneiro". Encerrada a sessão musical, a própria tia acende as luzes e todos aplaudem o espetáculo, após o que estão autorizados a comer, ao mesmo tempo em que a nossa papisa vai recolhendo os folhetos e os chapéuzinhos, além de apagar as velas e o charuto. É comovente. Quando lembro disso, me penitencio por haver praticado os pecados da injustiça e da ignorância criticando tão boa época do ano. A penitência é voltar para assistir à mesma missa, ano após ano. É penitência branda demais, admito; sou muito frouxo, não sirvo para ser padre, muito menos para levar adiante a vontade de realizar o sonho de ser papa.
É inacreditável a transformação mística por que passa esta exemplar senhora na noite de Natal | 21.12.04
O MAIS SÍMIO DOS TEMPOS
Tenho um problema sério com o tempo - ou, melhor dizendo, com as datas. Caso grave. Não me refiro ao movimento dos buracos negros (seja lá o que for isso) que, expandindo ou contraindo (ou as duas coisas ao mesmo tempo), causam a sensação física de que o tempo corre mais rápido do que corria tempos atrás - constatação que me parece de gritante evidência. Tampouco ao tempo dito subjetivo, ou interpessoal - aquele que, se por um lado, nos dá a alegria de olhar para alguém que conhecemos há dois meses e que, de forma brutal e quase assustadora, nos parece velho conhecido de muitos anos, por outro, nos cobra, implacável feito credor de promessa, a tristeza vinda da descoberta de que pessoa de nossa longa convivência sempre fôra, em verdade, uma ilustre desconhecida. O que eu queria dizer é que a minha diferença é com datas específicas, aquelas que nos ditam o que comer, como se vestir e o modo de se comportar. Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Dia da Independência, Dia do Índio, Dia do Combate à AIDS etc. etc. Não que eu as odeie. Fosse isso e a situação estaria nos conformes. Odiando as tais datas, saberia exatamente o que fazer quando de seu advento - e daí meu referencial estaria no eixo: bastaria-me odiar, com a facilidade da convicção de quem lhes tem apreço. O diabo é que tais datas não me significam nada. Nem ódio sou capaz de sentir. O que tenho, menos do que desprezo, é verdadeira falta de adequação. O Natal, por exemplo. Nem vale a pena se estender sobre a fanfarronice da comilança, a compra da paz de consciência mediante a visita em asilos de velhinhos, a engorda da esmola de conveniência em forma de caixinha para os serviçais, a entrega do presente como peso para a medida da nossa estima e consideração, a obrigatoriedade das festinhas de amigo secreto para se manter a cordialidade no ambiente de trabalho. Isso sem falar de um pequeno detalhe: consumismo, hipocrisia e orgia de comida são pecados que cabem na conta de uns 10% da nossa população. O resto passa mesmo é um baita constrangimento, por não poder, por uma questão puramente econômica, dar o presente que o filho pediu - lição que cedo se aprende: a vida é um pouco mais do que a televisão (um pouco, repito, não muito). Gente bem mais graúda do que eu já falou sobre tudo isso, não vou me meter a besta. Mesmo me sentindo uma besta no Natal. A cor vermelha da folhinha do calendário não me causa nenhuma emoção. Não sei como me comportar. Exemplo: estando num lugar público, ou então familiar, o que é que eu tenho de fazer à meia-noite do dia 25 de dezembro? Meu ímpeto é, à meia-noite, dar um soco no ar, como faz um jogador de futebol que marca um gol. O soco, no entanto, sai fraquinho, envergonhado, quase imperceptível. Mas ele me parece ajustado aos fogos e à comemoração. E é justo nessa hora, logo após dar o soquinho solitário, que eu me pergunto: comemorar o quê? Que o INRI, quando se chamava Jesus, nasceu há dois mil anos? E daí? Se o camarada nasceu há dois milênios e ainda se lembram dele, bom pra ele, deve ter feito bela obra. Mas o que é que a minha avó tem a ver com isso? Por que raios eu tenho de dar um beijo na careca da velhinha? Vamos falar a verdade: estivéssemos preocupados em homenagear a doutrina de Jesus, lembrando-lhe o nascimento, e o mínimo a fazer seria cantar "Parabéns a Você", com direito ao corinho final: "E pro Jesus nada? Tudo! E como é que é? É pique! É pique! É pique pro Jesus! Rá! Tim! Bum! Je-sus! Je-sus! Je-sus..." Dizem que o Natal é dia propício para se desejar felicidade aos outros. Ou seja: comemoramos não o aniversário de Jesus, mas o fato de que, um dia por ano, desejamos felicidade para alguém (note bem: desejamos apenas; fazer é outra história). Inacreditável: quando um ser humano deseja algo de bom para o seu patrício, damos uma festa de arromba, matamos uns leitões, churrasqueamos uns cachorros, entramos de cabeça na cerveja e desmaiamos de porre em cima da laje, com baba a sair pela boca aberta - e tudo com direito a vinheta especial da Globo, contagem regressiva para tamanha honraria e queima de fogos dando notícia da nossa surpreendente bondade. Se essa tese for a correta, então, pra falar o português castiço, estamos todos fodidos. Há ainda quem dirá, num raciocínio simplista porém sincero, que o Natal serve apenas para as crianças ganharem presentes. Sendo assim, é impressionante o número de crianças que falsificam o documento de identidade. Na portaria do meu prédio, a caixinha para o zelador e os porteiros está sendo sugerida na base de 50 mangos. Já é hora do Ministério do Trabalho apurar a sério esse negócio de trabalho infantil. Diante dessa história toda, o mais razoável a fazer seria tomar um ônibus para Curitiba e ir cumprimentar o Mestre INRI pessoalmente, felicitando-lhe pela sua obra - belíssima, mas, convenha-se, de aceitação menor do que seria o desejável. Posso estar enganado, mas ouvi dizer que, nessa época do ano, se organizam caravanas para lá, e o INRI, que pode ser acusado de muita coisa menos de ingrato, recebe a todos com um saco que só o maior dos santos poderia ter. Especulo que, à meia-noite, todo mundo se reúne em volta de uma mesa abarrotada de brigadeiro e guaraná. E, depois da cantiga de parabéns, o INRI, todo pimpão, assopra as velinhas do bolo de aniversário. Espero estar lá no ano que vem. E como não sei ao certo o gosto do Mestre, comprarei a paz de minha consciência presenteando-o com um vale-CD.
Pouca gente tem a seriedade que se exige para comemorar adequadamente o Natal | 20.12.04
O KARAOKÊ E AS CÉLULAS-TRONCO
Este mundo é cheio de mistérios, como dizem os padres e os vendedores de empada. Alguém fez o universo ou ele sempre existiu? Existe livre-arbítrio, ou somos apenas pedras pensantes? O presidente do Banco Central queima ou não? Essas e outras questões me perturbam, mas perdem de longe para outra, muito mais complexa e tormentosa: como é capaz de alguém gostar do famigerado "karaokê"? E, o que é muito pior: como é possível que algum degenerado - um sequer - seja capaz de gostar de ouvir o Bruno e Marrone cantado pelo seu colega desafinado? Acho que o universo e o livre-arbítrio podem esperar. Mas não consigo mais viver sem uma explicação lógica para o karaokê. Tenho certeza que na insondável resposta haverá uma aterrorizante revelação sobre a natureza humana, e sobre a vida futura e pregressa da espécie em sua jornada evolutiva. *** Se para os mistérios não há resposta fácil, senão não seriam mistérios, cabe a mim apenas especular. E, ocioso que sou, teci as seguintes conjeturas, enquanto espero a solução final. Provavelmente, o karaokê se deve a um gene. Sim, é moda hoje em dia atribuir tudo ao tal do gene. És corno, infiel, burro ou asmático? Tem lá na sua dupla hélice um puto dum gene causando essa desgraça, irmão! O gene é o encosto moderno, a rubrica na qual se debitam todos os males do indivíduo, que, por essa conveniente contabilidade, livra-se da culpa por qualquer coisa. Mas a explicação genética, ainda que tosca, parece-me a mais provável. Ela, de fato, casa com o problema, e responde ainda à seguinte questão: por que todos - sim, TODOS - os indivíduos de origem nipônica são adeptos da odiosa prática do karaoqueísmo? (Nota: os que me conhecem sabem que sou fervoroso nipófago, apreciando e recomendando a ingestão de carne feminina de coloração amarelada. Além disso, sempre convivi com sujeitos da raça nipo-brasileira no interior e aqui na capital, de modo que qualquer insinuação xenófoba será injúria contra mim. Aprecio muito os japoneses. Até por isso quero salvá-los do opróbrio causado pelo mefistofélico karaokê). Mas podem reparar. Os desonestos estabelecimentos dedicados ao exercício do karaoqueísmo estão geograficamente localizados em logradouros de gente do Japão e adjacências (como Coréia, China, Hong Kong etc.). Isso por si já aponta o vínculo genético dos olhos puxados com o dom de cantar desafinado, e, o que é pior, de gostar de quem canta desafinado. Talvez seja o mesmo gene, aliás, o responsável pelos olhinhos e pelo problema fonoaudiológico que é o karaokê. Penso que ninguém duvida que o karaokê é um problema fonoaudiológico. Afinal, não só engloba a triste situação dos que emitem mal a voz (os cantantes de karaokê), como também os que lamentavelmente ouvem mal (os ouvintes de karaokê). *** Mas para a minha tese genética ganhar corpo e se tornar cientificamente válida, é preciso fazer estudos experimentais. Sugiro, para testar a tese, o seguinte experimento: peguem uns índios. Sim, aqueles nativos brasileiros. Ao que tudo indica, eles têm a mesma origem dos índios do Japão, ou seja, os japoneses. Se a causa do karaokeísmo for genética, provavelmente esse gene - que foi implantado pela evolução como verdadeira bomba-relógio à espera do desenvolvimento tecnológico - também será acionado em contato com o aparelho de karaokê, e os espontâneos silvícolas logo começarão a entoar as singelas melodias de Leandro e Leonardo ou da Jovem Guarda, enquanto visualizam, talvez com saudade, paisagens campestres na tela do monitor. Estará então provada a tese genética da origem do karaoqueísmo. O único problema será os índios ficarem bêbados na primeira música, como sói acontecer quando são expostos a qualquer gole de birita, e não consigam parar de pé para cantar a saudosa canção do menestrel Leo Jaime. Aproveitando o ensejo, registro aqui minha revolta: não bastasse o uso canhestro da garganta pelos adeptos do karaoqueísmo, os infelizes ainda por cima insistem em cantar apenas, digamos, peças pouco elogiáveis sob o aspecto do refinamento musical. Em outras palavras, só se canta merda em karaokê. Tetê Espíndola é o que de melhor aparece na lista de sons cantáveis pelo karaoqueísta. Pelo jeito a culpa é dos compradores do aparelho, em quem se baseia a indústria. Fosse o contrário - ou seja, fosse a indústria a única com mal gosto - e os refinados compradores se recusariam a adquirir o aparelho. O único ponto da tese genética que me preocupa é o fato de não haverem apenas cantores de olhinhos puxados. Bigodudos portugueses, gordos de origem italiana, mulatos de toda sorte - muitos há que apreciam, com fervor nipônico, a arte de cantar mal e ouvir pior ainda. Mas, além da possibilidade de algum japonês menos católico já ter freqüentado a avó de algum desses cabras, há ainda a explicação cultural. Sentindo no ambiente do karaokê um latejante calor humano, uma força integradora potente, que só encontra paralelo em seitas maçônicas, o pobre diabo que é gordo, espinhudo, mal-amado ou corno, submete-se ao odioso karaokê como forma de solucionar seus problemas de auto-estima. Sim, senhores: a baixa auto-estima é capaz de levar sua vítima a esses extremos de baixeza. É por essas e outras que desejo, com fervor religioso, o advento da cura do karaoqueísmo. Milhares de reputações (ou milhões, não sei ao certo) serão restabelecidas assim que os viciados em karaokê sejam curados. É uma questão de saúde pública e caridade cristã. Apoie as pesquisas com células-tronco. Perguntem-me se estou a fim de ir a um karaokê e adivinhem a resposta | 17.12.04
VEXATA QUAESTIO
(por Doutor Milton, sub-editor-adjunto-auxiliar e consultor jurídico do Mundo Símio) A pedidum dos colega colegae Dom Gustavo, que, em tempos forense, na labuta judiciária, nos auxiliaro com seus préstimo financeiro enquanto passávamo fome, aceitemo o honroso encargo de, como diria os romanu, "doctorum honoris causa" do Mundo Símio (ou, na versão latina, "Simia Mundae"). Foram sábio os colega colegae: desde o início dessas publicatio, eles previa grande risco de ser processado. Infelizmente, os processo não veio. E nóis, que tinha como remuneratio a promessa de contratação em caso de processum futuro, continuemo passando fome. "Miserabilis ex judicata", como diria os romanu. Tudo por curpa de nossos cinco leitore, que, de forma desrespeitosa, nunca tivero a corági de nos processá. Outrossim, dada a impossibilidade de ganhá o sustentum promovendo a defesa de quem nunca é processado, resorvemo aceitá outro nobre encargum: fazê as crítica sobre os thema debatido pelos colega colegae, mas sempre apontando as impopriedade de suas besteira. À guisa de exemplum exemplae, obtempero que o úrtimo texto aqui pubricado continha condenávir equívoco, fruto incestuoso da ignorantia de quem o escreveu como a lassidão dos púbrico não instruído que fizerum as respectiva leitura. Trata-se do fenomenum conhecido entre os romanu como "ignoratia legis" ou, no nosso vernáculo pátrio, "ignorância na leitura". Reporto-me à quaestio concernente à carcinha das muié, que as lava dentro do banheirum. Ressarto ainda que, nesses tempum todo, aqui falemo dos Presidente, dos dilema entre a vida e a morte, dos pobrema da comunicattio, das fraude das eleissímia, do amor entre os hómi e as múiê, dos mais bestificante pograma televisivo hodierno, das filosofia gregae, das vida do póprio Cristo, mas nada, nada disso nos forneceu tantas visita diária dos mesmo cinco leitore quanto os pobrema das carcinha. Disse um colega colegae que tal habitum tinha origem nas vexaminosa vergonha por que passava as múiê quando do processum de secági de suas carçola nos quintal, diante do publicum. Eis o que chamo de "damnum mentirae" (ou, fazendo a traductio, "mentira danosa"). Cumpre esclarecê que as razão para as lavági das carçola no banheirum, enquanto toma-se banhum, tem origem diversa da aqui falada. As mina com quem falei, todas elas, sem exceptio, confessam, in factum, que lava as carcinha nos bóxi. Porém, com a seguinte observatio: elas lava as carcinha duas vezis, uma no banheirum e ôtra na máquina de lavági. E, dizem as mina, não têm elas nenhuma vergonha vergonhae de as exibi nos varal, em publicum. E cabe então a vexata quaestio: por que elas faz duas lavági? Porque as carcinha é muito suja - é a resposta simplex. Ao que se infere de todos os depoimento a que tive acesso, um estranhum líquidum viscosae emana de suas entranha entranhae durante o dia, tornando as peça íntima peça mais suja que as demais, especiarmente durante a noite. Por isso, há que se fazer duas lavági, uma nos bóxi e outra nas máquina - ou nos tanque, como prefere as que preza pela melhor tradictio. O pobrema de carcinha, por conseguinte, é de natureza higenal. Ad argumentandum, quaestio de relevum afigurou-se em meu spiritum, inspirado que sou em Freud, colega colegae de quem muito ouvi falar nas aula de cátedra de Medicina Legae. Pergunto: os excesso de lavági num seria um processo inconscienti de arrependimento pelos pecado oriundo dos acúmulo dos desejum sexualis observado durante os dia, vindo daí as necessidade de uma castradora lavági simbólica para espirrar para fora os desejo impuro, já que, em nossa societatis, as muié perfecta e ideal são aquelas identificada com as Virgem Maria? Os desejum das muié num é serem mãe? Como se pode ser mãe e usar as carcinha, que nos alembra os desejum carnaes, ao mesmu tempum? Sem dúvida, há sério pobrema de conflictum conflictuare entre os desejo das muié e suas função materna. Eis o que me parece ser o entendimento adequado, em minha "opinium doctorum" - ou, traduzindo para o vernáculo de Camões, "opinião de dotô". E mais: por que é que as muié num lava as carcinha duas vezis no tanque ao invés de as lavá primeiro nos bóxi? Parece-me de evidência solar que, de tão grande que é os seu sentimentum culpae, elas nem conségui esperá o momentum de lavá as carcinha no tanque: lava o mais rápido possívir, até mesmo dentro do banheirum. Diante do exposto, fica registrado nos anais desse periodicum nossos pedidu de descurpa a todas as muié. Prometemu nunca mais repeti as equivocada e grossera explicatio anteriormente dada. S.m.j. Doutor Milton, além de sub-editor-adjunto-auxiliar do Mundo Símio, é jurista, filólogo e romanista. | 16.12.04
O UNIVERSO DA CALCINHA PENDURADA
Da mesma forma que, na cadeia ecológica, a planta é comida por uma barata, que por sua vez é comida por um passarinho, que por sua vez é comido por um rato, que por sua vez é comido por um cachorro, que por sua vez é comido por uma vaca, que por sua vez é comida por um ser humano, acredito que, entre todos os viventes, existe uma linha evolutiva de natureza puramente mental. Nessa minha escala, há apenas uma divisão, a qual dispensa maiores digressões a respeito de qualquer minúcia sobre outras subclassificações. De um lado, estão as mulheres. Abaixo delas, na triste condição de seres inferiores, estão todos demais viventes da Terra. É muito duro reconhecer, mas a realidade é simples demais para ser negada: passarinhos, cachorros, ornitorrincos, pernilongos, tatus, antas-xuré, homens - heterossexuais ou não - e pessoas de sexo indeterminado, temos, todos nós, a mesma insignificância diante das mulheres. O mundo é injusto, não adianta se revoltar: foi a escolha do Pai do INRI, quem quiser que reclame com Ele - embora me pareça provável que isso de nada vá adiantar, pois o serviço de atendimento ao consumidor Dele, creio eu, me parece tão eficiente quanto o das nossas boas companhias telefônicas. Assim como, após a destruição física, não existe um céu para as baratas boas, um inferno para os pernilongos maus e um purgatório para as pombas mais ou menos, tampouco existe um lugar no além para abrigar os viventes do sexo masculino. Nesse caso, ser ateu não se trata de credo, mas de humilde constatação da própria tragédia. As mulheres, cujo requinte mental é incompreensível para nós, tal e qual uma equação de oitavo grau seria hermeticamente fechada ao entendimento de um bugio bêbado de Velho Barreiro, merecem, elas sim, um julgamento. Não o julgamento de uma anta-xuré ou de uma paca-do-mato, mas sim o julgamento de alguém que lhes compreendesse o pensamento. E, para desvendar mistério do gênero, somente um ente superior a tudo o que conhecemos. Logo, o encontro delas com o Pai é certo; nossa audiência com o Pai, por sua vez, merecerá Dele o mesmo tempo que Ele concede às moscas-varejeiras: um segundo e meio antes da completa aniquilação. A eternidade não nos pertence. Não merecemos o céu ou o inferno; muito menos merecemos um julgamento. Comparadas às das mulheres, nossas atividades por aqui sequer mereceriam ser classificados como atos mentais; frente a elas apenas rastejamos. Não pensamos, apenas existimos. A quem duvidar, peço que se recorde se, pelo menos uma vez na vida, não teve a sensação de completa impotência ao discutir com uma delas a respeito de qualquer assunto que julgava dominar. Não importa o quão preparado se esteja para com elas debater sobre qualquer coisa, deste ou do outro mundo: a peleja é tortuosa, dolorida, demorada, triste e, pior de tudo, nos momentos finais temos a medonha certeza de que iremos perder, de modo legítimo e incontestável, aquele jogo estava ganho - o que só aumenta o terror de quem vê cumprida a profecia. Sou experiente nesse treco: há coisa de uns dias, perdi feio um debate teológico para uma moça de pouco mais de quinze anos de idade. Não conseguirei reproduzir nem aqui, nem em lugar nenhum, seus argumentos, mas posso testemunhar que, mesmo eu tendo lido os Evangelhos, o Bhagavad Gita e uma versão do Alcorão, ela, que não leu nada disso, me convenceu (repito: me convenceu) de que a tentativa de se melhorar é uma grande piada, e que temos mais é de ter orgulho de nossos defeitos, por maior que seja o sofrimento que eles nos causem. Se Deus nos deu os tais defeitos que geram sofrimento, é porque uma hora vamos acabar precisando deles - e daí tudo se resolve, isso não é assunto pra se preocupar nesta vida. E mais: a sábia moça me disse que não tem saco de ler livro nenhum. Sua doutrina baseia-se exclusivamente no que lhe foi dito por uma cartomante, vizinha sua. Tomei um baile, não sei se da menina ou da cartomante. Mas, seja como for, está difícil engolir essa derrota, convenhamos, vergonhosa, senão pelos argumentos, ao menos pela diferença de idade. E isso nem é o pior. Diga-me alguém se, ao conversar com uma delas, nunca foi acometido pela estranha sensação de ser o menos interessante dos pobres seres que habitam estas terras. Digo "sensação" porque, numa situação dessas, elas nem se dão ao trabalho de verbalizar a impressão que querem deixar evidente: o brilho dos olhos que vem delas, por exemplo, ao falar de outro, qualquer outro, seja ele o entregador de pizza, um primo distante ou um antigo professor de inglês, nos humilha mais do que mil chibatadas. É golpe infalível, do tipo que não permite defesa nem, muito menos, reclamação. Nem direito ao contraditório temos: denunciada a covardia da tramóia, elas, como de hábito, negarão a autoria do delito. E como afirmar o contrário, se nada foi dito, se tudo veio apenas com um olhar? Olhar é preciso, falar não é preciso. A linguagem, tal como a conhecemos, só lhes tem proveito para comprar pão, tomar um táxi ou assistir ao telejornal. Sua forma de comunicação é outra - e por ser outra sua forma de comunicação, as maiores atrocidades que praticam são justificadas não apenas com a mais sincera das canduras, mas com vigoroso ataque à própria vítima, que, de um jeito que só elas conseguem explicar, ao final da história sempre acaba sendo a responsável sobre o raio que lhe partiu a cabeça. Anta-xuré humilde, porém inconformada, consolo-me tentando me distrair em suas peculiaridades, o que, se não me possibilita compreendê-las pelo todo, ao menos me faz admirar as metáforas que revelam um pedacinho de sua existência. Algum dos nossos cinco leitores, há tempos atrás, nos narrou fato inusitado e característico de boa parte desses seres incompreendidos e incompreensíveis: o estranho hábito de pendurar as calcinhas molhadas no box do banheiro após o banho. Confesso que, desde então, tal coisa não me saiu da cabeça. Algum tipo de instinto - talvez o da sobrevivência - me dizia que ali, justo ali, havia algo que me ajudaria a decifrar o enigma, mesmo sabendo que, decifrando-o ou não, acabarei sendo devorado. Mesmo assim, esmerei-me no estudo do tema. Falei com todas as mulheres que conheço, das mais variadas faixas etárias, sociais e econômicas. Deixei de fora da contabilidade, por questão de foro íntimo, apenas as parentas e aquelas que, fazendo-se de ofendidas, viraram-me o rosto e desde então se recusam até a me cumprimentar. Mas creio que essas exclusões não prejudicaram o inacreditável resultado a que cheguei: 100% das mulheres que me responderam disseram que lavam a calcinha durante o banho e a deixam pendurada no box para secar!!! Aterrorizado com tamanha revelação, resolvi repetir as entrevistas, só que dessa vez para saber o porquê de tão estranho hábito (coisa que, admito, poderia ter feito antes, quando da primeira enquete). Para tentar obter maior rigor científico, nessa segunda rodada incluí minhas parentas e repeti a dose inclusive com aquelas que, antes, tinham se recusado a me responder. Também fiz as perguntas para a Antonha, senhora que, de vez em quando, faz a faxina em minha casa, mediante pagamento parcelado. O resultado, para arredondar os números, ficou mais ou menos assim: perdi, em definitivo, o pouco da amizade que tinha com boa parte das mulheres que me conheciam, em especial aquelas que se recusaram a responder as duas perguntas; perdi o respeito de minhas parentas, que, para minha surpresa, também fingiram ficar ofendidas; terei de procurar outra empregada que aceite pagamento parcelado; 50% das mulheres que responderam não sabiam a razão pela qual fazem coisa tão bizarra; 40% das que responderam disseram que foi a mãe delas quem as ensinou. E o mais surpreendente de tudo: apenas uma, exatamente uma moça me deu uma explicação. A explicação - que, acredito, deve valer para todas as outras - é mais ou menos assim. Em todos os tempos, de todas as culturas, de todas as sociedades, as mulheres sempre tiveram pudor em colocar as roupas íntimas para secar no varal do quintal. Isso porque, se assim o fizessem, o povo - os vizinhos, em especial - iria sair por aí fofocando a respeito do tipo de calcinha que essa ou aquela senhora usa quando vai praticar atos indecentes com seu marido ou com algum outro que lhe faça as vezes. E daí, para evitar falação, convencionou-se, desde tempos imemoriais, que o certo era lavar - e secar - a calcinha dentro do próprio banheiro. Roupa suja se lava em casa, diz o ditado. Vem daí a razão pela qual até hoje se pratica essa atrocidade: pudor. Pudor, vejam vocês. Após a luta pela igualdade sexual (coisa de evidente impraticidade, a não ser, é claro, para os homossexuais), a popularização dos filmes de sacanagem, a veiculação dos programas matinais de sexo da ex-senhora do Senador Suplicímio, os programas infantis da Xuxa de shortinho, as praias lotadas de homens de cueca e mulheres de calcinha e sutiã que, com naturalidade que beira ao tédio, tomam sorvete na areia, o advento do funk carioca, o costume de beijar na boca várias pessoas numa mesma noite, a democratização dos bacanais entre pessoas casadas, a coroação aplaudida da camisinha como símbolo do sexo pelo sexo, a naturalidade com que se concebe toda e qualquer traição, tanto da parte de quem trai quanto da parte de quem sai com o traidor (ou traidora), o uso da sensualidade dissimulada como moeda de troca para obter vantagens, inclusive profissionais, o casamento da Adriana Cicarelli com o Ronaldinho Fenômeno, o possível casamento da Luana Piovani com o Ronaldinho Gaúcho, o travesti que virou artista na Casa do Sílvio Santos e tantas outras coisas mais, mantém-se, ainda, a vergonha de... pendurar as calcinhas no varal, como deveria fazer qualquer ser humano decente. O enigma, pra variar, é indecifrável: é chique deixar a calcinha aparecer por cima da calça jeans, em público; um sutiã pintado de roxo, sem camisa que lhe cubra, é peça de vestuário que denota bom gosto e erudição. Mas calcinha pendurada no varal, ah, isso não, isso é uma baita de uma sacanagem, é coisa inadmissível. E depois eu é que sou acusado de ser antiquado. O que me conforta é que, morrendo uma morte de anta-xuré, levo para o nada eterno essa teimosia em divagar sobre o porquê das coisas. Bem melhor seria ir logo perguntar tudo a uma cartomante.
Por alguma estranha razão, esta moça, sem sequer dizer o próprio nome, me convenceu a lhe transferir todos os direitos sobre o filme da ressurreição de Dom Gustavo, tão logo foram encerrados nossos trabalhos. | 14.12.04
!!!DOM GUSTAVO LIVES!!!
Como dito, só prometemos o que cumprimos. Eis que, após uma série de sórdidas chantagens e insistentes problemas técnicos, conseguimos ofertar aos nossos cinco leitores as provas da ressurreição de Dom Gustavo, ocorrida em pleno IML, após muita quimbanda. As imagens contêm violência, sexo, mutilação e satanismo, portanto muito cuidado ao abrir. Cliquem aqui para ver esse documento histórico na íntegra. Vale o download, isso nós garantimos | 10.12.04
INACREDITÁVEL!!! O VÍDEO DA RESSURREIÇÃO DE DOM GUSTAVO!!!
Como não me canso de repetir, o Mundo Símio sempre promete o que cumpre. Esperamos que nossos prestigiados cinco leitores se lembrem disso na próxima eleição para deputado estadual, ocasião em que lançaremos nossa candidatura por algum partido cujo preço pelo aluguel ainda estamos pesquisando. Queremos apenas trabalhar pelo povo. Aliás, prometo que, se eleito, doaerei todo meu salário para alguma instituição de caridade. Caridade, porém, faltou ao nosso paranormal, psicológo e médium amador, Doutor Fernando Goiabeira (ou Laranjeira, agora não tenho certeza). Após termos conseguido reduzir o pedido de resgate que o bondoso doutor fez pela fita de vídeo que ele nos afanou, de 3 milhões de reais (cotação oficial do momento de uma mãe do Robinho, conforme o último informativo do PCC) para dois croquetes de carne e três cervejas no renomado estabelecimento comercial Xuxinha do Paraíso, retomamos a posse da dita cuja e com exclusividade a exibiremos à população. O filme contém cenas de sexo explícito, violência, sacanagem, miséria, filha-da-putice, heresia, satanismo e traição. Convém não assistir durante o trabalho, para não perder o emprego. Nem na véspera de Natal, para evitar vontade de suicídio. Na próxima segunda-feira, dia 13, o ritual macabro da ressurreição de Dom Gustavo será mostrado. Tudo o que está lá é verdadeiro. Pedimos desculpas pela demora da exibição, causada pela ganância do nosso sócio, Doutor Fernando. Resolvemos, contudo, mantê-lo na sociedade, eis que, sob o ponto de vista comercial, sua atitude foi justificável. Quem assistir à fita o entenderá. Depois da exibição do vídeo, novidades bem mais bizarras virão. Eis a nossa nova promessa. Entidades do outro mundo velavam o corpo sem vida de Dom Gustavo, ao início dos trabalhos para sua ressureição | 9.12.04
VÍCIOS
Coisas estúpidas viciam. E quanto mais estúpida a coisa, mais viciado nela se está. O bêbado bem comportado, do tipo que faz beicinho antes de cheirar a taça de vinho com uma cara de Clodovil entediado, não é viciado em nada, muito menos na bebida ou no que ela lhe traz. Bêbado de verdade é aquele que dá vexame, que sai tropicando pelo balcão derrubando a bebida dos colegas, que escorrega na poça e dá com a cara na louça da pia; é aquele que começa uma conversa com alguém e vai terminá-la com um outro fulano, porque, no espaço entre a saída de um e a chegada do outro, simplesmente não se lembrou do que aconteceu. Bêbado bom é bêbado chato, e que sabe que é chato, esteja de fogo ou não; é aquele que, antes de beber, já sabe que vai chorar feito cachorro por alguma fulana, de quem ele sabe que nem gosta tanto assim. E mesmo assim ele continua bebendo, tão estúpido como ele só. Maior a estupidez, maior torna-se o vício nela. Bêbado bom é aquele que dá vexame mesmo quando está quieto num cantinho do boteco. Conheço um que, para não morrer, precisa andar por aí carregando um tubo de oxigênio, com caniços de plástico que lhe entram de maneira incômoda pelas narinas. Quando vai beber, o infeliz se senta ao lado do tubo, companheiro inseparável de bar. Ainda bem que tenho Dom Gustavo a me afiançar a veracidade dessa estupidez, tão estúpida que é mais inconveniente do que cantar de porre o hino do Corinthians em voz alta e com a mão no peito. A estupidez vicia. E o fumante? Ah, o fumante bom é sempre o inveterado. É aquele que se levanta de madrugada porque o cigarro lhe é mais forte do que o sono. É aquele cujo organismo não consegue defecar se não houver fumaça a lhe fazer a sauna no banheiro. É aquele que mal termina de comer e, ao invés da sobremesa, já vai sonhando com o cigarro que vai lhe tirar da mesmice sólida da comida - o melhor cigarro do dia, é o que dizem. Fumante de verdade não pára de fumar nunca; se parar, morre, de morte morrida ou de morte matada. A menos, é claro, que lhe amarrem um tubo de oxigênio para poder respirar. *** Sou duplamente estúpido. Além dos vícios de praxe, sou viciado em coisas estúpidas. Tenho atração irresistível por tudo que me aparenta ser estúpido. Assisto aos programas do João Krébi, todos os dias como batatas fritas de saquinho da marca Croquer, sou janista, ouço todas as manhãs o Jornal Gente da Rádio Bandeirantes e simpatizo, de verdade, com o Roberto Avalone. Nessas condições, estar vivo, no meu caso, é um milagre. Um milagre do INRI, é claro. Tomando por base minha própria pessoa, concluo o seguinte: a humanidade não tem futuro. O futuro a Deus pertence, que Ele faça bom proveito. Do jeito que aumenta a minha estupidez, sinto que, daqui a uns dois anos, estarei comendo papinha de Maizena e vivendo de pequenos golpes dados na praça. E usarei fralda, porque só vou ter dinheiro pra alugar um quartinho sem banheiro. Obviamente, não haverá mulher que queira procriar comigo e darei cabo à longa jornada de meus ancestrais - história que, cá pra nós, já passou da hora de acabar; deveria já ter terminado com o meu pai. Felizmente, outros seres, estes sim dotados de maior razão, seguirão em frente com suas linhagens. Um exemplo disso me foi narrado por pessoa que me é próxima e que trabalha em um programa de assistência às famílias mais carentes. Disse-me ela que, em tal programa, são distribuídas pílulas anticoncepcionais às boas mulheres que não têm a intenção de parir alguém, digamos, pela quinta vez. A pílula, contudo, só é dada se a potencial mãe de meia dúzia de filhos se dispuser a participar de uma espécie de curso para saber como usar a dita cuja. Nada mais correto. Dia desses, minha informante foi visitar uma dessas mulheres que passaram pelo tal curso. A mulher estava muito bem. Quem não estava bem era o filho mais novo, um moleque de uns seis anos, que estava encolhido num canto da casa, em silêncio, com os olhos esbugalhados e com uma espécie de baba pastosa a sair pelo nariz. Para ficar igual à menininha do Exorcista, só faltava a cabeça dar uma volta de 360 graus. Minha amiga disse que não pode afirmar, mas teve a impressão de que os olhinhos do garoto estavam com um estranho brilho verde. De puro pavor com tão medonha figura, o vira-lata da família uivava no quintal. Ao perguntar à genitora qual a coisa terrível que tinha acontecido com o menino, minha testemunha ouviu o seguinte: - Num sei, não. Só sei que ele ficou assim depois que eu comecei a dar pra ele aquele remédio que a gente pega no posto. - A PÍLULA?!? - Essa mesma - diz a mãe, sem esconder um sorriso de orgulho nos lábios. O pequeno desgraçado estava tomando anticoncepcional havia uns seis meses, porque a mãe havia resolvido botar mais um infeliz neste mundo. E já que estava sobrando o remédio, por que não dar para o menino? Se é remédio, não faz mal - era a explicação da previdente mãe, grávida de novo. Eis aí uma bela lição de boa economia doméstica - o negócio é aproveitar tudo que der. Não é raro, diz a mesma moça, alguma candidata à gravidez pedir a tal da pílula do dia seguinte. Disse "pílula", mas, na verdade, ao que parece, são "pílulas". Toma-se uma no dia seguinte e outra doze horas depois. O diabo é que volta e meia aparece alguém que, mesmo após ter recebido a explicação, acha que, por serem dois os comprimidos, o certo é tomar um e, ao mesmo tempo, dar o outro para o parceiro tomar também, para fins de garantia. Deve ser uma cena muito romântica e instrutiva. Creio que, em alguns casais, a própria moça põe a pílula na boca do namorado e, juntos, eles rezam uma ave-maria para dar sorte. Por esses dias, tive vontade de renunciar a este espaço, e deixar a coisa nas mãos de Dom Gustavo e do Doutor Fernando Bananeira (ou Goiabeira, sei lá, nunca me lembro do nome desse cidadão) - com o que, com toda a certeza, nossos cinco leitores sairiam lucrando. Mas ouvi essas duas historinhas e percebi que estou viciado demais na estupidez de ser eu mesmo.
É inacreditável o que um vagabundo é capaz de fazer para não largar o seu vício | 6.12.04
SAÚDE E SABEDORIA NO FUNDO DE UM BARRIL
Vasculho meu saco de estopa à procura de algum resto de comida e eis que encontro a seguinte notícia, que há muito pretendia comentar, mas devo ter bebido demais e esquecido: "PARTIDO DO VINHO ADMITE MILITANTES QUE SAIBAM BEBER SEM CAIR O Partido do Vinho, na Bulgária, anunciou a admissão em breve de novos militantes que, para conseguir tal feito, terão que ser capazes de ingerir uma considerável quantidade de vinho e embriagar-se, mas sem cair debaixo da mesa. Para ser aprovado nos exames de ingresso é preciso estar bem preparado e treinado, para o que os integrantes do Partido estão dispostos a dar aulas particulares para ensinar os aspirantes a beber, informa em seu número de hoje o jornal "Standart", de Sófia. Para participar do ato inaugural do novo "ano letivo", que acontecerá em breve em um restaurante, será imprescindível levar uma caneca ou pelo menos uma garrafa de vinho de fabricação caseira, especifica o presidente do Partido, Ivan Luleiski, do povoado de Cherniche. Um tribunal especial será o encarregado de avaliar as "capacidades" dos presentes, pelo qual é necessário estar bem preparado, informa o líder ao dizer que recomenda para isso encher os tonéis de "material suficiente" e treinar todos os dias. Luleiski acrescenta que desde que as temperaturas começaram a baixar, os militantes de seu partido vão todos os dias aos tonéis para extrair deles "saúde e sabedoria". (Terra, 14.10.2004) Eis o único partido sério de que já tive notícia. Em primeiro lugar, não compactua com a mentira, trazendo já no próprio nome a sua pauta: beber. Ao contrário dos demais partidos, em especial os brasileiros, que ora se professam Liberais, Trabalhistas ou Comunistas, e que sempre se revelam pura e simplesmente agremiações de gente sedenta por poder, os nossos amigos do partido búlgaro apenas têm sede de birita, e disso não fazem segredo. Ponto positivo. Além disso, é um partido rígido. Não pensem que é qualquer enganador que entra para o clã. É preciso ser forte e denodado. Afinal, diz a notícia, os aspirantes a militantes "terão que ser capazes de ingerir uma considerável quantidade de vinho e embriagar-se, mas sem cair debaixo da mesa". Cair ao lado da cadeira até se tolera, pelo jeito, mas cair debaixo da mesa é demonstração cabal de inaptidão para o exercício da política partidária. Nada mais justo. Quanto ao exame, "um tribunal especial será o encarregado de avaliar as 'capacidades' dos presentes". Mais um ponto positivo: se os excelentíssimos juízes falharem no seu juízo, terão pelo menos a desculpa de terem errado por estarem completamente bêbados. A mesma desculpa, lamentavelmente, não pode ser dada pelos nossos ilustres magistrados quando proferem suas sentenças dadaístas. Nossos julgadores ou erram sóbrios, o que é imperdoável, ou erram bêbados, mas não assumem a condição de pau-d'águas. Mais uma desvantagem em comparação com seus nobres colegas búlgaros, que julgarão o certame etílito-partidário. E o Partido do Vinho búlgaro tem entre seus próceres pessoas desprendidas, bons samaritanos sempre dispostos a ajudar o próximo. Como atesta a notícia, "os integrantes do Partido estão dispostos a dar aulas particulares para ensinar os aspirantes a beber". É bondade demais. Só suspeito que o candidato a "aluno" dos membros do partido deve ter uma adega bem recheada, senão os mestres naturalmente perderão sua disposição de ensinar. A já tradicional imagem do aluno que dá uma maçã à professora, imagino eu, será substituída pelo ato do aluno em entregar uma garrafa de Cidra Cereser ao bom professor de biritagem. O candidato a militante, diante da rígida avaliação do Partido quanto às suas habilidades beberais, terá de "estar bem preparado", como informa o líder do grupo, o qual recomenda aos aspirantes "encher os tonéis de 'material suficiente' e treinar todos os dias". Nada mais justo: sem esforço não se chega a lugar nenhum. Resta saber se com tanto esforço em ficar bêbado diariamente o bom aluno conseguirá sair do lugar. Se os preparativos são dessa ordem, fico imaginando a comemoração dos que passarem no exame de admissão. Mas o que mais me enterneceu foi a perspicácia do Senhor Luleiski, presidente da renomada agremiação político-partidária. Após asseverar que em breve as temperaturas começarão a baixar naquelas plagas, quando isso acontecer os esforçados militantes do Partido do Vinho "vão todos os dias aos tonéis para extrair deles "saúde e sabedoria'". Diante disso tudo, me pergunto: por que raios eu não nasci na Bulgária?!? Esse esforçado rapaz já começou a treinar para o teste de admissão | 3.12.04
EU AMO A TELEVISÃO (11)
Dessa vez, o João Krébi abusou. Abusou tanto que até mudei de opinião. E olhe que, na minha idade, mudar de opinião é uma revolução que só se justifica ou numa calamidade, ou num estado de extrema necessidade, ou à beira da morte, ou então tudo isso junto. Nunca que pensei que fosse dizer isso, mas pra mim chega: fora João Krébi! Que ele seja censurado, preso, esquartejado, empalado, enforcado, não me interessa. Já está na hora de banir esse crápula de nossa televisão. É preciso extirpar essa sanguessuga da boa-fé do povo, esse explorador dos fracos e hipossuficientes, useiro e vezeiro em fazer da própria chatice verdadeiro pires com que choraminga uns pontinhos a mais no Ibope. Não dá mais pra aguentar. Veio-me esta revelação, que me caiu feito relâmpago direto na testa, ao ver o seu programa desta última segunda-feira. Quem o testemunhou sabe da barbaridade de que estou falando. Por óbvio, estou falando do teste de fidelidade - aquele quadro em que um cônjuge, nubente, noivo, noiva ou simples namorado, ou namorada, pede para que seja testada a fidelidade do parceiro (ou parceira). Com uma câmera escondida, o João Krébi manda um ator (ou uma atriz) passar uma boa cantada junto a quem é suspeito da prática de infidelidade e, do palco, o corno (ou corna) assiste à fita do vídeo que lhe revela aquilo que, no fundo, ele (ou ela) já sabia: o ser humano não é digno de confiança. Disso qualquer um sabe. O que pouca gente deve saber, porém, é que no programa a que me reportei, apareceu uma bela moça reclamando de que desconfiava do marido. Até aí, nada demais. E quem é que, hoje em dia, não desconfia? Eu, que nem pratico sexo, nem tenho namorada, vivo desconfiado todos os dias que me encontro sempre na iminência de tomar um corno. É uma sensação terrível, principalmente quando não há ninguém para me cornear (o que me deixa mais inseguro ainda, pois, sendo assim, qualquer mulher poderá um dia me trair pelas costas, e não só aquela com que me imponho algum tipo de obrigação). Quando conto minha desconfiança a alguma mulher, invariavelmente me é dito que isso é neurose, mas não acredito. Quem me acusa de neurótico deve, sem dúvida, ser do tipo que já traiu o marido ou o namorado e quer apenas se justificar. Mas isso não vem ao caso. O importante é que a tal moça estava desconfiada. Só que com um detalhe: ela desconfiava que o marido a traía com ... homens! É isso mesmo. A esposa achava que o marido protocolava fora do prazo; engatava a ré; atracava de popa; tirava a camisinha dando um passo pra frente; agasalhava o croquete. Uma baita de uma bichona, enfim. Nada contra a nobre classe das bichas, mas, vamos falar a verdade: se a mulher do colega "bichae" (como diria o Doutor Milton), que dorme com o cabra, está desconfiada de traição do gênero, então alguma coisa nessa história está muito errada. O João Krébi, pra variar, resolveu tirar a história a limpo - se é que algo pode ser tido como limpo num treco abjeto desses. Chamou o experiente ator Ólivi, que, via de regra, é quem chafurda nas mulheres dos doutos cornos, e mandou que ele fizesse o serviço. Bem feito, devem ter imaginado muitos camaradas que se viram humilhados pelo Ólivi. Um dia da caça, outro do caçador; nada como um dia após o outro; quem com ferro fere... etc etc. Pra resumir a história: o Ólivi xavecou pesado o rapaz; sei lá a pretexto de quê (pois peguei o programa pela metade), os dois se abraçaram, tiraram a camisa um do outro e ficaram dançando coladinhos, enquanto se passavam óleo mutuamente. Viadagem mais explícita, impossível. Quando o tal rapaz tentou beijar o Ólivi na boca, o ator saiu correndo e deu por encerrados os trabalhos. Pareceu-me que, naquela altura dos acontecimentos, a prova do crime era indiscutível. Depois de exibido o vídeo, o traidor da esposa apareceu no palco e, nervoso, confessou à traída que, de fato, ele era bissexual. Tive a impressão de que a observação foi desnecessária. A moça se disse muito chateada não com o homossexualismo do marido, mas sim pelo fato dele nunca ter lhe contado a respeito. Tá bom... E o João Krébi, pra não perder a oportunidade, resolveu perguntar ao coitado: - Meu amigo, me diga uma coisa: o que é que acontece para um sujeito como você, casado, bonitão, se transformar em homossexual? - quis saber, fazendo uma cara de sério, como quem está a perguntar a um cientista como foi que o ebola apareceu na África. O colega "bichae" respirou fundo: - Olha, João, o negócio é o seguinte. Tudo mundo, quando faz amor, não quer apenas fazer sexo... - Sei. - Muitas vezes, o homem precisa de carinho, de um afago, de uma conversa depois do sexo... - É claro. - E as mulheres não dão isso pra gente, João! - Tô sabendo. - Daí, muitas vezes um homem precisa procurar um outro homem... - Tá. - ... um outro homem que entenda ele... - Sei. - ... porque um homem sabe que, depois do sexo, a gente gosta de um carinho, de conversar... - Ok. - E daí só um homem é que entende outro homem. - Hum. - As mulheres andam muito frias, João. - É. - Transam com a gente e já querem virar pro outro lado pra dormir, sem conversar, sem abraçar, sem nada. - Sei. - Pois é! E é por isso que, muitas vezes, é preciso ter o carinho de um outro homem, porque um outro homem entende isso. Tava dada a explicação: falta de carinho da esposa pode transformar o marido em viado. Logo, falta de carinho do marido pode transformar a esposa em lésbica. Falta de carinho da esposa faz o marido trair com uma outra mulher. Falta de carinho do marido faz a esposa trair com outro homem. A rotina sexual faz o marido trair. A rotina sexual faz a esposa trair. Falta de carinho de um viado para com outro viado transforma o carente em heterossexual. Recém-transformado em heterossexual, o ex-viado um dia faltará com o carinho devido à sua mulher, que, por sua vez, se transformará em travesti às avessas: vai acabar implantando um cacete de plástico e tomar hormônio masculino. E vai namorar um travesti de verdade, que, cansado da rotina sexual, vai se transformar em cachorro. E eu aqui, reclamando da minha neurose.
Vai saber o que aconteceu pra esta moça resolver cair nessa putaria dos diabos | 2.12.04
CRIACIMIONISMO
Acalorada discussão travou-se num conspícuo periódico eletrônico, dedicado às artes do jornalismo (o excelente NoMínimo, seção Weblog, do escriba Pedro Dória). Ali, após um post sobre o tema "Criacionismo vs. Darwinismo", o sábio povo começou a se manifestar apaixonadamente, nos comentários. Mas o calor do debate não deveria gerar surpresa: os homens sempre se empolgam ou revoltam quando é descerrada a cortina que cobre a sua verdadeira, legítima e inquestionável natureza símia. Segundo o post, "quase um terço dos norte-americanos não têm dúvidas a respeito da Teoria Evolucionária do britânico Charles Darwin. Aproximadamente outro terço acredita que a Evolução Natural é mais uma dentre as possíveis explicações da vida." Além disso, "45% acham que o homem foi criado pelo Bom Deus há uns 10.000 anos". Para mim, longe de ser desagradável, a estatística demonstra a superioridade esmagadora daquele povo lá de cima, sobre nós bugios-brasileiros aqui de baixo. Vejam só: um terço de todo o país deles, que é grande, não só já ouviu falar da chamada "Teoria da Evolução", que um tal de "Darwin" elaborou lá nas Ingraterra, como entendeu a teoria e, o que é ainda mais notável, consentiu com as suas conclusões. E a conclusão não é mole: o homem veio do símio, o homem é bicho. Na verdade, não sei se todos se deram conta das implicações mais profundas da teoria: não descendemos apenas do símio, que é somente um elo na cadeia evolutiva das gerações, mas do primeiro ser vivo - que foi, digamos, um bichinho unicelular e sem graça. Mas fiquemos naquilo que é nossa especialidade: o símio. Como dito, um terço dos gringos acredita no Darwin. Mas outro terço também o conhece, embora aceite com ressalvas sua doutrina, afirmando ponderadamente que "a Evolução Natural é mais uma dentre as possíveis explicações da vida". Ou seja: os Estados Unidos são uma nação onde pelo menos 2/3 de sua população sabe quem foi Darwin e qual teoria essa camarada formulou. No Brasil, estou certo, se os pesquisadores do Gallup saírem às ruas perguntando "quem é Darwin", a resposta vencedora será provavelmente "é o nome de um remédio pra gastura do bucho". Em segundo lugar, a resposta certeira: "Darwin é um tipo de vitamina C". Talvez, com muito boa vontade, chegue a 10% o percentual de cabocos que associarão o nome à pessoa, ou melhor, o Darwin à Evolução das Espécies. Mas há mais. Como visto, apenas 45% dos americanos, menos da metade da população, acredita que "o homem foi criado pelo Bom Deus há uns 10.000 anos". Por dedução, 55% do povo de lá não comunga dessa, digamos, exótica opinião. Aqui no Brasil, se chegar a 1% o número das gentes que não se acreditam "eleitos de deus", "seres superiores, dotados de alma", ou "filhos do Senhor" - se o número de pessoas de bom senso chegar a 1%, dizia eu, já será muito. Do nosso ilustrado presidente - que pôs na Procuradoria Geral e em tantos outros setores os científicos e pragmáticos padres, de modo a bem gerir a res pública -, passando pelo governo dos Estados, pela diretoria das empresas, até chegar no esperançoso empregado (e, sobretudo, no desempregado) - todos crêem em alguma fé, seja a católica, seja a do bispo Edir, seja a quimbanda de fundo de quintal. Todos acreditam, presumo eu, nos postulados das religiões: existe um ser ou coisa chamado deus, que criou o bom homem à sua imagem e semelhança. Uma coisa é certa: não há lugar para a evolução das espécies nesse contexto. Numa palavra: o nosso povo é criacionista. Por preguiça, costume, afeto mental às lições dos pais ou simples burrice, a verdade é essa: em geral, o piedoso brasileiro acredita que descende diretamente de Adão e Eva. *** Empolguei-me com os números, e não defini o que é o tal do criacionismo. Mas nem é preciso. O sábio leitor, lendo as linhas acima, já deduziu com precisão certeira toda a verdade: criacionista é aquele cabra que se recusa a assumir que é símio. Sim, isto mesmo: por odiar a sua condição de homo sapiens, de sub-espécie de macaco, o sujeito simplesmente fecha os olhos e afirma, com uma lágrima de revolta, que não é símio não senhor. É filho de Deus, descende de Adão e Eva, e não de um macaco peludo e fedorento. Portanto digo e repito: o brasileiro se recusa a assumir que é símio. Nós aqui do Mundo Símio, assim como o mestre INRI, pelo menos temos a dignidade de assumir: somos símios mesmo. E, para azar do resto do povo que recusa a sua condição natural, teimamos em diariamente dar um exemplo de simiedade colhido a esmo nas ruas, na televisão, nos jornais ou no espelho. *** Mas nós, além de cabras ociosos, somos também cientistas amadores. Dom Paulo, por exemplo, é astronauta e neurocirurgião amador; Dr. Fernando, além de parapsicólogo e psicólogo amador, também exerce nas horas vagas o ofício de Pai de Santo; eu, humildemente, limito-me à antropologia amadora. No entanto, em minha curta carreia de cientista amador, já pude constatar estarrecido o seguinte fato, que me parece insofismável diante da realidade diária: o homem está voltando a ser um símio como seus antepassados. Dirá algum maledicente que chego a essa conclusão a partir da análise do semblante do belo povo brasileiro, produto de uma mistura de raças que culminou com esta gente que mais parece cruza de tatu com cobra. Não, não é isso. Tampouco extraí minhas conclusões do fato de o nosso povo ser um tanto peludo, especialmente os motoristas de ônibus e os donos de botequim. Também não é isso. A conclusão deriva da análise do comportamento humano em geral, em todos os países do globo. O símio habita o cerne de cada um de nós, e foge da jaula na primeira oportunidade. O espírito do homem é uma Monga. Em linha evolutiva, sempre se adaptando às suas circunstâncias, em breve o homem voltará a ter pelos fartos e a andar escorado pelas mãos. Já moramos uns em cima dos outros, em andares, como na época em que residíamos em árvores; já tretamos entre nós da mesma forma como na época descrita no filme 2001, e lascamos o pau na cabeça do semelhante na primeira oportunidade; basta o símio alpha (marido) virar as costas, e um outro pretendente lhe substitui com sua esposa; jogamos guimba de cigarro e garrafa plástica nas ruas, atitude nada diferente do ato de cagar na mão e jogar pra cima, conduta própria dos primatas mais antigos, verificável em qualquer zoológico; imitamos os outros, e os espectadores de televisão e os que se submetem a cirurgias estéticas não me deixam mentir, exatamente como nossos primos selvagens. Em suma, não vejo absolutamente nada que nos distinga dos macacos. Nem geneticamente, nem fisicamente, e tampouco em termos de comportamento. Por isso, na condição de antropólogo amador, digo ex cathedra, e sem medo de errar: o futuro da humanidade é peludo.
Assim caminha a humanidade | 1.12.04
A FALÊNCIA QUE CONVÉM
Meu sonho é ser processado. Ser processado, que fique claro, não em razão das dívidas que fiz mas que não paguei, nem por conta da batida de carro que causei por ultrapassar o sinal vermelho, tampouco pelo vizinho que pede clemência ao despertador que teima em tocar no volume máximo todas as manhãs por ininterrupta meia hora antes de eu acordar. Esses processos, convenhamos, não têm a menor graça. Meu sonho é ser processado por delito de opinião. Delito de opinião - eis o mais belo nome de toda a ciência jurídica e também de toda a teoria da comunicação. O camarada, valendo-se apenas do (limitado) poder de se comunicar, dá uma opinião e, em razão dela, acaba praticando um ato que se equipara a um delito, do tipo matar um padre, esbofetear uma velhinha na rua, roubar um banco, erguer um loteamento clandestino dentro de uma reserva indígena, ou comprar armas israelenses para traficar cocaína. Vá ser opiniúdo assim lá na casa do capeta. Infelizmente, como sou símio declarado - e, por conseguinte, minha opinião não vale nem para ser delito -, jamais serei processado por isso. O negócio então é aproveitar. E já que falei em processo, vou logo dizendo o seguinte: todo imbecil que, com cara de choro, dissesse em público que, no Brasil, o Estado está falido, deveria ser punido com 10 chibatadas na bunda, além de ser obrigado a perambular pelado pelas ruas por 10 dias seguidos, usando apenas um nariz de palhaço e uma peruca vermelha, igualzinha à do saudoso palhaço Bozo. E se o cretino exercesse algum cargo na Administração Pública, então a penalidade deveria ser maior: 20 chibatadas na bunda e 20 dias de nariz e peruca, além de uma camiseta branca justa, em que estaria escrito "Mamãe, quero ser gay". Dia desses, um senhor chamado Humberto Gomes de Barros, ministro do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, teve a coragem de dizer no rádio que o Poder Judiciário estava falido. Ao saber disso, através de um amigo que ouviu essa revelação tão grave, minha vontade foi mandar uma cartinha para perguntar ao respeitável ministro: falido pra quem, cara pálida? Só se for falido para os mindingos. Para os comedores de bolachas que usam aquelas excêntricas togas pretas, o Judiciário está longe de ser considerado falido. Não há falido que pague o salário em dia, nem que coloque carro oficial à disposição, nem que se disponha a empregar algum parente do funcionário. Quem, por acaso, já prestou serviços a alguma empresa que quebrou sabe do que eu estou falando. Sei não, mas quando ouço essas coisas, uma imagem grotesca me aparece na mente. Imagino um sujeito gordão, obeso pra valer, branquela e vestido de terno preto. O gordo, por um desses milagres físicos que só acontecem nos sonhos, está dependurado numa vaca, com boca numa das tetas do bichinho, impassível como uma vaca da vida real. De tempos em tempos, o gordão para de sugar o leite, volta a cabeça para o lado e, de olhos esbugalhados e com os cantos da boca ainda sujos, berra em tom de advertência: "O leite desta vaca está podre! O leite desta vaca está podre!". E, lépido, se vira novamente para continuar mamando. O Judiciário, assim como o Estado de uma maneira geral, está quebrado, mas só para alguns - e só em algumas situações. Duvida? Experimente então, no caso de você ter uma empresa, ficar sem pagar a Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido, a Contribuição para o SESI, o PIS, a COFINS, o Imposto de Renda, o escambau. Ou experiente, num exemplo mais singelo, ficar sem pagar uma parcela do IPTU ou da Taxa do Lixo. Ou experiente, ainda, preencher erroneamente uma daquelas tormentosas guias de recolhimentos de tributos, cujo entendimento é privilégio exclusivo daqueles mediúnicos seres que estudaram com afinco os segredos ocultos das artes contábeis. Garanto que, se qualquer dessas coisas acontecer, o Estado rapidamente baterá à sua porta, numa eficiência que em nada se assemelhará ao ente falido que lhe acusam de ser. Na melhor das hipóteses, o desgraçado será cobrado pelas vias, por assim dizer, normais da burocracia; na pior, vai se deparar com algum fiscal que, sob a ameaça de enxergar umas mil e duzentas irregularidades até então despercebidas, se utilizará de, digamos, métodos pouco ortodoxos de cobrança preventiva de tributos. E nem vale se sentir injustiçado: tente dar uma lida nas mil e tantas páginas do Regulamento de Imposto de Renda deste ano e fique certo de que você cometeu - e cometerá - muitas irregularidades tributárias. O fiscal sempre tem razão. Faça qualquer um destes testes e me diga depois se é verdade que o Estado está falido. Pode até ser verdade que os hospitais públicos não fazem feio às mais assustadoras cenas dos filmes do Mojica; mas para quem tem a sorte de lhes vender medicamentos o estado falimentar é coisa que passa longe. É fato que, na maioria das repartições, o baixo clero do funcionalismo não tem computador e sofre um martírio para conseguir tirar um xerox; mas as empresas privadas que lhe prestam serviços de consultoria nada têm a reclamar. Graças ao Pai do INRI, parece que com o PT a coisa melhorou. Quem é indicado para prestar serviços nesses tempos de moralidade, precisa dar 10% do que ganha para o partido. É contribuição espontânea, que fique claro - quem não quiser contribuir espontaneamente perde o emprego. Gostaria que o presidente dessa circunspecta agremiação respondesse se ele também acha que o País está falido - e dissesse qual o montante que o falido, religiosamente, deposita na conta do partido por mês. O Estado, ao contrário do que se diz, está com dinheiro saindo pelo ladrão. Parece que, no Rio de Janeiro, vão criar uma CPI para investigar as CPI's. O negócio é assim: cria-se uma comissão de inquérito para se investigar, sei lá, o poderoso esquema de falsificação das Balas Juquinha. Como o tema é um pouco genérico, chama-se para depor tudo quanto é fabricante de bala, donos de supermercado e portugueses de padaria. Depois de passarem por uma agressiva bateria de perguntas feitas em sessão pública, um deputado chama de canto um dos investigados e diz que a coisa está feia pro lado dele. Tendo ou não falsificado as balas, o nome dele vai aparecer no relatório final como culpado. E daí, até explicar que focinho de porco não é tomada, o cabra vai ter de contratar um advogado para se defender de uma possível acusação do Ministério Público. Pra evitar toda essa amolação, o melhor é pagar um café pro deputado e fica tudo por isso mesmo. Às vezes, o esquema funciona com algum falsificador de Bala Juquinha; outras, funciona com algum português (que ficou surpreso quando descobriu que era falsificador de bala e ninguém lhe tinha avisado antes). Minha dúvida é se, nessa nova CPI, algum deputado vai pedir um café para o colega investigado. Se o fizer, é provável que ganhe mil anos de perdão. Se o Estado tem dinheiro para pagar os salários dessas camaradas, carro oficial, tiazinha que limpa os banheiros da Assembléia, papel higiênico etc. etc., então ele não está falido. Falidos estamos nós, que votamos nesses caras. Li outro dia que o filho do presidente do Superior Tribunal de Justiça, Doutor Édson Vidigal, está sendo acusado de vender decisões judiciais em Brasília. Infeliz coincidência: o rapaz é advogado e o pai é juiz. Há muitas outras infelizes coincidências. O Superior Tribunal de Justiça tem 33 ministros. O Supremo Tribunal Federal, 11. Se a calculadora que comprei em Trás dos Montes estiver certa, a soma dá 44, mas a máquina ressalva que, conforme a interpretação, pode dar 3.311. Pois bem. Seja qual for o resultado, o fato é que a esmagadora maioria desses ministros, todos nomeados pela Presidência da República, é composta por juízes, promotores ou advogados vindos de outros Estados, de norte a sul do País. Verifique o número de filhos advogados desses camaradas que, por infeliz coincidência, resolveram montar uma banquinha de advocacia justamente lá em Brasília: é comovente o sacrifício que esses carinhosos meninos fazem para ficar perto dos pais. Se não têm banca de advocacia, os dedicados filhos chegam ao extremo de se tornarem assessores dos colegas juízes de seus genitores. Sem dúvida, as famílias marcadas pelo código genético da inteligência estão em Brasília. De qualquer modo, para mim, esses garotos estão perdoados: é preciso dar bom exemplo de respeito pelos valores da família. Os laços familiares são sagrados, até o Papa faz questão de sempre ressaltar. E a mudança de ares para poder tomar a benção de um pai tão atarefado, inclusive fora do horário de expediente, é atitude mais que justificável. Explico: não é raro a quem vai ao Superior Tribunal de Justiça para falar com algum ministro encontrar uma sala de espera repleta de revistas que noticiam as festas de Brasília, com belíssimas fotos que nada ficam a dever àquelas tiradas dos artistas da Globo. É o Judiciário dando mostra de sua seriedade - e fazendo questão de ilustrar isso para o povo. Alegria de símio é não ser processado; tristeza é não poder entrar nessas festas.
Este severo fiscal também entende que o Estado está quebrado | OS SITES ABAIXO APÓIAM A CAUSA SÍMIA: HOME - ARQUIVOS |